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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Resistir ao esquecimento

Performance de Fabiana Lima durante a sessão de abertura do VIII CachoeiraDoc
Foto: Állan Maia
A noite de abertura do VIII CachoeiraDoc, o Festival de Documentários de Cachoeira, dimensionou o quão incendiária pretende ser esta edição, que parece se identificar com uma resistência a esse governo pós-golpe e ao sistema capitalista pós-moderno que garante que os homens brancos, ricos, cis-gênero, heterossexuais ocupem os cargos políticos mais importantes do país e instalem um sistema opressor e castrador.
O filme de abertura, Quilombo Rio dos Macacos, de Josias Pires, pertence a uma das Mostras Especiais Cinemas em Lutas, conjunto de filmes que, segundo Amaranta Cesar, idealizadora, coordenadora artística e acadêmica e uma das curadoras das Mostras Especiais e da Mostra Competitiva, “dão formas cinematográficas aos movimentos de emancipação e demandas por justiça de diversos grupos sociais”. São, ainda segundo ela, “filmes de intervenção social engajados e militantes”.
O longa-metragem baiano já é um retrato bastante claro de filmes que atenderão, nos próximos dias, a essa característica incendiária de levantar questões caras às minorias sociais (pobres, negros, índios, mulheres, minorias sexuais e periféricos) e que devem ser debatidas de alguma forma. Quilombo Rio dos Macacos conta, justamente, a história da comunidade homônima ao título do filme que, desde 2011 vem tentando rever seu espaço de direito junto ao Estado (Estadual e Federal), travando uma luta interminável com a Marinha do Brasil, que insiste em ocupar terras legalmente pertencentes àquela comunidade há mais de duzentos anos.
Localizada entre os municípios de Salvador e Simões Filho, a comunidade abriga centenas de pessoas que moram em pequenas casas – sua maioria de pau à pique – onde vivem até 16 moradores. A equipe de Josias acompanhou as lutas desses habitantes durante os últimos anos e registrou diversas imagens. No filme, são retomadas matérias de telejornais e da internet, movimentos como o “SomosTodosQuilomboRioDosMacacos” – aderido nas redes sociais por diversos apoiadores da causa, incluindo artistas como Gilberto Gil e Emicida -, assembleias realizadas entre os anos de 2011 e 2014 junto aos poderes estaduais, na Bahia, e aos poderes federais, em Brasília. Além disso, imagens do cotidiano dos moradores e moradoras do Quilombo, entrevistas, discussões sobre as propostas dos governos, identificação das terras pertencentes àquela gente. A montagem se utiliza de um fio condutor – a batalha pelas terras de direito – e traz imagens que ilustram essa luta difícil e diária – como as investidas de desapropriação e as constatações, em assembleias, de que combinados não estavam sendo cumpridos pelos militares.
Batalha travada por corpos. Corpos femininos e masculinos, corpos de crianças e adultos, corpos de netas, filhas, mães, avós e bisavós que cravaram seus pés nessas terras desde antes da implementação da República Federativa do Brasil, quando a escravidão ainda era permitida em terras brasileiras. Corpos que ali estão e ali permanecerão. Corpos que exigem seus direitos, e não apenas às terras que já ocupam, ao direto de ir e vir naquelas terras, mas a condições básicas de sobrevivência: água potável, saneamento básico, saúde, educação, moradia e trabalho. Corpos que não permitirão que a Base Naval de Aratu os expulse sem resistir. E é disso que se trata este documentário. Fala de luta, de solidariedade, de organização, de mobilização, de direitos humanos. Mas fala, sobretudo, de resistir. Resistir, como afirmou Zia Zhangke, para não ser esquecido.
O VIII CachoeiraDoc firma, com este filme de abertura, um compromisso grande e importante: apresentar filmes que se propõe a discutir temas perigosos, mas necessários e que afetam, mais do que nunca, a vida de cada cidadã e cidadão desse Brasil caótico. Nesse contexto, cabe uma reflexão sobre o que tem sido feito com esses files urgentes, de intervenção e que se propõe a fazer emergir discussões que podem cair no esquecimento em um momento político tão sério. De que forma esses filmes tem sido trabalhados em prol daqueles e daquelas – seres humanos e movimentos – que se fala? Para quem e como esses filmes têm sido distribuídos? Quem tem apreciado e discutido esses produtos? O que nós, realizadores(as), pesquisadores(as), críticos(as), apreciadores(as), cinéfilos(as), cineclubistas, educadores(as), temos feito para que esses filmes agitem não somente a nós mesmos, mas a cidadãs e cidadãos que precisam de um choque de realidade bruto para saírem de sua zona de conforto e reconhecerem de uma vez por todas que a intolerância e a opressão já não podem mais ter espaço, ou cidadãs e cidadãos que precisam apenas de um impulso externo mínimo para pegar nas armas que estão ao seu alcance e lutar?

Lutar e Resistir!

Registro de um show do cantor Emicida

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A RESISTÊNCIA EM DOCUMENTAR

Nos últimos anos, o documentário, tipo de filme que se difere da ficção por, de alguma forma retratar a realidade, tem passado pelo benefício da dúvida em relação a uma definição que o caracterize homogeneamente. Os primeiros filmes da história do cinema, exibidos elos irmãos Lumiére, já mostravam a realidade da vida francesa sem grandes narrativas. Curtas-metragem realizados para experimentar a câmera. Desde que o precursor deste tipo de obra em longa-metragem, Nanook, of the North (Robert Flaherty, 1922), foi lançado e mudou a história do cinema documentário justamente por ser um longa-metragem, a forma de se ver e se fazer o documentário mudou.
Passando por outros importantes filmes do passado, que compreendem o início da exploração do documentário, como: Nada além das horas (Alberto Cavalcanti, 1926) Berlim – Sinfonia da metrópole (Walter Ruttmann, 1927), O homem com a câmera (Dziga Vertov, 1929), Drifters (John Grierson, 1929), O homem de Aran (Robert Flaherty, 1934); e fazendo uma breve análise de alguns filmes apresentados no CachoeiraDoc – VII Festival de Documentário de Cachoeira, em 2016, é fácil constatar que modificações ocorreram ao longo do último século para que os documentários adaptassem-se a novas exigências, a novos dispositivos, a novas realidades. Na década de 1930, a ucraniana Esfir Chub idealizou o subgênero “filme de compilação” ou “documentário de arquivo”; daí por diante, outros termos vieram para definir os diferentes tipos de documentários: “documentário experimental”, “cinema verdade”, “documentário-ensaio”, “cinema direto”, “documentário militante”, “cinema de conversa”, “filmes híbridos”, “documentário digital”, “documentário social”, “documentarismo político”, “documentário televisivo”.

