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sábado, 11 de maio de 2013

075. LEIS DA ATRAÇÃO, de Peter Howitt


Pode não ser um grande filme, mas é uma excelente comédia romântica.
Nota:8,5


Título Original: Laws of Attraction
Direção: Peter Howitt
Elenco: Julianne Moore, Pierce Brosnan, Michael Sheen, Parker Posey, Frances Fisher, Nora Dunn. Heather Ann Nurgerg, Johnny Myers, Mike Doyle, Allan Houston, Annie Ryan, Vincent Marzello, Sara James, John Discepolo, Annika Pergament
Produção: David Bergstein, Julie Burk, David T. Friendly, Beau St. Clair, Marc Turtletaud
Roteiro: Aline Brosh McKenna e Robert Harling
Ano: 2004
Duração: 90 min.
Gênero: Comédia / Romance

Audrey Woods e Daniel Rafferty são os maiores advogados especializados em divórcio da cidade de Nova York. Enfrentando-se em várias ocasiões, os dois acabam dormindo juntos. Tal ato faz despertar mais ódio de Audrey quando Daniel utiliza essa atitude para se dar bem. Enquanto isso, um dos casais mais badalados do momento, o roqueiro Thorne Jamison e a estilista Serena, vivem uma crise em seu casamento. E é quando os dois decidem se separar que Audrey e Daniel enfrentarão uma de suas maiores aventuras profissionais e pessoais, pois, de uma forma inexplicável, os dois ficarão bêbados e irão se casar enquanto resolvem um pequeno problema de seus clientes na Irlanda.


Peter Howitt não é um grande diretor de cinema, tem poucos filmes no currículo e esse é o melhor deles. Apesar disso, sua direção nesse filme é algo muito bem vindo, sendo seu maior trunfo um elenco de peso que dá conta do recado sem precisar ser guiado o tempo todo. As imagens do longa são bonitas, a fotografia da Irlanda é bem característica, a trilha sonora de Ed Shearmur – que trabalhou em diversos gêneros diferentes – é divertida e as tomadas e ângulos em que o filme foi gravado são bem escolhidas por Howitt. Todavia, apesar de a direção superar expectativas, não é bem ela que mais chama a atenção no campo técnico do filme – até por que, o mais importante, divertido e qualitativo no longa, volto a dizer, são as interpretações maravilhosas -, e sim o roteiro de Aline Brosh McKenna e Robert Harling. Aline iniciou sua carreira no cinema em 1999 com “Um Caso a Três”, cinco anos depois veio “Leis da Atração”, mas foi em 2006 que se destacou ao adaptar o romance “O Diabo Veste Prada” – filme que contou com a presença das vencedoras do Oscar Anne Hathaway e Meryl Streep -, depois vieram bons trabalhos como “Vestida para Casar” (2008), “Uma Manhã Gloriosa” (2010), “Não Sei Como Ela Consegue” (2011) e o excelente “Compramos um Zoológico” (2011), apesar de todos serem comédias e nem todos terem tido um resultado muito bom, todos possuem histórias muito boas e enredos divertidos. Harling, por sua vez, é um destaque na televisão, tendo escrito apenas esse filme e os ótimos “O Clube das Desquitadas” (1996) e “O Entardecer de uma Estrela” (1996). O que interessa em “Leis da Atração” é a forma irreverente como o tema é tratado, abordando os vários lados da vida de duas pessoas bem sucedidas profissionalmente que ainda não encontraram a harmonia pessoal, contraponto o lado que deixa o destino falar por si próprio e se deixa ser levado pela emoção momentânea, e o lado controlado, racional, que não permite que algo sobrenatural – como o destino -, tome conta de sua vida.


