São 399 dias, e 399 críticas. No final dessas 399 críticas, serão postadas notícias, biografias de grandes nomes do cinema e da televisão e críticas e outros textos relacionados a filmes, séries e minisséries.
Um filme sutil e sensível que apresenta
uma paixão intensa e real, regada a frontal, fanta laranja, muito gelo e dois
dedos d’água.
João é um adolescente ignorado pela
família e pelos colegas de escola. Viciado em calmantes, o garoto acaba se
tornando depressivo e os pais decidem interná-lo em uma clínica psiquiátrica.
Lá, João conhece Judite, uma dependente química 16 anos mais velha que ele, HIV
positivo em fase terminal. Além dela, o menino conhece outras pessoas, novas
histórias, diferentes realidades, futuros incertos. Apesar de estarem uma
clínica psiquiátrica, João e Judite acabam se apaixonando e iniciam um romance
intenso. Nesse contexto, João parece disposto a viver o momento e deixar que as
coisas aconteçam naturalmente, ao passo que Judite sabe que sua morte próxima
abalará o garoto.
“Boa Sorte” é baseado no conto de Jorge
Futardo, “Frontal com Fanta”, e possui roteiro do próprio escritor em parceria
com o filho Pedro Furtado. Apesar de o roteirista ser bem conhecido pelo
público tanto por trabalhos na televisão quanto para o cinema – o que inclui
filmes como “Ilha das Flores” (1989), “Caramuru – A Invenção do Brasil” (2001),
“O Homem que Copiava” (2003), “Meu tio Matou um Cara” (2004), “Decamerão, a Comédia
do Sexo” (2009) e “Doce de Mãe” (2012) – Carolina Jabor havia dirigido apenas
um longa metragem – o documentário “O Mistério do Samba” (2008) – antes de
encarar “Boa Sorte”, seu primeiro longa de ficção. Nenhum deles – tanto Furtado
quanto Jabor – decepcionam. O roteiro é conciso e simples, o que facilita o
entendimento para qualquer tipo de público. Não existem grandes nuances. Furado
diz o que quer dizer, mostra uma realidade pouco vista no cinema brasileiro e
apresenta um desfecho previsível, mas nem por isso, decepcionante. Por outro
lado, Carolina tem a sensibilidade necessária para levar o argumento para a
tela de forma a emocionar o espectador. Sem ser apelativa, a diretora mostra o
romance de João e Judite como qualquer outro amor entre dois jovens, onde existem
descobertas, medos, delírios. Além disso, a diretora opta por planos simples, o
que torna tudo mais natural e cotidiano, lembrando que os próprios personagens
são tão comuns quanto qualquer outra pessoa no mundo.
Apesar de toda essa simplicidade, deve-se
destacar o uso de metáforas sutis usadas quase que o tempo todo. O maior prazer
de João até agora é tomar frontal com fanta laranja. Segundo o jovem, quando o
faz, ele se torna invisível, pode entrar onde quiser, olhar para quem quiser,
fazer o que quiser – com tanto que não toque em ninguém – que jamais será
notado. Uma referência clara a como os jovens são ignorados pela sociedade e
pelos pais, que estão mais preocupados em ganhar dinheiro e em viver suas vidas
mesquinhas. A doença de Judite, sem dúvida, também pode ser vista como uma
maneira de dizer que todos estamos doentes de alguma forma. Contribuindo para
essas representações apuradas, ainda há a direção de arte perspicaz de Claudio
Amaral Peixoto. Cada ambiente do filme reproduz o interior dos personagens que
nele vivem. A clínica, por exemplo, é um prédio velho, sujo e feio, como seus
habitantes, parece doente, mal cuidado, esquecido por aquela sociedade
mesquinha e egoísta. A casa da família de João é uma completa bagunça, o que
mostra como as cabeças dos pais, do irmão e do próprio João vivem em um
verdadeiro caos. As roupas que os personagens usam, por outro lado, evidenciam
sua personalidade: Judite é alternativa, sempre usando roupas diferentes – uma
eterna metamórfica -, João é mais neutro, mais esquecido, sendo visto com
roupas mais cruas.
Após ler o conto de Jorge Furtado,
Deborah Secco, apaixonada por Judite, procurou o escritor para comprar os
direitos para torná-lo um filme. Quando a atriz descobriu que os direitos já
haviam sido comprados por Carolina Jabor, implorou por um teste para que
pudesse viver a personagem. Jabor aceitou e Deborah foi selecionada. E, com o
perdão da piada, que sorte foi a atriz ter insistido. Como a própria Deborah
apontou, essa é a personagem de sua carreira. Deborah, mas uma vez, prova que
há muito vem deixando de lado qualquer estereótipo de mulher bonita e sensual,
tornando-se uma das atrizes mais versáteis e inteligentes de sua geração. Como
Judite ela emociona, excita e choca, vencendo o desafio de interpretar a
personagem mais icônica e interessante de sua carreira. Apesar de ter feito
alguns poucos trabalhos destacáveis no cinema, João Pedro Zappa não havia
protagonizado nenhum filme até viver o João de “Boa Sorte”. Ainda assim, o ator
mostra a que veio e, diferente de Deborah Secco que possui os momentos
despojados de Judite para brincar e extravasar um pouco com a personagem, lida
bem com a neutralidade de João, brincando de forma mais contida, sempre
lembrando que o personagem é um jovem ignorado e nunca notado por ninguém. A
química entre os atores flui naturalmente e nada na relação de João e Judite
parece ser forçado, muito pelo contrário, tudo é muito intenso e inspirador.
