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domingo, 29 de junho de 2014

001. O PODEROSO CHEFÃO - PARTE III, de Francis Ford Coppola

Após dois filmes, Coppola mostra que ainda pode surpreender e encerra a saga da família Corleone com chave de ouro.
Nota: 9,7



Título Original: The Godfather Part III
Direção: Francis Ford Coppola
Elenco: Al Pacino, Diane Keaton, Talia Shire, Andy Garcia, Eli Wallach, Joe Mantegna, George Hamilton, Bridget Fonda, Sofia Coppola, Raf Vallone, Franc D’Ambrosio, Donal Donnelly, Richard Bright, Helmut Berger, Don Novello, John Savage, Franco Citti, Mario Donatone, Vittorio Duse, Enzo Robutti, Richele Russo, Al Martino, Robert Cicchini, Rogerio Miranda, Carlos Miranda, Vito Antuofermo,
Produção: Francis Ford Coppola, Gray Frederickson, Fred Fuchs, Nicholas Gage, Marina Gefter, Charles Mulvehill e Fred Roos
Roteiro: Francis Ford Coppola e Mario Puzo
Ano: 1990
Duração: 170 min.
Gênero: Drama / Crime

CONFIRA O TRAILER DO FILME:


Michael Corleone ficou conhecido por ser filho de Don Vito Corleone, um dos italianos mais poderosos da América. Depois da morte do pai, mesmo tendo outros dois irmãos, Michael se tornou o novo Don Corleone e, surpreendentemente, tornou-se muito mais poderoso, rico e influente que seu pai. Hoje, passaram-se aproximadamente 20 anos desde que Vito morreu. Os filhos e sobrinhos de Michael são adultos, Kay continua preferindo se manter distante do pai dos filhos e Connie permanece junto ao irmão em qualquer ocasião. Mas Michael está ficando velho, e, apesar de os mafiosos terem o poder de adiantar algumas mortes, nem mesmo eles podem detê-la para sempre.


“O Poderoso Chefão – Parte III” inicia com uma homenagem que Michael recebe da Santa Igreja Católica, homenagem ofertada pelo próprio Papa. Após a cerimônia, todos se reúnem em uma festa muito bonita e agradável, onde Michael doa cem milhões de dólares para a Igreja. E aí já começamos a ver o quanto os Corleone serão sempre os mesmos, não importa o que aconteça. Após 14 anos, Francis Ford Coppola lançou o derradeiro filme de sua trilogia épica. As décadas de 1970 e 1980 foram de extrema importância para o cinema moderno devido a nova geração de cineastas que começou a se impor, trazendo técnicas e temas inéditos, inovadores e inspiradores. Foi devido a essas novidades que os filmes da época conquistaram o público de forma inacreditável e serviam de modelo para outros cineastas, que passaram a experimentar e até desenvolver técnicas propostas por nomes como Coppola, Martin Scorsese, Woody Allen, George Lucas e Steven Spilberg. E se as primeiras partes daquela trilogia inspiraram as décadas de 70 e 80, podemos afirmar que a terceira parte da série foi referência para inúmeros filmes da década de 90. Dentre os exemplos, podemos citar a edição ágil e clássica proposta por Lisa Fruchtman, Barry Malkin e Walter Murch, a direção de arte e a produção de design dos irmãos Alex e Dean Tavoularis, e a iluminação e fotografia de Gordon Willis, proposta que vinha desde a primeira parte da trilogia.


Mario Puzo, que eternizou seu nome na Sétima Arte através dos filmes baseados em seu romance homônimo, está ao lado de Coppola para finalizar a série. Aqui, a história se torna mais moderna e um pouco menos impactante que nos dois primeiros longas. Temos um Michael diferente do visto nos outros filmes. Já não é mais um menino que cometeu seu primeiro assassinato. Também não é um homem que está começando a se firmar como o merecido herdeiro do pai. O Don Michael Corleone do final da década de 70 (quando ocorre a história) é um homem que se arrepende de seu passado, um homem debilitado que está começando a compreender que não é mais capaz de chefiar todos os seus negócios pela idade. E se Michael já não possui aquele vigor de outrora, o mesmo podemos dizer de Connie e Kay. Enquanto a irmã já perdoou Michael pelo assassinato do marido traíra, Kay ainda se ressente por seu grande amor ter se tornado uma pessoa tão diferente. E essas novas personalidades, essa forma de apresentar personagens maduros, se contrasta com os personagens mais jovens vividos pelos filhos e sobrinhos do protagonista: indivíduos cheios de vida que buscam por seus amores e sonhos. O próximo Don, por exemplo, e isso fica claro desde a primeira aparição do personagem, é o filho bastardo de Sonny. Vincent é o perfeito retrato do pai: temperamental e louco pelo poder. Ainda nessa geração, temos os filhos de Michael. Mary é uma jovem sonhadora que se apaixona por Vincent e está decidida a viver esse amor, não importa o que qualquer pessoa pense a respeito. Anthony também tem sua paixão e luta por ela, mas o amor deste é a música e, mesmo que Michael queira obrigá-lo a ser seu sucessor, o jovem está pronto para ir até o fim em se dedicar à sua arte.