Julianne Moore é uma da atrizes de maior sucesso de sua época, e, provavelmente, uma das que manteve a carreira mais estável. A construção e a interpretação vista aqui de Audrey por ela se torna interessante justamente pelo fato de ela negar a paixão que está sentindo, assim sendo, Moore não nos presenteia com uma daquelas atuações emocionantes de dramas como o que fez em “As Horas” (2004) e sim uma performance simples, sobre uma mulher como qualquer outra, que não sabe ao certo o que fazer com sua vida amorosa. Pierce Brosnan, famoso por interpretar James Bond em quatro filmes da franquia do agente 007, é Daniel Rafferty, aproveitando toda a sensualidade acerca do ator advinda dos anos que viveu Bond, Brosnan permanece como um homem sexy, inteligente e que deveria conquistar a todas as mulher com a apenas um olhar, entretanto, encontra dificuldade ao tentar conquistar Woods, mesmo assim, ao contrário do que a personagem de Moore faz, o personagem de Brosnan assume a paixão. Mesmo que eu goste de Moore e Brosnan e goste de suas atuações no longa, ninguém é tão bom nesse filme como Michael Sheen, a ultima vez que havia assistido a esse filme deve ter sido há uns oito anos – o que para mim, hoje com 18, é um tempo considerável – obviamente, quando o assisti há poucos dias não acreditei que era Sheen no papel do roqueiro Thorne Jamison (para já deixar claro quem ele interpreta, selecionei a foto abaixo), Sheen nos traz uma rica construção de Jamison, sendo desprezível em alguns momentos e extremamente engraçado em outros, realmente um homem totalmente diferente do Primeiro Ministro Tony Blair vivido por ele no longa pelo qual comecei a admirar o trabalho do ator, “A Rainha” (2006). Ao lado de Sheen está Perker Posey vivendo Serena, não sei se a interpretação dela é ofuscada pelas dos dois protagonistas ou pela de Sheen, o fato é que Posey está apagada demais, sem graça, sem segurança alguma e parece uma principiante o tempo todo. Para completar o elenco, uma participação bem pequena, mas muito divertida de Frances Fisher, como a coroa bonitona mãe de Audrey.


Nos perguntamos o que atraiu Audrey e Daniel, duas almas, aparentemente tão diferentes, uma mulher justa que luta com os artifícios seguindo todas as regras da moral e da boa conduta, e um homem que se vira como pode, não deixando de negar as mentiras e trapaças para conseguir o que deseja profissionalmente e satisfazer seus clientes. Certa amiga, mais precisamente aquela professora Piti de quem falo na descrição de meu perfil, escreveu uma vez sobre a beleza de nos apaixonarmos, em seu texto, refletia sobre o que nos instigava e atraia em outro ser humano, ela, bem como a ciência, constatou que é apenas um detalhe, apenas um que tem a chance de mostrar todas as qualidades do outro e nos dar a alegria de estar ao lado de alguém que amamos. Eu digo mais, concordo com ela, mas me atrevo a dizer que as várias paixões que temos são motivadas pelo mesmo detalhe, seja por uma beleza diferenciada, por uma carreira profissional bem sucedida (não me refiro a parte financeira, me refiro ao sucesso profissional aliado a satisfação pessoal), pela personalidade (seja ela fraca, forte, ou o que for), pela pureza, ou pela sensualidade. Não importa o que seja, a verdadeira lei da atração ainda permanece como uma incógnita, mas não se pode negar toda sua beleza.

078. AMOR A TODA PROVA, de Glenn Ficarra e John Requa

“Louco, Estúpido, Amor”, definitivamente a melhor definição desse sentimento!
Nota: 9,2


Título Original: Crazy, Stupid, Love.
Direção: Glen Ficarra e John Requa
Elenco: Steve Carrel, Julianne Moore, Ryan Gosling, Emma Stone, Analeigh Tipton, Jonah Bobo, Joey King, Marisa Tomei, Beth Littleford, John Carroll Lynch, Kevin Bacon, Janine Barris, Josh Groban, Mekia Cox, Julianna Guill, Zayne Emory, Crystal Reed
Produção: Steve Carell, Denise Di Novi
Roteiro: Dan Fogelman
Ano: 2011
Dureção: 118 min.
Gênero: Comédia / Romance

Cal Weaver tinha uma vida aparentemente perfeita: filhos jovens, uma bela esposa, um bom trabalho e uma casa ótima. Todavia, seu mundo desaba quando Emily, a esposa, conta que dormiu com um colega de trabalho, David Lundhagen. Desolado, Cal vai embora de casa e resolve passar as noites em um bar. Lá, o novo solteiro conhece Jacob Palmer, um playboy que vive a vida azarando as mulheres e levando-as para a cama. Ao mesmo tempo em que tudo isso acontece, o filho de Cal, Robbie, se apaixona pela baba de sua irmã, Jessica, filha de um casal amigo dos Weaver, mas a jovem está apaixonada por Cal. Além disso, Jacob paquera Hannah, que tem namorado e dá um fora em Jacob, mas que se arrepende ao se decepcinar com o tal namorado.