Como todo o restante do longa, os demais
atores selecionados são discretos e compõe o filme cada um à sua maneira.
Cássia Kis Magro faz uma participação rápida como a médica responsável pela
clínica, uma mulher que, como qualquer outro personagem alienado, não dá a
mínima para os jovens, assim como os pais de João, vividos por Felipe Camargo e
Gisele Fróes. Deve-se destacar, entretanto, Pablo Sanábio, como o também
paciente da clínica Felipe, um rapaz expressivo, um artista que não se define
como louco, afinal “louco que é artista, não é louco, é artista”, Pablo é, de
certa forma, a manifestação das indignações dos jovens, é a voz que grita e
escancara a forma como os jovens são tratados e ignorados. Por fim, Fernanda
Montenegro é Célia, a avó de Judite. Diferente dos demais adultos do filme, ela
tenta compreender a neta. Não é preciso dizer que a atriz encara essa senhora
única, difícil de ser definida, com singularidade. Em certo momento, Fernanda
Montenegro, no auge de seus 85 anos, na pele dessa mulher mais do que pra
frente, denuncia a corrupção, os erros e pede por um Brasil melhor, depois,
chega em casa e, para esquecer as frustrações, bola um baseado em uma página da
bíblia, e o fuma, alegando que a maconha é a única droga que presta, pois é
barata e não faz mal a ninguém.
Com delicadeza e segurança, Caroline
Jabor trabalha com os atores o com o argumento que lhe foi disponibilizado para
apresentar um filme singelo, porém perturbador e muito reflexivo. Segundo ela
mesma, sua intenção era realizar um filme cotidiano e atual, mesmo que a
história se passe antes das grandes evoluções medicinais para que a AIDS
tivesse um tratamento diferenciado. Os personagens possuem diferentes
personalidades e formas de ver a vida. Cada um deles, provavelmente, fará com
que o espectador lembre das pessoas que o cercam em seu dia-a-dia e, por que não
afirmar, que a identificação com ao menos um deles será inevitável. “Boa Sorte”
é o tipo de filme que deixa dúvidas acerca da vida e da morte, todavia, não se
pode dizer que deixa dúvidas sobre ele mesmo. O longa sabe a que veio e atinge
seus propósitos ao denunciar uma sociedade “doente do corpo, do espírito” ao
abordar com simplicidade a história de um casal que aprende um com o outro.
Ele, aprendendo a viver. Ela, se preparando para a morte.
Um filme tocante sobre o olhar da
juventude em relação aos absurdos que resistiram na era pós Ditadura Militar no
Brasil
Título Original: Depois da Chuva
Direção, Roteiro e Produção: Cláudio
Marques e Marília Hughes
Elenco: Pedro Maia, Sophia Corral, Zeca
Abreu, Ricardo Burgos, Paula Carneiro, Talis Castro, Victor Corujeira, Aícha
Marques
Ano: 2014
Duração: 95 min.
Gênero: Drama / Histórico
O ano é 1984. Jovens de todo o país
comemoram o que, teoricamente, seria o fim da Ditadura Militar. Em Salvador,
Bahia, alguns estudantes se reúnem e exigem de uma escola da classe média que
seja autorizada a criação de um grêmio estudantil para que os interesses dos
alunos sejam explorados. Resistente, o corpo docente da escola aceita que a eleição
para o grêmio, como a eleição para presidente no país, seja feita de forma
indireta. Após vinte anos de repressão, alguns alunos acreditam que essa forma
vá contra a democracia estabelecida para aniquilar com o regime ditatorial.
Outros acreditam que conseguir o apoio da escola para a criação do grêmio já é
uma vitória, e que a forma como isso será feito pela primeira vez não é muito
relevante. Caio, um dos jovens, acredita que, assim como a política brasileira,
a criação desse grêmio não mudará nada. Logo, ele decide continuar vivendo sua
vida e esquecer as tais eleições para presidência do grêmio.
Dessa forma, o longa acompanha Caio, o
protagonista, por todas as suas descobertas como adolescente e cidadão, seus anseios,
problemas, incertezas, questionamentos. A sexualidade começa a aflorar de forma
nítida quando o jovem se apaixona pela colega de classe, Fernanda, enquanto a
política adentra em seu cotidiano na medida que o garoto começa a perceber o
quanto as coisas ainda estavam erradas no país. Em uma das cenas mais expressivas
do longa, por exemplo, os alunos se apresentam em uma espécie de show de talentos.
Após um deles entoar ao som de um violão e de forma simples e “sensata” “Pra
não dizer que eu não falei das flores”, canção símbolo da época de autoria de
Geraldo Vandré, Caio e seus amigos aparecem no palco travestidos e cantando um
rock do qual quase não compreendemos a letra. Mas também, não é preciso que
entendamos qualquer coisa do que é dito. Segundos antes da cena começar, a
Semana de Arte Moderna de 1922 é citada com ênfase. Sobre o olhar reprovador da
professora e de alguns alunos, bem como aconteceu com os artistas do início do
século passado, Caio e seus colegas que estão no palco quebram com os padrões
vigentes de forma que até Anita Malfati e Mario de Andrade se orgulhariam de
poder se levantar para aplaudir. No final das contas, a professora e uma
minoria do corpo discente permanece estático e mudo. A maioria maciça aplaude
aos gritos, aprovando a performance.
