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sábado, 1 de fevereiro de 2014

033. (ESPECIAL OSCAR 2014) OS SUSPEITOS, de Denis Villeneuve

Tensão do começo ao fim em um dos melhores thrillers dos últimos anos.
Nota: 9,5



Título Original: Prisoners
Direção: Denis Villeneuve
Elenco: Hugh jackman, Jake Gyllenhaal, Viola Davis, Maria Bello, Terence Howard, Melissa Leo, Paul Dano, Dylan Minnette, Zoe Borde, Erin Gerasimovich, Kyla Drew Simmons, Wayne Duvall, Len Cariou, David Dastmalchian, Brad James
Produção:  Kira Davis, Broderick Johnson, Adam Kolbrenner, Andrew A. Kosove
Roteiro: Aaron Guzikowski
Ano: 2013
Duração: 153 min.
Gênero: Crime / Drama / Thriller

Os Dover e os Birch são duas famílias amigas que passam os feriados unidos. Enquanto os Dover passam por uma crise financeira, os Birch possuem uma vida mais tranquila. Certo dia, as filhas mais jovens das duas famílias, Anna e Joy, saem para brincar e simplesmente somem. O maior suspeito do crime é o proprietário de um furgão que estava estacionado na vizinhança horas antes do desaparecimento. Juntos, os pais das meninas, Keller e Franklin, passam a procurá-las por conta própria, enquanto o Detetive Loki fará seu trabalho pela polícia.


Denis Villeneuve já estava acostumado com o gênero do suspense quando integrou esse projeto. Seu trabalho, aqui, é fantástico, usando os cenários obscuros e o inverno americano como cartas para tonar o longa ainda mais sombrio e excitante. Cenas fortes como a que o suspeito do crime foi espancado, são muito realistas, e a forma desesperada com a qual os protagonistas descobrem a verdade nos faz estar junto deles dentro da telona. Um ponto interessante do filme é termos duas famílias diferentes: os Dover, uma família branca que sofre com a falta de dinheiro, e os Birch, uma família negra que tem uma vida menos sofrida em relação ao dinheiro. Nesse contexto, além de sermos apresentados a dois opostos, vemos cada família sofrer com alguma coisa em uma América ainda muito preconceituosa: enquanto os Dover sofrem com a falta de dinheiro, os Birch sofrem por sua cor. Por fim, somos postados diante de uma situação óbvia: todos estamos expostos, não importa nosso gênero, nossa cor, nossa classe, nossa sexualidade, nossa nacionalidade.


O maior responsável por essa realidade é o roteirista Aaron Guzikowski. O enredo da trama, em primeiro lugar, já é incrível: duas garotinhas são, supostamente, sequestradas por um louco, e seus pais e um policial saem em busca da verdade. Além disso, o título em língua original é sugestivo: “Prisioneiros” trata sobre homens em cativeiro, homens presos em sua próprias vidas, presos no medo de serem pegos, presos no medo de não resolverem seus problemas, presos na impotência em relação a encontrar suas filhas, presos em suas dúvidas, presos em seus passados. Ou seja, desde o título do filme já podemos ter uma ideia de como tudo o que está por vir será muito pior do que imaginamos. Para piorar toda a situação, sabemos que as meninas sumiram, nada além disso. Elas podem ter sido sequestradas, podem ter se perdido, podem ter fugido, podem estar vivas ou mortas. Os suspeitos do crime não revelam coisa alguma, e quando as revelações começam a serem feitas, não possuem nexo e levam as investigações a lugar nenhum. Aqui, no final das contas, todos são suspeitos, até que se prove o contrário.


Para completar toda a loucura a qual a trama nos propõe a adentrar, a trilha sonora de Jóhann Jóhannsson é pontual e magnífica. As músicas acabam sendo mais um elemento que deixa o espectador na ponta da poltrona louco para saber o que está por vir. Mais que isso: tudo se encaixa de forma tão perfeita que nos sentimos parte integrante da trama. Sofremos com os personagens e temos aquela estranha sensação de algo entalado na garganta. Queremos explodir e ajudar a encontrar Anna e Joy. O tema do filme também é lindo e muito tocante. O longa é indicado ao Oscar de melhor fotografia, outro belo e indispensável componente. Tendo em vista termos “Gravidade” como um dos concorrentes, é muito improvável que “Os Suspeitos” leve o prêmio, ainda sim vale destacar o quanto a fotografia de Roger A. Deakins é importante para o filme, contribuindo para a tensão e a dramatização da trama.


Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal, finalmente, tiveram seus grandes papeis para provar ao mundo que deixaram de ser apenas atores em potencial e já estão prontos para construir uma carreira sólida e digna. Com esse filme, deixam de ser garotos bonitos e passam a ser atores competentes. Jackman é Keller, o mais perturbado dos pais das meninas, não o mais preocupado, mas o mais inconformado. A construção do personagem feita pelo roteirista e melhorada por Jackman é forte e muito comovente. As cenas dramáticas do ator nos provocam sentimentos diversos e nos sentimos em seu lugar, sejamos pais ou não. As cenas violentas nos aproximam de Keller por compreendermos seus anseios e por termos vontade de ver os culpados pelo desaparecimento das crianças. Gyllenhaal, por sua vez, traz um Loki mais sensato, um policial que acaba se comovendo com tudo o que está acontecendo, um homem violento que tenta mudar sua personalidade e que começa a enlouquecer pela possibilidade eminente do fracasso em relação a encontrar as meninas. Mais uma vez, volto a apontar a belíssima construção do personagem: Gyllenhaal tem tiques que permanecem em seu corpo o tempo todo, sua postura e seu modo de agir são muito característicos e esse é um excelente exemplo da encarnação do personagem em um ator.


Ademais, entre as interpretações, algumas ainda merecem destaque. Terrence Howard é Franklin Birch, talvez pela conformidade do personagem, o ator está um pouco apagado e apenas algumas cenas nos lembram do grande intérprete que Howard é. Viola Davis é Nancy Birch, a mãe de Joy. O mais incrível da interpretação de Davis fica a cargo do que ela faz de melhor: olhar. O olhas da atriz na cena em que Loki chega pela primeira vez na casa dos Birch é perfeito e mostra todo o desespero que a personagem esconde. Apesar de Davis também estar bem contida, sua personagem é forte e determinada, e é isso o que a sustenta como uma mulher decidida a viver até a filha voltar para casa. Maria Bello é Grace, mãe de Anna, mesmo estando bem no papel, acho as reações da personagem exageradas e Bello acaba ficando “over” demais. É claro que acredito que a dor sentida por Grace seja compatível às reações da atriz, mas acho exagerado. Por fim, Paul Dano e Melissa Leo, respectivamente, Alex Jones, o principal suspeito, e Holly Jones, a tia de Ralph. Dano está melhor do que eu imaginava: obtuso e esquio, fazendo qualquer um acreditar em sua culpa. No caso de Dano, é o silêncio que torna sua interpretação tão bela, interessante e angustiante. Leo tem, aqui, a única interpretação que assisti que me desagradou. Primeiramente, não vi que era ela na primeira aparição de Melissa, em questão de postura e trejeitos, a atriz está fantástica, e fico sem saber se são suas expressões que desagradaram ou se a maquiagem para tornar-lhe mais velha foi tão mal feita que prejudicou a atuação dessa excelente atriz.



“Os Suspeitos” é um filme que não possui muitas morais, não fala sobre amor, compaixão ou traz lições de vida. Ele faz muito mais que isso. O longa expõe a vida de forma nua e crua como ela pode ser para qualquer ser humano. O fato de as famílias serem distintas por uma ser branca e estar em crise financeira e outra ser negra e estar financeiramente tranquila é o que nos diz que qualquer ser humano está exposto às violências e sofrimentos do mundo contemporâneo. Não é a primeira vez que vemos crianças serem sequestradas, não é a primeira vez que vemos a violência sendo tão real, não é a primeira vez que temos vontade de sentar sobre o encosto da poltrona pela tensão proposta por um filme. Mas é a primeira vez que tudo isso é feito em um filme realmente grande. Acredito que “Os Suspeitos” não obteve o merecido sucesso nas grandes premiações de cinema, mas o filme merecia, seja por sua produção, por seu roteiro ou pelas atuações espetaculares, poucas vezes vistas em um thriller.