Obviamente, assim como ocorre na vida real, as histórias de todos começam a se entrelaçar de forma que uma personagem não consegue se desvencilhar da outra, o que faz com que todos se enredem de forma única na vida da família Weaver, e pior, no momento mais crítico que eles já viveram. Acrescente a isso, temos personalidades e histórias muito comuns ao nosso dia-a-dia, e por isso acabamos nos identificando com tudo: Cal Weaver é um homem que passou dos 40, apesar de não parecer muito velho, veste-se mal, com roupas que o desvalorizam completamente, e parece ter deixado o casamento cair em uma rotina terrível; Emily Weaver é uma mulher relativamente bem sucedida que acaba se arrependendo de trair o marido, mas que precisava fazer isso, afinal, essa tal rotina em que o casamento dos dois caiu estava deixando a mulher louca – não que eu concorde com o que ela fez; Jacob Palmer é o perfeito conquistador que não se importa em perder uma ou outra mulher, que tem todas as suas mais variadas e infalíveis táticas para fazer com que uma mulher queira ir para cama com ele; Hannah é a jovem iludida que deseja se dar bem profissional e pessoalmente ao mesmo tempo, mas que acabará entendendo que isso é praticamente impossível sem ao menos uma desilusão aqui ou outra ali; Bernie Riley e Claire Riley, pais de Jessica, são o perfeito casal que parece não conversar há anos, o que está deixando o casamento dos dois muito chato; David Lindhagen, o amante, é o homem que se apaixona pela colega de trabalho que está casada, mas não parece ver isso como um empecilho; Jessica é a menina apaixonada pelo cara mais velho; Robbie é o menino apaixonado pela garota mais velha; e a professora de Robbie, Kate Taffety, é uma ex-alcoólatra que anda louca para beber um pouco. Glenn Ficarra e John Requa realizaram um tal de “I Love You Phillip Morris” – traduzido, ridiculamente, no Brasil como “O Golpista do Ano” (2009) -, um filme chato e muito sem graça, sendo assim, eu não esperava grandes coisas desse filme, no entanto, Dan Fogelman, o roteirista, já escreveu excelentes animações: “Carros” (2006), “Bolt – Supercão” (2008), “Enrolados” (2010) e “Carros 2” (2011). Sendo assim, ficou a esperança de que o ótimo e carismático elenco, e o bom roteirista infantil, nos trouxessem a menos um bom filme. Para mim, aqui, acaba acontecendo mais que isso, não estamos diante de uma obra, mas, ainda assim, temos um filme bem feito que retrata, com certa perfeição, como a vida pode ser.


Steve Carell é, sem dúvida, um dos melhores comediantes do cinema/televisão contemporâneo, aqui ele vive Cal, apesar de não gostar muito dos filmes que o ator faz – justo por serem comédias -, acho sua atuação aqui muito boa, pelo simples fato de que ele está dramático, deixando o lado cômico vir naturalmente, trazendo o estilo que adora da vida sendo uma comédia de erros, ou seja, Cal é um homem que está à beira da derrota pessoal, mas não há como as situações que ocorrem na vida deixarem de ser engraçadas, pelo fato de que o humor negro, o deboche da própria vida, é o melhor que pode existir. Ao seu lado, está a sempre ótima e linda Julianne Moore, como a esposa Emily, a idade parece estar fazendo bem a atriz que, além de mais bonita, parece ter voltado com a naturalidade e a espontaneidade de comédia que ela tinha no começo do século, ao viver Emily ela alterna entre a mulher que quer mudar de vida e a mulher arrependida que deseja voltar para o marido, entretanto, podemos ver sua escolha final apenas no olhar de Moore durante toda a trama. Ryan Gosling vive o charmoso Jacob Palmer que resolve, sabe-se lá o porquê, ajudar Cal quando o vê em um bar, mas antes disso já podemos fazer idéia do perfil do personagem: Gosling transforma o olhar, o caminhar, a forma de sorrir e falar de seu personagem em puro clichê de como um conquistador barato se comporta, no entanto, mostra-se bem mais que isso ao encontrar alguém por quem realmente valha à pena mudar, mas que, mesmo assim, seja merecedora de algo melhor. Apesar de um pouco apagada nesse filme, Emma Stone apresenta mais uma boa atuação como Hannah, nos mostrando uma jovem sonhadora, mas que acaba sendo abrigada a permanecer com os pés no chão para não se decepcionar pelo resto de sua vida. Analeigh Tipton, Jonah Bobo e Joey King são, respectivamente, Jessica, Robbie e Molly, ela, uma adolescente apaixonada inconsequente, eles, os filhos do casal protagonista, Bobo está bem no papel de um garoto de 13 anos que se sente um adulto em relação aos seus sentimentos. Por fim, Kevin Bacon e Marisa Tomei estão perfeitos como o amante, David e a professora, Kate.