Nanook, of the North (Robert Flaherty, 1922)
Cada um desses subgêneros do documentário, adaptou-se para realizar obras fílmicas que atendessem às necessidades impostas pela temática, pelo contexto histórico-social, pelas condições financeiras, pelos conceitos estéticos, pelos ideais do realizador, etc, etc, etc. Entretanto, ainda é válido questionar-se o que é o documentário, quais são suas características fundamentais e qual seu papel social e artístico. Durante o CachoeiraDoc, levantou-se outra questão pertinente: por que escolher o documentário? Para pensar sobre essas questões, além de assistir a alguns filmes no festival, procurei a opinião de cineastas e pesquisadores que já publicaram artigos onde se expõe, de uma forma ou outra, impressões sobre o documentário.
Robert Flaherty, em Como filmei Nanook, o esquimó (texto de 1922 publicado originalmente em World’s Work), e Marina Goldovskaia, em A jornada do documentário (texto de 2006, publicado originalmente como Documentary trip, em Woman with a moving camera) expõe o processo de pré-produção e produção de seus filmes. Dessa forma, podemos verificar o modos operandi que prevalece na realização de um documentário, diferenciando-o da ficção, desde o processo de realização. Antes das filmagens, afim de estabelecer um tema central e seus limites, é de bom tom que seja realizada uma pesquisa prévia, tempo hábil, também, para que as mudanças sejam realizadas na temática e nos conceitos estéticos. Geralmente, não se filma um documentário com algum roteiro prévio, apenas com indicações do que se quer mostrar. O realizador, na hora das filmagens, deve estar disposto a se render a imprevistos, compreendendo que no formato de documentário é que se tem menos controle do que se filma. Goldovskaia ainda relata o processo de montagem, onde o material filmado é revisado, assimilado e selecionado, onde horas e mais horas se tornam um produto de poucos minutos. Depois, o filme vai se moldando e é finalizado.

O homem com a câmera (Dziga Vertov, 1929)
Goldovskaia apresenta duas frases em seu texto que merecem atenção. A primeira diz respeito a sua forma de escolher um tema e de filmá-lo: “... todo filme começa com sensações”. Para ela, é o que se sente pelo tema, a forma e o que o tema toca em cada realizador que ditará como o documentário será realizado. Ela chega a dizer que só começa a filmar algo quando é tocada pela temática e se sente plenamente confortável para realizar seu filme. Isso leva a refletir, também, sobre quem está fazendo documentários, qual o perfil de quem realiza um documentário atualmente. Durante a primeira sessão de filmes na competitiva nacional do CachoeiraDoc, por exemplo, apostou-se em filmes realizados por indivíduos que vivenciam ou vivenciaram as realidades apresentadas. De alguma forma, os realizadores resolveram fazer aqueles filmes pelo fato de reconhecerem a necessidade de expor fatos. Onze (Coletivo Nigéria, Coletivo Zóio e Voz e Vez das Comunidades, 2016), Sepulcro do gato preto (Kaneda Asfixia e Frederico Moreira, 2015) e Voz das mulheres indígenas (Glicéria Tupinambá e Cristiane Pankararu, 2015) são realizados por moradores e frequentadores dos lugares, das histórias, das realidades apresentadas; Quem matou Eloá? (Lívia Perez, 2015) é de autoria de uma mulher que, mesmo não tendo vivenciado diretamente o que aconteceu a Eloá, assistiu a tudo aquilo e sofre com o machismo e a misoginia diariamente. A outra frese é “A câmera me emancipou”, que pode ser entendida, também, como os benefícios da evolução tecnológica que possibilitam que indivíduos quaisquer realizem cinema, como aconteceu com Glicéria Tupinambá, que filmou seu documentário de forma despretensiosa e sem grandes planejamentos ou aparatos tecnológicos, mas que o fez, justamente, por estar cada vez mais fácil o acesso a dispositivos de filmagem.

Sepulcro do gato preto (Kaneda Asfixia e Frederico Moreira, 2015)
 Outro exemplo é John Grierson, que define o documentário como um filme que usa “material natural”, podendo ele ter uma história contada “por si mesma”, ou induzida, planejada pelo realizador do filme. Sobre este “material natural”, será aplicada uma montagem, onde, independente da forma como o realizador trabalhará este processo, será criada uma interpretação acerca do tema explorado, como também é feito na ficção. É interessante observar, nesse contexto, os diversos tipos de “material natural” e a possibilidade de inserção de outros materiais, além, claro, do que a montagem dirá sobre o tema. Em Obra autorizada (Iago Ribeiro, 2016), por exemplo, as imagens e sons reais misturam-se a prováveis discursos previamente pensados, escritos e narrados por indivíduos. O realizador não induz o prédio a cair, não induz a prefeitura à negligência, não induz os personagens a estarem ali. Mas usa de um discurso não natural para justificar a preocupação com o prédio (é patrimônio material), influencia os transeuntes a passar por aquela rua ou não. Na montagem, escolhe apresentar o prédio, explica o que está acontecendo, interage com os personagens; salienta a importância da conservação dos patrimônios; metaforicamente, usa-os para falar de uma situação social atual muito mais complexa, forma uma opinião. Instiga o espectador de alguma forma.
Outro realizador/autor observado é o brasileiro Alberto Cavalcanti, que lançou uma nota aos jovens cineastas, onde atenta para os aspectos fílmicos (social, poético e ético), seguido de uma lista de conselhos que perpassam pela economia de conteúdo, foco no tema, justificativas de decupagem e de montagem, economia na intervenção musical, reconhecimento do ser humano como personagem em potencial e, o principal deles, experimentação, pois é dela que se cria e se vive o documentário. Sobre os aspectos fílmicos citados por Cavalcanti, é interessante observar o filme Ninguém nasce no paraíso (Alan Schvarsberg, 2015), onde é relatada a vida das mulheres grávidas que são obrigadas a deixar a ilha de Fernando de Noronha para parir no continente, sem nenhum auxílio além das passagens aéreas. No curta-metragem, o realizador expõe, critica, denuncia um fato social desconhecido da maioria e que precisa ser debatido. A forma como o realizador decide mostrar isso pelos olhos de quem sofre, as mães, mulheres grávidas, é sua forma de dar voz a cidadãs nunca ouvidas. A poesia fica a cargo da montagem, na forma como explora o discurso de cada mulher.