VENCEDORES DO PRÊMIO DA SOCIEDADE DE CRÍTICOS DE FILME DE DETROIT
Melhor Filme: Ela
Melhor Direção: Alfonso Cuarón, por Gravidade
Melhor Ator: Matthew McConaughey, por Clube de Compras Dallas
Melhor Atriz: Brie Larson, por Short Term 12
Melhor Ator Coadjuvante: Jared Leto, por Clube de Compras Dallas
Melhor Atriz Coadjuvante: Scarlett Johansson, por Ela
Melhor Elenco: Trapaça
Melhor Revelação: Brie Larson, por Short Term 12
Melhor Roteiro: Spike Jonze, por Ela
Melhor Documentário: Stories We Tell
VENCEDORES DO PRÊMIO DA SOCIEDADE DE CRÍTICOS DE FILME DE HOUSTON
Melhor Filme: 12 Anos de Escravidão
Melhor Direção: Alfonso Cuarón, por Gravidade
Melhor Ator: Chiwetel Ejiofor, por 12 Anos de Escravidão
Melhor Atriz: Sandra Bullock, por Gravidade
Melhor Ator Coadjuvante: Jared Leto, por Clube de Compras Dallas
Melhor Atriz Coadjuvante: Lupita Nyong’o, por 12 Anos de Escravidão
Melhor Roteiro: 12 Anos de Escravidão
Melhor Filme de Animação: Frazen: Uma Aventura Congelante
Melhor Fotografia: Gravidade
Melhor Documentário: 20 Feet from Stardom
Melhor Filme Estrangeiro: A Caça
Melhor Trilha Sonora: Gravidade
Melhor Canção Original: “Plese Mr. Kennedy”, de Inside Llewyn Davis
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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

040. MARNIE, CONFISSÕES DE UMA LADRA, de Alfred Hitchcock

A última obra do mestre do cinema foi um dos melhores filmes de seu ano.
Nota: 9,6


Título Original: Marnie
Direção e Produção: Alfred Hitchcock
Elenco: Tippi Hedren, Sean Connery, Diana Baker, Martin Gabel, Louse Latham, Bob Sweeney, Milton Selzer, Alan Napier, Hanry Beckman, Edith Evanson, Mariette Harltey, Bruce Dern, S. John Launer, Meg Wyllie
Roteiro: Jay Presson Allen e Wiston Graham (romance)
Ano: 1965
Duração: 130 min.
Gênero: Thriller / Drama

Marnie é uma bela jovem que possui uma estranha mania: ela rouba, e o faz de forma perfeita. Entretanto, após passar a perna em seu patrão e fugir, Marnie começa a trabalhar para Mark Rutland, um rico empresário. É claro que Marnie está decidida a roubar o novo patrão, mas Mark acaba descobrindo as intenções da bela e, para tentar descobrir o que aconteceu em sua vida, a convence a se casar com ele. Após o casamento, Marnie apresenta estranhos quadros de saúde mental, e Mark decide descobrir o que aconteceu com essa ladra que se tornou o amor de sua vida.


Alfred Hitchcock foi um dos diretores de maior destaque na história do cinema. Poucos mestres da Sétima Arte foram tão perfeitos em representar os medos na telona. Famoso por uma das cenas mais interessantes o cinema, aquela em que Marion Crane é assassinada no chuveiro do enigmático Motel Bates, em sua fase americana, Hitch explorou diversos temas, dois dos principais foram os medos e traumas e confusão da identidade. Em “Marnie”, a protagonista junta tudo isso. É, claramente, perturbada por algum episódio que lhe ocorreu na infância, algum trauma inimaginável que nos será revelado com o passar do tempo. Além disso, a protagonista mescla seu lado ladra com seu lado apaixonada; ela está louca de amores pelo homem que virá a ser seu marido, porém, ao mesmo tempo, não consegue deixar seu vício de lado e insiste em roubá-lo. Existem poucos diretores que conseguem contrastar cores em cenas improváveis e fazer com que o efeito seja positivo para o propósito pretendido. Hitchcock é um deles. Em uma cena inesquecível, Marnie relembra o que ocorreu, e o diretor nos mostra, mais uma vez, como se faz uma cena de revelação que deixe o espectador na ponta da poltrona e que não o deixe esquecer jamais do que viu.
Por fim, a trilha sonora é do fantástico Bernard Herrmann, mesmo compositor de “Psicose” (1960), “Um Corpo que Cai” (1958) e “O Homem que Sabia Demais” (1956), ambos de Hitchcoock. Herrmann trabalhou em cinema e televisão e em nenhum de seus trabalhos decepicinou, aqui não é diferente: cada composição é perfeita e parece caber na cena como uma mão em sua luva. É, também, a trilha sonora da cena das revelações do passado de Marnie que constrói a cena e a torna tão bela, enigmática, inesperada e antológica. Vale destacar a primeira cena do longa: a câmera foca em um objeto amarelo que para uns tem aspecto de uma boca, para outros de uma vagina, a câmera vai se afastando a medida que a personagem segue em frente. Marnie está em uma estação, segurando apenas a controvérsia bolsa e uma mala e está morena, não loira. A cena se tornou um marco no cinema e chega a ser citada como uma das mais importantes na carreira do diretor, e, sem dúvida, diz muito sobre o que veremos durante todo o filme.