Essa é, sem dúvida, a primeira forma de
o protagonista externar sua indignação sobre o que está acontecendo, sobre a
sociedade e a política brasileira. Depois ainda virá um problema com uma
redação muito realista, a qual a professora considera um ultraje. Nela, Caio
expressa sua opinião de como nada mudou. O que podemos concluir da leitura
feita posteriormente é que o garoto pensa que não basta que um militar não
esteja na presidência no Brasil, para que as coisas mudem, é preciso que o
pensamento da população mude e que ela lute por um país melhor, não apenas na
teoria, mas na prática. E se for preciso querer e fazer o impossível para
chegar a essas melhorias, que seja. Mas a professora não é a única a reprimir
as atitudes do menino. O diretor da escola também faz isso. E aí nota-se uma
comparação clara: o ambiente escolar, os muros que cercam a escola nada mais
são que não as barreiras impostas por uma ditadura. A escola nada mais é que a
representação do regime ditatorial que governou o país durante vinte anos,
alegando que tudo sempre estava muito bem e que o país evoluía cada dia mais.
Os pais de Caio também não ajudam muito para que o jovem seja compreendido. A
mãe é relapsa, do tipo que está muito mais preocupada com sua imagem, chegando
a justificar a falta de atenção para com o filho afirmando que ela não dá
problemas para ele, e que ele não pode fazer o mesmo. O pai, que mora em outra
casa, mal liga para o garoto.
Em meio a toda essa ficção, Cláudio Marques
e Marília Hughes trazem cenas reais da época. Misturando cenas ficcionais,
baseadas na juventude do diretor, com cenas documentais coletadas por todo o
país que mostram Brasília e o Rio de Janeiro, por exemplo. Assim, em,
inacreditavelmente, seu primeiro longa-metragem, Cláudio e Marília unem a
ficção e a realidade da forma mais inteligentes possível. Cenas que trazem cidadãos
sendo reprimidos pela polícia militar, comícios de políticos que prometem
melhorar o país, cenas que mostram reações positivas da população em manifestações
(a maioria sufocada pela polícia), momentos cruciais para a política nacional,
como a eleição de Tancredo Neves como presidente e a eclosão da AIDS no mundo.
Propagandas e outras referências, como músicas, revelam a forma como a
sociedade vivia e via o mundo. De forma séria e discreta, os autores brincam
com esses elementos, com frases e nomes de pessoas importantes, fazendo alusões
espertas e concisas a coisas e pessoas que marcaram a história contemporânea do
Brasil. Tais cenas, ficcionais (geralmente alternando com muita ou pouca luz) ou
documentais (aparentemente amadoras para os dias de hoje), são mostradas com
poucos cortes, fazendo com que o ritmo do longa flua naturalmente e com closes
intimistas que se aproximam de determinadas partes dos corpos dos personagens.
Outro trabalho impressionante dos
diretores é em relação aos atores. Pedro Maia, escolhido a dedo para viver
Caio, por exemplo, passou por um processo de preparação de oito meses. Tempo
suficiente para que os autores conhecessem o jovem a ponto de modificar o
roteiro original para que Caio e Pedro não fossem tão diferentes. A
caracterização é tão forte que as poucas expressões de Pedro Maia, em sua
estreia no cinema, denotam o que se passa no interior de Caio. Aliás, o que se
passa no interior de todos os jovens (do Brasil e do mundo) conscientes, não
importa a época, quando percebem que alguma coisa está errada no país em que
vivem. Mais que isso: Caio é a personificação do próprio país que está tentando
gritar o medo, o desespero, a agonia que sente, mas não pode por estar sendo
reprimido por todos à sua volta. E talvez é aí que esteja a beleza da relação
do protagonista com Fernanda. Com ela, representada de forma simples e muito tocante
por Sophia Corral, Caio pode ser ele mesmo. A personagem também foi adaptada
para que Sophia e Fernanda fossem mais semelhantes. Sofia, aliás, foi escolhida
justamente por ela e Pedro Maia já terem uma relação de amizade próxima.
Segundo os diretores, os coadjuvantes da escola também eram os colegas de
classe de Pedro, o que facilitava o ator se sentir mais a vontade durante as
filmagens. As demais relações de Caio podem ser resumidas em relações que o
oprimem (com a mãe, com o pai, com os professores, com os colegas de escola) e
em relações que o apoiam (de forma geral, com os amigos de verdade, pessoas
mais velhas que conheceu fora do colégio).
A princípio, Caio está distante das
eleições para o grêmio estudantil, mais tarde, convencido por Fernanda, o jovem
decide se tornar o presidente do grêmio e é eleito. Pouco antes disso, Tancredo
Neves, a esperança de o Brasil se tornar um país democrático e justo, é eleito
presidente da nação. Em uma cena memorável, o hino nacional é tocado (provando,
mais uma vez, o quanto a trilha sonora desse filme é impressionante) enquanto
jovens andam pelas ruínas de uma imensa fábrica de cimento na capital baiana.
Quase que paralelamente à morte do presidente, um jovem se suicida. Preocupados com o
passado histórico do Brasil e resgatando arquivos impressionantes, Cláudio e
Marília criaram uma história simples, que pode ser adaptável para qualquer tempo
e qualquer ser humano, ao passo que é muito fácil se identificar com os
personagens. Um desses resgates, e uma dessas identificações, fica pelo
destaque dado à morte de Tancredo: o país se torna órfão num momento em que
todos precisam da figura paterna representada pelo líder, pelo pai que podia
resolver os problemas e que traria certa salvação da ditadura. Ao menos essa
era a esperança do povo. O que “Depois da Chuva” faz com quem o assiste,
principalmente com os jovens, tenha esse indivíduo vivenciado a ditadura ou
não, tenha sido ele ou sua família perseguido pelo regime ou não, saiba ele ou
não tudo o que o período de vinte anos significou para a nação, é tocar o mais
profundo possível de sua alma como ser humano e cidadão brasileiro.
