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domingo, 19 de abril de 2015

JESUS CRISTO SUPERSTAR, de Norman Jewison

Um dos melhores e mais eficientes musicais de todos os tempos!



Ruínas em um deserto acolhem um ônibus abarrotado de homens e mulheres que são cuspidos para as areias. Uma vez fora do ônibus, começam a vestir roupas coloridas e aparentemente improvisadas, a tirar objetos estranhos e inesperados do interiror do carro e, finalmente, dançar ao som de  notas de rock que dão o tom primeiro do longa Jesus Cristo Superstar. As figuras que descem do ônibus são algumas das lendas do rock: Ted Neeley, Carl Anderson, Yvonne Elliman, Barry Dennen, Bob Bingham, Larry Marshall, Josh Mostel e Paul Thomas. Esses, interpretam, por sua vez, nomes bem conhecidos na história do filho de Deus: Jesus Cristo, Judas, Maria Madalena, Pilatos, Caifás, Zealotes, Herodes e o apóstolo Pedro.
A história de Jesus Cristo de Nazaré já foi contada das formas mais diversas: livros, poemas, cartas, cantigas, canções, peças de teatro – o que incluem desde as famosas representações da Paixão de Cristo realizadas na Semana Santa, até peças ficcionais baseadas na Bíblia -, e, claro, produtos audiovisuas para televisão e cinema. Entretanto, poucos produtos são tão interessantes quanto Jesus Cristo Superstar, musical – na melhor aplicação da palavra (todos os diálogos são cantados) - dirigido por Norman Jewison e protagonizado pelas já citadas figuras muito famosas da rock mundial. O filme é um musical onde Jesus é um hippie cantando rock. Podia ser uma bela piada ou uma bela crítica a respeito das interpretações da bílbia. Mas não é. É um filme inteligente que critica a sociedade da década de 1970, que vivia pelo capitalismo e pelo narsicismo. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo passou pelo período da Guerra Fria, repleto de ameaças e medos e, ao mesmo tempo, de lutas entre o capitalismo e o socialismo. Uma guerra sem sangue aparente, mas que submetia o ser humano à busca pelo poder de forma tão voraz quanto o lobo procura por sua presa.


No filme, a história é contada pelo ponto de vista de um personagem sempre muito oprimido: Judas, interpretado pelo cantor Carl Anderson. É Judas quem vê tudo o que está acontecendo com Jesus, e é ele quem tenta avisá-lo sobre as incertezas do futuro. Tudo por um motivo simples: Jesus Cristo se tornou popular de forma que já não se pode mais controlar o que o povo sente e confia a ele. J. C. - como o Messias é chamado por seus fieis no filme - é uma figura tão popular quanto figuras famosas que lutaram pelos direitos da minoria antes da década de 1970, quanto as que o fazem até hoje. Popular, no maior sentido da abreviação POP. J. C. é um homem que ganhou a admiração e a confiança do povo por sua forma simples e altruísta. É um homem que não se importa com luxos ou vaidades, e sim com o bem estar da humanidade. Seu defeito, segundo Judas, foi nascer em uma época onde a comunicação em massa não existia. Mas isso é assunto para linhas posteriores. Ainda segundo sua popularidade, homens e mulheres passam a acompanhar o “líder” por ele representar, para eles, um exemplo de espiritualidade e evolução inimagináveis.
Entretanto, Jesus não está sozinho nessa empreitada, Deus está lá o tempo todo. O Pai de Jesus parece observar tudo o que é feito ao redor de seu filho. Deus é, em boa parte do filme, represenado pela luz do Sol e, por vezes, da Lua. Também é usado como um artifício intimador, que relembra o quanto o calor e a luz do sol podem ser incomodativos. A luz é usada como um elemento narrativo poderoso, mas também é o que dita a fotografia do filme. Natural ou artificial, a luz a iluminar o ambiente é, quase que em todo o longa, baseada nas luzes do Sol e reflexo da Lua, seja para iluminar todo um ambiente, ou para destacar um personagem em particular. Assim, o Sol brilha nos rostos e nos corpos dos personagens, como se Deus lhes dissesse alguma coisa, como se o Pai alertasse quanto à necessidade de entenderem os propósitos da vida na terra. A luz do Sol, todavia, não compõe dramaticamente o filme apenas como um elemento que lembre Deus ou o desconforto do calor e da força incontrolável dessa luz. Em momentos muito específicos, Deus parece dar licença poética ao Sol e ele representa a repressão e o desconforto da Guerra, como na cena em que Judas é perseguido por tanques.


