domingo, 2 de março de 2014

014. (ESPECIAL OSCAR 2014) ATÉ O FIM, de J. C. Chandor

Apesar de uma boa história, não possui agilidade o suficiente para ser um bom filme.
Nota: 7,5


Título Original: Alls is Lost
Direção e Roteiro: J. C. Chandor
Elenco: Robert Redford
Produção: Anna Gerb, Justin Nappi, Teddy Schwarzman
Ano: 2013
Duração: 106 min.
Gênero: Ação / Drama

Um homem de idade avançada está em alto mar em seu barco. Por motivos desconhecidos, ele acorda e verifica que sua embarcação está sendo tomada pela água do mar. Ele corre para o lado de fora e vê que um contêiner atingiu o casco do barco, ocasionando uma abertura imensa. Com pouco água, pouca comida, poucos mantimentos e muita persistência, esse homem fará tudo o que estiver ao seu alcance para conseguir sair vivo dessa aventura.


Não sabemos o nome desse homem. Não sabemos se possui família ou não. Não sabemos de onde ele veio ou para onde ia. Sabemos, apenas, que está próximo ao Canal de Sumatra e que ele escreve uma mensagem para alguém que, provavelmente, deixou em terra firme. Sabemos, também, desde o princípio que esse homem já viveu muito e que paciência e persistência são palavras que conhece bem. Quando o casco da embarcação quebra, o espectador já começa a se desesperar. Entretanto, o personagem, aliás,  único personagem de todo o longa, se mantêm calmo, tentando arrumar formas de se comunicar com alguém que possa ajudá-lo, arrumando a embarcação como pode, enfrentando chuva e sol, escalando o mastro do barco para tentar melhorar suas condições. O personagem acaba ensinando uma lição importante sobre como sobreviver a eventos como esses: relaxar, acalmar-se e lembrar que a vida vale muito a pena para ser perdida por um nervosismo. Nesse contexto, o homem chega até mesmo a pegar livros sobre navegação e ler, cuidadosamente, as instruções sobre o que fazer em situações extremas. Mas é quando o barco fica prestes a fundar que mais nos emocionamos. O personagem, calmamente, recolhe aquilo que pode precisar (comida, água, o livro, uma caixa de primeiros socorros e outros pertences) e vai para o bote salva-vidas do barco. Uma vez lá, apenas assiste à sua embarcação afundar rapidamente como se alguém a puxasse para as profundezas. E é aí, quando ele está nesse pequeno bote, que nos desesperamos por completo. E é, também, pouco depois de ele entrar no bote, que o filme começa a ficar interessante. O problema é que o personagem entra no bendito bote após uma hora de filme, ou seja, faltando apenas quarenta minutos para seu término.


Robert Redford foi apontado, por muitos, como um dos melhores atores do ano por sua interpretação como o protagonista desse filme. Acho Redford um dos melhores atores de sua geração, mas em um ano com tantas interpretações masculinas fantásticas, não acrtedito que ele seja, realmente, um dos melhores. Prefiro seu Denis de “Entre Dois Amores” (1985), ou seu Jay Gatsby de “O Grande Gatsby” (1974). Claro que, como de costume, o ator não decepciona em nenhum momento. A falta de falas, na maioria das vezes chega a ser compensada por suas expressões. Quando o protagonista vê seu barco afundando, percebemos, pelos olhos de Redford, que tudo parece perdido para o personagem. E é aí que compreendemos que, apesar de tudo, aquele barco era um lugar seguro, um lugar onde o personagem tinha mais estabilidade, conforto e, principalmente, segurança. Também nos emocionamos com a cena em que ele percebe que o galão de água estava aberto e que não há água potável, assim, ele se desespera, chora e esbraveja. O momento em que o homem tem a inacreditável ideia de conseguir água potável por um sistema totalmente primitivo (mas eficaz) compõe uma das cenas mais belas do longa, pois é quando vemos alguma esperança em toda essa catástrofe. E basta o personagem perceber que conseguiu fisgar um peixe para nos darmos o direito de sorrir por ele. Porém, sorrimos até um tubarão aparecer e pegar o peixe a poucos metros do bote. E tudo parece desabar novamente, para nós e para o personagem de Redford.



 J. C. Chandor parece ter tido a mesma inspiração de Alfonso Cuarón quando o diretor mexicano pensou em “Gravidade”, mas Chandor quis trazer tudo aquilo para a terra, ou melhor, para o mar. E esse foi seu erro. O filme indicado na categoria de melhor edição de som (perderá para “Gravidade”) não possui nenhum momento monótono, é até eletrizande em alguns momentos. Mas não escapa do destino de ser chato. O que o salva e o deixa menos insuportável, é a trilha sonora incrível de Alex Ebert e a forma como o mar é tratado como um personagem. Da mesma forma que o espaço é o vilão que tenta aniquilar com Sandra Bullock em “Gravidade”, o mar é o vilão que tenta afogar Robert Redford e os senhos de seu personagem. Outro fator negativo é termos acabado de ver a beleza e a grandeza do longa “A Vida de Pi”, de Ang Lee, filme que mostra uma situação muito parecida, mas que supera “Até o Fim!” em todos os sentidos. Outro exemplo, é “Náufrago”, com Tom Hanks, onde o protagonista encontra em uma bola da marca Wilson um amigo para conversar e, até mesmo, discutir, tornando tudo mais interessante. Em “A Vida de Pi”, o jovem Pi está acompanhado do temível tigre Richard Parker, com quem também conversa e discute. Quem sabe, o personagem de Robert Redford devesse ter feito do livro de navegação um amigo com quem conversar, nem que fosse lendo-o até decorá-lo. Em “Gravidade”, o espaço dá conta de entreter muito bem o espectador, o oceano, entretanto, não alcança o mesmo efeito. 