Elenco e equipe 46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2013, onde venceu os prêmios de melhor ator (Pedro Maia), melhor roteiro (Cláudio Marques e Marília Hughes) e melhor trilha sonora)
Após dois filmes, Coppola mostra que
ainda pode surpreender e encerra a saga da família Corleone com chave de ouro.
Nota: 9,7
Título Original: The Godfather Part III
Direção: Francis Ford Coppola
Elenco: Al Pacino, Diane Keaton, Talia
Shire, Andy Garcia, Eli Wallach, Joe Mantegna, George Hamilton, Bridget Fonda,
Sofia Coppola, Raf Vallone, Franc D’Ambrosio, Donal Donnelly, Richard Bright,
Helmut Berger, Don Novello, John Savage, Franco Citti, Mario Donatone, Vittorio
Duse, Enzo Robutti, Richele Russo, Al Martino, Robert Cicchini, Rogerio
Miranda, Carlos Miranda, Vito Antuofermo,
Produção: Francis Ford Coppola, Gray
Frederickson, Fred Fuchs, Nicholas Gage, Marina Gefter, Charles Mulvehill e
Fred Roos
Roteiro: Francis Ford Coppola e Mario
Puzo
Ano: 1990
Duração: 170 min.
Gênero: Drama / Crime
CONFIRA O TRAILER DO FILME:
Michael Corleone ficou conhecido por ser
filho de Don Vito Corleone, um dos italianos mais poderosos da América. Depois
da morte do pai, mesmo tendo outros dois irmãos, Michael se tornou o novo Don
Corleone e, surpreendentemente, tornou-se muito mais poderoso, rico e influente
que seu pai. Hoje, passaram-se aproximadamente 20 anos desde que Vito morreu.
Os filhos e sobrinhos de Michael são adultos, Kay continua preferindo se manter
distante do pai dos filhos e Connie permanece junto ao irmão em qualquer
ocasião. Mas Michael está ficando velho, e, apesar de os mafiosos terem o poder
de adiantar algumas mortes, nem mesmo eles podem detê-la para sempre.
“O Poderoso Chefão – Parte III” inicia
com uma homenagem que Michael recebe da Santa Igreja Católica, homenagem
ofertada pelo próprio Papa. Após a cerimônia, todos se reúnem em uma festa
muito bonita e agradável, onde Michael doa cem milhões de dólares para a
Igreja. E aí já começamos a ver o quanto os Corleone serão sempre os mesmos,
não importa o que aconteça. Após 14 anos, Francis Ford Coppola lançou o
derradeiro filme de sua trilogia épica. As décadas de 1970 e 1980 foram de
extrema importância para o cinema moderno devido a nova geração de cineastas
que começou a se impor, trazendo técnicas e temas inéditos, inovadores e
inspiradores. Foi devido a essas novidades que os filmes da época conquistaram
o público de forma inacreditável e serviam de modelo para outros cineastas, que
passaram a experimentar e até desenvolver técnicas propostas por nomes como Coppola,
Martin Scorsese, Woody Allen, George Lucas e Steven Spilberg. E se as primeiras
partes daquela trilogia inspiraram as décadas de 70 e 80, podemos afirmar que a
terceira parte da série foi referência para inúmeros filmes da década de 90.
Dentre os exemplos, podemos citar a edição ágil e clássica proposta por Lisa
Fruchtman, Barry Malkin e Walter Murch, a direção de arte e a produção de
design dos irmãos Alex e Dean Tavoularis, e a iluminação e fotografia de Gordon
Willis, proposta que vinha desde a primeira parte da trilogia.
Mario Puzo, que eternizou seu nome na
Sétima Arte através dos filmes baseados em seu romance homônimo, está ao lado
de Coppola para finalizar a série. Aqui, a história se torna mais moderna e um
pouco menos impactante que nos dois primeiros longas. Temos um Michael
diferente do visto nos outros filmes. Já não é mais um menino que cometeu seu
primeiro assassinato. Também não é um homem que está começando a se firmar como
o merecido herdeiro do pai. O Don Michael Corleone do final da década de 70
(quando ocorre a história) é um homem que se arrepende de seu passado, um homem
debilitado que está começando a compreender que não é mais capaz de chefiar
todos os seus negócios pela idade. E se Michael já não possui aquele vigor de
outrora, o mesmo podemos dizer de Connie e Kay. Enquanto a irmã já perdoou
Michael pelo assassinato do marido traíra, Kay ainda se ressente por seu grande
amor ter se tornado uma pessoa tão diferente. E essas novas personalidades,
essa forma de apresentar personagens maduros, se contrasta com os personagens
mais jovens vividos pelos filhos e sobrinhos do protagonista: indivíduos cheios
de vida que buscam por seus amores e sonhos. O próximo Don, por exemplo, e isso
fica claro desde a primeira aparição do personagem, é o filho bastardo de
Sonny. Vincent é o perfeito retrato do pai: temperamental e louco pelo poder.
Ainda nessa geração, temos os filhos de Michael. Mary é uma jovem sonhadora que
se apaixona por Vincent e está decidida a viver esse amor, não importa o que
qualquer pessoa pense a respeito. Anthony também tem sua paixão e luta por ela,
mas o amor deste é a música e, mesmo que Michael queira obrigá-lo a ser seu
sucessor, o jovem está pronto para ir até o fim em se dedicar à sua arte.