Mas nem tudo nesse roteiro é tão novo quanto as personalidades dos personagens ou essa relação com a Igreja: existem dezenas de semelhanças entre esse filme e a primeira parte da trilogia. A primeira já é vista logo no início. Quando Michael é homenageado e depois oferece uma festa aos seus “afilhados” vemos uma clara referência ao casamento de Connie. Depois, temos o tiroteio que tem como objetivo aniquilar alguns Dons, o que inclui Michael. Esteticamente, a cena lembra o assassinato de Sonny, mas também pode ser uma referência à tentativa de assassinato de Vito. Enquanto no primeiro filme os tiros atingem Vito e o levam para o hospital, aqui, Michael, que é diabético, tem um ataque devido ao susto e vai para o hospital. A reação dos Corleone diante desses eventos, entretanto, é a mesma: Michael, na primeira parte, comete seu primeiro assassinato para vingar o pai, e aqui, Vincent assassina o homem que ordenou o ataque contra o tio. De qualquer forma, Vito e Michael, mesmo vingados, ficam à beira da morte. E quando percebem que está na hora de passar seu poder adiante, eles o fazem. Vito deixa claro que o próximo Don Corleone será Michael, ao passo que este nomeia Vincent seu sucessor. No desfecho da trama, Michael revive o primeiro filme: enquanto ele assistia a missa após se tornar Don, dezenas de inimigos eram assassinados por sua ordem, aqui, os assassinatos são coordenados por Vincent enquanto Michael assiste à ópera do filho. Como aconteceu com Vito, por fim, Michael também morre de forma pacífica, estando velho e sem sentir dores. Apesar de viverem momentos distintos, ambos estavam sentados sobre o sol da manhã.


Apontei como os Corleone são os melhores anti-heróis já criados quando disse, na crítica do primeiro filme da saga dessa família, que eles são o que há de mais podre na face da terra e, mesmo sabendo disso, os amamos. E Michael é um dos grandes responsáveis por isso. Ou melhor, Al Pacino é um dos grandes responsáveis por qualquer afeição que nutrimos pelo personagem e por sua família. No início, ele é o filho que não deseja seguir os passos do pai, por isso o amamos. Depois, vinga sua família com sangue e, por isso, ganha nossa admiração. Mais tarde, ordena que o irmão seja assassinado, mas justifica o ato alegando que Fredo estaria comprometendo a família. E mesmo com este fratricídio, continuamos amando Michael. E o personagem passa a ser mais amado ainda pelos estadunidenses após suas palavras ensaiadas sobre ser um americano cumpridor dos deveres no discurso que o livra da cadeia. Mas Al Pacino não é apenas o responsável por viver o maior anti-herói da história do cinema, ele é um assombro ainda maior que nos primeiros filmes da série, pois está ainda mais expressivo. Tanto Michael, quanto Al, são mais experientes, portanto, já viveram mais e estão mais aptos para enfrentar as dificuldades da velhice. Desta vez, Pacino não repetiu a dose de ser indicado ao Oscar (havia sido indicado como melhor ator coadjuvante pelo primeiro filme e como melhor ator pelo segundo), mas, talvez, seja essa sua interpretação mais dramática e verdadeira em toda a trilogia. O trabalho que, sem dúvidas, merecia o prêmio da Academia.


Todavia Al Pacino não é o único intérprete que volta ao longa com mais experiência e sagacidade. Diane Keaton, a ex esposa Kay Adams, e Talia Shire, a irmã Connie, repetem suas personagens. Keaton demora a aparecer, mas quando surge em cena se mostra a mesma mulher dos outros filmes: mãe zelosa e mulher apaixonada. As duas cenas que definem isso são explícitas: em uma, deixa claro a Michael que estará ao lado de Anthony na ideia de largar o direito e se tornar músico, na outra, passeia ao lado do ex marido pela cidade onde o falecido sogro nasceu, e acaba confessando a Michael que sempre o amou. Shire, por outro lado, não possui nenhuma grande cena, mas aparece em vários momentos demonstrando que a Connie submissa ao marido morreu e deu lugar a uma mulher de fibra que, finalmente, compreendeu o que significa fazer parte da família Corleone. Ambas as atrizes fazem tudo demonstrando como suas personagens cresceram e aprenderam com o que viveram. São duas atrizes que voltam às suas personagens depois de 14 anos, mas não que interpretam mulheres completamente distintas daquelas que largaram no passado. Diferente disso: a Kay doce e romântica e a Connie fiel à família estão lá mais do que nunca.


O elenco, entretanto, não pode ser resumido a duas atrizes e um ator como se isso fosse uma comédia romântica. Longe disso. Longe de ser um elenco de três pessoas e mais longe ainda de ser uma comédia romântica. Andy Garcia, indicado ao Oscar por seu Vincent, lembra muito (a nós e aos personagens) o pai que morreu de forma trágica (assassinado com a ajuda do marido de Connie). E talvez esse seja o ponto alto do ator, uma vez que Sonny representava um personagem tão particular e expressivo, até por que, Garcia apenas lembra o pai do personagem, mas não se tornar uma caricatura ou cópia. Sofia Coppola vem para provar que a década de 90 foi uma das mais românticas do cinema moderno. Ela vive uma Mary boba, inocente e apaixonada por Vincent, uma menina mimada e sem graça. Coppola não possui nada de muito interessante e chega a ser chata em algumas cenas. Ainda bem que a atriz passou para o outro lado da câmera e se tornou uma diretora competente e admirável. Franc D’Ambrosio fecha o elenco principal da família como Anthony Vito Corleone, apesar de ser um ótimo ator, esse foi o único filme da carreira de D’Ambrosio, que se mostra um verdadeiro cantor ao interpretar a canção “Brucia La Luna”. Só para não deixar de citar os demais personagens importante, aqui vai uma pequena lista: Eli Wallach dá vida ao vira-casacas Don Altobello, Joe Mantegna, vive o desafeto Zoey Zasa, Raf Vallone, o Cardeal Lamberto, Donal Donnelly, o Arcebispo Gilday e John Savage, interpreta o filho de Tom Hagen, Padre Andrew Hagen.