Obra autorizada (Iago Ribeiro, 2016)
Finalmente, em um dos textos mais interessantes do livro, A verdade de cada um (Amir Labaki, org., 2015), Jia Zhangke faz uma dedicatória onde expõe sua opinião sobre o documentário de forma simples, sucinta e honesta. O realizador chinês atenta para o fato de se observar pessoas para se fazer um filme, questionando-se sobre as diferenças e semelhanças entre quem observa e que é observado: serão o quarto, a alimentação, os objetos, as famílias, as relações de quem se observa semelhantes ou diferentes de quem é observado? O documentário, nesse contexto, nasce da curiosidade pelo outro, da proximidade ou distanciamento com o outro. Traz de volta o senso de justiça e coragem, Através do documentário, por fim, alarga-se o universo, rompe-se com a solidão, preserva-se a memória das coisas, conserva-se aquilo que se passou, resiste-se ao esquecimento.

Em comum, todos os autores/cineastas falam sobre a realidade, sobre o natural, sobre captar imagens que sejam reais. Claramente, já não é um objetivo do documentário apresentar situações totalmente reais. Nunca foi. Em Nanook, a interpretação já era vista. Em frente a câmera, também, o ser humano muda. Além disso, os planos escolhidos, a montagem, a música, tudo unido faz do documentário quase um filme de ficção. Mas que parece real de alguma forma. Em comum a muitos autores, está a opinião de que definir o que é documentário é quase impossível. Provável é cair numa bola de neve na tentativa de encontrar as características que definam um documentário e não parar de rolar nunca mais. O que Zhangke diz, parece ser mais interessante: resistir. Documentar para resistir ao passado, ao presente e ao futuro. Resistir às convenções. Resistir à corrupção. Resistir às tentações mundanas que nos afastam do que é justo. Resistir é coragem. É também, a palavra chave do VII CachoeiraDoc, onde se deu voz a mulheres, a minorias sociais, a indivíduos que lutam contra a repressão, contra o sistema caótico em que o ser humano vive. Resistir para realizar, para falar, para gritar, para informar, para existir.

Um gosto de liberdade (Marina Goldovskaia, 1991)
Outubro, 2016 

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

... LEVANTA, SACODE A POEIRA...

Especial X Panorama Internacional Coisa de Cinema. Filmes: "My name is Now, Elza Soares" e "Castanha"



A segunda metade do dia de quinta-feira (30) foi dedicada, respectivamente, a filmes da Mostra Panorama Brasil (fora das competitivas) e da Mostra da Competitiva Nacional, “My name is now, Elza Soares”, de Elizabete Maria Campos, que conta com participação da própria Elza para contar sua história de vida e falar sobre seus pensamentos, e “Castanha”, de Davi Pretto, que conta a história de João Carlos Castanha, um ator homossexual que ganha a vida nos palcos (como transformista ou não). Durante a apresentação do primeiro longa, o festival recebeu a visita dos alunos oitavo ano/sétima série (entre 12 e 14 anos) da Escola Estadual Edvaldo Brandão Correa, acompanhados pelo professor Sandro Augusto*. Segundo ele o cinema é uma nova linguagem, “o filme, hoje, não ocupa mais uma condição de marginalidade” tornando-se “uma ferramenta auxiliar para a gente dar aula”. Entretanto, Sandro acha que os jovens cachoeiranos ainda não conseguem mensurar a importância da produção cinematográfica para a cidade de Cachoeira. Sandro considera que, mesmo sendo bom, para a formação cognitiva dos jovens, o cinema ainda está muito distante deles, faltando alguma ferramenta de aproximação para eventos como o Panorama e o próprio CachoeiraDoc (o festival de Documentários de Cachoeira que é atrelado à Universidade). Uma das alternativas seria ir nas comunidades divulgado o evento e atraindo o público para assistir aos filmes e participar das oficinas oferecidas.
 “My Name is Now, Elza Soares” inicia da forma mais clichê possível: com a personagem título entoando um de seus sucessos. Os clichês param por aí. Elizabete Martins Campos traz um filme tão convencional quanto a própria cantora. Diferente de outros documentários, explora a alma da personagem principal, apresentando seus depoimentos sobre a vida, sobre o que passou e sobre o que Elza espera do futuro. Não existem aqueles relados comuns onde a cantora poderia falar e falar sobre sua infância pobre e sua juventude conturbada. Essa mulher negra e pobre, como ela mesma se define, uma pessoa que pode ser tudo ou nada, prefere falar sobre seus pensamentos, seus desejos, suas visões sobre a vida, seus sentimentos em relação à vida. As histórias reais, sobre como chegou ao estrelato, como conheceu, se apaixonou e casou com Garrincha, a perda do filho, os sofrimentos por ser uma minoria completamente reprimida são deixados para segundo plano. Temos aqui a Elza Soares de agora, mais viva que nunca. Temos lembranças de uma Elza que ainda está aqui e ali. Lembranças de uma Elza que insiste em viver o agora, que insiste em viver agora. Uma Elza que vive. Uma Elza que viverá para sempre.