Mas nem tudo nesse roteiro é tão novo
quanto as personalidades dos personagens ou essa relação com a Igreja: existem
dezenas de semelhanças entre esse filme e a primeira parte da trilogia. A
primeira já é vista logo no início. Quando Michael é homenageado e depois
oferece uma festa aos seus “afilhados” vemos uma clara referência ao casamento
de Connie. Depois, temos o tiroteio que tem como objetivo aniquilar alguns Dons,
o que inclui Michael. Esteticamente, a cena lembra o assassinato de Sonny, mas também
pode ser uma referência à tentativa de assassinato de Vito. Enquanto no
primeiro filme os tiros atingem Vito e o levam para o hospital, aqui, Michael,
que é diabético, tem um ataque devido ao susto e vai para o hospital. A reação
dos Corleone diante desses eventos, entretanto, é a mesma: Michael, na primeira
parte, comete seu primeiro assassinato para vingar o pai, e aqui, Vincent
assassina o homem que ordenou o ataque contra o tio. De qualquer forma, Vito e Michael,
mesmo vingados, ficam à beira da morte. E quando percebem que está na hora de
passar seu poder adiante, eles o fazem. Vito deixa claro que o próximo Don
Corleone será Michael, ao passo que este nomeia Vincent seu sucessor. No
desfecho da trama, Michael revive o primeiro filme: enquanto ele assistia a
missa após se tornar Don, dezenas de inimigos eram assassinados por sua ordem,
aqui, os assassinatos são coordenados por Vincent enquanto Michael assiste à
ópera do filho. Como aconteceu com Vito, por fim, Michael também morre de forma
pacífica, estando velho e sem sentir dores. Apesar de viverem momentos
distintos, ambos estavam sentados sobre o sol da manhã.
Apontei como os Corleone são os melhores
anti-heróis já criados quando disse, na crítica do primeiro filme da saga dessa
família, que eles são o que há de mais podre na face da terra e, mesmo sabendo
disso, os amamos. E Michael é um dos grandes responsáveis por isso. Ou melhor,
Al Pacino é um dos grandes responsáveis por qualquer afeição que nutrimos pelo
personagem e por sua família. No início, ele é o filho que não deseja seguir os
passos do pai, por isso o amamos. Depois, vinga sua família com sangue e, por
isso, ganha nossa admiração. Mais tarde, ordena que o irmão seja assassinado,
mas justifica o ato alegando que Fredo estaria comprometendo a família. E mesmo
com este fratricídio, continuamos amando Michael. E o personagem passa a ser mais
amado ainda pelos estadunidenses após suas palavras ensaiadas sobre ser um americano
cumpridor dos deveres no discurso que o livra da cadeia. Mas Al Pacino não é
apenas o responsável por viver o maior anti-herói da história do cinema, ele é
um assombro ainda maior que nos primeiros filmes da série, pois está ainda mais
expressivo. Tanto Michael, quanto Al, são mais experientes, portanto, já
viveram mais e estão mais aptos para enfrentar as dificuldades da velhice.
Desta vez, Pacino não repetiu a dose de ser indicado ao Oscar (havia sido indicado
como melhor ator coadjuvante pelo primeiro filme e como melhor ator pelo
segundo), mas, talvez, seja essa sua interpretação mais dramática e verdadeira
em toda a trilogia. O trabalho que, sem dúvidas, merecia o prêmio da Academia.
Todavia Al Pacino não é o único
intérprete que volta ao longa com mais experiência e sagacidade. Diane Keaton,
a ex esposa Kay Adams, e Talia Shire, a irmã Connie, repetem suas personagens.
Keaton demora a aparecer, mas quando surge em cena se mostra a mesma mulher dos
outros filmes: mãe zelosa e mulher apaixonada. As duas cenas que definem isso
são explícitas: em uma, deixa claro a Michael que estará ao lado de Anthony na
ideia de largar o direito e se tornar músico, na outra, passeia ao lado do ex
marido pela cidade onde o falecido sogro nasceu, e acaba confessando a Michael
que sempre o amou. Shire, por outro lado, não possui nenhuma grande cena, mas
aparece em vários momentos demonstrando que a Connie submissa ao marido morreu
e deu lugar a uma mulher de fibra que, finalmente, compreendeu o que significa
fazer parte da família Corleone. Ambas as atrizes fazem tudo demonstrando como
suas personagens cresceram e aprenderam com o que viveram. São duas atrizes que
voltam às suas personagens depois de 14 anos, mas não que interpretam mulheres
completamente distintas daquelas que largaram no passado. Diferente disso: a
Kay doce e romântica e a Connie fiel à família estão lá mais do que nunca.
O elenco, entretanto, não pode ser
resumido a duas atrizes e um ator como se isso fosse uma comédia romântica.