Sequências de qualquer tipo de série de filmes sempre dão aquele frio na barriga. Com a trilogia de Coppola não foi diferente. Entretanto, poucas vezes vimos sequências tão satisfatórias como essas. O segundo filme da série mescla as histórias de Michael e Vito e se torna o filme mais violento dos três. A terceira parte, todavia, se mostra um filme mais psicológico, um longa que está disposto a abordar as consequências de tudo o que Michael fez. Consequências sofridas por ele e por toda sua família. Consequências que afetam a consciência do protagonista do início ao fim. O filme, definitivamente, não é o melhor da trilogia, até por que, nenhum filme feito até hoje no cinema supera a primeira parte, mas não podemos negar a qualidade e a importância do desfecho da história. Assim sendo, não foi apenas por ter homenageado a trilogia na centésima e na ducentésima críticas do blog que escolhi a terceira parte da saga dos Corleone para finalizar as 399 críticas. Após 398 análises, acho justo que termine este trabalho da mesma forma que Francis Ford Coppola finalizou a melhor trilogia da história do cinema: com dignidade e muita qualidade. Com chave de ouro.


Como fiz com os outros dois filmes da série, abaixo segue a lista dos dez melhores momentos do longa (as informações abaixo contém SPOILER):
10. Homenagem e festa: o início do filme, como citei, já lembra quem é a família Corleone e do que eles estão dispostos para subirem ainda mais na sociedade. Essa cena mistura a alegria do povo italiano com a malandragem dos mafiosos como se tudo fosse uma coisa só;


09. Michael revela seu interesse pela International Immobiliare: pode não ser uma cena impactante, mas é uma cena de grande valor para o contexto e é muito bom ver o Don Michael Corleone fazendo negócios, ou melhor, fazendo suas propostas irrecusáveis;



08. Tarde de Michael e Kay passeando pela cidade: apesar de ser uma cena simples, evoca os outros filmes, o passado dos Corleone e a relação bonita que o casal tinha quando Kay ainda achava que políticos eram honestos;


07. Volta de Michael para a Itália: aliando-se ao fato de Michael reunir a família para prestigiar o sucesso do filho, é o momento em que o protagonista sai do hospital e mostra a todos que o Don Corleone está vivo e bem de saúde, capaz de tomar as rédeas da própria vida;


06. Michael aceita Vincent como seu herdeiro: após Vincent provar ao tio que é digno de sua confiança, Michael o reconhece como seu sobrinho, chamando-o de Vincent Corleone, e declarando que ele será seu sucessor. Como foi feito com Michael no final do primeiro filme da trilogia, os homens se aproximam de Vincent e beijam a mão do novo Don;


05. Massacre: em uma cena épica, os “aliados” de Michael sofrem um homicídio em massa orquestrado por Altobello e Zasa. A cena é perfeita e não poupa em mostram os homens morrendo. Além disso, a sequência, onde Michael tem seu ataque devido a glicemia e a pressão, é uma das cenas mais forte do longa;


04. Confissão de Michael Corleone: após 30 anos sem se confessar, finalmente, Michael, em sua passagem pela Itália, encontra com um pároco e, como um bom católico que realmente é, resolve se acertar com Deus. Michael confessa seus crimes, o que inclui a morte do irmão, Fredo. A cena é impactante e memorável justamente por isso: friamente, Michael fala que já matou e ordenou que matassem, e, com todo o sentimentalismo do mundo, revela, chorando, que mandou matarem seu próprio irmão;


03. Anthony entoa a canção “Brucia la Terra”: a letra de Giuseppe Rinaldi acompanha a música tema criada por Nino Rota, um dos temas mais inesquecíveis do cinema. D’Ambrosio tem a voz perfeita para a canção e a emoção gerada por ela (e por Al Pacino) é inexplicável;


02. Noite na ópera: desde o momento em que os personagens chegam ao local da apresentação, passando pelas mortes de vários personagens (o que inclui o Papa), até o momento final em que Michael e Kay choram pela morte da filha. A cena tem a mesma tensão proposta pela cena principal do filme “O Homem que Sabia Demais” de Alfred Hitchcock e é o momento mais expressivo dos protagonistas: indo de alegria pelo sucesso do filho, ao desespero pela morte da filha;



01. Morte de Michael Corleone: se esse fosse um filme isolado, provavelmente teria escolhido a cena da ópera como a melhor do filme, mas estamos falando de uma trilogia. Uma trilogia que mostra a passagem de poder de um pai para seu filho, assim, quando Michael resolve passar seus poderes como Don para seu sobrinho, ele fecha um ciclo. Outras pessoas veem essa trilogia como sendo o relato da vida de Michael. De qualquer forma, a morte de Michael é o final definitivo deste ciclo.