Mas não é apenas a luz do Sol ou a popularidade de Cristo que compõe as críticas construídas de forma muito perspicazes pelo longa. Como qualquer movimento hippie da década de 1970, esses homens e mulheres caracterizados para representar a vida de Cristo na telona pedem pela Paz. Pedem pelo fim das guerras. Pedem por um planeta mais igualidatário. Por um planeta livre de diferenças. Em uma cena já muito conhecida por aqueles que estão mais habtituados aos escritos bíblicos, Cristo chega ao templo e se depara com uma feira. Ali, estão presentes os prováveis maiores inimigos da cultura em questão: o capitalismo e a guerra. Na feira, nesse contexto, são vendidos, além dos tradicionais mantimentos alimentícios e vestes, armas de guerra como metralhadoras e granadas. Um Cristo muito revoltado e aos berros, coloca tudo abaixo e expulsa todos do local. Outra cena conhecida da vida do filho de Deus é apresentada de forma muito metafórica no longa. Quando os doentes pedem para que o salvador os ajude, vê-se uma clara referência não apenas às doenças da população que habita o planeta, mas às enfermidades que o próprio planeta sofre: o capitalismo, o indivudualismo, a ganância, a corrupção, a fome, a arrogância, a desigualdade, o descaso, o preconceito.
Jesus Cristo Superstar é uma adaptação para o cinema de uma peça da Broadway que fez muito sucesso nos primeiros anos da década de 1970. A peça, em cartaz até hoje, era dirigida por Mark Hellinger e protagonizada por Jeff Fenholt, Bem Vereen, Bob Bigham, Barry Dennen e Yvonne Elliman. A composição das canções da peça, mesmas músicas do filme, foram feitas por Andrew Lloyd Webber (músicas), mesmo dos filmes O Dossiê de Odessa, Cats, Evita e O Fantasma da Ópera, e por Tim Rice (letras), de filmes como 007 Contra Octopussy, Aladdin, O Rei Leão, Toy Story e Evita. No filme, Ted Neely, Carl Anderson, Yvonne Elliman, Barry Dennen, Bob Bigham e Josh Mostel emprestam suas poderosas  vozes aos personagens, entoando cada canção de forma impecável. Além das vozes inquestionáveis, os intérpretes são expressivos facial e corporalmente, construindo personagens tão ricos quanto a própria construção bíblica. As músicas, por fim, contribuem para essa construção, já que cada personagem possui um estilo e uma entonação musical muito própria.


Se Jesus Cristo tivesse nascido no novo século, teria as letras J. C. entre parênteses ao lado de seu nome em seu perfil do Facebook, onde faria postagens recorrentes; seria uma das figuras mais seguidas do Twitter em todo o mundo e foto alguma seria mais twitada que aquela onde caminha sobre as águas; postaria fotos de seus feitos – desde transformar água em vinho, até alimentar centenas de pessoas com uma dezena de peixes – em seu Tumblr; e poderia, facilmente, ter criado a selfie para que pudesse registrar sua vida via Instagram – talvez até um de seus discípulos postasse uma foto desse estilo com Cristo ao fundo sendo crucificado. Sua crucificação seria acompanhada pelos jornais e tablóides de todo o mundo e sua ressureição seria noticiada em tempo real. Teria de dar entrevistas contando como era morrer e o que ele esperava para os proximos anos. Em uma coletiva de imprensa, Ele seria obrigado a revelar seus segredos, falar sobre o futuro da humanidade e prometer que voltaria se fosse preciso. Até mesmo sua ascenção teria dia, local e hora marcada. Antes de ir, entretanto, Jesus teria de ouvir milhões de pessoas fazerem os pedidos mais egosístas imagináveis. Se Jesus Cristo tivesse nascido neste século e não agisse assim, seria ofuscado por qualquer romano que o reprimisse nas redes sociais. Ao menos, tudo isso é o que o Judas do filme parece a alegar no número musical que dá título ao filme. 
Ou, simplesmente, Jesus usaria toda a tecnologia para, finalmente, alcançar o mundo com sua bondade e sabedoria, concientizando a todos e dando sua vida pela humanidade de forma menos deprimente. Assim, Cristo deixaria um mundo livre de doenças não biológicas citadas acima, com pessoas que fazem o bem sem distinguir ninguém ao seu redor. Ou isso, ou Cristo veio na hora certa, fez o que tinha que ser feito com os recursos que tinha e deixou os seres humanos sabendo o quão difícil seria a vida a terra. Jesus Cristo Superstar apresenta possibilidades, indaga a sociedade sobre como o ser humano tem agido nos quase dois milênios desde que Cristo foi embora, traz questões pertinentes a respeito das desnecessárias guerras e disputas, condena o preconceito e a desigualdade. Tudo, sobre o olhar de quem mais foi julgado nessa história toda: Judas Iscariotes. Quem foi Jesus Cristo? Seria um real filho de Deus? Um enviado dos céus? Ou um simples filho de um carpinteiro? Um homem comum que, como tantos outros, conquistou o povo por sua simpatia e carisma? Se Cristo foi ou não tudo que se lê na Bíblia, jamais poderemos saber – e o filme nem faz questão de responder a isso -, mas uma coisa é inquestionável: ninguém no mundo foi, é ou será tão popular quanto Jesus Cristo de Nazaré.


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domingo, 2 de março de 2014

009. (ESPECIAL OSCAR 2014) FROZEN: UMA AVENTURA CONGELANTE, de Chris Buck e Jennifer Lee

As novas princesas Disney nos trazem uma das melhores animações dos últimos anos!
Nota: DEZ


Título Original: Frozen
Direção: Chris Buck e Jennifer Lee
Elenco: Kristen Bell, Josh Gad, Idina Menzel, Jonathan Groff, Josh Gad, Santino Fontana, Alan Tudyk, Ciarán Hinds, Chris Williams, Stephen J. Anderson, Maia Wilson, Edie McClurg, Robert Pine, Maurice LaMarche
Produção: Peter Del Vecho, John Lasseter e Aimee Sribner
Roteiro: Jennifer Lee, Hans Christian Andersen (conto “A Rainha de Neve”), Chris Buck e Shane Morris
Ano: 2013
Duração: 102 min.
Gênero: Animação / Musical / Drama / Comédia / Aventura