Longe disso. Longe de ser um elenco de três pessoas e mais longe ainda de ser
uma comédia romântica. Andy Garcia, indicado ao Oscar por seu Vincent, lembra
muito (a nós e aos personagens) o pai que morreu de forma trágica (assassinado
com a ajuda do marido de Connie). E talvez esse seja o ponto alto do ator, uma
vez que Sonny representava um personagem tão particular e expressivo, até por
que, Garcia apenas lembra o pai do personagem, mas não se tornar uma caricatura
ou cópia. Sofia Coppola vem para provar que a década de 90 foi uma das mais românticas
do cinema moderno. Ela vive uma Mary boba, inocente e apaixonada por Vincent,
uma menina mimada e sem graça. Coppola não possui nada de muito interessante e
chega a ser chata em algumas cenas. Ainda bem que a atriz passou para o outro
lado da câmera e se tornou uma diretora competente e admirável. Franc
D’Ambrosio fecha o elenco principal da família como Anthony Vito Corleone,
apesar de ser um ótimo ator, esse foi o único filme da carreira de D’Ambrosio,
que se mostra um verdadeiro cantor ao interpretar a canção “Brucia La Luna”. Só
para não deixar de citar os demais personagens importante, aqui vai uma pequena
lista: Eli Wallach dá vida ao vira-casacas Don Altobello, Joe Mantegna, vive o
desafeto Zoey Zasa, Raf Vallone, o Cardeal Lamberto, Donal Donnelly, o Arcebispo
Gilday e John Savage, interpreta o filho de Tom Hagen, Padre Andrew Hagen.
Sequências de qualquer tipo de série de
filmes sempre dão aquele frio na barriga. Com a trilogia de Coppola não foi
diferente. Entretanto, poucas vezes vimos sequências tão satisfatórias como
essas. O segundo filme da série mescla as histórias de Michael e Vito e se
torna o filme mais violento dos três. A terceira parte, todavia, se mostra um
filme mais psicológico, um longa que está disposto a abordar as consequências
de tudo o que Michael fez. Consequências sofridas por ele e por toda sua
família. Consequências que afetam a consciência do protagonista do início ao
fim. O filme, definitivamente, não é o melhor da trilogia, até por que, nenhum
filme feito até hoje no cinema supera a primeira parte, mas não podemos negar a
qualidade e a importância do desfecho da história. Assim sendo, não foi apenas
por ter homenageado a trilogia na centésima e na ducentésima críticas do blog
que escolhi a terceira parte da saga dos Corleone para finalizar as 399
críticas. Após 398 análises, acho justo que termine este trabalho da mesma
forma que Francis Ford Coppola finalizou a melhor trilogia da história do
cinema: com dignidade e muita qualidade. Com chave de ouro.
Como fiz com os outros dois filmes da
série, abaixo segue a lista dos dez melhores momentos do longa (as informações
abaixo contém SPOILER):
10.Homenagem e festa: o início do filme,
como citei, já lembra quem é a família Corleone e do que eles estão dispostos
para subirem ainda mais na sociedade. Essa cena mistura a alegria do povo
italiano com a malandragem dos mafiosos como se tudo fosse uma coisa só;
09.Michael revela seu interesse pela
International Immobiliare: pode não ser uma cena impactante, mas é uma cena
de grande valor para o contexto e é muito bom ver o Don Michael Corleone
fazendo negócios, ou melhor, fazendo suas propostas irrecusáveis;
08.
Tarde de Michael e Kay passeando pela cidade: apesar de ser uma cena simples,
evoca os outros filmes, o passado dos Corleone e a relação bonita que o casal
tinha quando Kay ainda achava que políticos eram honestos;
07.Volta de Michael para a Itália:
aliando-se ao fato de Michael reunir a família para prestigiar o sucesso do
filho, é o momento em que o protagonista sai do hospital e mostra a todos que o
Don Corleone está vivo e bem de saúde, capaz de tomar as rédeas da própria
vida;
06.Michael aceita Vincent como seu herdeiro:
após Vincent provar ao tio que é digno de sua confiança, Michael o reconhece
como seu sobrinho, chamando-o de Vincent Corleone, e declarando que ele será
seu sucessor. Como foi feito com Michael no final do primeiro filme da
trilogia, os homens se aproximam de Vincent e beijam a mão do novo Don;
05.
Massacre:
em uma cena épica, os “aliados” de Michael sofrem um homicídio em massa
orquestrado por Altobello e Zasa. A cena é perfeita e não poupa em mostram os
homens morrendo. Além disso, a sequência, onde Michael tem seu ataque devido a
glicemia e a pressão, é uma das cenas mais forte do longa;
04.
Confissão de Michael Corleone: após 30 anos sem se confessar,
finalmente, Michael, em sua passagem pela Itália, encontra com um pároco e,
como um bom católico que realmente é, resolve se acertar com Deus. Michael
confessa seus crimes, o que inclui a morte do irmão, Fredo. A cena é impactante
e memorável justamente por isso: friamente, Michael fala que já matou e ordenou
que matassem, e, com todo o sentimentalismo do mundo, revela, chorando, que
mandou matarem seu próprio irmão;
03.
Anthony entoa a canção “Brucia la Terra”: a letra de Giuseppe Rinaldi acompanha
a música tema criada por Nino Rota, um dos temas mais inesquecíveis do cinema.
D’Ambrosio tem a voz perfeita para a canção e a emoção gerada por ela (e por Al
Pacino) é inexplicável;
02.
Noite na ópera:
desde o momento em que os personagens chegam ao local da apresentação, passando
pelas mortes de vários personagens (o que inclui o Papa), até o momento final
em que Michael e Kay choram pela morte da filha. A cena tem a mesma tensão
proposta pela cena principal do filme “O Homem que Sabia Demais” de Alfred
Hitchcock e é o momento mais expressivo dos protagonistas: indo de alegria pelo
sucesso do filho, ao desespero pela morte da filha;
01.