A primeira escolha do diretor para viver a protagonista foi a atriz Grace Kelly, que recusou pois o principado de Mônaco não achava digno ver sua princesa interpretando uma ladra, a Paramount sugeriu a Hitch que ele chamasse a americana Lee Remick, Eva Marie Saint e Susan Hampshire perseguiram o papel, mas não obtiveram sucesso. Foi escolhida, então, a estrela do longa “Os Pássaros” (1962), também de Hitchcock, para viver o papel. Tippi Hedren ficou, dessa forma, eternizada no cinema por esse dois trabalhos com o mestre do suspense. Como Marnie, Tippi está fantástica, uma verdadeira diva da era de ouro de Hollywood: classuda, sexy, inteligente e bela. A personagem construída e apresentada pela atriz condiz com os atributos físicos da diva, mas ocorre algo ainda mais belo: sentimos pena de Marnie e torcemos por ela. O clássico anti herói vivido por personagens como Macunaíma no Brasil e outros ladrões no restante do mundo é transferido para uma mulher, Hedren nos faz torcer por ela o tempo todo, queremos que ocorra tudo bem com ela em qualquer situação. Por fim, Tippi atinge a perfeição ao fazer o que Alfred Hitchcock fez toda a vida: nos deixa curiosos, atentos e loucos por saber quais são os segredos de sua personagem. Sean Connery foi um dos atores mais sexys e belos de sua época no cinema, além disso foi um dos grandes atores de seu tempo. Como Mark Rutland ele é firme e não deixa que a moça por quem se apaixona vá embora apenas por ser misteriosa e ter seus defeitos. Talvez essa seja, em meio a tanto terror dos filmes de Hitchcock, a maior representação do amor no cinema. Connery nos traz um homem apaixonado que não se torna cego: Mark quer saber por que Marnie se tornou tão traumatizada, e a beleza está exatamente nisto, ele vai até o fundo para que sua amada esposa vença seus medos.

“Marnie” é, como a maioria dos filmes do mestre Alfred Hitchcock, uma lição para qualquer cineasta e um louvor a qualquer crítico. Além disso, é um longa que, mais uma vez, inova o cinema da época. Marnie, a protagonista, quebra tabus trazendo uma mulher como ladra e trazendo um homem que corre atrás do passado da eposa para resolver seus traumas e problemas psicológicos. A direção de Hitch, a perfeição do roteiro (escrito com grandes diálogos e grandes cenas), a trilha de Herrmann, as interpretações e os experimentos técnicos do diretor são os ingredientes dos principais longas de Alfred Hitchcock. “Marnie” foi, sem dúvida, a última grande obra do mestre do suspense e não é apenas por isso que merece ser assistido, merece ser visto pois, em uma arte como o cinema, que possui pouco mais de cem anos, é, sem dúvida, um dos melhores filmes do ano de 1964.