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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

020. (ESPECIAL OSCAR 2014) TRAPAÇA, de David O. Russel

Uma ótima diversão como somente Russel poderia proporcionar.
Nota: 9,2



Título Original: American Rustle
Direção: David O. Russel
Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jeniffer Lawrence, Jeremy Renner, Robert DeNiro, Louis C. K. , Jack Huston, Michael Peña, Shea Whigham, Alessandro Nivola, Elisabeth Rohm, Paul Herman, Said Taghmaoui, Matthel Russell, Thomas Matthews, Adrian Martinez, Anthony Zerbe
Produção: Megan Ellison, Jonatha Gordon, Charles Roven, Richard Suckle
Roteiro: David O. Russel e Eric Warren Singer
Ano: 2013
Duração: 138 min.
Gênero: Comédia / Crime

Irving Rosenfeld, casado com a jovem Rosalyn, é um trapaceiro de mão cheia que acaba de conhecer a sonhadora Sydney. Juntos, eles armam um plano para arrancar dinheiro de pessoas indefesas: ela finge ser uma Lady inglesa com contatos nos bancos britânicos e ele representa um investidor. Quando o casal é descoberto pelo agente federal Richard DiMaso, tornam-se peças importantes de um jogo que pretende relevar a corrupção em Nova Jersey. Entretanto, a natureza de Irving, o amor de Sydney, a ganância de Richard e a loucura de Rosalyn são fatores que podem lançar todo esse plano improvável pelos ares.

Como mostrado em “O Lobo de Wall Street”, film de Martin Scorsese, Irving e Sydney são duas pessoas sem escrúpulos que só se importam em ganhar dinheiro e em gastar o que ganham com uma vida confortável. Bem como o agente federal do longa de Scorsese, aqui, Richard deseja pegar todos de uma vez: quer peixes grandes e pequenos, quer tubarões e baleias, quanto mais criminosos do colarinho branco, melhor. E, assim, esses dois filmes estão aí para provar o quanto a criminalidade, a trapaça, o suborno e a mentira fizeram e fazem parte da construção dos Estados Unidos da América. Além disso, não podemos deixar de verificar semelhanças entre o filme de David. O. Russel e os filmes ao longo da carreira de Scorsese, e acabamos verificando que “Trapaça” acaba sendo uma grande homenagem ao mestre da sétima arte. Quando Richard propõe a Irving e Sydney que eles o ajudem a capturar outros quatro criminosos, ele oferece liberdade em troca. Todavia, Richard começa a enxergar que toda a corrupção não passa de uma enorme bola de neve: quando se corrompe um, logo, este irá corromper mais dois e, de repente, como num piscar de olhos, toda uma nação poderá ser corrompida. Nesse contexto, é curioso lembrar que Irving não se tornou um trapaceiro por acaso. Desde criança ele já era um cirminoso: sue pai tinha uma vidraçaria e, para que os negócios do pai prosperassem, ele saia pelo bairro quebrando vidros alheios. Ademais, vemos um reflexo de toda essa loucura: Rosalyn Rosenfeld. A esposa de Irving é completamente perturbada, uma mulher sem noção de nada o que acontece a sua volta de forma real. Ela sabe tudo o que está acontecendo, tem os ouvidos bem abertos, mas não compreende nada, não sabe da gravidade do que seu marido faz, muito menos da gravidade que as palavras saídas de sua boca podem gerar. Rosalyn foi “resgatada” por Irving quando ela se tornou mãe solteira, e ele acabou adotando seu filho, uma vida que mantêm o casal unido.


David O. Russel conquistou público, crítica e prêmios por seu ótimo trabalho em “O Lutador” (2010), filme que contava com Christian Bale e Amy Adams no elenco e que venceu dois Oscar, incluindo um pela interpretação de Bale, e foi indicado em outras cinco categorias, incluindo a de melhor atriz coadjuvante para Adams. Depois, foi a vez de Russel voltar com toda a força liderando o melhor filme do ano de 2012: “O Lado Bom da Vida”, protagonizado por Jennifer Lawrence e Bradley Cooper, ambos indicados ao Oscar, ela, vencedora do prêmio de melhor atriz. “Trapaça” reúne os dois elencos, invertendo os papeis: aqui, Bale e Adams são os protagonistas, e Cooper e Lawrence os coadjuvantes. Arriscando um pouco, ainda diria que a própria trapaça divide a tela com esse time ótimo, sendo o principal componente, o principal personagem do longa. O problema aqui, é que Russel imaginou que, reunindo seus astros de filmes anteriores, ele teria um filme ainda melhor que outros. Erro do diretor. “Trapaça” é tão bom quanto “O Lutador”, mas não chega perto de “O Lado Bom da Vida”. O filme é bom, com fotografia ótima, edição precisa e ágil, trilha sonora característica, figurino belíssimo e atuações impressionantes de astros em alta no mercado. No entanto, o roteiro é confuso, forçado e chato em alguns momentos, os personagens são exagerados e o desenrolar da trama não possui aquele tom agradável, sutil e interessante de “O Lado Bom da Vida”. Por fim, é preciso dizer que o diretor homenageia os grandes filmes de Scorsese, como “Os Bons Compnaheiros” (1990) , mas está longe de se igualar à obra da década de 90.