Morte de Michael Corleone: se esse fosse um filme isolado, provavelmente
teria escolhido a cena da ópera como a melhor do filme, mas estamos falando de
uma trilogia. Uma trilogia que mostra a passagem de poder de um pai para seu
filho, assim, quando Michael resolve passar seus poderes como Don para seu
sobrinho, ele fecha um ciclo. Outras pessoas veem essa trilogia como sendo o
relato da vida de Michael. De qualquer forma, a morte de Michael é o final
definitivo deste ciclo.
Denunciando a realidade nordestina,
Glauber Rocha questiona: quem é o herói e quem é o vilão? Quem é Deus? Quem é o
Diabo?
Nota: 9,8
Título Original: Deus e o Diabo na Terra
do Sol
Direção: Glauber Rocha
Elenco: Geraldo Del Rey, Yoná Magalhães,
Othan Bastos, Maurício do Valle, Lidio Silva, Sonia Dos Humildes, João Gama,
Antonio Pinto, Milton Rosa, Roque Araújo
Produção:
Roteiro: Glauber Rocha, Walter Lima Jr.
E Paulo Gil Soares
Ano: 1964
Duração: 119 min.
Gênero: Drama
CONFIRA O TRAILER DO FILME:
Manuel e Rosa são um casal que vive no
sertão nordestino trabalhando sol a sol para garantir seu sustento. Certo dia,
Manuel conhece um homem, Sebastião, que já está sendo considerado santo pelo
povo da região. Esperançoso, Manuel encontra a esposa a esposa que,
indiferente, fingi não ouvir uma palavra do marido. Como de costume, o vaqueiro
segue seu rumo e leva pouco mais de uma dezena de vacas até um coronel.
Chegando lá, Manuel informa que perdeu alguns bichos no meio do caminho. O
coronel lhe nega qualquer pagamento, alegando que os animais que morreram eram
os de Manuel. Revoltado, o vaqueiro acaba matando o latifundiário. Desesperado
e arrependido deste pecado, Manuel corre até Sebastião, pedindo por clemência.
Não se engane se imagina que, depois de
todos os acontecimentos, Manuel será perdoado de forma bela e que poderá seguir
sua vida sem preocupações. Muito pelo contrário. Sebastião faz promessas e mais
promessas ao povo nordestino. Como Antonio Conselheiro, quer que o povo
compreenda que todos devem lutar contra o sistema que privilegia os
latifundiários. De forma utópica, garante à população que, se tiveram fé em
Deus, quando morrerem, os pobres ficarão ricos. Já os ricos, ficarão pobres nas
“profundezas do inferno”. Enquanto o “santo” prega suas visões, a igreja e os
latifundiários contratam Antonio das Mortes para dar fim em Sebastião. Em uma
das cenas mais impressionantes do cinema, entretanto, o beato comete um
assassinato sem perdão. Após Manuel subir um morro com uma pedra na cabeça, o
“Santo” ordena que ele traga a mulher (descrente de tudo) para o topo junto com
uma criança. O que vem a seguir é aterrador: Sebastião apunhala a criança
frivolamente. Ameaçada, Rosa consegue pegar o punhal e mata o tal “santo”.
Antonio das Mortes, chega ao local, comete uma chacina, verifica que Sebastião
já está morto e deixa Manuel e Rosa vivos para contar a história. Acompanhados
pelo cego Julio, Rosa e Manuel acabam encontrando Corisco, herdeiro de Lampião,
que jurou vingança quando soube dos assassinatos do amigo e de Maria Bonita.
Daí pra frente, Manuel se tornará um cangaceiro e Rosa os acompanhará para
todos os lugares. Antonio das Mortes, estimulado pelo governo, está atrás de
Corisco.
“Deus e o Diabo na Terra do Sol” é
considerado, por muitos críticos e especialistas o melhor filme da história do
cinema brasileiro. Os que discordam dessa afirmação não se opõe ao fato de ser
um dos filmes mais importantes do cinema nacional. Glauber Rocha, o gênio por
trás da obra, e o precursor do cinema novo no Brasil, apresenta a verdadeira
identidade do povo nordestino. Revela a inocência dos pobres e a ganância dos
ricos. Mostra que o povo, em sua maioria, estava sujeito às influências de
qualquer homem que pudesse prometer um futuro melhor, mesmo que depois da
morte. Por outro lado, também mostra a igreja e os latifundiários que desejavam
permanecer no poder e, para tanto, não mediam esforços para isso. Depois,
Glauber confunde nossos pensamentos quando vemos Sebastião sacrificando um
bebê. Por que Deus precisaria de uma alma tão pura e inocente? Quem, realmente,
era Sebastião? Representante de Deus ou do Diabo? Mais à frente, Manuel
encontrará Corisco, o representante dos anti-heróis do nordeste, os
cangaceiros. A princípio, Corisco de posta como um defensor dos pobres e
oprimidos, um homem justo e fiel a sua causa: impedir que os pobres morram de
fome. No momento seguinte, estupra uma noiva e ordena que Manuel “castre” o
noivo, que assistiu a tudo sem poder fazer nada. Quem é Corisco? Representante
de Deus ou do Diabo? E aquela Igreja Católica e os latifundiários? São eles
Deuses que defendem o povo das interpretações tortas de Sebastião, ou serão
Diabos que querem permanecer no poder?