Confira a música "Let it Go", indicada ao Oscar de Melhor Canção Original, composição de  Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez e interpretação de Idina Menzel

Anna e Elsa são as pequenas princesas de Arandel. Quando ainda eram crianças, por algum motivo que Anna não recorda, Elsa deixou de brincar com ela e passou a viver trancada em seu quarto. Três anos após a morte dos pais das garotas, chega a hora de Elsa ser coroada Rainha de Arandel. Entretanto, após uma discusão com Anna, que quer casar com o príncipe Hans, Elsa acaba revelando um dom misterioso: possui o poder de conjurar e controlar a neve! Deixando todos assustados e um inverno interminável para trás, Elsa foge para as montanhas, onde poderá viver em paz. Anna, no entanto, não se conforma com o abandono da irmã e sai em uma jornada em sua busca. No caminho, Anna conhece Kristoff e, apartir daí, ela descobrirá o significado do amor.


Jennifer Lee é a roteirista do excelente “Detona Ralph” (2012), uma das animações mais criativas que já assisti. Chris Buck foi responsável pelo departamento de animação de alguns filmes que, particularmente, simpatizo e que possuem qualidade indiscutível: “O Cão e a Raposa” (1981), “A Pequena Sereia” (1989) e “Nem Que a Vaca Tussa” (2004). No primeiro filme da dupla, vão além do esperado para dois iniciantes na direção. Sem dúvida alguma, é uma estreia que merece ser destacada por possuir qualidade técnica e um roteiro tão bons. A história, é interessante e, pela primeira vez, o grande vilão em comum da trama não é uma bruxa (ou bruxo) má, e sim o próprio medo do autoconhecimento que as princesas nutrem. O vilão de Elsa é a repressão que sofreu a vida toda por seu dom. O vilão de Anna é a exclusão que sofreu a vida toda da irmã sem saber o por quê. E existem vilões piores que o medo, a dúvida e a repressão? E é no único herói possível de salvar essas princesas que a beleza do longa se concentra: no amor. Tecnicamente falando, o filme possui cores suficientes para entreter as crianças e uma edição de som excelente para que canções ou diálogos sejam bem desenvolvidos. O departamento de desenho do longa também dá um show, criando personagens perfeitos (especialmente o querido boneco de neve Olaf), com feições próprias e personalidades definidas por tais feições e trejeitos. A trilha sonora de Christophe Beck é forte e possui a presença necessária.


“Frozen” é indicado como melhor filme de animação no Oscar 2014 e melhor canção original para “Let it Go”. Como melhor animação, o longa concorre com “Meu Malvado Favorito 2” (2013), um dos preferidos das crianças e adolescentes, com “Os Croods” (2013), filme com muitas cores e uma boa história, com “Ernest & Celestine” (2013), um filme francês simpático e inocente sobre a amizade entre uma ratinha e um urso, e com “Vidas ao Vento” (2013), longa japonês sobre persistência e amor. Em canção original, concorre com “Happy”, da animação “Meu Malvado Favorito 2”, “The Moon Song”, da surpresa do ano, “Ela”, e “Ordinary Love”, do filme “Manthela: Long Walk to Freedom”. Basta lembrar da inestimável perda recente do líder Nelson Madela e que a música é interpretada pela banda U2 para saber que “Ordinary Love” é a favorita do ano. “Let it Go”, entretanto, sai bem na disputa por ser uma canção que se enquadra com perfeição no contexto do longa e ainda consegue emocionar a quem a ouve. Além disso, tomou o gosto do público de forma inacreditável, virando um hit de inverno nos EUA. Não posso fugir do cometário de dizer uma coisa simples a respeito das indicações do longa e da qualidade técnica do filme: a Disney é a Disney. E tem mais: qualquer pessoa pode dizer o que quiser sobre as princesas da Disney, mas que todos as amam, isso é inquestionável, agora, pense em duas princesas em um filme só! E em um filme que está prestes a conquistar um bilhão de dólares em bilheterias pelo mundo todo.