Christian Bale é conhecido por sua habilidade incomparável de mudar fisicamente para viver personagens. Irving é o único personagem criado na medida certa pelos roteiristas e desenvolvido da mesma forma por Bale. Talvez por isso, em meio a tantos personagens exóticos e exagerados, a interpretação do ator esteja um pouco apagada, mas é a melhor do longa. Bale é natural vivendo um trapaceiro que está enlouquecendo por ter de deixar seus ideias de lado e enganar pessoas que ele considera corretas. Também não é do agrado do personagem servir ao FBI, e isso fica claro com as feições de Bale mais que qualquer coisa. Amy Adams está sexy, bela e inteligente como Sydney, entretanto, está over demais. Suas cenas iniciais são ótimas, pois a atriz se mostra natural e muito animada com a vida que Sydney tem levado. Quando ela e o parceiro são pegos, a atriz está igualmente boa, porém, com o passar da trama, Adams não consegue segurar as pontas de viver uma mulher desesperada que está tentando superar os problemas, restando apenas alguns poucos momentos para que possamos ver o quanto a atriz é competente. Bradley Cooper vive Richard DiMaso, da mesma forma que Adams passa um pouco dos limites, Cooper se torna obsessivo e louco demais, exagerando em cenas onde devia ser mais contido. Mesmo assim, restam alguns momentos onde lembramos por que Cooper chegou a ser citado como um dos favoritos ao Oscar no ano passado. Jennifer Lawrence é uma Rosalyn completamente desequilibrada. A personagem lembra um pouco a que rendeu à Lawrence o Oscar por “O Lado Bom da Vida”: existem momentos de paz e tranquilidade, até que ela se descontrola e vira uma completa maluca. Sua melhor cena é sua interpretação memorável de “Live and Let Die”. Para completar o time, está Jeremy Renner, interpretando o Prefeito Carmine Polito, um bom homem que foi corrompido pela política. A interpretação de Renner, como a de Bale, vem na medida certa: é simples, natural e ótima.


O filme é o recordista de indicações ao Oscar esse ano, ao lado de “Gravidade”, concorre em dez categorias. De forma curiosa, segue os passos de “O Lado Bom da Vida”, arrebatando indicações como na direção, nas atuações e no roteiro. Como melhor filme do ano, “Trapaça” está entre os três favoritos, concorrendo com “Gravidade” e “12 Anos de Escravidão”, longas poderosos que vem lutando praticamente sozinhos durante toda a temporada. David O. Russel recebe sua terceira indicação à premiação como melhor diretor. Apesar de seu trabalho ser excelente, o prêmio já está, praticamente, nas mãos de Alfonso Cuarón, que criou novos sistemas e formas de utilizar as câmeras para a perfeição técnica vista em “Gravidade”. Russel, ao lado de Eric Warren Singer, também é indicado como melhor roteiro original, o prêmio, ao que tudo indica, será consquistado por “Ela”, o melhor roteiro do ano sem dúvidas. Christian Bale é indicado como melhor ator, apesar de sua interpretação ser ótima, a briga está entre Chiwetel Ejiofor, por “12 Anos de Escravidão”, e “Matthew McConaughey, por “Clube de Compras Dallas”. Amy Adams surpreendeu ao desbancar Emma Thompson e ser indicada como melhor atriz, apesar de ser querida pela Academia, o prêmio já está, certamente, nas mãos de Cate Blanchett por seu trabalho impecável em “Blue Jamsine”. Cooper recebe sua primeira indicação ao prêmio como melhor ator coadjuvante, apesar de ser um dos melhores atores no páreo, é tão certo que o prêmio irá para Jared Leto, por “Clube de Compras Dallas”, quanto um mais um são dois. Lawrence também recebe sua primeira indicação como melhor atriz coadjuvante, apesar de está muito bem no longa, a atriz não supera a magnitude encontrada em Lupita Nyong’o, indicada por “12 Anos de Escravidão”. A categoria é a uma das mais incertas do ano. O figurino de Michael Wilkinson é indicado como melhor figurino do ano, e a equipe artística como melhor direção de arte, apesar de trabalhos impressinantes, os prêmios parecem estar entre os filmes de época: “O Grande Gatsby” e “12 Anos de Escravidão”. “Trapaça”, apesar de estar sendo visto como o provável maior perdedor do ano, ganhou força na categoria de melhor edição ao sair como um dos vencedores do Sindicato dos Roteiristas. Jay Cassidy, Crispian Struthers e Alan Baumgarten trazem uma edição deliciosa e muito bem feita, um a das melhores do ano.


Esse ano, concluí que podemos dividir os filmes indicados ao Oscar entre aqueles que passam mensagens belas sobre a vida e aqueles que são, puramente, o excercício da Sétima Arte. “Trapaça” é um grande exercício da sétima arte, diga-se de passagem. Com interpretações bonitas, figurino, maquiagem e cabelos estonteantes, trilha sonora divertida, direção agradável, roteiro interessante e edição ágil e inteligente, o filme é uma excelente desculpa para ir ao cinema. Para finalizar, o filme ainda possui personagens interessantes e que chamam a atenção, personagens com os quais até poderemos no sidentificar em algum momento. Seres humanos de verdade que possuem sua natureza e não parecem dispostos a mudá-las. A natureza de Irving é ser um trapaceiro, a de Sydney é se entregar para o amor, a de Richard é de querer sempre mais, e a de Rosalyn é de ser uma completa descontrolada. Esse é o tipo de filme que vale a pena ir ao cinema conferir, pois possui tantos detalhes artísticos que somente a telona do cinema poderá proporcionar uma diversão completa. Aliás, é bem disso que esse filme trata: “Trapaça”, como sugere o nome, é uma boa diversão, nada além disso.