Filme: "My name is Now, Elza Soares", de Elizabete Martins Campos
Entretanto, a diferença deste documentário para os convencionais não é apenas na narrativa. Elizabete Martins Campos escolheu diversificar totalmente na forma de realizar seu filme. As fotografias e registros clássicos de qualquer filme do gênero ainda estão presentes. Elza canta enquanto esses registros são apresentados. Todavia, em sobreposição a esses registros, aparecem luzes, focos e outros artifícios para diferenciar a imagem sem deixar com que ela se perca. A diretora faz paralelos, por exemplo, entre o rosto de Elza e uma lua cheia que ora aparece por completo, ora some devido a uma nuvem muito escura. Elza aparece nua. Elza faz fotos sensuais. Elza se veste como madrinha de bateria de uma escola de samba. Elza é massageada por um homem sexy. E Elza canta. Elza canta seus maiores sucessos e, ao invés de contar seu passado, relembra músicas que diziam muito sobre a época, ou músicas que dizem muito sobre o hoje, sobre o Agora. Tudo isso, claramente, é feito para aproximar a produção da protagonista. Este filme é sobre Elza. É um filme para Elza. É um filme de Elza. “My name is Now, Elza Soares” é um filme que respira, transpira, inspira Elza Soares como poucas produções conseguem fazer com seus protagonistas.
“Castanha”, também possui um pé no documentário, mas usa do artifício da ficção para se completar. Após se formar na PUCRS em Cinema, Davi Pretto acabou conhecendo João Carlos Castanha, um ator conhecido na capital gaúcha. Durante alguns anos, Davi fez uma espécie de laboratório conversando e conhecendo mais sobre a vida do artista e de sua mãe, Dona Celina. Quando tudo estava pronto, Davi acompanhou a vida dos dois durante vinte dias, filmando tudo o que desejava e lhe era permitido. Algumas coisas eram espontâneas, outras respeitavam um roteiro que, geralmente, recriava acontecimentos, ou apenas improvisações dos personagens. A história, além de contar com mãe e filho, contava, também, com um sobrinho de João Carlos, um jovem viciado em drogas que é interpretado por um ator. O longa, realizado com um orçamento baixíssimo, tem como primeira cena um homem nu coberto de sangue, dos pés à cabeça. Pela imagem e pela música (uma união de todas as músicas criadas para o filme) já se pode ter noção do que virá: um filme melancólico, denso, forte, escuro, com vários contrastes e muitas surpresas. Aquele homem, no final das contas, é o exterior do que, na maior parte do longa, se passa na cabeça e na vida do protagonista. A cena, segundo Davi, é um resumo de tudo o que está por vir.

Filme: "Castanha", de Davi Pretto
Mas não é apenas o cuidado técnico (que traz uma fotografia incrível, uma edição sonora impressionante, uma direção de arte minimalista) e com o roteiro que surpreendem no filme. Os personagens reais são o maior trunfo do diretor. Dona Celina é uma mulher espontânea, engraçada, simples e que representa perfeitamente as mães e mulheres que conhecemos. João é uma figura rara em meio aos milhões de habitantes de Porto Alegre, um verdadeiro artista em busca da compreensão de sua alma e de todos os demais seres humanos. As situações vistas no filme são as mais diversas, sempre permeando pela naturalidade e veracidade, tornando o filme engraçado em cenas como quando Dona Celina discute com a síndica do prédio em que vivem, e emocionante em momentos como quando ela desabafa sobre a vida. João possui seus melhores momentos durante suas apresentações, revelando que o palco (independente da forma como ele esteja representando) é a fuga para os problemas e frustrações de sua vida. É no palco que Castanha se sente vivo, revigorado. É o palco que o estimula para continuar vivendo.
Assistir a essas duas espécies de cinebiografias em um mesmo dia foi, sem dúvida, uma experiência interessante. Elza Soares e João Carlos Castanha possuem mais em comum do que possam imaginar. São duas figuras enigmáticas, cheias de histórias para contar, duas personalidades vividas que já passaram por muito sofrimento, muita dor e muito preconceito, ela, por ser uma mulher negra e pobre, ele, por ser um ator homossexual e transformista. Os filmes, nesse contexto, acompanham as personalidades de cada um: “My name is now, Elza Soares” é um filme com muito jogo de luz tornando-o tão artístico quanto a própria figura de Elza, e que concilia a voz espetacular da cantora com uma sonorização de arrepiar, “Castanha” é um filme tão sombrio quanto o interior do protagonista ou pelo momento em que ele vive e usa o contraste de luz para relevar as nuances vividas por João Carlos. Ambos os longas são impressionantes. Ambos os protagonistas são impressionantes. E melhor de tudo é ver como os dois abraçaram suas respectivas artes e se jogam no mundo através delas, por elas e tendo nelas seus maiores escudos contra os preconceitos da humanidade. São duas figuras que, como qualquer bom brasileiro, sofrem, mas, independe do que aconteça, se erguem do mais profundo do poço e dão a volta por cima.
*Sandro Augusto é estudante do oitavo semestre do curso de história da UFRB e professor estagiário na Escola Estadual Rômulo Galvão e bolsista de iniciação à docência (Pibid) na Escola Estadual Edvaldo Brandão Correa, levou os alunos do oitavo ano/sétima série (entre 12 e 14 anos) desta instituição para assistirem ao filme “My name is now, Elza Soares”. 

Após a apresentação do filme "Castanha", o diretor Davi Pretto, conversou com o público no Auditório do Centro de Artes, Humanidades e Letras da UFRB, na cidade de Cachoeira.

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domingo, 12 de outubro de 2014

HOMEM COMUM, de Carlos Nader

A vida humana e a dualidade entre o cômico e o dramático em um documentário de mil facetas.