Sindicato dos Figurinistas:
Melhor Figurino em Filme Contemporâneo: Suzy Benziger, por Blue Jasmine
Melhor Figurino em Filme de Época: Patricia Norris, por 12 Anos de Escravidão
Melhor Figurino em Filme de Fantasia: Trish Summervilee, por Jogos Vorazes

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sábado, 1 de março de 2014

015. (ESPECIAL OSCAR 2014) O HOBBIT: A DESOLAÇÃO DE SMAUG, de Peter Jackson

Jackson está cada vez mais perto do fim, e cada vez mais perto da perfeição
Nota: 9,0


Título Original: The Hobbit: The Desolation of Smaug
Direção: Peter Jackson
Elenco: Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, Ken Stott, Graham McTavish, William Kircher, James Nesbitt, Stephen Hunter, Dean O’Gorman, Aidan Turner, John Callen, Peter Hambleton, Jed Brophy, Mark Hadlow, Sam Brown, Orlando Bloom, Evangline Lilly, Cate Blanchett, Bnedict Cumberbatch, Mikael Persbrandt, Sylvester McCoy, Luke Evans, Stephen Fry, Ryan Cage, John Bell, Lee Pace
Produção:
Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson, Guilhermo Del Toro e J. R. R. Tolkien (romance)
Ano: 2013
Duração: 161 min.
Gênero: Drama / Aventura / Fantasia

Bilbo Bolseiro, Gandalf o Cinzento e os 13 anões que saíram do contado já estão em sua aventura há cerca de 12 meses. Eles já passaram por gigantes de pedra, por orcs que desejam a cabeça de Thórin e trolls amedrontadores. Também já se encontraram com os elfos Galadriel e Elrond, em Valfenda e Bilbo já está em pose do Um Anel, o qual “roubou” de Gollum. Agora, o grupo deve continuar sua jornada para a Montanha Solitária, onde o Dragão Smaug se encontra, e eles nunca estivem tão próximos. Mas, para chegar ao seu destino, precisarão enfrentar outros obstáculos: a Floresta das Trevas, moradia de dezenas de aranhas gigantes, a ganância dos Rei dos Elfos, Thranduil, a loucura do Mestre de Laketown, e, claro, mais e mais bandos de orcs que, agora, estão cumprindo ordens de uma força muito mais maligna do que os pequenos imaginam.


É sempre importante lembrar que Peter Jackson, quando decidiu voltar à Terra Média e adaptar “O Hobbit”, também escrito pelo mestre J. R. R. Tolkien, criador de “O Senhor dos Aneis”, resolveu continuar vivendo seu sonho e optou por realizar uma trilogia. Sim, uma trilogia, com três filmes de duas horas e meia, adaptando cerca de 300 páginas. Claro que faltou história para tanto tempo. E Jackson usou sua criatividade para driblar esse problema. Antes de proseguir, é preciso lembrar que Gandalf e sua turma estão nessa aventura com o propósito de os anões tomarem sua montanha de volta de Smaug. Há anos, o monstro, sabendo que a montanha dos anões estava cheia de ouro e pedras preciosas, tomou o local, expulsando os que ali viviam, ou pior: quimando-os. Agora, Thórin Escudo de Carvalho, filho de Thráin II, neto de Thrór, membro do povo de Dúrin e herdeiro da Montanha Solitária quer recuperar o que é seu de direito, mesmo que isso custe muito tempo e algumas vidas. Convencido por Gandalf, o Cinzento, Bilbo Bolseiro aceita participar dessa aventura, e deixa o pacato Condado onde vive para trilhar o caminho ao lado dos anões. São essa figuras, um mago, um hobbit e 12 anões, que compõe a Companhia dos Anões, muito menos glamorosa que a Sociedade do Anel do primeiro filme da trilogia “O Senhor dos Aneis”, mas igualmente decidida e forte. E foi, ainda, Gandalf quem convenceu, em um prólogo mostrado nesse filme, Thorin de ir até a Montanha Solitária e recuperar a Pedra Arken, o maior símbolo do povo de Dúrin, para que ele recupere seus direitos e se torne rei. Para compreender melhor, basta dizer que a pedra foi encontrada pelos anões enquanto cavavam a Montanha, possui luz própria (que foi intensificada pelos anões) e representa um tesouro de valor inestimável para os senhores das montanhas. Também é importante dizer, que pouco antes de entrarem na Montanha Solitária, Thorin promete ao povo de Laketown, que também sofreu com o ataque do Dragão, que, caso ele conseguisse recuperar seu ouro, eles seriam agraciados com uma parte significativa para que a cidade pudesse voltar a ser um ponto comercial. Os anões e Bilbo, entram na Montanha e, com isso, Smaug acorda, e promete fogo, muito fogo. Também é bom lembrar que, nesse contexto, Gandalf está muito longe de seus parceiros de viagem, foi ao encontro das ruínas de Dol Guhur, onde acaba sendo aprisionado após um confronto com o Necromante – na verdade, Sauron, a tal força malígna que está pronta para se re-erger das sombras. O mesmo Sauron que convenceu os anões, os elfos e os homens a aceitarem os grandes aneias, o mesmo Sauron que enganou a todos e ,no fogo da Montanha da Perdiçao, “forjou em segredo um anel mestre para controlar todos os outros, e neste anel colocou toda a sua crueldade, sua maldade e sua vontade de governar todas as formas de vida [...]Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los, Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los.” [Galadriel].