“Frozen” é um dos filmes mais tocantes e belos dos últimos anos. Poucas produções, animações ou não, tocam tão fundo em nossa alma como esse filme. Começando pela beleza com que o amor entre Anna e Elsa é apresentado. Elas são irmãs que passam o tempo juntas e se divertem da melhor forma possível. Depois, sentimos pena de Anna por Elsa começar a ignorar sem motivos aparentes. A dor aumenta quando os pais das garotas morrem e, em uma cena linda, vemos o sofrimento inexplicável que ambas estão sentindo, o que mostra a união das irmãs, mesmo após tantos anos sem se falarem. A fuga de Elsa é um daqueles momentos de clímax dos filmes, mas o que mais chama a atenção é o que está por vir. Em uma cena perfeita, Elsa entoa “Let it Go”, e mostra aos pequenos que assistirão ao filme vidrados o quanto é importante ser autêntico e não se importar com o que os outros pensam a respeito de você mesmo. E aí o filme ganha mais pontos: é uma animação para crianças que consegue lutar contra o preconceito e levantar a bandeira da aceitação. Ainda existem os momentos que nos tocam pelo amor que, inevitavelmente, nascerá entre Kristoff e Anna, um casal improvável e muito bonito. Acho interessante como os filmes da Disney passaram a trazer personagens fora da realeza para deixar tudo mais real e aproximar os personagens dos espectadores. Por fim, algo mais inesperado ainda acontece no desfecho do longa: a magia do amor prova, mais uma vez, que poucos amores podem ser mais fortes e encantadores que o amor entre irmãos.
APOSTAS DO BLOG PARA O OSCAR 2014:
Melhor Filme: 12 Anos de Escravidão
Melhor Direção: Alfonso Cuarón, por Gravidade
Melhor Ator: Chiwetel Ejiofor, por 12 Anos de Escravidão
Melhor Atriz: Cate Blanchett, por Blue Jasmine
Melhor Ator Coadjuvante: Jared Leto, por Clube de Compras Dallas
Melhor Atriz Coadjuvante: Lupita Nyong’o, por 12 Anos de Escravidão
Melhor Roteiro Original: Spike Jonze, por Ela
Melhor Roteiro Adaptado: John Ridley, por 12 Anos de Escravidão
Melhor Filme Estrangeiro: A Grande Beleza
Melhor Filme de Animação: Frozen: Uma Aventura Congelante
Melhor Documentário longa-metragem: O Ato de Matar
Melhor Trilha Sonora: Steven Price, por Gravidade
Melhor Canção original: Let it Go, de Frozen: Uma Aventura Congelante
Melhor Fotografia: Emmanuel Lubezki, por Gravidade
Melhor Edição: Jay Cassidy, Crispin Sthuthers e Alan Baumgarten, por Trapaça
Melhores Efeitos Visuais: Timothy Webber, Chris Lawrence, David Shirk e Neil Corbould, por Gravidade
Melhor Edição de Som: Glenn Freemantle, por Gravidade
Melhor Mixagem de Som: Chris Burdon, Mark Taylor, Mike Prestwood Smith e Chris Munro, por Capitão Phillips
Melhor Figurino: Patricia Norris, por 12 Anos de Escravidão
Melhor Direção de Arte: Catherine Martin e Beverley Dunn, por O Grande Gatsby
Melhor Maquiagem e Cabelo: Adruitha Lee e Robin Mathews, por Clube de Compras Dallas
Melhor Curta-Metragem: The Voorman Problem
Melhor Curta Metragem em Animação: É Hora de Viajar
Melhor Documentário em Curta-Metragem: The Lady in Number 6
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011. (ESPECIAL OSCAR 2014) ALABAMA MONROE, de Felix Van Groeningen

A realidade deprimente de como a perda afeta negativamente o ser humano.
Nota: 9,7


Título Original: The Broken Circle Breakdown
Direção: Felix Van Groeningen
Elenco: Veerle Baetens, Johan Heldenbergh, Nell Cattrysse, Geert Van Rampelberg, Nils De Caster, Robbie Cleiren, Bert Huysentruyt, Jan Bijvoet, Sofie Sente, Ruth Beeckmans, Jan Hammenecker, Clanka Heirman, Kirsten Pieters, Yves Degryse, Dominique Van Malder, Marianne Loots, Sanderijin Helsen
Produção: Arnold Heslenfeld, Dirk Impens, Laurette Schillings, Frans van Gestel e Rudy Verzyck
Roteiro: Johan Heldenbergh (peça teatral), Mieke Dobbels (peça teatral), Carl Joos, Feliz Van Groeningen e Charlotte Vandermeersch
Ano: 2012
Duração: 111 min.
Gênero: Drama / Musical / Romance

Didier Bontinck é um músico country que alterna sua vida entre os palcos, a reforma do lugar onde vive e sua vida pessoal. Elise Vandevelde é uma tatuadora que divide seu tempo entre seu estúdio e sua vida pessoal. Quando Didier entrou no estúdio de Elise, alegando que nada na vida valia tanto para ser tatuado e fazendo outras piadas para conquistá-la, nenhum dos dois imaginava que estavam encontrando os parceiros de suas vidas. Rapidamente, ambos se entregam ao novo amor, Elise engravida, os dois casam e deixam a vida traçar o caminho da felicidade. Entretanto, o mundo desaba quando descobrem que a filha, que acaba de completar seis anos de idade, está com câncer.


Sem mais delongas, já aviso: Maybelle, a filha do casal, morrerá antes dos primeiros quarenta minutos de filme. E revelar isso não é estragar o prazer de assistir a esse longa. Aqui, o interessante é ver como os personagens reagem antes, durante e após a morte da menina. Esse filme, faz um apanhado sobre uma família que vai do paraíso ao inferno em sete anos. A princípio, Didier e Elise vivem uma vida feliz. O início do relacionamento é cheio de risadas, sexo e novas experiências. Os dois estão começando a se descobrir e isso é o que deixa a vida tão animada e divertida. As discussões são praticamente inexistentes e tudo são flores. Elise, que antes trabalhava apenas com o estúdio, até começa a cantar junto com o grupo composto apenas por homens com o qual  Didier canta. E os homens e ela fazem muito sucesso juntos, o que contribui ainda mais para que eles vivam nessa felicidade constante. Quando Elise descobre a gravidez, a primeira reação de Didier é pegar a chave do carro e deixar a namorada sozinha. Após algumas horas ele já está acostumado com a ideia e a felicidade do casal se completa quando a pequena Maybelle nasce. Tudo continua maravilhoso, como os dois tem o privilégio de passar um bom tempo em casa, assistem ao crescimento da menina de perto. E a menina tem o privilégio de ter esse exemplo de casal em casa para também ser feliz. A descoberta da doença é o início da catástrofe para a família. Dali por diante, tudo apenas piora. Claro que existem momentos, como quando o médico fala sobre o transplante de medula óssea, que uma chama de esperança reascende na casa dos Vandevelde Bontinck. Mas isso tudo é muito passageiro. Maybelle morre e os pais, obviamente, entram em um processo de depressão muito difícil de sair. E o interessante é que o que ocorre com um é o contrário do que ocorre com o outro. Enquanto Elise está sempre descontrolada sobrando alguns momentos de sobriedade, Didier tenta permanecer calmo e sereno, estourando em alguns momentos realmente tocantes. E para piorar, eles já estão juntos há sete anos e o casamento já não é mais aquela paixão louca dos primeiros encontros.