VENCEDORES DO PRÊMIO DA ASSOCIAÇÃO DE CRÍTICOS DE FILMES DE WASHINTON D.C.
Melhor Filme: 12 Years A Slave
Melhor Direção: Alfonso Cuarón, por Gravidade
Melhor Ator: Chiwetel Ejiofor, por 12 Years A Slave
Melhor Atriz: Cate Blanchett, por Blue Jasmine
Melhor Ator Coadjuvante: Jared Leto, por Dallas Buyers Club
Melhor Atriz Coadjuvante: Lupita Nyong’o, por 12 Years A Slave
Melhor Elenco: 12 Years A Slave
Melhor Jovem Intérprete: Tye Sheridan, por Mud
Melhor Argumento Adaptado: John Ridley, por 12 Years A Slave
Melhor Argumento Original: Spike Jonze, por Her
Melhor Filme de Animação: Frozen
Melhor Documentário: Blackfish
Melhor Filme Estrangeiro: The Broken Circle Breakdown (Bélgica)
Melhor Direção de Arte: O Grande Gatsby
Melhor Fotografia: Gravidade
Melhor Montagem: Gravidade
Melhor Banda Sonora Original: Hans Zimmer, por 12 Years A Slave
Prémio Joe Barber para o Melhor Retrato de Washington DC: The Butler

VENCEDORES DA SOCIEDADE DE CRÍTICOS DE FILME DE BOSTON
Melhor Filme: 12 Years a Slave
Melhor Direção: Steve McQueen, 12 Years a Slave
Melhor Ator: Chiwetel Ejiofor, por 12 Years a Slave
Melhor Atriz: Cate Blanchett, por Blue Jasmine
Melhor Ator Coadjuvante: James Gandolfini, por Enough Said
Melhor Atriz Coadjuvante: June Squibb, por Nebraska
Melhor Roteiro: Nicole Holofcener, por Enough Said
Melhor Fotografia: Emmanuel Lubezki, por Gravidade
Melhor Documentário: The Act of Killing
Melhor Filme Estrangeiro: Wadjda
Melhor Filme de Animação: The Wind Rises
Melhor Edição: Daniel P. Hanley e Mike Hill, por Rush
Melhor Primeiro Filme: Ryan Coogler, por Fruit Station
Melhor Elenco: Nebraska
Melhor Canção: Iside: Llewyn Davis

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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

047. INCONTROLÁVEL, de Tony Scott

Apesar de ser uma boa distração, acaba sendo uma verdadeira decepção.
Nota: 7,5


Título Original: Unstoppable
Direção: Tony Scott
Elenco: Denzel Washington, Chris Pine, Rosario Dawson, Ethan Suplee, Kevin Dunn, Kevin Chapman, Lew Temple, T. J. Miller, Jessy Schram, David Warshofsky, Andy Umberger, Elizabeth Mathis, Meagan Tandy, Dylan Bruce, Jeff Hochendoner
Produção:
Roteiro: Mark Bomback
Ano: 2010
Duração: 98 min.
Gênero: Ação / Thriller

O jovem Will está começando sua carreira como condutor de trens. O veterano Frank é um maquinista prestes a se aposentar. Quando um comboio sem condutor e portando produtos químicos perigosos acarranca da estação, a dupla terá de conviver com as diferenças e se unir para que o trem seja parado e impedido de destruir uma pequena cidade. Juntos, eles verão que a força e a determinação advindas da juventude de Will e a experiência e a sagacidade adquiridas ao longo da vida de Frank são o suficiente para salvar inúmeras vidas.


Tony Scott é um experiente diretor e produtor, que se especializou em filmes de ação e suspense semelhantes a “Incontrolável”. Com Denzel Washington, o diretor já realizou quatro filmes além desse, e ainda possui uma lista de dezenas de bons atores e atrizes os quais dirigiu. Aqui, o trabalho do diretor parece simples: dar gás a uma história interessante que mistura ação, drama e elementos da vida real. Porém, tal tarefa não é tão fácil. Scott começa o filme de forma inteligente e astuta: apresenta os personagens de forma tranquila, sem muita ação ou sem mostrar muito interesse na vida de ambos. Aos poucos, o filme vai tomando forma e ganhando as características conhecidas dos principais filmes de Scott. Apesar de não ser meu estilo preferido de filme, o gênero particular que Tony Scott desenvolveu é preferido de muitas pessoas e digo mais: nenhum de seus filmes é chato ou repetitivo. Todos os longas, sem exceção são filmes que prendem o espectado do começo ao fim. “Incontrolável” não é diferente de nenhum outro. É claro que o longa possui defeitos e está longe de ser uma obra da Sétima Arte, em alguns momentos, por exemplo, é exagerado e muito previsível, o clímax do filme chega como um déjà vu, como se soubéssemos desde o início o que aconteceria. Entretanto, essa previsão não é o suficiente para comprometer todo o longa. O filme é instigante, excitante e eletrizante. As atuações são pesadas e bem realistas. A trilha sonora só ajuda nessa composição que mistura ação com suspense e com incerteza quanto ao sucesso dos protagonistas.