Todavia, o mais incrível de toda essa história é que, diferente do primeiro filme, funciona muito bem. A primeira ora se divide entre momentos monótonos e momentos de tensão pura. Personagens, como Legolas, e cenas que não aparecem no livro, não importam tanto já que o conjunto é bem mais interessante que o primeiro longa. Apesar da construção de Thórin torná-lo cada vez mais fraco, a força e beleza do personagem de Bilbo Bolseiro é algo que merece destaque. E mais: as lutas internas dos personagens devem ser lembradas. Bilbo luta contra sua vontade de usar o Um Anel, e Thórin luta com a ganância tão natural de seu povo. A primeira aparição dos elfos nesse filme (uma parte deles já havia se apresentado no longa anterior) é ótima e podemos ver como alguns seres da Terra Média não estavam preocupados com outros, apenas desejavam o poder e o bem de seu povo. Os orcs estão caminhando, cada vez mais, para o futuro cruel e enojador que conferimos na trilogia de “O Senhor dos Aneis”. E Samug é fantástico! Se a cena do encontro com Bilbo e Gollum/Smeagall foi uma das melhores do ano passado, o mesmo podemos dizer da cena em que, mais uma vez, um Bilbo que teve pouco destaque nesse filme rouba todas as atenções e, finalmente, encontra (e acorda) o adormecido Dragão Smaug. Os dois conversam (muitos já afirmam que foi pura enrolação), discutem (mais enrolação ainda), Bilbo encontra a Pedra de Arken, mas não consegue pegá-la (momento de êxtase) e, finalmente, Smaug, com toda a sua fúria, o Dragão tenta queimar Bilbo (o que alguns acharam cedo demais). Para mim, a cena foi perfeita, e melhorou muito mais com a chegada dos anões e a luta dos mesmos com a fera.


Claro que alguns erros foram cometidos pelo diretor. E que nos os cometeria na emoção de estar deixando, por fim, a Terra Média após concluir essa trilogia? A cena dos barris é ridícula, e sentimos que os personagens estão mais em algum brinquedo de parque de diversões ou em um joguinho bobo para crianças que fugindo de orcs – sem falar na estupidez que foi ter colocar Legolas pulando de cabeça em cabeça para matar alguns monstros, tudo bem, ele é um elfo e os elfos são incríveis em tudo o que fazem, mas fazer com que o personagem estivesse em uma fase bônus de algum vídeo game foi gozação. Gozação com Legolas, com Orlando Bloom e com o espectador. Ver Tauriel curando Killy é repetitivo demais se lembrarmos da cena em que Arwen salva Frodo em “O Senhor dos Aneis”, até as personagens (elfos) são parecidas. Aliás, Tauriel, sem dúvida, é muito bem vinda, mas o romance entre ela, Legolas e Killy, também vai além da ficção, além da adaptação. Porém, devemos nos ater aos efeitos que o longa traz. À criação de uma Terra Média, mais uma vez, impecável, descrita pelo diretor como aquele lugar instável, repleto de mistérios e belezas. Aquele mundo paralelo que esconde segredos entre as calmas vilas e os agitados palácios. Uma terra explorada por Tolkien, Jackson e cada fã dessa história incrível. A trilha sonora de Howard Shore nos remete ao trabalho feito para a trilogia anterior, não que tenha algum tema parecido, a semelhança é em como ela é original, bem feita e conduzida. Apesar de acreditar que o longa merecesse mais indicações ao Oscar, levou apenas três. A primeira vai para Brent Burge, editor de efeitos sonoros na trilogia “O Senhor dos Aneis” e concorrendo com “Capitão Phillips” e “Gravidade” como melhor edição de som. A segunda, vai para um quarteto de especialistas em som que, juntos, somam cerca de 350 títulos ao longo de suas carreiras e que concorrem, mais uma vez, com “Capitão Phillips” e “Gravidade” pela estatueta de melhor mixagem de som. Por último, o quarteto liderado por Joe Letteri, vencedor de 4 Oscars, incluindo um pela carreira, é indicado por melhores efeitos visuais, prêmio que, provavelmente, irá para “Gravidade”. Claro que o filme poderia ter sido indicado em outras categorias, como melhor maquiagem e cabelo, direção de arte, trilha sonora e pela canção “I See Fire” totalmente encaixada no contexto da trama.