Veerle Baetens, vencedora do Prêmio de Filmes Europeus como melhor atriz, é sexy, deprimente e verdadeiramente humana vivendo Elise. Durante o longa, verificamos várias mudanças de humor da personagem que são apresentadas de forma magnífica por Baetens. Podemos até dividir o filme em três fases: o antes, o durante e o depois da vida de Maybelle. A Elise apresentada por Baetens antes do nascimento da filha é uma mulher sensual que deixaria qualquer homem louco, as tatuagens que a personagem já fez demonstram o quanto vive intensamente cada momento. Depois do nascimento de Maybelle, a mulher passa a ser uma mãe mais séria, ainda tem desejos e não os esconde, mas passou a viver pela filha e a ter mais cuidados. Após a morte da menina é que Baetens torna sua interpretação um assombro, trazendo toda a dor e a angústia que somente alguém que já passou por isso poderia compreender. Durante essa temporada de premiação e assistindo aos indicados aos Oscar, diversos atores me chamaram a atenção em como estavam sendo injustiçados por não estarem entre os indicados. Em um ano com tantas atuações masculinas imponentes, entretanto, as mulheres perderam um pouco de espaço. Se tivesse de escolher mais uma atriz para concorrer no Oscar, sem dúvida, seria Veerle Baetens, e, em meu mundo, ela seria uma grande concorrência para Cate Blanchett. Aliás, as atrizes até tem algumas semelhanças em suas personagens, pois ambas tiveram seus mundo demolidos e estão passando por sérios problemas psicológicos por conta disso.


Dividindo a tela com Veerle Baetens, o igualmente competente Johan Heldenbergh. O Didier criado por ele é um homem independente, um pouco bruto e muito reservado, mas também é um homem decidido, romântico e que conquista as mulheres com a voz e o olhar. O fato de o personagem estar menos alterado após a morte da filha por suas crenças não significa que a interpretação do ator seja menor que a de Baetens, pelo contrário: a batalha travada por essas duas feras é, a cada cena, mais bela e instigante. O Didier de antes do nascimento é esse homem romântico e entregue ao seu amor. Quando a filha nasce ele se mostra um pai preocupado e muito carinhoso, apesar de sua brutalidade, sempre faz o que pode pela filha. Após a morte da pequena, Didier vira um homem deprimido e muito contido. A forma como o ator faz com que cada homem se identifique com ele é ótima e a naturalidade encontrada em Johan é algo sublime e poucas vezes visto em qualquer ator. As cenas em que Heldenbergh esbraveja e expõe ao mundo um sofrimento sempre muito guardado são as grandes cenas do ator. O momento em que grita à uma plateia sua ira por a Igreja não encorajar o transplante de medula óssea, o que fez com que a ciência não fosse avançada o suficiente para salvar sua filha, é um dos momentos mais emocionante do longa. Outro destaque é a química existente entre os protagonistas. Assim como Leonardo DiCaprio e Margot Robbie tiveram uma química hilária em “O Lobo de Wall Street”, Heldeberg e Baetens possuem algo realmente intenso, que vai do belo ao horrível. Fica difícil escolher qual dupla se saiu melhor esse ano.




A escolha em filmar as fases da vida do casal de forma misturada, indo e vindo todo o tempo, foi uma sacada de mestre. Isso nos emociona mais ainda, pois quando estamos ao lado dos personagens no sofrimento, o filme nos leva para o dia em que os protagonistas se conheceram, por exemplo, e tudo fica ainda pior, fica ainda mais triste e melancólico. Em uma das falas mais aterradoras que lembro de ter ouvido no cinema, Elise rebate contra o marido dizendo que ela sempre soube que tudo era bom demais para ser verdade, que aquilo tudo o que eles viviam não poderia durar, afinal, a vida não é generosa, pois quando amamos e nos apegamos a alguém, a vida traz rancor, ela leva tudo para longe, ela trai. Não há como não parar um pouco após assistir ao longa para refletir sobre as palavras da protagonista. E talvez isso desagrade um pouco ao público sedento por ver e ouvir apenas coisas belas no cinema. “Alabama Monroe” é indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e é um dos grandes favoritos, concorrendo com “A Grande Beleza” e “A Caça”. E se vencer, sem dúvida, será mais que merecido. E antes que esqueça: o nome em português, pela primeira vez desde que me lembro, supera o título original. Por que “Alabama Monroe”? Bom, essa pergunta deixarei que a última tomada do filme explique, assim como a última tomada explicou o por quê do balbuciar Rosebud em “Cidadão Kane” (1941). Mas afirmo uma coisa, o efeito que as imagens finais dos dois filmes causam é o mesmo: uma angústia eterna e uma compreensão inexplicável.