Titulo Original: Homem Comum
Direção, Roteiro e Produção: Carlos Nader
Elenco: Nilson de Paula, Jane e Liciane
Ano: 2013
Duração: 110 min.
Gênero: Documentário / Drama / Comédia

Em 1995, o diretor Carlos Nader iniciou um documentário despretensioso onde ele mesmo perambulava pelas vidas de caminhoneiros aleatórios. Nader conversava sobre o cotidiano com os homens e, sem mais nem menos, fazia perguntas profundas sobre a existência humana. Entretanto, o cineasta se deparou com uma ótima surpresa chamada Nilson. Um caminhoneiro como outro qualquer, o gaúcho chamou a atenção de Carlos, que desistiu da ideia de abordar vários caminhoneiros e passou a seguir a vida de Nilson, seu homem comum.
Durante os anos de 1995, 1996 e 1999, Carlos Nader acompanhou o novo amigo em toda sua rotina. Para começar seu documentário, conheceu a esposa e a filha de Nilson, adentrando na vida íntima daquela família e se tornando, por vezes, pare dela. Nader também acompanhou os serviços de Nilson como caminhoneiro, sempre registrando as ideias, preocupações e até mesmo desabafos de seu protagonista. Após muitos acontecimentos – o que incluiu perdas importantes, o crescimento da filha que já se tornou mãe e o conhecimento de novas pessoas – Carlos, entre os anos de 2010 e 2012, voltou a se tornar parte daquele clã formado, agora, por Nilson, a esposa, a filha e a neta.
Para apresentar a história de Nilson ao espectador, Carlos Nader se vale de um artifício que pode parecer um pouco estranho para algumas pessoas, mas que funciona de forma perfeita nesse longa. Alterna cenas de seu registro sobre o caminhoneiro com cenas de dois filmes: o longa dinamarquês da década de 50, Ordet, de Carl Th Breyer, e um filme realizado pelo próprio diretor para estar no documentário, Life, The Dream. As histórias são as mesmas: uma família com uma mulher grávida e um homem louco que alerta a todos a possibilidade de a morte estar próxima. A diferença é que o dinamarquês explora uma família mais simples chefiada por um patriarca, o filme de Nader retrata uma família quase aristocrática inglesa chefiada por uma mulher. As loucuras, os problemas e os enredos são muito semelhantes. Formas diferentes de contar a mesma história.


E talvez essa conclusão sobre serem as mesmas histórias seja o que mais aproxima os filmes de Homem Comum: os homens são sempre os mesmos, o que os difere são as formas que eles mesmos contam suas histórias de vida. Ao longo do documentário, Nader compara as vidas dos personagens das três histórias de forma muito sutil e intimista. Sem respeitar qualquer linearidade, as histórias, ou estórias, se cruzam em algum momento, seja pela tensão ou pelo cotidiano vivido pelos personagens. Um ponto interessante a ser comentado quando falamos sobre a relação entre Life, The Drem e Homem Comum é a forma como Nader se utiliza de animais para reforçar a banalidade da vida humana. Na ficção, um personagem com distúrbios mentais, preocupa-se com as formigas que, sem olhar para cima, realizam sua dança frenética para conseguir alimento. No documentário, os porcos que Nilson leva em seu caminhão são o alvo para mostrar um pouco de realidade triste e forte, sem julgar a imagem do protagonista.

Enquanto o filme rodava na telona, não pude deixar de olhar algumas vezes para trás e conferir a reação da plateia frente ao longa. Em momentos específicos, Nader fazia suas perguntas sobre a vida e, sem saber muito por onde ir, os personagens reagiam com surpresa e davam as respostas mais inusitadas possíveis, arrancando gargalhadas do público. O mesmo acontecia quando cenas naturais da família eram reveladas. Mas quando contava-se alguma história triste, ou quando alguma revelação inesperada era feita, o silêncio na sala era aterrador, a tensão inevitável e as expressões de espanto, pena ou medo eram certas. Tudo isso por que Nilson e sua família são pessoas como quaisquer outras, são homens e mulheres comuns que vivem todos os problemas e todas as felicidades que qualquer um de nós pode vivenciar. E, mesmo que com uma dose de humor, revelar a vida nua e crua, como ela realmente é, sempre causará espanto e balançará o mais profundo eu de cada ser humano.


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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

DIFERENTES REALIDADES, UM SÓ PAÍS

A tarde de quinta-feira (04) terminou com filmes que expõe histórias de diferente cidades do nordeste brasileiro. Enquanto Caixa d’água: qui-lombo é esse? ressalta o passado do negro e revela a beleza da negritude de hoje, Luíses – Solrealismo Maranhense retrata a situação complicada vivida pelos moradores da capital, São Luis.



Caixa d’água: qui-lombo é esse?, de Everlene Moraes, sintetiza, em 15 minutos, a história do negro no Brasil e as dificuldades pelas quais os mesmos passaram durante o tempo em que foram escravos e pelas quais passam até hoje. A diretora acerta em optar por apresentar imagens na tela enquanto ouvem-se vozes em off de negros que revelam suas histórias. Algumas imagens, muito minimalistas, mostram os detalhes dos corpos e da pele dos negros, outras focam apenas nos rostos, nas expressões que velam mais que palavras. Outro acerto de Everlene, dessa vez muito curioso, foi optar por apresentar, também, negros com imagens projetadas em seus corpos, como fotografias e outras exclusividades que revelam a cultura negra. Ainda sobre essa cultura apresentada no filme, é importante ressaltar a citação do candomblé, do samba de roda e outras movimentações culturais. Filmado em um bairro de Aracajú, estado do Sergipe, conhecido como Morro dos Quilombos, Caixa d’água é um filme intimista, emocionante e muito inteligente que, acima de tudo, reverencia a cultura negra, apresentando negros de sangue africano que se orgulham de sua negritude de forma pra lá de respeitosa.