O maior problema, no entanto é podermos assistir a esse filme mesmo depois de ter falado tanto sobre sua história. Em meio a tanta beleza estética e sonora, Peter Jackson pesa a mão e traz um filme sem muitas novidades. Contar tudo o que acontece durante o longa não fará diferença, e não que o que interessa seja o desenrolar da trama como em alguns grandes filmes do cinema, o que interessa mesmo são os efeitos visuais e sonoros, a história é mais uma passagem entre a revelação da situação vista no primeiro filme e os acontecimentos que veremos no próximo longa. Conferir o desfecho dessa história deixa o espectador louco pelo próximo longa, e esse é o maior acerto de Jackson. Ouvir as últimas palavras de Smaug (dublado por Benedict Cumberbatch em uma interpretação fantástica), proferidas enquanto ele voa da Montanha Solitária direto para a aldeia de Laketown, faz nossos olhos se arregalarem, nossas mãos suarem e nossos lábios sorrirem, pois sabemos, que no próximo longa, a coisa vai esquentar ainda mais e, quem sabe, tenhamos o filme que tanto esperamos. Desta vez, ao que tudo indica, “Gravidade” será o grande vencedor da noite no Oscar, o que deixa “O Hobbit” fora do páreo. Quem sabe, Peter Jasckson acerte novamente, como fez três vezes seguidas com “O Senhor dos Aneis” e, no ano que vem, “O Hobbit” seja um vencedor em todos os sentidos. Afinal, ainda não foi dessa vez.

PRÊMIOS EDDIE (SINDICATO DOS EDITORES)
Melhor Edição em Drama: Chris Rouse, por Capitão Phillips
Melhor Edição em Comédia ou Musical: Jay Cassidy, Crispin Struthers e Alan Baumgarten, por Trapaça
Melhor Edição em Animação: Jeff Draheim, por Frozen: Uma Aventura Congelante
Melhor Edição em Documentário: Douglas Blush, Kevin Klauber e Jason Zeldes, por A Um Passo do Estrelato
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016. (ESPECIAL OSCAR 2014) INSIDE LLEWYN DAVIS: BALADA DE UM HOMEM COMUM, de Joel e Ethan Coen

Mesmo com todo o realismo, um dos filmes mais motivadores do ano.
Nota: 9,7



Título Original: Inside Llewyn Davis
Direção e Roteiro: Joel e Ethan Coen
Elenco: Oscar Isaac, Carey Mulligan, John Goodman, Justin Timberlake, Ethan Phillips, Robin Bartlett, Max Casella, Jerry Grayson, Jeanine Serralles, Adam Driver, Stark Sands, Garrett Hedlund, Alex Kaspovsky, Helen Hng, Bradley Mott
Produção: Etah, Coen, Joel Coen, Scott Rudin
Ano: 2013
Duração: 104 min.
Gênero: Drama / Musical

Llewyn Davis é um homem na casa dos trinta que tenta viver da música folk. Seus companheiros são sua mala que carrega no ombro e onde guarda seus pertences e seu violão. Seu endereço é o sofá da casa de seus amigos. Dentre eles, estão Mitch e Lilian Gorfein, grandes admiradores da música, e Jean e Jim, um casal de músicos que está muito mais desenvolvido que Llewyn. No passado, Davis tocava com seu falecido amigo Mike. Com o suicídio do parceiro, Llewyn tenta levar a vida da forma que consegue.


Joel e Ethan Coen são dos dos irmãos mais importantes do cinema moderno. Seus filmes sempre giram em torno de temas muito diferentes e cada produção possui particularidades muito distintas. Só para citar alguns títulos: “Fargo” (1996), “Matadores de Velhinha” (2004), “Onde os Fracos não tem Vez” (2007), “Queime Depois de Ler” (2008) e “Bravura Indômita” (2010). E o mais incrível é que, mesmo realizando produções tão diferentes, os Coen sempre surpreendem e agradam de forma inacreditável. A semelhança entre esses títulos, além dos diretores, é a forma como a vida humana é mostrada. Os Coen não estão preocupados em trazer alguma ilusão à vida dos protagonistas, tudo é sempre mostrado de forma muito crua, muito realista. E não é apenas a vida do protagonista que é tratada dessa maneira, a vida de todos os personagens é vista com algo comum. Aliás, o título em português diz mais do que deveria: sem rodeios, esse filme é, sem dúvidas, a história (ou balada) de um homem muito comum. Llewyn Davis não fez nada de sua vida pra que ela se tornasse algo mais produtivo. Claro que é louvável ver o amor e a seriedade com a qual ele trata a música, sempre deixando claro que cantar e tocar é muito mais que apenas um diversão, é um modo de vida. Entretanto, esse amor pela arte não é suficiente para fazer com que ele consiga bons contratos e possa se sustentar com a música, ainda mais agora que Mike o deixou. E Jean é a pessoa que mais lembra Llewyn a catástrofe que sua vida se transformou. Apesar de não ser um grande exemplo – Jean está grávida, mas tem dúvidas se Jim é o pai ou se Llewyn é o pai -, é ela quem diz algumas verdades para o protagonista durante a trama. Outro casal interessante são os Gorfein, amantes da música que toleram as más criações de Llewyn e tentam compreendê-lo em todos os momentos. Apesar de tudo, Llewyn é insistente: chega a ir à Chicago em pleno inverno estadunidense para tentar trabalhar em uma grande casa de shows. No caminho para essa viagem, conhece o velho Roland Turner um homem rabugento que insiste em humilhá-lo e ofendê-lo a respeito de sua profissão. E ali vemos o quanto Llewyn se sujeita a todo tipo de coisa para poder seguir em frente para conquistar seus sonhos.