TABELA TEMPORADA DE PREMIAÇÕES 2014
Confira a tabela da Temporada de Premiações 2014! Veja, também, quem foram os vencedores dos principais prêmios de sindicatos e associações. Os filmes coloridos e em negrito possuem indicações ao Oscar e seu número de vitórias está indicado na última coluna da tabela, mas isso não significa que o longa possui indicações nas categorias que venceu algum prêmio. Os filmes em preto sem ser em negrito não possuem indicação alguma no Oscar.Os filmes em preto sem ser em negrito não possuem indicação alguma no Oscar. Para visualizar melhor, basta abrir a imagem em outra janela/guia/abaOBSERVAÇÕES: os filmes coloridos e em negrito possuem indicações ao Oscar e seu número de vitórias está indicado na última coluna da tabela, mas isso não significa que o longa possui indicações nas categorias que venceu algum prêmio. Os filmes em preto sem ser em negrito não possuem indicação alguma no Oscar.
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sábado, 26 de janeiro de 2013

119. (ESPECIAL OSCAR 2013) OS MISERÁVEIS, de Tom Hopper


Um retrato fantástico de uma sociedade preconceituosa que ganharia muito mais se deixasse a intolerância de lado. Seu único defeito: exageradamente longo para um musical.
Nota: 9,5


Título Original: Les Misérables
Direção: Tom Hooper
Elenco: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Sacha Baron Cohen, Helena Boham Carter, Eddie Redmaine, Aaron Tveit, Samantha Barks
Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Debra Hayward, Cameron Mackintosh
Roteiro: William Nicholson, James Fenton, Alain Boublil (história), Jean-Mark Natek, Herbet Kretzmer (músicas), Victor Hugo (romance) e Claude-Michael Schönberg
Ano: 2012
Duração: 157 min.
Gênero: Musical / Drama

Jean Valjean, após 19 anos, é um criminoso recém liberto que será obrigado a passar a vida apresentando-se uma vez por ano para a justiça francesa. Seu hediondo crime? Roubar um pão para o seu sobrinho que estava quase morrendo. Após ser acolhido e beneficiado por um bom padre, Jean decide mudar sua vida. Anos depois ele acaba conhecendo Fantine, uma bela mulher que trabalha duro para ajudar sua filhinha que mora com o pai e a madrasta. Por motivos que apenas o destino compreende, Fantine morre, mas Jean se vê obrigado a encontrar Cosette, a filha, e criá-la como sua. Para isso, eles fogem a vida toda da polícia. Nove anos depois, porém, os rebeldes se revelam contra o governo autoritário da França e a vida de todos os envolvidos mudará para sempre.


O filme é um musical que se passa na França pós Revolução Francesa, época em que o país se tornou um lugar terrível para se morar, afinal, toda a forma de governo era incerta e deixava a população a mercê da fome, do desemprego, das doenças, da sujeira e da falta de organização social e, assim sendo, a miséria corroia todo o país como um tumor em um homem. E é bem isso que Victor Hugo, autor da maravilhosa obra literária na qual o longa foi baseado, deseja criticar: não havia maneira de deixar que tudo o que seus olhos franceses viam permanecesse como estava. Na história temos representações perfeitas de todos os tipo de pessoas que habitavam o país – destacando-se os pobres -, são elas: Jean Valjean, o ex-presidiário que foi preso por 19 anos por roubar pão para o sobrinho (uma crítica clara de como não havia nada do mais básico para a população, pergunto-me, será que nem brioches mais eram distribuídos ao povo?); Inspetor Javert, o retrato da polícia falha que se importava com pequenos casos ao invés de olhar para todos os grandes problemas em volta; Fantine, uma jovem que teve de deixar a filha com o pai – um malandro da pior espécie – e ainda é obrigada a enviar todo o pouco dinheiro que ganha para o canalha “sustentar” a menina; Cosette, a parte inocente e sem culpa da história, mal tratada pelo pai e pela madrasta que a tratam como uma empregada, mas vê sua vida melhorar ao ser acolhida por Valjean; Thénardier, o pai de Cosette, um canastrão proprietário de uma estalagem, ele e a esposa, Madame Thénardier, roubam seus clientes a torto e direito, no entanto, não são punidos por ninguém; Marius, o jovem de origem rica que deseja a igualdade entre as classes; Enjolras, jovem de origem humilde que se junta a Marius por uma França melhor e mais justa; o avô de Marius e seus amigos e conhecidos ricos, pessoas favorecidas por nascimento ou sorte, pouco vistas no filme, mas as mais criticadas. O filme, como disse, é um musical, mas não um musical simples, daqueles em que há diálogo e músicas, mas onde os diálogos são transformados em música. Confesso que esse gênero “musical sem falas” não me conquista com qualquer enredo ou rima barata, nesse contexto, qual foi minha surpresa ao ver um filme equilibrado onde a música é o que mais importa para deixá-lo interessante. O único problema fica a cargo da duração, apesar de um ótimo musical, filmes do gênero que tem mais de duas horas são um risco tremendo.