Luíses – Solrealismo Maranhense, de Lucian Rosa, também reverencia a cultura e o povo de sua cidade, mas pretende mais que isso: denuncia as mazelas da capital utilizando metáforas inesperadas. De início, o longa surpreende ao apresentar um ex-ator que enlouqueceu frente à cidade de São Luis – o que nos é revelado por uma voz em off – e passou a entoar palavras nas praças da cidade. Mais personagens fictícios, que representarão os Luíses do título, ou seja, o povo maranhense, surgirão. Logo começamos a perceber as denúncias ao sistema público de saúde que não cumpre com seus deverem em atender a população, depois virão críticas ao transporte público, à educação, às condições de moradia (incluindo saneamento básico) e, por fim, as críticas políticas à família Sarney, culpada, segundo o filme, por todos esses problemas. Revelam-se, também, algumas manifestações muito particulares e agradáveis para que tais problemas sejam sanados, entretanto, isso não é suficiente para dar coesão ao longa. Separadas, as cenas funcionam muito bem. Cada discurso sobre as mazelas da sociedade e as denúncias feitas aos Sarney e aos governos aliados são muito realistas. Todavia, a apelação e a não resolução do que, segundo o filme, acontece em São Luis, não conectam as partes para formar um filme único.

Caixa d’água e Luíses são filmes nordestinos que revelam realidades sobre diferentes locais dessa região tão vasta e diversificada do Brasil. Enquanto um aposta em planos minimalistas e em histórias vivenciadas por negros do mundo todo, o outro prefere se ater aos problemas locais. Ambos os filmes são felizes em suas intenções primárias: um homenageia um povo que muito sofreu (e ainda sofre), o outro denuncia mazelas locais e clama por mudanças. O primeiro emociona e conquista o espectador aos poucos, levando-o, voluntariamente, ao belo mundo da negritude e o convence de toda essa beleza. O segundo simplesmente joga os problemas na cara do espectador, procura culpados e termina sem coesão. Ambos são filmes com pretensões louváveis, porém, com diferentes resultados.


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domingo, 14 de setembro de 2014

AS VIDAS DOS HOMENS

Durante os dias 2 e 7 de setembro, a cidade de Cachoeira, Bahia, sediou o CachoeiraDoc, o Festival de Documentários da cidade. Com a apresentação de quase 40 produções, dentre mostras especiais e competitiva, o evento contou com a participação dos realizadores dos filmes, dos alunos e professores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, da população cachoeirana e de profissionais de diversas áreas.



No final da tarde durante a noite de sexta-feira (05) foram apresentados o curta La Llamada e os longas Aprender a ler para ensinar seus camaradas e A vizinhança do tigre. Diferentes são os lugares apresentados por esses três filmes muito singulares, diferentes são, também, as realidades dos personagens que surgem durante as histórias, porém, todos possuem uma coisa em comum: o homem. Nesse contexto, La llamada revela um pouco o dia-a-dia de um cubano revolucionário de 87 anos muito convicto de seus ideias e pouco aberto para o novo; Aprender a ler para ensinar meus camaradas acompanha a visita de dois africanos a Bahia; A vizinhança do tigre, por fim, traz as histórias de jovens garotos moradores da periferia de Contagem.
La llamada, de Gustavo Vinagre, foi realizado em uma pequena vila em Cuba. Outrora, o local foi destinado a operários de uma fábrica que, hoje, está fechada. A fábrica deixou o local, os moradores continuam lá. Lázaro Escarze, um comerciante proprietário de uma pequena venda, foi o escolhido por Gustavo para representar esse povo. Segundo o próprio diretor, ele se propôs a filmar a primeira pessoa que encontrasse. Assim, Gustavo permaneceu 40 dias convivendo com o protagonista e, depois, em três dias, realizou o curta de 19 minutos em preto e branco. Lázaro passa o dia enclausurado pelas grades que protegem sua venda e, com a ajuda de um jovem, atende seus clientes por uma pequena abertura. Agora, Lázaro terá, pela primeira vez na vida, um telefone instalado em sua casa. Quais serão suas reações com essa nova tecnologia? Segundo Vinagre, Lázaro se destaca pela maneira natural com a qual toma suas decisões e pela capacidade de colocar uma ideologia acima de interesses pessoais, e as escolhas acerca do tal telefone não tomarão caminhos diferentes.  A fotografia lembra que Lázaro é um homem das antigas. As grades remetem ao enclausuro ao qual o próprio homem se propõe para poder viver em seu sistema muito próprio.


O título de Aprender a ler para ensinar meus camaradas, de João Guerra, é baseado em um “ditado” angolano que diz respeito às informações que um homem deveria coletar sobre o espaço a ser explorado para ensinar seus irmãos sobre aquilo. Guerra traz os dois músicos da angola para que, juntos de dezenas de nomes de grande importância cultural para o Brasil, possam explorar e aprender um pouco sobre a cultura baiana, baseada na cultura africana. Guerra inicia o longa em Luanda, apresentando a vida pessoal dos artistas e conhecendo suas famílias, ouvindo histórias e aprendendo um pouco sobre a África. Depois, a dupla vem ao Brasil e confere tudo o que o povo afro-brasileiro pôde construir a partir de suas origens. De forma intimista, o diretor recolheu depoimentos de pessoas na África e no Brasil, grandes nomes para a vida dos músicos e grandes personalidades da cultura brasileira, e os misturou com canções muito específicas sobre o tema apresentado.


Depois de Luanda, João Guerra vem a Cachoeira e explora suas belezas naturais e arquitetônicas, exaltando a cultura e a importância do município, que já foi um dos mais importantes economicamente para o país e ainda é uma das maiores referências nacionais em âmbito cultural e religioso. Na cidade, um dos personagens relembra o fato de os africanos terem a necessidade, quando chegaram ao Brasil, de se agruparem para sobreviverem às mudanças encontradas depois de serem obrigados a deixar sua terra de origem. Com tal agrupamento, segundo o personagem, foi que as culturas começaram a se fundir e formar a tão vasta e bela cultura negra no país. Aqui, os músicos angolanos encontram outras pessoas que vivem e amam a música e que estão empenhadas em não deixar os costumes criados pelos antepassados morrer. E talvez seja essa união de amantes da música e de sua história que componha a maior beleza desse filme. O problema de Guerra é que toda essa beleza é mostrada, por ele (não pelos personagens), de forma muito comercial, como se ele quisesse vender a Bahia como um paraíso perdido no leste brasileiro. A história por trás dos fatos é bela. A intenção dos personagens ao se engajaram no projeto é maravilhosa. A intenção de Guerra é, no mínimo, suspeita.
A vizinhança do tigre, de Affonso Uchoa, deixa de lado personagens mais velhos e que tenham uma carga história inimaginável, e dá espaço aos jovens da periferia: Juninho, Menor, Neguinho, Adilson e Eldo, que vivem entre a cruz e a espada ao serem obrigados a escolher caminhos muito distintos: o trabalho ou a diversão. A realidade de todos é muito simples e as famílias pouco ajudam na formação consciente desses jovens. Aos poucos conhecemos o cotidiano deles e concluímos que a máxima de suas vidas é estarem vivendo num sistema capitalista e individualista, onde nada importa que não seja o lucro. Para os jovens é ainda pior: o termômetro para saber o quanto se viveu, é o número de cicatrizes originadas por tiros pelos quais se foi atingido.