Não há como escapar do enfadado destino de ser um brasileiro que reclama sobre as péssimas traduções de títulos de filmes estrangeiros. Não que “Amor a Toda Prova” não seja propício, mas na essência desse longa nada é posto a prova, não é apenas o fato de um dos casais ter sido infiel que está em jogo, afinal, outros casais estão se formando, e cada um deles segue sua vida de forma diferente. Volto a dizer, o título ficou bom, dessa vez ficou realmente bom, mas o que o longa deseja passar está longe da mensagem de que o amor de todos será posto a prova um dia, de fato, isso acaba sendo mostrado, mas o principal gira em torno de toda a loucura acerca desse sentimento tão enigmático que é o amor. Na tradução literal, o título seria “Louco, Estúpido, Amor”, e que forma mais perfeita de se definir o amor que não como algo louco e estúpido? Algo que mexe e desperta coisas de dentro de nós que nem sabíamos que poderiam existir, mas, acima de tudo, um sentimento que nos faz agir de formas completamente diferente, nos tornado audaciosos, românticos, intensos, felizes, sagazes e, por que não, loucos e estúpidos.

sábado, 26 de janeiro de 2013

120. HANNIBAL, de Ridley Scott


A volta de Hannibal Lecter só prova uma coisa: enquanto houver seres humanos para servirem de alimento, o maior canibal do cinema permanecerá forte e vivo.
Nota: 9,2


Título Original: Hannibal
Direção: Ridley Scott
Elenco: Anthony Hopkins, Julianne Moore, Gary Oldman, Ray Liotta, Frankie Faison, Giancarlo Giannini, Francesca Neri, Zelijko Ivanek, Hazelle Goodman, David Andrews, Francis Guinan
Produção: Dino De Laurentiis, Martha De Laurentiis, Ridley Scott
Roteiro: David Mamet, Steven Zaillian e Thomas Harris (romance)
Ano: 2001
Duração: 131 min.
Gênero: Drama / Thriller

Aviso: antes de ler qualquer comentário sobre esse filme, acho bom esclarecer as ordens em que os longas sobre Hannibal Lecter foram lançados e a ordem cronológica:
Em ordem de lançamento: “O Silêncio dos Inocentes” (1991), “Hannibal” (2001), “Dragão Vermelho” (2004) e “Hannibal – A Origem do Mal” (2007).
Em ordem cronológica: “Hannibal – A Origem do Mal”, “Dragão Vermelho”, “O Silêncio dos Inocentes” e “Hannibal”.

Enquanto Manson Verger, uma das vítimas do Dr. Hannibal Lecter – Verger se apaixonou por Lecter, sádico, como somente o canibal pode ser, Hannibal drogou Verger, que cortou seu próprio rosto, desfigurando-se -, Clarice Starling, a agente do FBI que esteve com Hannibal antes de sua fuga, volta a procurar o criminoso. Entretanto, lidar com Hannibal Lecter não é uma tarefa fácil e o que era um jogo entre um homem vingativo e a polícia, se tornar mais uma manipulação do serial killer mais adorado do cinema.


Ridley Scott tem alguns bons títulos no cinema, alguns fracassos e algumas grandes produções, dentre elas “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979), “Thelma e Louise” (1991), “Gladiador” (2000), “Falcão Negro em Perigo” (2001), “Cruzada” (2005), “O Gângster” (2007), Robin Hood” (2010) e “Prometheus” (2012). Após o sucesso estrondoso e inacreditável de “O Silêncio dos Inocentes” (1991), a primeira história de Hannibal Lacter adaptada para o cinema, onde o assassino ajuda Clarice Starling a encontrar outro serial killer para que possa cometer uma fuga digna de cinema – o filme é um dos únicos que venceu as cinco categorias mais importantes do Oscar: filme, direção, ator, atriz e roteiro adaptado –, era de se esperar que uma sequência entrasse ou para a lista das sequências dispensáveis, ou para as memoráveis. Apesar de o filme ser ótimo, temos a primeira opção. Isso se deve, principalmente, pela substituição da atriz que interpreta a agente Starling, acrescente a isso, o roteiro é mais fraco e não há toda aquela tensão proposta pelo primeiro longa. Em contra ponto, a trilha sonora de Hans Zimmer é tão incrível – se não melhor – quanto a de Howard Shore (responsável por “O Silêncio dos Inocentes”), a edição e mixagem de som são perfeitas e a montagem das cenas é incrível, repleta de metáforas e referências a própria história.