O roteiro ambientado no início da década de 1960 e escrito pelos irmãos Coen é algo fantástico, um real presente esse ano. Não tê-lo indicado como melhor roteiro original no Oscar é uma lástima. E esse presente se deve a originalidade com a qual eles criaram uma história realmente comum. Enquanto assistimos a esse longa, é impossível não se perguntar quantas pessoas como Llewyn Davis existem no mundo. Quantos músicos determinados, apaixonados pela música que amam e respeitam o que fazem estão passando fome, frio e outras necessidades? Quantos deles não possuem lugar para morar? Quantos passam de casa em casa, de cidade em cidade em busca de alguém que os valorize? E Davis não está nessa vida por ser um cantor ruim. Para o folk, sua voz é boa, é simpática e gostosa de ouvir. As músicas escolhidas para o personagem representar combinam com sua voz. Sem falar no violão que ele toca muito bem. E até terminarmos de assistir ao filme, lembraremos que não são apenas artistas que vivem essa vida, muitas pessoas com potencial tem seus sonhos frustrados por serem vítimas de um sistema que privilegia alguns em detrimento de outros seres humanos. Os diálogos criados pelos irmãos Coen são magníficos, não há uma palavra dita que não seja necessária, até mesmo quando os personagens estão errados em pronunciá-las. E Jean é a dona de alguns dos melhores dizeres durante o longa, aliás, a personagem é ótima. Personagens da vida real, acontecimentos históricos ainda são mecionados uma vez ou outra, apenas para lembrar que o filme é uma criação, mas nem por isso uma ficção completa. O fato de Llewyn se apegar aos gatos (primeiro o que foge da casa dos Gorfein e depois um que encontra na rua) diz muito sobre o personagem: Llewyn é um homem solitário, dono de sua vida. A direção dos irmãos também deve ser mencionada como uma das melhores do ano, aliás, como aconteceu com os atores (principais e coadjuvantes) muitos diretores fantásticos foram esnobados pelo Oscar por estarmos vivendo um bom ano. Os irmãos Coen, Spike Jonze (“Ela”), Woody Allen (“Blue Jasmine”), Paul Greengrass (“Capitão Phillips”) e Stephen Fears (“Philomena”) poderiam formar mais uma categoria de direção facilmente.


Oscar Isaac esteve em alguns bons filmes durante a década passada. Além de “Drive” (2011), poucas interpretações merecem destaque. Seu Llewyn Davis, sem dúvida, é uma dessas interpretações. Se os irmãos Coen são os responsáveis pela criação de um personagem tão humano, interessante e curioso, Isaac é o responsável por tê-lo desenvolvido de forma impecável. Davis sabe o quanto a vida é difícil, sabe que não será fácil chegar onde deseja, e luta cada dia por seu “lugar ao sol”. E Isaac representa muito bem esse artista. Talvez por entendê-lo um pouco. O próprio ator se formou em 2005 na Julliard School (uma das maiores escolas de dramaturgia do mundo), mas foi apenas agora, com Llewyn, que começou a conseguir o reconhecimento que merece. Os momentos de loucura e raiva do personagem também são representados com muita força e inteligência por Isaac, que só não está indicado ao Oscar por uma detalhe. Carey Mulligan, que foi a ex-esposa do personagem de Isaac em “Drive”, está ao seu lado novamente. Mulligan traz uma Jean mal humorada, mas que compreende as dificuldades da vida e tenta fazer o possível para se dar bem em sua carreira. Apesar de aparecer em poucas cenas, Mulligan demostra um pouco da mulher de classe média da América na década de 1960, e o faz com muita competência. Justin Timberlake, que vive Jim, é simpático no papel, mas não podemos deixar de encarar sua interpretação apenas como se ele estivesse vivendo uma etapa da própria vida, afinal, o cantor aparece apenas em cenas em que canta. John Goodman fecha o elenco com chave de ouro. Ele é o rabugento Roland Turner, um homem gordo e debilitado com uma língua afiada e mal educada. É impossível não odiar Turner, e se Goodman, com toda sua simpatia e graça, nos faz odiar um personagem é por que está tudo muito perfeito.



Injustiça seja feita, “Inside Llewyn Davis” é indicado ao Oscar apenas como melhor fotografia e melhor mixagem de som, prêmios que, provavelmente irão para “Gravidade”. Injustiça por que esse filme merecia ser indicado a pelo menos mais meia dúzia de prêmios: filme, direção, ator (Isaac), ator coadjuvante (Goodman), roteiro e direção de arte. E chega a ser gratificante para a sétima arte ter tantos injustiçados nessa edição do Oscar, afinal, isso significa que muitos filmes bons foram realizados esse anos. E, com toda a certeza, os irmão Coen são responsáveis por um dos melhores. Llewyn Davis expõe a vida real de um homem comum. Uma balada de um homem comum: um homem que luta para realizar seus sonhos como qualquer outro. Identificar-se com o personagem Llewyn Davis é uma certeza, finalizar esse filme sem deixar sua mente repleta de reflexões, perguntas a, até mesmo, força para seguir em frente, é impossível.