O nome Denzel Washington já diz, por si só, tudo o que possa ser dito sobre esse ator fantástico. Como de costume, não há nenhuma decepção a cerca do trabalho de Washington. Vivendo Frank ele é verdadeiro e simples, demostrando os anseios e as decepções de um homem que ama o que faz, mas que vê sua vida chegando ao fim por ser dispensado. Além disso, o Frank de Washinton é humano, preocupado, sobretudo, com o bem  estar das pessoas que correm perigo pelo trem quase desgovernado que avança sobre os trilhos. Ao lado de Washington está Chris Pine como Will. O ator, evidentemente, não pode ser comparado a Denzel, por motivos óbvios, o veterano é melhor que o iniciante. Todavia, Pine demonstra que é o típico “ator potencial”, ou seja, em determinadas cenas, sua interpretação supera as expectativas e se torna quase tão grandiosa e bela quanto a de Washinton. Pine, dessa forma, nos mostra que tem potencial para ser mais que um rosto bonito, mas ainda falta um pouco para nos trazer essa certeza.



Will, no contexto da trama, é um jovem promissor que está trabalhando como condutor de trens apenas visando o salário no final do mês, ele não se importa muito com a carga ou com todo o resto além dele mesmo. Frank é um homem que já aprendeu muito com a vida, um funcionário que se dedicou ao seu serviço e aprendeu a amar o que faz, e, diga-se de passagem, faz muito bem. É claro, desde o início da trama, que ambos os personagens possuem qualidades e defeitos. Nesse contexto, ambos terão de lidar com suas qualidade e defeitos para uma boa convivência no trabalho. Entretanto, a emergência de parar o trem faz com que os personagens sejam obrigados a saber usar as habilidades de cada um em prol de um bem maior. As diferenças devem ser deixadas de lado e tudo o que está ao alcance deles deve ser feito. No final das contas, mesmo com toda essa filosofia humana de boa convivência, respeito mútuo e um por todos, todos por um, permanece camuflada em um filme sobre a tentativa de parar um trem. E, mesmo com as boas atuações da dupla ou com a qualidade técnica, é isso que o filme se revela: uma tentativa de para um trem.


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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

129. O RETORNO DO TALENTOSO RIPLEY, de Liliana Cavani


O assassino está de volta em sua melhor performance.
Nota: 8,0


Título Original: Ripley’s Game
Direção: Liliana Cavani
Elenco: John Malkovich, Dougray Scott, Lena Headey, Ray Winston, Uwe Mansshardt, Paolo Paoloni, Chiara Caselli, Lutz Winde
Produção: Simon Bosanquet, Ileen Maisel, Riccardo Tozzi
Roteiro: Charles McKeown, Liliana Cavani e Patricia Highsmith (romance)
Ano: 2002
Duração: 110 min.
Gênero: Thriller / Drama / Suspense

Tom Ripley, o imitador e assassino louco, vive na Itália em uma bela mansão com sua esposa inteligente, bonita e compreensível. Entretanto, um de seus antigos colegas de trabalho o procura encomendando o assassinato de um poderoso proprietário de Cassinos que vive em Berlin, na Alemanha. Todavia, Tom resolve que quem fará o tal serviço será o inocente emoldurador de quadros Jonathan, um de seus vizinhos.