Anthony Hopkins volta a dar vida ao personagem mais enigmático e incrível do cinema e da literatura contemporâneos. Assim como no primeiro filme, vemos uma interpretação sem defeito algum, a única diferença é que o próprio personagem está ficando mais velho, todavia, sua sede e apetite por carne humana não diminuiu, bem como sua loucura, seu caráter, seu bom gosto, sua indiferença as suas vítimas, sua determinação, sua astúcia, e, sobretudo, sua invisibilidade. Não há, simplesmente, como não fazer comparações rápidas de Julianne Moore (Starling desse filme) com Jodie Foster (Starling de “O Silêncio dos Inocentes”), Moore nos apresenta uma personagem mais madura, com menos medo de tudo a sua volta, no entanto, sua Starling é menos natural, um pouco mais artificial e clichê que a de Foster, mesmo assim, não há como negar: é difícil decidir qual das duas encarou melhor Starling, bem como é praticamente impossível saber se teria sido melhor Foster continuar ou Moore ter assumido desde o primeiro longa. Sempre que assinto a um filme com Gary Oldman sem saber que ele está no filme me surpreendo quando descubro qual era sua personagem, por algum motivo deixei passar seu nome durante a abertura, e por outro motivo mais estúpido, não recordava que ele estava na produção, mas mereço um desconto por não o ter reconhecido logo de cara: ele vive Manson Verger, o homem louco totalmente desfigurado. O fato é que o personagem já era louco antes de conhecer Hannibal – ele estuprava crianças, o que já é o suficiente para ser odiado -, sendo assim, resta a Oldman tornar esse homem ainda mais detestável e repugnante, não por sua aparência, mas por seus atos e pela forma como age perante todos, além disso, não há intenção de humanizar Verger em momento algum. Por fim, temos a excelente atuação de Giancarlo Giannini, de “007 – Cassino Royale” (2006) e “007 – Quantum of Solace” (2008), que interpreta o Inspetor Rinaldo Pazzi, um homem que descobre o paradeiro de Lecter, mas que prefere ficar com o segredo para si e entregar o criminoso para Verger, que está oferecendo três milhões de dólares pelo assassino; o medo, a desconfiança e o desespero de Pazzi são notados a cada olhar de Giannini.


Não existe outro ator que pudesse viver o Doutor Hannibal Lecter com tanta classe e sobriedade quanto Anthony Hopkins, isso, porque apenas o ator poderia imortalizar uma personagem tão complexa, e mais, somente ele poderia interpretar com tanta veracidade um homem que perturbaria qualquer profissional da sétima arte. Apesar de um problema aqui e outro ali, o fato de termos a volta de Hannibal e o time de atores que compõe esse elenco, faz do longa mais um filme memorável, não somente sobre mais um serial killer digno de filmes a seu respeito, e sim, do maior, melhor e mais inteligente serial killer produzido pelas indústrias do entretenimento e da cultura, juntas. O melhor de tudo fica a cargo do desfecho, que nos dá apenas uma certeza, mas a melhor certeza de todas: nada mudará para Hannibal Lecter enquanto ele puder saciar sua gula pela carne humana. 


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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

141. CHEGADAS E PARTIDAS, de Lasse Hallström


Manchete: Filme essencial sobre superação, com Kevin Spacey, Julianne Moore e Judi Dench
Nota: 8,6



Título Original: The Shipping News
Direção: Lasse Hallström
Elenco: Kevin Spacey, Julianne Moore, Judi Dench, Cate Blanchett, Pete Postlethwaite, Scott Glenn, Rhys Ifans, Gordon Pinsent
Produção: Rob Cowan, Linda Goldstein Knowlton, Leslie Holleran, Irwin Winkler, Bob Weinstein, Harvey Weinstein
Roteiro: Robert Nelson Jacobs e Annie Proulx (romance)
Ano: 2001
Duração:  111 min.
Gênero: Drama / Comédia

Quoyle é um homem trabalhador que dá um duro na vida para conciliar a educação que deve dar à sua filha com o relacionamento terrível com sua esposa, Petal. Quando seu pai, com quem ele se dava terrivelmente mau, e sua mãe morrem, sua esposa aproveita para fugir com a filha do casal, mas logo é a vez de Petal encontrar seu fim e Quoyle fica com a garota. Em meio a toda essa confusão, surge a meia tia de Quoyle, irmã de seu pai, a qual Quoyle nem conhecia, e acaba convidando ele e a filha para voltarem para as origens da família: um vilarejo no meio do nada em Newfoundland. Uma vez lá, pai e filha descobrirão uma vida nova que os aguarda pautada no legado deixado por seus ancestrais que ali viveram.