SOCIEDADE DE EFEITOS VISUAIS:
Melhores Efeitos Especiais em Filmes com Efeitos Especiais Predominantes: Gravidade
Melhores Efeitos Especiais de Suporte: O Cavaleiro Solitário
Melhores Efeitos de Animação em uma Animação: Frozen: Uma Aventura Congelante
Melhor Personagem Computadorizado em um Filme Live-Action: Smaug, por O Hobbit: A Desolação de Smaug
Melhor Personagem Computadorizado em uma Animação: Rainha de Neve, de Forzen: Uma Aventura Congelante
Melhor Ambiente Criado para um Filme em Live Action: Exterior de Gravidade
Melhor Fotografia Virtual em um Filme Live-Action: Gravidade
Melhor Ambiente Criado para uma Animação: Palácio de Gelo de Elsa, de Frozen: Uma Aventura Congelante
Melhor Modelo em um Filme Live-Action: Gravidade – Interior da ISS
Melhor Efeito e Animação Simulada em uma Animação: A Nevasca de Elsa em Frozen: Uma Aventura Congelante
Melhor Efeito e Animação Simulada em um Filme Live-Action: Gravidade – Pára-quedas e Destruição da ISS
Melhor Composição em um Filme: Gravidade
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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

044. MORTE SOBRE O NILO, de John Guillermin

O elenco de peso e a história de Agatha Christie sustentam uma adaptação clássica.
Nota: 9,0


Título Original: Death on the Nile
Direção: John Guillhermin
Elenco: Peter Ustinov, Jane Birkin, Lois Chiles, Bette Davis, Mia Farrow, Jon Finch, Olivia Hussey, I. S. Johar, George Kenndy, Angela Lansbury, Simon MacCorkindale, David Niven, Maggie Smith, Jack Warden, Harry Andrews, Sam Wanamaker, Froçois Guillaume, Barbara Hicks, Celia Imrie e Andrew Manson
Produção: John Brabourne, Richard B. Goodwinm e Norton Knatchbull
Roteiro: Anthony Shaffer e Agatha Christie (romance)
Ano: 1978
Duração: 140 min.
Gênero: Suspense / Thriller

Em pleno Rio Nilo, a bordo do cruzeiro S. S. Karnak, a jovem milionária Linnet Ridgeway é assassinada. Todos no barco possuem algum motivo para querer ver a jovem morte. Porém, o que o assassino não imaginava era que o astuto Detetive Hercule Poirot, qua também está a bordo, pode desvendar todo o mistério com a ajuda de seu amigo, o Coronel Race. Agora, o assassino e o detetive travarão uma batalha épica enquanto o cruzeiro flutua sobre o rio Nilo, e apenas um deles sairá vencedor.
A escritora Agatha Christie ficou conhecida no mundo todo como “Duquesa da Morte”, “Rainha do Crime” e outros títulos referentes a sua maestria como romancista policial. Sendo assim, é impossível traçar uma sinopse realmente decente de qualquer uma de suas histórias sem revelar alguma coisa que deve permanecer em segredo àqueles que ainda não conhecem o começo, o meio e o fim (sempre surpreendente) de determinado trabalho. Portanto, vou me ater a justificar, de forma rápida e concisa os motivos que cada personagem teria para matar Linnet. A jóias da protagonista são cobiçadas pela velha Sra. Van Schuyler, que está acompanhada pela Srta. Bowers, que teve a família falida por um passado relacionado aos Ridgeway. A criada de Linnet, Louise, está chateada com sua patroa pois ela se nega a dar o dote para que Louise se case com um homem que, segundo Linnet, é inadequado. A escritora Salome Otterburne está sendo processada por Linnet e Rosalie, sua filha, deseja proteger a mãe. O administrador americano Andrew Pennington tem fraudado a família Ridgeway há anos. Jacqueline de Bellefort está chateada com Linnet por sua amiga ter roubado-lhe o noivo. Simon Doyle, marido de Linnet, é o maior beneficiado no testamento de Linnet.


O diretor inglês, John Guillermin foi o responsável por filmes bem populares e bem agitados entre o final da década de 50 e o final da década de 80. Dentre eles: “A Maior Aventura de Tarzan” (1959), “Crepúsculo das Águias” (1966), “Inferno na Torre” (1974), “King Kong” (1976) e “Sheena – A Rainha das Selvas” (1984). Apesar de nenhum de seus filmes ser ovacionado pela crítica ou por especialistas, é necessário lembrar que alguns deles foram grandes precursores nas técnicas de efeitos especiais no cinema, e, nesse contexto, é impossível deixar de mencionar “King Kong”, que se tornou uma referência seguida por alguns diretores da era sexo-drogas-rockn’roll do cinema da década de 80. Em “Morte Sobre o Nilo”, não há efeitos, nem grandes cenas de ação, e é isso que torna o longa algo tão singular. Cenas como a que o grupo do cruzeiro visita um monumento onde Linnet sofrera um atentado (alguém jogará uma pedra gigante em direção à moça) são perfeitas justamente por não possuírem som algum além do som dos sapatos ou do vento. No barco, por outro lado, a beleza fica por conta de como o diretor consegue usar muito bem os pequenos espaços que possui.