O longa é indicado em oito categorias no Oscar: melhor filme, apesar de poucas chances, é um dos cinco favoritos na disputa; melhor ator, para Hugh Jackaman, mesmo que atuação seja tocante e tenha cantado – o que a Academia adora -, o prêmio já é de Daniel Day-Lewis por “Lincoln” (2012); melhor atriz coadjuvante para Anne Hathaway, ela dançou, fez a vez da prostituta que não queria tal emprego, cortou os cabelos no próprio filme, cantou chorando e morreu como uma literal miserável, tudo o que a academia quer; melhor direção de arte, o filme é escuro em alguns momentos e tem a luz perfeita em outros, seu maior concorrente é “As Aventuras de Pi”; melhor figurino, apesar de ser muito bonito e diferenciado, o favorito é “Anna Karenina”, um filme mais de época e com roupas mais extravagantes; melhor maquiagem, acredito que o prêmio esteja entre “Hitchcock” e “O Hobbit”, sem chances para “Os Miseráveis”, que roubou o lugar de “Lincoln” na categoria; melhor mixagem de som, seria o prêmio mais merecido, pois as músicas não foram dubladas, estão, portanto, em seu áudio original, algo muito difícil para qualquer filme; melhor canção, para “Suddenly” de Hebert Kretzman, Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil, interpretada por Hugh Jackman, seu único concorrente de peso é “Skyfall”, a música que Adele compôs para o novo 007. Ainda é indicado em nove categorias no BAFTA, o Oscar inglês, onde deve se firmar como favorito; também é indicado em quatro categorias do Sindicato dos Atores; e venceu três Globos de Ouro: melhor filme comédia ou musical, melhor ator em comédia ou musica (Jackman) e melhor atriz coadjuvante (Hathaway).


Hugh Jackman vive Valjean, obviamente, em teoria a voz do protagonista de um musical deveria ser a mais perfeita possível, é um fato que Jackman não possui a voz mais perfeita do elenco masculino, em teoria, mas para o filme sua voz, rouca e triste caiu como uma luva para o personagem, além disso, nos momentos iniciais, Jackman aparece como um homem com medo e apavorado, depois, quando Jean começa a criar Cosette e até sua morte, ele se torna um homem bom, gentil e feliz. Russell Crowe, a melhor voz masculina do elenco, é o Inspetor Javert, um homem misterioso que parece esconder inúmeros segredos acerca de sua vida passada, ainda sim, parece que ela não foi fácil, pois é rancoroso e as feições do ator denotam a criação de um personagem com poucos sentimentos, ainda sim, não devemos esquecer que, durante a trama, o inspetor apenas está realizando seu trabalho. Anne Hathayway é Fantine, com disse, ela canta chorando, dança, sofre, corta os cabelos, vive longe da filha, se sacrifica por amor e acaba morrendo como mais uma das tantas miseráveis, apesar de aparecer pouco, confesso que poucas vezes assisti a uma interpretação tão bela de uma música como a sua principal canção no longa, e a maior canção da história: "I Dreamed a Dream". Amanda Seyfried e Isabelle Allen são Cosette adulta e criança, respectivamente, o pouco que Allen canta é quase inacreditável, e parece que a pequena de dez anos já compreende tudo o que se passa na vida da personagem, Seyfried, por sua vez, acaba sendo menos tocante, pois suas cenas são mais felizes, mas, ainda sim, sua voz continua linda e sua atuação também é ótima. Sacha Baron Cohen e Helena Boham Carter são os reais vilões da história, os Thénardier, sempre digo – e quando digo que faço isso sempre, é porque faço isso sempre – que os vilões atingem seu auge quando nos apaixonamos por eles, ou os compreendemos por completo, ou os odiamos a ponto de sentirmos asco deles, esse dois estão na terceira categoria, são rancorosos, perversos e só pensam em seu bem e no de mais ninguém, portanto, perfeitos vilões.


Toda a arte do filme e sua criação em si é uma obra tão bela a arriscada que é triste não ver Tom Hooper indicado ao Oscar por sua direção brilhante – lembrando que ele venceu a premiação na mesma categoria, além de melhor filme, com “O Discurso do Rei (2010) -, ainda mais lembrando de sua indicação no Sindicato dos Diretores, entretanto, tal fato não faz com que “Os Miseráveis” se torne digno de pena ou não mereça ser visto, muito pelo contrário, o filme é de uma beleza única, tanto o é que se torna impossível achar muitos defeitos, que não o fato de ser demasiadamente longo. Apesar de parecer uma adaptação da Broadway que apenas deseja ganhar dinheiro, “Os Miseráveis” vai muito além disso, ele retoma tudo o que a obra literária desejou repassar ao mundo. No final das contas, esse filme nada mais é que uma apelação positiva sobre como devemos aceitar as diferenças, pois, não importa se somos homens ou mulheres, pretos ou brancos, heterossexuais ou homossexuais, pobres ou ricos, americanos ou europeus, feios ou belos, somos todos iguais, viemos todos de lugares semelhantes, iremos todos para o mesmo lugar, afinal, mesmo com todas as evoluções e utópicas transformações ocorridas durante a história de nossa humanidade, somos todos eternos incorrigíveis miseráveis, aos resta, apenas, lutar, sonhar, esperar e amar.