O sueco Lasse Hallström tornou-se conhecido e respeitado no cinema pelo longa “Minha Vida de Cachorro” (1985), ainda dirigiu Johnny Depp e Leonardo Di Caprio em “Gilbert Grape – Aprendiz de um Sonhador” (1993), mas foi apenas em 2000 que se tornou popular no mundo todo com o filme “Chocolate”, que conta com Juliette Binoche, Depp e a própria Judi Dench com o qual agradou o público, a crítica e premiações mundo à fora. Apesar da simplicidade com a qual o diretor trata o filme, ele tem ao seu lado a exuberância das locações onde o longa foi feito e um roteiro maravilhoso. Aliás, a roteiro é baseado no romance de Annie Proulx ( a mesma do conto que deu origem ao filme “O Segredo de Brokeback Mountain”, 2005, dirigido por Ang Lee), e o roteirista é Robert Nelson Jacobs, o curioso acerca do roteirista é que seus trabalhos foram sempre destinados ao público infantil, mas ao lado de Hollström ele se transforma e nos presenteia com roteiros fantásticos: tanto em “Chocolate”, quanto em “Chegadas e Partidas” temos histórias que nos fazem pensar em dezenas de escolhas e costumes morais que seguimos apenas por que estamos acomodados a eles.


Kevin Spacey dá vida ao estranho Quoyle, um homem de bem com a vida, mas um tanto idiota e submisso demais para o mundo terrível em que vivemos, talvez por isso seja tão bom e gratificante para a personagem ir para um lugar totalmente novo: mostrar como pode ser útil e aprender um pouco sobre o passado de sua família para entender o presente e melhorar o futuro. Julianne Moore, como sempre excelente, é a recatada Wavey Prowse, uma mulher que ficou sozinha com o filho deficiente quando o marido morreu em um acidente de barco (aliás, essa é a única forma que o povo da nova cidade de Quoyle sabe viver, dos frutos advindos do mar), mas que parece estar esperando não pelo milagre da volta do marido, e sim pelo milagre do aparecimento de um homem verdadeiramente bom que mude tudo ao seu redor. Judi Dench dispensa apresentações ou elogios para exaltar sua capacidade em interpretar qualquer personagem que lhe for proposto, aqui ela não tem nada de muito diferente de qualquer mulher comum, a não ser por um pequeno detalhe sem relevância alguma, o fato é que sua personagem carrega dúvidas, problemas e segredos que a idade insiste em manter e é aí que está a genialidade da atriz: não deixar transparecer nada até que lhe seja imposto revelar o que ela esconde sobre o passado.


“Chegadas e Partidas” é aquele tipo de filme que reafirma a frase proposta pelos filósofos: nunca podemos entrar em um mesmo rio duas vezes, afinal, após sairmos dele uma vez a correnteza passará, levando impurezas, seres vivos e, principalmente, a água. Da mesma forma acontece com a vida: as mudanças nos proporcionam a troca de centenas de sentimentos e pessoas em nossa vida. Logo, podemos concluir que a vida é um eterno vem-e-vai, de chegadas e partidas.
CONFIRA: INDICADOS AO BAFTA 2013, o Oscar dos Britânicos:

Melhor Filme
Argo
Os Miseráveis
As Aventuras de Pi
Lincoln
A Hora Mais Escura

Melhor Diretor
Michael Haneke - Amour
Ben Affleck - Argo
Quentin Tarantino - Django Livre
Ang Lee - As Aventuras de Pi
Kathryn Bigelow - A Hora Mais Escura

Melhor Ator
Ben Affleck - Argo
Bradley Cooper - O Lado Bom da Vida
Daniel Day-Lewis - Lincoln
Hugh Jackman - Os Miseráveis
Joaquin Phoenix - O Mestre