Nito Rota, sem dúvida é um dos maiores compositores da historia do cinema, se não for o maior. Era o preferido de Fedreico Fellini e compôs a trilha sonora inesquecível dos dois primeiros longas da Trilogia “O Poderoso Chefão” (1972 – 1974) e de outros inúmeros clássicos da Sétima Arte. Seu trabalho aqui, como citei acima, é mesclar cenas com alto apelo musical e saber que algumas delas serão melhor recebidas sem música alguma, apesar de ser uma trilha sem grandes composições, é perfeita para o filme, trazendo a calma aparente do Rio Nilo quando necessário, e mostrando a ferocidade dos famosos répteis que habitam o local em outros momentos. Faço uma ressalva para uma cena realmente bela do longa: Poirot, obviamente, conversa com todos à bordo para tentar desvendar o caso. No momento em que vai dialogar com a personagem de Bette Davis, a veterana, na época com 70 anos, mais de 100 títulos, 2 Oscars de melhor atriz, outras 8 indicações na categoria, está sentada, sozinha no local mais alto e aparentemente mais agradável e tranquilo da embarcação, ela parece descansar, parece não se importar com tudo o que esta acontecendo a sua volta e se mostra como uma mulher fria, serena e inexpugnável. Mais tarde, quando o detetive reúne todos em uma sala para relevar que descobriu quem é o assassino, Bette é uma verdadeira estrela, literalmente, ela brilha como se fosse um astro e é impossível não notá-la. Davis parece uma faraoa, endeusada pela telona do cinema. Pode ser apenas um devaneio de um grande fã, mas que é algo a se pensar, isso é.


Peter Ustinov, intérprete de Hercule Poirot, venceu 2 Oscars de melhor ator coadjuvante e eternizou o personagem, sobretudo, na televisão. No cinema, foram apenas 3 filmes vivendo o detetive, na televisão foram seis vezes. “Morte Sobre o Nilo” foi seu primeiro trabalho como o personagem. Não li nenhum livro de Agatha Christie, mas acredito que Poirot seja quele tipo de personagem 8 ou 80, ou seja, ou ele é muito sério ou muito irônico, ou ele é muito esperto ou muito idiota, eu outras palavras, ou ele se parece com Holmes ou com Clouseau. Se minha aposta fosse certa, Ustinov é perfeito no papel, pois acredito que Poirot sejá ainda mais sério e mais inteligente que Holmes. Dessa forma, há pouco a falar sobre a interpretação do ator, além de dizer que ele é perfeito nos momentos sérios do longa e melhor anda quando o personagem debocha dos suspeitos. Dentre os demais personagens destaco apenas alguns deles. Lois Chiles é Linnet, apesar de morrer logo no filme, a atriz mostra um pouco de seu talento, o que é o suficinete para não haver críticas negativas sobre ela. A Sra. Van Schuyler é vivida por Bette Davis,  o retrato do perfil que ela mesma montou: séria, carrancuda, antipática, onipotente e uma verdadeira dama. Davis lida bem com o fato de sua personagem ser cleptomaníaca e, apesar de não ter grandes cenas, nunca nos esquecemos que ela está ali (e isso não se deve apenas pelo brilho). Maggie Smith, uma das maiores atrizes vivas, vive a Srta. Bowers e o primeiro nome que me fez querer assistir a esse filme pela primeira vez (nem sabia que e Davis estava no elenco), nos faria esquecer de Van Schuyler se qualquer outra atriz a tivesse interpretado, tamanha a beleza e a inteligência de sua personagem. Uma mulher tão séria quanto a patroa, Smith nos apresenta alguém que se mostra caridosa quando necessária, mas que, a cima de tudo, é uma pessoa sensata e conformada. Angela Lansbury nos presenteia com a interpretação da alcoólatra Salome, apesar de ter poucas cenas, quando aparece acaba sendo um arraso. Não foi a toa que deixei a dupla Simon MacCorkindale e Mia Farrow por último. Não simpatizo com nenhum deles, que interpretam, respectivamente, Simon Doyle e Jacline De Bellefort, em alguns momentos os dois parecem perfeitos no papel, em outros estão exagerados demais, em outros estão apagados demais e, tendo em vista a excelência desse elenco, é quase inadmissível que duas personagens tão importantes como o marido da morta e a melhor amiga traída da morta sejam interpretados de forma tão decepcionante.

Alguns críticos consideram “Morte Sobre o Nilo” uma das melhores adaptações para o cinema das obras de Agatha Christie. O elenco do longa já fala por si só, aliando isso a um diretor conhecido por renovar o cinema, mais um roteirista experiente em filmes do gênero suspense, mais uma trilha sonora perfeita (indispensável para esse tipo de filme), não duvido que os críticos tenham razão. Se o filme é fidedigno à obra é um detalhe do qual não posso falar, mas posso afirmar, sem sombra de dúvida, que o longa é um filme bem feito que cumpre com seu propósito: mostrar, mais uma vez, que ninguém no mundo superará Agatha Christie tão cedo. O longa é prático, matar é algo que se torna comum, a história nos faz participar de tudo o que acontece, os atores e atrizes dão vida a personagens totalmente diferentes, e é essa diversidade que faz com que, em ao menos algum momento, nos encontremos, também, à bordo do S. S. Karnak, chegando a nos sentirmos até um pouco suspeitos.