SINDICATO DOS MAQUIADORES E CABELEIREIROS:
Melhor Estilo de Cabelo Contemporâneo::  O Mordomo da Casa Branca
Melhor Estilo de Cabelo de Época: Trapaça
Melhor Maquiagem Contemporânea: Os Suspeitos
Melhor Maquiagem de Época: Clube de Compras Dallas
Melhor Maquiagem de Efeito: Jackass Apresenta: Vovô Sem Vergonha

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017. (ESPECIAL OSCAR 2014) É HORA DE VIAJAR, de Lauren MacMullan

Uma boa diversão que ainda conta um pouco da realidade do cinema mundial.
Nota: 9,0


Título Original: Get a Horse
Direção: Lauren MacMullan
Elenco: Walt Disney, Marcellite Garner, Russi Taylor, Billy Bletcher, Will Ryan, Bob Bergen, Paul Briggs, Terri Douglas, Jess Harnell, Danya Joseph, Mona Marshall, Nicole Mitchell e Raymon S. Persi
Produção: John Lasseter, Michele Mazzano, Dorothy McKim
Roteiro: Paul Briggs, Nacy Kruse, Lauren MacMullan e Raymond S. Persi
Ano: 2013
Duração: 6 min.
Gênero: Curta-Metragem / Animação / Comédia

CONFIRA O CURTA:

(EM BREVE)

Mickey sai em um divertido passeio de carroça. No meio do caminho, encontra seus amigos Minnie, Horácio e Clarabela. Os quatro viajam felizes e se divertem muito, até que Bafo de Onça apareça para tentar estragar tudo. O objetivo do vilão é jogar os amigos não apenas para fora da carroça. Para ficar com Minnie, Bafo de Onça está disposto a tudo, inclusive tirar Mickey da animação e jogá-lo para o mundo real.


Esse curta-metragem divertido e engraçado foi lançado pela Disney de forma inteligente e muito bem vinda junto com o filme “Frozen: Uma Aventura Congelante”, favorito para o Oscar de melhor animação. Antes de “Frozen” começar, portanto, “É Hora de Viajar” é exibido rapidamente para o público. Claro que, agregado a “Frozen” que está perto de faturar um bilhão de dólares no mundo todo, esse curta se tornou um sucesso. As crianças já adoram o Mickey, vê-lo assim, no cinema e em 3D, é algo esplêndido para elas. Para os pequenos, é possível rir e se divertir com as aventuras de Mickey e Minnie Mouse, para os adultos, restam algumas sacadas que somente a Disney é capaz de proporcionar. O mais interessante, entretanto, fica a cargo dos efeitos do desenho animado. Assisti-lo em 2D deve ser algo muito sem graça. A beleza desse filme está em como o 3D é explorado. Bafo de Onça e Mickey travam uma guerra para que algum dos dois fique no mundo dos desenhos animados. O vilão, nesse contexto, tenta jogar Mickey para fora da tela e é como se o protagonista estivesse sendo jogado sobre a plateia. Para completar, uma enchente “adentra” o cinema e a diversão fica ainda maior e mais interessante. Após os dois primeiros minutos de filme, começamos a nos sentir dentro da história e toda a trama nos envolve do começo ao fim.



Indicado ao Oscar como melhor curta-metragem de animação do ano de 2014, “É Hora de Viajar” traz o melhor da Disney: a turma do Mickey, e em preto e branco! E esse efeito de cores é mais uma ideia extraordinária: enquanto os personagens estão dentro do mundo dos desenhos animados, tudo é em preto e branco, quando eles pulam para o nosso mundo, o mundo real, tudo passa a ficar colorido e acabamos vendo muitas referências bonitas ao cinema. Afinal, quando o colorido chegou, alternava-se a sétima arte entre filmes coloridos  e filmes preto e branco. E assim a história do cinema se seguiu: alternando-se entre o velho e o novo. Hoje, por exemplo, o 3D e o 2D brigam pela telona. Amanhã, quem sabe quais serão as novidades. O fato é que, de seu túmulo, Walt Disney sorri e espera, anciOso, pelo Oscar.

VENCEDORES DO PRÊMIO ANNIE (SOCIEDADE INTERNACIONAL DE FLMES DE ANIMAÇÃO):
Melhor Longa-Metragem: Frozen: Uma Aventura Congelante
Melhor Curta-Metragem: Get a Horse!
Melhores Efeitos de Animação em Produção de Animação: Jeff Budsberg, Andre Le Blanc, Louis Flores, Jason Mayer, por Os Croods
Melhores Efeitos de Animação em Produção Live Action: Michael Balog, Ryan Hopkins, Patrick Conran, Florian Witzel, por Círculo de Fogo
Melhor Animação de Personagem em Longa-Metragem de Animação: Jakob Jensen, por Os Croods
Melhor Animação de Personagem em Longa-Metragem Live Action: Jeff Capogreco, Jedrzej Wojtowicz, Kevin Estey, Alessandro Bonora, Gino Acevedo, por O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
Melhor Desenho de Personagem em Longa-Metragem de Animação: Carter Goodrich, Takao Noguchi, Shane Prigmore, por Os Croods 
Melhor Direção em Longa-Metragem de Animação: Chris Buck e Jennifer Lee, por Frozen: Uma Aventura Congelante 
Melhor Música em Longa-Metragem de Animação: Kristen Anderson-Lopez, Robert Lopez, Christophe Beck, por Frozen: Uma Aventura Congelante
Melhor Design de Produção em Longa-Metragem de Animação: Michael Giaimo, Lisa Keene, David Womersley, por Frozen: Uma Aventura Congelante 
Melhor Storyboarding em Longa-Metragem de Animação:Dean Kelly, por Universidade Monstros 
Melhor Dublagem em Longa-Metragem de Animação: Josh Gad, como Olaf, em Frozen: Uma Aventura Congelante
Melhor Roteiro em Longa-Metragem de Animação: Hayao Miyazaki, por Vidas ao Vento 
Melhor Edição em Longa-Metragem de Animação: Greg Snyder, Gregory Amundson, Steve Bloom, por Universidade Monstros 
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018. (ESPECIAL OSCAR 2014) A GRANDE BELEZA, de Paolo Sorrentino