Melhor Atriz
Emmanuellle Riva - Amour
Helen Mirren - Hitchcock
Jennifer Lawrence - O Lado Bom da Vida
Jessica Chastain - A Hora Mais Escura
Marion Cotillard - Ferrugem e Osso

Melhor Ator Coadjuvante
Alan Arkin - Argo
Christoph Waltz - Django Livre
Javier Bardem - 007 - Operação Skyfall
Philip Seymour Hoffman - O Mestre
Tommy Lee Jones - Lincoln

Melhor Atriz Coadjuvante
Amy Adams - O Mestre
Anne Hathaway - Os Miseráveis
Helen Hunt - As Sessões
Judi Dench - 007 - Operação Skyfall
Sally Field - Lincoln

Melhor Atriz/Ator em Ascensão
Elizabeth Olsen
Andrea Riseborough
Suraj Sharma
Juno Temple
Alicia Vikander
Melhor Filme Britânico
Anna Karenina
O Exótico Hotel Marigold
Os Miseráveis
Sete Psicopatas e um Shih Tzu
007 - Operação Skyfall

Melhor Filme Britânico de Estreia de um Roteirista, Diretor ou Produtor
The Imposter - Bart Layton (diretor), Dimitri Doganis (produtor)
McCullin - David Morris (direror), Jacqui Morris (diretor/produtor)
Wild Bill - Dexter Fletcher (diretor/ roteirista), Danny King (roteirista)
Os Muppets - James Bobin (diretor)
I am Nasrine - Tina Gharavi (diretora/ roteirista)

Melhor Filme em Língua Estrangeira
Amour (Áustria)
Headhunters (Noruega)
A Caça (Dinamarca)
Ferrugem e Osso (França)
Intocáveis (França)

Melhor Longa Animado
Valente
Frankenweenie
ParaNorman

Melhor Roteiro Original
Michael Haneke - Amour
Quentin Tarantino - Django Livre
Paul Thomas Anderson - O Mestre
Wes Anderson, Roman Coppola - Moonrise Kingdom
Mark Boal - A Hora Mais Escura

Melhor Roteiro Adaptado
Chris Terrio - Argo
Lucy Alibar, Benh Zeitlin - Indomável Sonhadora
David Magee - As Aventuras de Pi
Tony Kushner - Lincoln
David O. Russell - O Lado Bom da Vida

Melhor Trilha Sonora Original
Dario Marianelli - Anna Karenina
Alexandre Desplat - Argo
Mychael Danna - As Aventuras de Pi
John Williams - Lincoln
Thomas Newman - 007 - Operação Skyfall

Melhor Fotografia
Anna Karenina
Os Miseráveis
As Aventuras de Pi
Lincoln
007 - Operação Skyfall

Melhor Edição
Argo
Django Livre
As Aventuras de Pi
007 - Operação Skyfall
A Hora Mais Escura

Melhor Design de Produção
Anna Karenina
Os Miseráveis
As Aventuras de Pi
Lincoln
007 - Operação Skyfall

Melhor Figurino
Anna Karenina
Grandes Esperanças
Os Miseráveis
Lincoln
Branca de Neve e o Caçador

Melhor Som
Django Livre
O Hobbit - Uma Jornada Inesperada
Os Miseráveis
As Aventuras de Pi
007 - Operação Skyfall

Melhores Efeitos Visuais
Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge
O Hobbit - Uma Jornada Inesperada
As Aventuras de Pi
Os Vingadores
Prometheus

Melhor Maquiagem
Anna Karenina
Hitchcock
O Hobbit - Uma Jornada Inesperada
Os Miseráveis
Lincoln

Melhor Curta Animado
Here to Fall
I'm Fine Thanks
The Making of Longbird

Melhor Curta
The Curse
Good Night
Swimmer
Tumult
The Voorman Problem

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terça-feira, 19 de junho de 2012

269. AS HORAS, de Stephen Daldry

Uma obra do cinema moderno.
Nota: 9,2


Título Original: The Hours
Direção: Stephen Daldry
Elenco: Meryl Streep, Nicole Kidman, Julianne Moore, Ed Harris, John C. Reilly, Stephen Dillane, Toni Collette, Claire Danes, Jeff Daniels, Miranda Richardson, Allison Janney
Produção: Robert Fox, Scott Rudin
Roteiro: David Hare e Michael Cunningham (romance)
Ano: 2002
Duração: 114 min.
Gênero: Drama

Três histórias desenrolam-se durante a trama, em três períodos diferentes, com três mulheres diferentes, com um livro em comum, “Mrs. Dalloway”. Na década de 1920 a escritora Virgínia Woolf enfrenta problemas de depressão enquanto escreve o livro; no final da década de 1940 Laura Brown, lê o livro de Woolf e enfrenta dificuldades de entender sua própria vida e seu casamento, ela está grávida, possui uma bela família, mas não tem certeza se deseja continuar vivendo; nos dias atuais Clarissa Vaughn vive parte da história contada no livro e simultaneamente prepara uma festa para o amigo Richard que será homenageado por sua contribuição à literatura.