Há uma grande possibilidade de se assistir a esse filme e recordar um pouco Cidade de Deus e Cidade dos Homens, ambos retratos de jovens que vivem em favelas do Rio de Janeiro. Aqui, entretanto, Uchoa torna tudo mais particular à medida que não se importa em mostrar muitas histórias ou outros personagens além dos citados anteriormente. A forma como o diretor conta essas histórias chega a parecer uma ficção muito bem inventada, mas os ângulos escolhidos por ele e a forma como mostra o espaço em que os jovens vivem nos lembra de que tudo aquilo é, infelizmente, muito real. Apesar de a montagem do filme ser um pouco lenta, fazendo-o se tornar cansativo em alguns momentos, a fotografia muito realista é um deleite para os olhos do espectador.

Lázaro, de La llamada, é o retrato de um povo que já sofreu muito e aprendeu com toda sua história, mas que tem certa resistência em abandonar o passado. Aprender a ler, apesar de comercial, é uma troca mútua: Guerra apresenta a cultura africana no início do filme e, depois, é apresentada aos angolanos a cultura brasileira. O tigre do título de Vizinhança do tigre é, claramente, uma referência a tudo o que os jovens tem em seu interior, a vizinhança, portanto, é tudo o que está em volta deles. E se Gustavo Vinagre é capaz de fazer o público compreender que Lázaro é esse retrato do homem idoso convicto em tudo o que fez e faz, se Guerra é capaz de fazer com que o espectador, assim como seus personagens, aprendam um pouco sobre as culturas tão significativas vistas em seu filme, e se Uchoa é capaz de convencer o público de que o sistema ao qual os garotos estão inseridos é errado e ultrapassado, então, ao menos para o espectador, esses filmes valem a pena.

Após a apresentação de La Lamada e Aprender a ler para ensinar meus camaradas, Gustavo Vinagre e João Guerra falaram um pouco sobre os filmes e responderam perguntas do público. Depois, um grupo da velha guarda do samba começou uma apresentação memorável no Cine Theatro Cachoeirano e fechou os trabalhos na praça 25 de Junho.
(Fotos de Léo Conceição)


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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O ATO DE (R)EXISTIR

Durante os dias 2 e 7 de setembro, a cidade de Cachoeira, Bahia, sediou o CachoeiraDoc, o Festival de Documentários da cidade. Com a apresentação de quase 40 produções, dentre mostras especiais e competitiva, o evento contou com a participação dos realizadores dos filmes, dos alunos e professores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, da população cachoeirana e de profissionais de diversas áreas.



O Festival iniciou na noite de terça (02) em grande estilo com a apresentação do longa documentário de Eduardo Coutinho, “Cabra Marcado para Morrer” (1984). O filme relata a história de um homem que lutava por seus direitos e de todos com quem convivia e acabou sendo brutalmente assassinado. A origem do documentário é a tentativa de Coutinho em filmar uma ficção sobre a luta do líder camponês João Pedro Teixeira. Interrompido pela ditadura em 1964, Coutinho retornou 20 anos depois e fez o documentário lembrando das filmagens e realidades da época e contrapondo-as com a vida da esposa do camponês, Elizabeth Teixeira, que se tornou ativista pela causa.
O tempo foi cruel com essa mulher forte e esperançosa que vemos na tela: Elizabeth foi obrigada a deixar os filhos para trás e ser testemunha em dezenas de processos abertos pelas revoltas camponesas e pela realização do filme. Além dela, outras pessoas que participaram das filmagens também relatam suas lembranças e histórias. De forma intimista, Coutinho adentra a vida pessoal de cada um desses personagens – nos quais estão incluídos alguns dos 12 filhos de João e Elizabeth - e traz revelações inusitadas. O cineasta, porém, não esquece de denunciar a Ditadura trazendo para a tela declarações do governo que diziam que o filme que estava sendo filmado por ele era uma forma de reunir revoltosos e estimular a desordem no país.
A sessão sobre a família Teixeira continuou no dia seguinte com a apresentação do filme “A Família de Elizabeth Teixeira” (2014). Trinta anos após a realização do primeiro filme, Elizabeth é uma idosa de 87 anos com alguns de seus filhos espalhados pelo Brasil e outros perdidos há muito tempo. Nesse longa, Coutinho opta por mostrar a vida dos filhos da matriarca: vai do sudeste ao nordeste revelando as diferentes vidas que a prole de um dos maiores líderes da reforma agrária levam. Assim, o diretor volta a revelar histórias cada vez mais intimistas e curiosas. Cada filho de Elizabeth lembra de alguma coisa muito diferente, cada um passou por experiências inusitadas devido à perseguição sofrida pela família. Para finalizar, Coutinho ainda conta com a surpresa de saber que uma das netas do casal se tornou professora de história e trabalha com a restauração e recuperação da memória das lutas de João Pedro e Elizabeth Teixeira.