Um filme realmente grande e belo.
Nota: 9,8


Título Original: La Grande Belleza
Direção: Paolo Sorrentino
Elenco: Tni Sevillo, Carlo Verdone, Serina Ferilli, Carlo Buccirosso, Iaia Forte, Pamela Villoresi, Galatea Ranzi, Franco Graziosi, Girgio Passotti, Massimo Popolizio, Sonia Gessner, Anna Della Rosa, Luca Marinelli, Serena Grandi, Ivan Franek, Vernon Dobtcheff, Dario Cantarelli, Pasquale Petrolo, Luciano Virgilio
Produção: Francesca Cima, Nicola Giuliano
Roteiro: Paolo Sorrentino e Umberto Contarello
Ano: 2013
Duração: 142 min.
Gênero: Drama

Jep Gambardella vive em Roma há mais de 40 anos. Quando chegou à cidade, ele mesmo confessa ter planejado viver uma vida de luxúria, bebidas, festas e tudo o que apenas aquela cidade poderia oferecer. Ainda jovem, Jep lançou um livo. Claro que ele planejava escrever mais, mas os anos foram passando, mulheres foram passando, festas foram passando, drogas e bebidas foram passando e o homem se tornou um escritor de um livro só, um grande sucesso, mas apenas um livro. Agora, Jep é jornalista em uma revista liderada for uma amiga de longa data. Apesar de ter um boa vida e ainda continuar gozando de muito tempo para aproveitar os dias (e as noites, principalmente), Jep sabe que falta alguma coisa, e completar seu aniversário de 65 anos apenas o deixa mais intrigado em descobrir o que está faltando para que ele encontre a grande beleza de sua vida.


Esse ano, o filme “Trapaça”, de David O Rusell, tornou-se um dos grandes favoritos ao Oscar 2014. Com uma história sobre corrupção e uma produção incrível, o filme faz uma homenagem aos longas que Martin Scorsese gravou nos anos 80, quando já falava sobre o mesmo tema e fazia denúncias sobre a construção suja da América. O. Russell, nesse contexto, traz cenários muito parecidos com os que Scorsese usou, traz personagens semelhantes, figurinos estonteantes e, até mesmo, uma edição que lembra cada um dos longas de Scorsese que trataram do tema. Paolo Sorrentino faz o mesmo. Mas o italiano não homenageia o mestre americano, ele escolheu um mestre de sua terra, escolheu Federico Fellini. E, além do homenageado ser outro, o país, agora, é a Itália, a década é a de 1960 e o tema é a vida, as dúvidas do homem, os anseios , as preocupações, as reflexões sobre passado, presente e futuro, e se existiu um passado, se existe um presente e se existirá um futuro. Se o que foi vivido valeu a pena, se foi tudo em vão ou se pode-se chegar a algum lugar após tantos anos vividos, após tantos caminhos percorrido. É impossível não lembrar Marcello Mastroianni em “A Doce Vida” (1960) ou em “Fellini 8 ½” (1962), as duas maiores obras de Fellini. Enquanto Marcello e Guido, personagens dos filmes de Fellini, tinham suas dúvidas quanto ao que fazer profissionalmente e viviam cercados pelas suas várias mulheres – as vivas e as mortas, as que permaneciam em carne e osso e as que viraram mera lembrança -, Jep começa a se perguntar por que não escreveu outro livro e se não deveria ter feito diferente. Jep lembra das mulheres que já teve e da vida que levou e das atitudes que teve ao lado delas.


Mas esses não são os únicos questionamentos que o filme traz. A principal diferença dos longas de Fellini para o longa de Sorrentino é a idade dos personagens. Considerando a loucura na qual Jep vive e lembrando do seu passado, provavelmente o personagem, nascido no final da década de 1940, tentou assistir aos filmes de Fellini, mesmo que fosse proibido para sua idade. Até me arrisco a dizer que a vida que Jep sonhava em ter quando se mudou para Roma, a vida boêmia que acabou conquistando, é um reflexo do que os filmes de Fellini mostravam à juventude. Não que Fellini estivesse errado em fazer aquilo, aliás, ele até fez alertas sobre como a sociedade estava se transformando, e acertou em capa palpite. Para o protagonista, compreender sua vida é muito mais importante que ligar para a vida alheia, e isso é posto à prova quando seus amigos lhe trazem fofocas e ele demonstra com o olhar a falta de vontade de saber coisas sobre os outros. Assim como nos filmes de Fellini, a vida do protagonista se mistura a festas e brincadeiras, mas vemos ali, também, que o personagem está cansado dessa “diversão” toda, quer algo mais significativo, algo mais belo para sua vida. Outra passagem muito interessante é a chegada de uma freira prestes a completar 104 anos. A mulher, que já é chamada por todos de Santa, rejeitou qualquer bem material e vive para os necessitados da África, veio à Roma apenas para se encontrar com o Santo Padre, o Papa. A influência de Jep e de sua editora são tantas que eles conseguem convencer a mulher a ir jantar com eles no apartamento de Jep. Isso tudo, sem falar das demais mulheres que aparecem na vida do homem: a primeira mulher com quem teve relações sexuais, uma mulher jovem e rica que gasta o dinheiro da forma que bem entende, a filha striper de um amigo, a editora anã para quem trabalha e outras que vivem em sua mente e/ou que passam por sua vida em um momento ou outro durante o longa. Mais uma vez seguindo a linha de Fellini, as mulheres, sem dúvida, são colocadas ao lado do protagonista como essenciais para sua vida, mais que isso: são a representação de algo que o protagonista chega a colocar à sua frente na maioria das fezes. Resumindo, Jep questiona tudo o que viveu e o que tem para viver, assim como o fazem Guido e Marcello, com uma diferença. Guido e Marcello percorreram quarenta ou cinquenta anos de vida, restando-lhes entre vinte e trinta. Jep já está com 65, com muita sorte, chegará aos setenta.