Stephen Daldry realizou poucos filmes como diretor, dentre eles os ótimos “Billy Elliot” (2000), sobre um menino que possuí talento inconfundível para o balé, mas que terá de enfrentar todo o preconceito acerca de sua escolha; “O Leitor” (2008), com a vencedora do Oscar Kate Winslet e Ralph Fiennes, sobre escolhas, medos, mitos, vergonhas, amor e experiências da vida; e mais recentemente o bom “Tão Forte e Tão Perto” (2011), indicado ao Oscar, conta com Tom Hanks e Sandra Bullock no elenco e debate acerca de buscas e decisões que podem ou não nos levar a descobertas. Nesses três filmes e em “As Horas” não posso avaliar o trabalho do diretor como menos que excelente, ele aborda cada tema de seus filmes com muita naturalidade e vai fundo na essência de cada um para nos trazer emoção e compreensão para com as personagens. “As Horas” é, sem dúvida, seu melhor filme, aqui ele nos apresenta três histórias distintas, em três tempos distintos, com costumes e valores totalmente remodelados pela sociedade com o tempo. Daldry é, portanto, inimaginável e impecável em seu trabalho. O compositor da trilha sonora, merecidamente indicada ao Oscar, é Philip Glass, ele nos presenteia com músicas que conseguem ser o mais melodramáticas possíveis, adequando-as perfeitamente à trama.


Virginia Wollf e Nicole Kidman em sua
            caracterização linda como a personagem.
Essencialmente temos apenas três atuações que fazem desse filme uma obra: Nicole Kidman como Virginia Woolf, Julianne Moore como Laura Brown e a homenageada da semana, Meryl Streep como Clarissa Vaughan. Kidman está totalmente transformada para esse filme que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz, ela é triste, depressiva, desleixada, arrogante e uma mulher cheia de dúvidas e medos quanto à sua vida, apesar de simpatizar com a atriz, aliás, esse trio é muito simpático, devo admitir que ela nunca atuou muito bem, e talvez seja por isso que o que ela faz aqui é tão belo, por ser inesperado e fantástico. Moore é uma das atrizes que mais gosto, ela faz a vez de uma mulher da década de 1940 que tanta manter as aparências de uma esposa e mãe feliz, que nunca tem problemas e que está sempre de bem com a vida, mas no fundo está com sérios problemas, tanto pela leitura do livro, quanto por não saber ao certo o que quer da vida. Streep tem em mãos a personagem mais moderna e, talvez a menos complexa das três, e é isso que faz sua atuação tão magnífica, mesmo Clarissa, aparentemente, ser menos complicada que as outras duas personagens, a atriz nos trás uma mulher que sofre e relembra o passado com felicidade, mas que não tem bem certeza se fez o certo com sua vida. Os homens que acompanham essas mulheres são os maridos das duas primeiras, respectivamente, Stephen Dillane e John C. Heilly, e o grande amigo e amante do passado de Clarissa, um homem que já está farto da vida, com AIDS e que deseja morrer o quanto antes, Ed Harris nos impressiona com uma das melhores interpretações masculinas do ano.



“As Horas” vem para nos mostrar exatamente como nossa vida é feita de tempo, como cada segundo é precioso para determinarmos o futuro de nossas vidas e a felicidade acerca dele. Com atuações brilhantes, direção impecável, um roteiro que poderia ser chato e previsível, mas que é maravilhoso, e uma trilha sonora calma, mas que nos deixa agitados por seu alto teor de melancolia, ele é uma obra do cinema moderno, por, sem mais delongas, ser tão sincero e nos apresentar a vida como ela realmente é: difícil e cheia de problemas, dúvidas e medos, mas que pode ser realmente vivida caso possamos encontrar a nós mesmos sozinhos, sem ajuda de qualquer outro ser humano.

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