Tom Ripley jamais foi uma personagem imbecil a ponto de se quer imaginar que um idiota como Trevanny pudesse cometer os crimes que deveria cometer sem fazer nenhuma bobagem, e é aí que está uma das maiores sacadas do filme: Tom não mandou o jovem para o serviço apenas por ele ser totalmente neutro e viver longe de tudo e todos, e sim por que estava na hora de Tom Ripley voltar a agir e mostrar que ele pode fazer tudo o que deseja, da forma como deseja e, ainda por cima, se safar de qualquer problema sem muito trabalho. Sempre que falo sobre Ripley, acredito que seja preciso fazer uma análise um pouco mais completa sobre a personagem, portanto, para quem já leu as demais críticas sobre os filmes dele pode parecer um pouco repetitivo, mas é necessário, porém dessa vez, devemos nos fixar na análise da imagem na qual Ripley se transformou após anos e mais anos de vida. Nesse contexto, Tom permanece um homem sóbrio, sem muito a dizer, um homem de atitudes, mas um homem mais maduro costuma fazer tudo de forma melhor e mais simples em comparação a sua juventude, Tom não é diferente, ele é ainda mais seco, sem sentimentos ou expressões de medo, angústia ou remorso pelas vidas que tira, está mais culto, inteligente, esperto e parece que a prática fez com que matar tenha se tornado algo tão normal que já está perdendo toda a graça.


Jamais pude imaginar um ator melhor para dar vida ao famoso Tom Ripley em sua idade mais avançada que John Malkovich. Além de ser um dos melhores atores do cinema, sempre foi especialista em personagens irônicas, daquelas com humor negro mesmo, sem escrúpulos algum, mas com muito a mostrar ao mundo. Seu falar fraco e lento, sua paciência e calma quando está na pele de Ripley, transformam a personagem em um dos seres mais enigmáticos das adaptações para o cinema. Dougray Scott vive o pobre Jonathan, um homem desesperado que está disposto a cometer loucuras antes de morrer para deixar sua família bem financeiramente; apesar de o ator ser fraco em comparação com Malkovich, ele consegue levar bem sua personagem, demonstrando o exato pavor de alguém que precisa matar um homem, pavor que o acompanha antes, durante e depois do assassinato. Chiara Caselli vive a esposa de Ripley, Luisa, apesar de tudo oq eu o marido faz ou fez, a luxúria exala por sua pele e ela apenas deseja ter o marido vivo, por perto e acompanhando seu sucesso profissional. Lena Headey é a esposa de Jonathan, Sarah, mesmo que a personagem seja um pouco chata em alguns momentos – sua inocência, por mais que seja pouca, irrita – a atriz traz uma mulher normal, desesperada por o marido estar morrendo e crente que ele esconde alguma coisa dela.


Tom Ripley é uma das personagens mais enigmáticas da literatura moderna, nem mesmo várias adaptações de seus filmes conseguem nos fazer entender o por que de tanta sede por morte. O fato é que, mesmo sabendo o quanto Ripley é podre por dentro, é fácil se apaixonar por ele e desejar que o mesmo saia ileso de todos os jogos que ele trama. Como o próprio título sugere, a vida de Riply é assim, um jogo. Jogo esse, que nada tem de muito diferente do que vivemos em nossa vida patética. E está aí a maior sacada de toda a história de Tom Ripley: até onde vale a pena ir por uma vida cheia de mentiras, trapaças e problemas que podem ser resolvidos com um simples toque no gatilho? 

terça-feira, 17 de julho de 2012

245. PSICOPATA AMERICANO, de Mary Harron


Poucas vezes a loucura cai tão bem para um ator como para Christian Bale.
Nota: 8,7


Título Original: American Psycho
Direção: Mary Harron
Elenco: Christian Bale, Justin Theroux, Josh Lucas, Bill Sage, Chloë Sevigny, Reese Witherspoon, Samantha Mathis, Matt Ross
Produção: Christine Halsey Solomon, Chris Hanley, Edward R. Pressman
Roteiro: Mary Harron, Guinevere Turner e Bret Easton Ellis (romance)
Ano: 2000
Duração: 102 min.
Gênero: Drama / Suspense / Thriller

Patrick Bateman é um homem rico, bem sucedido, bonito e inteligente. Vive sempre rodeado de amigos que tem as mesmas características que ele e tem relacionamentos sexuais com mulheres muito bonitas. Aparentemente ele é perfeito, o problema é que ele é um psicopata. Quando se sente acuado por achar que um homem é melhor que ele, Pat começa a matar enlouquecidamente, por puro prazer e vontade de que todos sintam a mesma dor a qual ele está propenso a sentir.