O roteiro do filme, por trazer tantos
questionamentos e tantas dúvidas aos espectadores, pode ser o maior trunfo de Glauber
Rocha, mas não é só dele que o filme é feito. Claro que, em alguns momentos,
essas dúvidas levam a confusão ao extremo e o filme parece se perder em sua
própria filosofia. Mas isso é recuperado com rapidez e tudo volta a ser
compreensível. Glauber reconhece essas possibilidades. Assim, não se prende
apenas ao roteiro para tornar “Deus e o Diabo na Terra do Sol” um filme tão
importante para o cinema nacional. Este longa foi uma das grandes produções nacionais
desde que o cinema brasileiro surgiu. As denúncias feitas por Glauber já haviam
sido feitas em grandes clássicos da literatura nacional, mas era a primeira vez
que aquilo tudo se tornava mais palpável para populações do sul e do sudeste do
país, por exemplo, que viviam longe de toda a realidade sertaneja. A trilha
sonora, composta por Sérgio Ricardo e com letras de Glauber Rocha, mistura a
canção de cordel com elementos da música de Villa-Lobos, identificando-se os
elementos culturais da região em cada música. Vale apontar que a trilha, aqui,
é essencial. O filme não chega a ser um musical, mas é a música de cordel
cantada em off em momentos específicos que contam a história dos personagens. A
fotografia de Roque Araújo surpreende em todos os sentidos: por ser um filme
pioneiro no cinema novo e por ser um trabalho feito em filme ainda preto e
branco. A maestria de Roque é vista, especialmente, pela forma incrível como os
espaços sertanejos são mostrados. Inúmeras vezes, vemos cenas panorâmicas de
tirar o fôlego, que mostram a realidade física do sertão nordestino. A
qualidade do sonora de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, justamente por ser um
filme antigo e por misturar algumas músicas aos diálogos, também surpreende e é
excelente. A edição de Rafael Justo Valverde mistura momentos acelerados com
momentos mais monótonos, o que confere mais verossimilhança em relação ao
contexto representado. Por fim, aliando-se a toda a qualidade técnica, estão os
intérpretes de personagens tão bem criados por Glauber e desenvolvidos pelo
elenco.
Geraldo Del Rey traz um Manuel que exala
esperança, que crê em Deus e nos milagres que ele pode realizar. Quando Manuel
conhece Sebastião, entretanto, seu desespero confunde sua fé e ele acaba
acreditando que o “padrinho” é um mensageiro do Senhor que veio para lhe trazer
uma vida melhor. Mesmo depois que Rosa mata Sebastião, Manuel continua fiel ao
“santo”, chegando a entrar para o cangaço para “vingar a morte do padim”. Del
Rey é o maior responsável por nos confundir entre o que representa Deus e o que
representa o Diabo. Na cena em que Corisco ordena que ele castre o tal noivo,
Manuel segura, em uma mão, uma cruz, e, na outra, a faca para fazer o serviço.
Aliás, quando entra para o cangaço, Manuel passa a se chamar Satanás. Ao lado
de Geraldo, está Yoná Magalhães, como Rosa. Apesar de a personagem não ter
muitas falas (característica que marca o todo o filme), Magalhães se sustenta
com o olhar e com os gestos. Rosa é uma mulher que parece cética para uns, mas
pode ser vista como uma mulher realista. A cena em que a personagem mata
Sebastião, é vista, pelo espectador, como um momento de libertação. Não há como
não ver na Rosa de Magalhães uma espécie de salvadora que liberta o povo das
loucuras de um homem que se autoproclamava santo. Maurício do Valle, intérprete
de Antônio das Mortes, possui muito mais falas que Yoná, mas sustenta o
personagem pela expressão e pela dúvida. Antônio não sabe qual o melhor
caminho, qual é o caminho mais certo, não sabe o que Deus acha melhor, não sabe
quem é o verdadeiro representante de Deus. Othon Bastos entra depois da metade
do filme, mas ele é um dos personagens mais fortes do elenco e do cinema novo.
Corisco é um homem astuto, decidido e corajoso, que defende os oprimidos. Em
pelo menos três momentos, Othon toma a cena com monólogos poéticos que parecem
ter vindo de grandes peças shakespearianas, mas são verdadeiros momentos
escritos por um homem que conhece de berço a realidade do povo nordestino,
Glauber Rocha.
“Deus e o Diabo na Terra do Sol”, que
completa 50 anos em 2014, é um dos filmes mais expressivos do cinema brasileiro.
Sem dúvida, marcou uma época e um estilo de filmes muito particulares. Não há
como questionar a beleza na intenção de Glauber Rocha em denunciar os problemas
brasileiros. Problemas, que assolaram o país durante séculos e mais séculos,
mas que persistiram no nordeste ainda muito depois de o sistema ser modificado.
Os diálogos intensos, os monólogos impetuosos, as canções de cordel, o modo de
falar regional, as cenas estarrecedoras, o ritmo alternado, o cenário árido, as
interpretações marcantes e a realidade assombrosa fazem de “Deus e o Diabo na
Terra do Sol” um filme completo. Mas, de tudo isso, o que mais adentra na alma
do espectador são as dúvidas, as questões, as incertezas, enfim, as
interrogações levantadas pelo longa. Quem é Deus? Quem é o Diabo? O título em
inglês do filme foi estabelecido como “Black God, White Devil” (Deus Negro,
Diabo Branco), mas será que é tão simples assim? Será que basta influenciar a
mente do espectador a crer que nem tudo é o que parece? Ou o buraco é mais
embaixo? Aqui, temos apenas uma certeza: todos estão na Terra do Sol, do Sol
escaldante, do Sol impiedoso, do Sol incessante. Mas quem é Deus? Quem é o
Diabo? Isso não podemos afirmar.