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048. DE BICO CALADO, de Niall Johnson

Uma boa comédia de humor negro.
Nota: 7,0


Título Original: Keeping Mum
Direção: Niall Johnson
Elenco: Rowan Atkinson, Kristin Scott Thomas, Maggie Smith, Patrick Swayze, Tamsin Egerton, Toby Parkes, Liz Smith, Emilia Foz, James Booth, Patrick Monckton, Rowley Irlan, Vivianne Moore, Murray McArthur, Morgan Gower, Alex Macqueen
Produção: Julia Palau, Matthew Payne, Nigel Wooll
Roteiro: Richard Russo e Niall Johnson
Ano: 2005
Duração: 103 min.
Gênero: Comédia / Crime / Assassinos

Há mais de trinta anos Rosie Jones, uma mulher grávida, assassinou seu marido e a amante do mesmo. Ela foi internada e sua filha entregue à adoção. Hoje, Walter Goodfellow é um admirado pastor de uma pequena cidade. Casado com Gloria, ele é pai de Holly, uma jovem fogosa, e de Petey, um garoto excluído que sofre bulling na escola. Gloria, desolada pela falta de atenção do marido, acaba iniciando um romance com seu professor de golf, o bonitão Lance. Com a chegada da misteriosa governanta, a vida de todos mudará drasticamente.


Não é preciso ser um gênio para saber que a governanta Grace e a mulher grávia no início do longa são a mesma pessoa. Até acho que Emilia Fox, intérprete de Rosie, e Maggie Smith, intérprete de Grace, possuem suas semelhanças físicas. Até mesmo algumas expressões das atrizes são parecidas. Somos mais convencidos de tudo isso quando Gloria revela, durante o longa, que era uma menina órfã. O filme não é algo memorável, mas a ironia e o sarcasmo presentes para contar toda essa história louca são tão deliciosos e o roteiro possui diálogos tão bem escritos que todo o longa acaba nos cativando de alguma forma. “De Bico Calado” é um filme inteligente, não devemos esperar muitas coisas a respeito dele, mas que é divertido e engraçado, isso ele é. O trabalho técnico não merece muito destaque, o que merece ser avaliado é como a criação do ambiente em que essa família vive é explorado. As fofocas de velhos e os desejos dos jovens, o contraponto entre o conservadorismo religioso de pequenas cidades e a inovação trazida pelos adolescentes. Além disso, a cidade é um personagem ímpar, típica do interior inglês.


Rowan Atkinson ficou famoso por viver o Mr. Bean na televisão e no cinema, não gosto do personagem, portanto não acho que a atuação de Atkinson seja grande coisa vivendo Bean. Aqui ele é o confuso Walter, um homem que já deixou de se preocupar com sua esposa e está mais preocupado com o sermão que deve fazer em uma grande reunião de pastores. O ator nos apresenta uma boa atuação sobre um homem como qualquer outro: um homem de meia idade confuso que não sabe como retomar o calor perdido pelos anos de casamento. Kristen Scott Thomas é a também confusa Gloria, aliás, o casal é uma excelente representação ao que alguns homens e mulheres estão expostos quando ficam casados durante muito tempo, ela, ao contrário do marido que encontra consolo no tal sermão, acaba se interessando por outro homem e tudo piora quando descobre que a mãe é uma assassina. Os filhos do casal são representados por Tamsin Egerton e Toby Parkes, respectivamente Holly e Pettey, ela é uma adolescente típica: interessada em sexo e em experimentar todo o tipo de rapaz possível; o garoto é um menino que precisa de mais atenção para aumentar sua auto confiança e deixar de lado as brincadeiras dos colegas. O amante de Gloria, Lance, é vivido por Patrick Swayze, o perfeito bonitão americano odiado pelos ingleses conservadores, Swayze é engraçado e ele mesmo satiriza esse perfil. O melhor do longa é Maggie Smith, o motivo para que eu resolvesse conferir o filme. Como a assassina Grace, Smith está engraçada e parece muito natural, demonstrando que verdadeiros loucos não sabem a hora de parar e não ligam para as vidas alheias, a única coisa que importa é garantir que um grupo seleto, nesse caso sua filha e a família dela, estejam bem, mesmo que isso signifique matar um ou outro indivíduo.



O ditado poucas vezes foi pôde ser tão cruelmente cômico aplicado quando nesse filme: “Tal mãe, tal filha”. Ou ainda, lembro-me de uma frase da insuportável tia Guida no terceiro filme da Saga Harry Potter: “Se tem alguma coisa errada com a cadela, haverá alguma coisa errada com o filhote”. Assim como não é preciso ser um gênio para saber que Grace e Rosie são a mesma pessoa, não precisamos de muito para saber que Gloria e Holly são assassinas em potencial. Isso tudo, por que as atuaões do longa são perfeitas para cada pepel, e são exatamente o que sustentam esse filme, que tinha tudo para ser fraco. Em especial, as mulheres do longa nos trazem personalidades totalmente diferentes, mas que, em algum momento, se mostrarão muito semelhantes.


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