Apesar de o livro que deu origem ao filme ter sido escrito por um homem, acreditem ou não ele é conduzido de forma inteligentíssima por mulheres: Mary Harron é diretora e roteirista e Guinevere Turner assina o roteiro também. Entendam, não tenho preconceito algum com as mulheres fazendo trabalhos que, tradicionalmente, os homens estejam acostumados a comandar, pelo contrário, fico feliz e satisfeito em saber que elas estejam tomando seu espaço da forma que merecem, mas convenhamos que mulheres a frente de um filme sobre um psicopata é algo no mínimo diferente, só para não dizer anormal. Enfim, é irrelevante a normalidade nesse filme, o fato é que ambas realizam seus respectivos trabalhos de forma maravilhosa. Harron consegue extrair o melhor de cada diálogo e cena, parece que ela e Christian Bale brincam nem sequências como o assassinato de Paul Allen. O roteiro delas explora cada momento e pensamento da vida da personagem, não fica claro se existe algum motivo para ele ser desse jeito, mas facilmente podemos perceber que o cara é simplesmente um doente. Quero apenas ressalvar ainda que, apesar de pouca experiência, a trilha sonora do compositor John Cale encaixa-se perfeitamente na trama.


Christian Bale, que se destacou após 1987 quando participou de “Mio min Mio” e “Império do Sol”, interpreta Patrick, aquele típico assassinou louco que ri e se diverte com o sangue enquanto mata as pessoas, além disso ele nos apresenta o tipo de pessoa totalmente artificial que interpreta uma personagem criada por ele mesmo para atrair pessoas bonitas, inteligentes e bem sucedidas para perto de si, bem como ele diz em certo ponto do filme, aquilo que todos vêem não existe, o verdadeiro Patrick não tem sentimentos e importa-se apenas consigo mesmo. Reese Witherspoom, a eterna Elle Woods de “Legalmente Loira” (2001), é a pseudo-noiva de Patrick, a típica loira que sente prazer em se destacar e em ser idolatrada e invejada pelos demais à sua volta. Chloë Sevigny faz a vez da secretária tola apaixonada pelo patrão, o problema é que o patrão da vez é louco; Jared Leto é o narcisista Paul Allen, a única diferença entre sua personagem e a de Bale é que ele não é um assassino, ao menos o enredo não o expõe dessa forma; Cara Seymour é a prostituta chamada de Christie pelo protagonista, uma pobre mulher que vive no lugar errado, na hora errada e sai com o cara errado; por fim o excelente Willem Dafoe faz uma pequena participação como o detetive que cuida do desaparecimento de Allen, Donald Kimball.


Geralmente filmes sobre psicopatas ricos, bonitos e inteligentes possuem apenas um propósito: criticar a sociedade consumista que vive de bens matérias e aparências. Aqui temos Witherspoon como a patricinha mimada que não se importa em ser vista como vadia, com tanto que esteja com homens aparentemente perfeitos; os amigos do protagonista são os típicos homens bem sucedidos que se sentem os seres mais importantes da face da terra, além de acreditarem que são invencíveis; Leto é o homem idiota que acaba se dando mal por seguir o estereótipo do riquinho que quer provar mais que tudo sua suposta superioridade; Seymour é a mulher que topa tudo por dinheiro, que não ama nem a si própria e não se importa em vender seu corpo, mesmo que isso deixe sequelas graves; por fim, Bale é o psicopata charmoso, bonito, rico, sexy e que se sente o ser mais belo do mundo, em uma cena épica ele, nu, se olha no espelho e agrade-se com os músculos e a beleza que vê, isso seria normal, senão pelo fato de ele ter uma mulher super sexy também nua em sua frente fazendo sexo com ele. Claro que, durante o filme, somos invadidos pelas dúvidas acerca da realidade dos fatos, se Bateman realiza todos os assassinatos que vemos na tela, no final das contas, acaba sendo uma dúvida eterna, mas um pouco de imaginação nunca fez mal a ninguém, além disso, somos capazes de imaginar como nenhum outro ser, afinal, não somos todos um pouco loucos?


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