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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

136. PRISCILLA, A RAINHA DO DESERTO, de Stephen Elliott


O precursor ao não preconceito sexual!
Nota: 8, 7



Título Original: The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert
Direção e Roteiro: Stephen Elliott
Elenco: Hugo Weaving, Guy Pearce, Terence Stamp, Bill Hunter, June Marie Bennett, Murray Davies, John Casey, Frank Cornelius, Bob Boyce
Produção: Al Clark, Michael Hamlyn
Ano: 2004
Duração: 104 min.
Gênero: Comédia / Drama

Mitzi e Felicia são dois travestis que não se importam em serem chamadas de qualquer insulto preconceituoso “anti-homessexuais”. Quando Mitzi (o nome de guerra para Anthony Belrose) recebe um convite para se apresentar no meio do nada na Autrália, ele(a) sente a obrigação de fazê-lo. Dessa forma chama Felicia (nome de guerra de Adam Whitely) e Bernadette Bassenger (antiga Ralph Waite), uma transexual que acaba de perder o parceiro. Para tal aventura ser concretizada e os/as três se meterem nas mais loucas confusões, Felicia consegue, como meio de transporte, um ônibus caindo aos pedaços, ao qual batiza de Priscilla, A Rainha do Deserto.


Sempre que assistimos a um filme como esse, a dúvida a respeito da sexualidade do diretor da produção paira no ar. Pois, a fim de que essa dúvida não persista, sim Stephen Elliott é gay, o que, talvez, seja o maior trunfo para o filme, é bem simples: nenhum hetero seria capaz de compreender tão bem o mundo construído por Drag Queens e homens e mulheres que jamais sabemos se são homens ou mulheres, mundo esse, até hoje muito marginalizado. Alem disso, permanecendo nos problemas envolvendo a temática do longa, não preciso dizer que, se hoje a aceitação já é difícil, imaginam em 1994 quando o filme foi lançado. Mas é bem aí que o roteiro se torna tão bem feito: Felicia e Mitzi não vêem problema algum em saírem de seu charmoso ônibus usando suas roupas de trabalho (e sim, o trabalho de ambas as personagens é tão digno quanto de qualquer outro ser humano), muito menos Bernadette faz questão de esconder suas opções (Bernadette é a mais velha dos três, sendo a mais racional e menos escandalosa). Nesse contexto, durante a trama, vemos apenas duas cenas em que há o preconceito com as diferenças: a primeira é esquecida rapidamente por ser muito bem levada por Bernadette; já a segunda envolve uma soco aqui e outro ali, mas acaba sendo resolvida por um amigo que as viajantes conhecem durante sua jornada. É dispensável dizer que o figurino de um filme sobre Drags seja uma coisa escandalosa, mas ao mesmo tempo é tão surpreendente e colorido e chama tanto a atenção que chegou a receber o Oscar de melhor figurino; quanto a trilha sonora, bem, nada poderia ser mais propício que canções do ABBA – incluindo “Dancing Queen” – e a clássica “I Will Survive”, música destinada ao sofrimento das mulheres negras na América, mas que foi eternizada como o maior símbolo musical gay de todos os tempos graças a este filme.


Existem poucas coisas que pagam ver o sério Elrond da Terra Média – dos filmes do “Senhor dos Anéis” e de “O Hobbit – como um travesti que tem dúvidas quanto a algumas relações que deve fazer ou não, não que ele não tenha certeza, de fato Anthony/Mitzi é bem resolvido quanto sua sexualidade, mas outros problemas, que serão mostrados mais para frente, assolam sua mente fértil. Weaving está ótimo no papel, e nos passa as dúvidas de um homem que tem um passado, no qual talvez não seja uma grande idéia remexer. E se poucas coisas podem pagar ver Weaving nessa situação, a interpretação de Guy Pearce é impagável. É uma pena que o filme tenha sido feito em uma época em que poucas pessoas tinham a cabeça aberta a novas coisas (é bom lembrar que a Sétima Arte só começou a se livrar dos preconceitos quando Ang Lee surgiu com “O Segredo de Brokback Moutain”, filme que seria o preferido de Felicia, sem dúvida alguma), e foi por esse motivo que a interpretação de Adam/Felicia de Pearce passou tão despercebida pelas premiações mundo a fora, enfim, o ator está simplesmente incrível, talvez por sua personagem ser o gay mais “espalhafatoso” dos três, ou pelo simples fato de que ele deixa a naturalidade da personagem transparecer de forma tão simples que tudo o que Felicia faz se torna um escândalo. O veterano Terence Stamp dá vida a Bernadette, uma mulher segura de si, de seus desejos e suas escolhas, feitas no passado ou no presente. Stamp está sóbrio de forma inacreditável, sem se importar com as fofocas ou os mexericos das cidades onde eles vão, e, quando se importa, o faz de forma tão calma que quase se torna uma verdadeira dama.


“Priscilla” abriu caminhos para que a temática da homossexualidade como algo normal fosse se tornando mais fácil e aceitável para o público, como disse, foi apenas em 2005, com o longa de Lee que a abordagem do tema se tornou algo realmente normal, sendo visto mais e mais vezes, de forma singela e tratando o assunto como ele realmente deve ser tratado: não somente para falar do preconceito, mas para mostrar que esse segmento da sociedade – tão marginalizado e excluído – merece tanto quanto qualquer outro ser humano uma chance de ser feliz. Mais que isso, o filme é essencial para qualquer homossexual que se preza. Dizer não ao preconceito pode até ser algo difícil, mas ficará muito mais fácil viver em um mundo cheio de diferenças após conferir toda a originalidade que só pode ser proporcionada por Mitzi, Felicia, Bernadette, o Deserto e, é claro, Priscilla, a Rainha do Deserto.


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