Elizabeth Teixeira e os filhos logo após a morte do marido.
O diretor faz uma ligação entre o passado (décadas de 1964 e 1984, quando tentou gravar a ficção e quando gravou o primeiro documentário, respectivamente) e os dias de hoje (2013). E nessa tentativa de comparar e denunciar, Coutinho exagera ao adentrar no mais profundo íntimo de seus personagens. Não que isso o torne apelativo, mas é exagerado. No final das contas, o que o cineasta faz é revelar o Brasil de forma nua e crua, sem pudor em mostrar os sofrimentos e as consequências advindas do período da ditadura. Por vezes, desrespeitando os limites do que pode ser público e do que, preferencialmente, deveria permanecer em âmbito privado. Para concluir essa denúncia com o filme apresentado no segundo dia do evento – que, na realidade, é um extra do DVD do filme de 1984 - o documentarista acaba trazendo toda a diversidade brasileira em um filme que trata apenas do povo brasileiro.
Cabra marcado para morrer fez parte da Mostra Resistência apresentada pelo festival. No sábado (06), os curtas Manhã cinzenta e África 50 e o média Primeiro caso, segundo caso fecharam a mostra que tinha como objetivo trazer filmes que contém como temática a resistência frente a repressão. Cada um deles foi filmado em um local diferente do mundo, mas todos acabaram sendo perseguidos pelos governos vigentes e até proibidos, sendo vistos como filmes subversivos para suas épocas. O mesmo, como citado acima, ocorreu com Cabra marcado para morrer. Manhã cinzenta também tem como pano de fundo a ditadura no Brasil; África 50 mostra uma África na década de 1950 explorada pelo protecionismo francês; e Primeiro caso, segundo caso foi filmado durante o processo que culminou na queda da monarquia islâmica e na ascensão da república no Irã.
De Olney São Paulo, Manhã cinzenta teve seus negativos confiscados pela ditadura em 1969. O curta mistura realidade e ficção para mostrar os terrores feitos pelos políticos da época. Mas Olney não mostra apenas o terror, ovaciona aqueles que manifestaram. De forma simples, trata os manifestantes como verdadeiros heróis que, infelizmente, não terão a mesma vitória certa que acompanha os heróis das histórias em quadrinho, muito pelo contrário. E é para mostrar essa frustração que o diretor sufoca o espectador através de cenas pavorosas e por uma trilha sonora forte e expressiva. Em uma cena desesperadora, por exemplo, uma personagem corre de um lado a outro fugindo de vários soltados que apontam suas armas para ela, enquanto isso, um homem fica parado apenas esperando que seu destino seja selado pela munição que deixará aquelas armas e se impregnará em seu corpo.


Indivíduos curiosos, uma vida tranquila e muita cultura compõe as primeiras cenas de África 50, de René Vautier. O diretor, assim, apresenta a beleza do povo africano, foca em crianças que olham sua câmera com o desejo de conhecer o objeto, mostra a tradição e o modo de vida adotados por aquele povo e a forma carinhosa com a qual tratam uns aos outros. Depois, entretanto, Vautier deixa os sorrisos, as brincadeiras e as danças de lado e esbofeteia o público com cenas aterradoras da exploração europeia nas colônias da África Ocidental Francesa. O que antes era belo e harmônico passa a se tornar triste e tão sufocante quanto as cenas de Manhã cinzenta. As mulheres que antes arrumavam os cabelos estão mortas, as crianças que antes pulavam alegremente nas águas estão mortas, os homens que antes cuidavam dos animais que alimentariam suas famílias também estão mortos. E todas essas mortes são ocasionadas por um motivo incompreensível, mas simples: a sede de poder que envolve os franceses e o capitalismo, que, sem dúvida, é o maior aliado nessa busca incansável.
Imagine essa cena: um professor está de costas escrevendo no quadro, um garoto, no fundo da sala, bate um apagador na mesa. Sem conseguir identificar o aluno, o professor ordena que os jovens do fundo da sala saiam e voltem apenas em duas circunstâncias: ou quando contarem quem é o “culpado”, ou após passarem uma semana do lado de fora. Baseado nessa encenação, Primeiro caso, segundo caso questiona a solidariedade de grupo e o sistema vigente que faz de tudo para dissolver qualquer grupo que possua opiniões próprias. Para que as mais diversas pessoas possam dar suas opiniões – o que inclui, por exemplo, estudiosos e líderes religiosos e políticos -, o diretor apresenta as duas escolhas que podem ser feitas pelos alunos: na primeira, um aluno revela quem é o culpado e volta para dentro da sala de aula cabisbaixo e, aparentemente, envergonhado, no segundo momento, todos esperam a uma semana e voltam orgulhosos para a sala de aula. Qual seria a melhor opção? Ceder de imediato ao sistema, ou se mostrar resistente e acabar, uma hora ou outra, retornando ao regime? A Revolução Iraniana, por exemplo, trocou o sistema autoritário monárquico, por uma república comandada por líderes militares religiosos radicais. O que você iria preferir?

Como boa parte do planeta, o Brasil, a África e o Irã foram dominados por ideologias radicais que estabeleceram seus regimes de forma autoritária e violenta. A boa notícia é que o povo brasileiro se revoltou e pediu por um governo justo e realmente democrático para que a ditadura terminasse em 1985. Em 1958, a independência da Guiné fez com que os demais territórios africanos começassem a se erguer contra o sistema vigente, o que culminou na independência total até 1960. Há pouco tempo, a Primavera Árabe modificou as realidades sociopolíticas de todos os países da região, e com o Irã não foi diferente. Mais que denunciar os abusos políticos pelos quais o mundo passou, todos os filmes da Mostra Resistência lembram a importância de a população se erguer contra tais regimes. No ano passado, manifestações no Brasil pediram por melhores condições no país. Mais que exercer seu papel como cidadão, o povo deve clamar por igualdade, resistindo a parâmetros que fogem completamente aos direitos de liberdade de expressão, construindo uma identidade forte e exemplar, passando, assim, a existir de forma concreta.

Após a sessão de sábado (06), Ivana Bentes, professora associada do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRJ, coordenadora do Pontão de Cultura Digital da ECO/UFRJ e curadora na área de arte, mídia, cinema, audiovisual comentou sobre os filmes e sobre a Mostra Resistência, destacando a importância dos filmes apresentados durante o festival para a construção de uma sociedade moderna e desenvolvida.
(Foto: Tiago Araujo)
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