E se você acha que é apenas o enredo que se assemelha aos filmes de Fellini, você está muito enganado. A trilha sonora vem no mesmo estilo, misturando canções sacras, eruditas e músicas muito modernas. Podemos ouvir desde a voz de senhoras cantando em um coral, até a banda All Stars cantando a popular “Pan-Pan-Americano”. Os cenários também são parecidos. O filme inicia fazendo uma referência à Fonte de Trevi, monumento imortalizado pela cena em que Anita Ekberg se banha em suas águas. Para completar, mistura-se a vida agitada dos grandes centros e das festas da alta sociedade com momentos calmos em parques e igrejas. A fotografia também nos faz recordar um pouco Fellini: é de tirar o fôlego. Tudo é muito denso em “A Grande Beleza”, tudo é muito forte e marcante em seu próprio aspecto. Mais uma vez, como já vimos esse ano, o diretor Paolo Sorrentino, que também acina o roteiro da produção, consegue captar os sentimentos de seus personagens com a câmera. Sorrentido consegue mostrar cada reação de Jep diante dos acontecimentos da vida. A perplexidade do escritor ao conferir um número artístico onde uma mulher, berrando, bate a cabeça em uma pedra e depois chora e grita de dor. A nostalgia do homem que lembra a juventude, quando esteve, aos 18 anos, pela primeira vez com uma mulher. O deboche do intelectual que acredita, realmente, ser superior a algumas pessoas. A felicidade de Jep ao ver uma verdadeira e emocionante obra de arte. O interesse do homem ao se aproximar de mulheres e com seu charme conquistá-las para uma ou outra noite de “amor”. A tristeza do homem que, ao ver uma mulher de 104 anos em sua sacada observando pássaros, se dá conta de que sua vida não significa nada. Sorrentino, por fim, traz um filme forte e que tenta ser compreensível para qualquer um. A verdade é que aí está mais uma semelhança com os filmes de Fellini: não se pode assistir à “A Grande Beleza” com os olhos se distraindo com a pipoca ou o refrigerante, é preciso estar atento a tudo, pois a cada cena temos lições de vida imprescindíveis.


O italiano Tony Sevillo, vaga por uma Roma ora repleta de pessoas em casas e salões aproveitando festas que parecem intermináveis e que, se dúvida custaram fortunas, ora com suas ruas desertas, sem uma alma viva capaz de lhe fazer companhia. Esse é o Jep criado por Sevillo: um homem que ora tem seu coração, sua cabeça, sua vida rodeada de pessoas por todos os lados, com muita festa, música, bebidas e drogas, ora está sozinho, tendo que enfrentar o desconhecido e tentar refletir sobre o passado sem que ninguém o ajude. Na verdade, compreendemos que Jep está sozinho quase que o tempo todo fazendo o que Orson Welles afirmava: criando uma ilusão, através de amizades e amores, de que não está sozinho. E é Toni quem nos faz compreender isso. Com uma interpretação digna de indicação ao Oscar, revela o quanto um homem pode encontrar problemas em sua alma depois de velho. E é essa velhice que dá ao personagem propriedade para fazer refletir sobre esses assuntos. Os vários Jeps que o diretor criou (o perplexo, o nostálgico, o debochado, o feliz, o interessado) ganham vida com a interpretação perfeita do ator. Claro que os outros atores e atrizes que compõe o longa também são ótimos, mas todos estão apenas fazendo figuração para Toni Servillo. Para contemplar mais a atuação do italiano, se fosse permitido, acredito que a Academia de Artes Cinematográficas, responsável pela premiação conhecida como Oscar, deveria ter feito uma exceção esse ano e ter reconhecido mais  cinco candidatos como melhores atores, afinal, em poucos anos vimos tantas atuações masculinas tão fantásticas, a ponto de não haver nenhuma certeza quando ao vencedor da categoria. Ele seriam: Joaquim Phoenix (“Ela”), Oscar Isaac (“Inside Llewyn Davis: Balada de Um Homem Comum”), Tom Hanks (“Capitão Phillips”), Mads Mikkelsen (“A Caça”) e, claro, Toni Sevillo.



O personagem criado por Sorrentino e a história desenvolvida por ele e Umberto Contarello são duas preciosidades para a sétima arte nesse ano de grandes filmes. Toda a composição do longa indicado na categoria de melhor fime estrangeiro no Oscar, merece aplausos. E, em absoluto, podemos julgar essa obra como algo ruim apenas por que lembra Fellini. Scorsese, em “O Lobo de Wall Street”, homenageia seus próprios filmes. “Trapaça” homenageia Scorsese. “12 Anos de Escravidão” é um conjunto de dezenas de filmes sobre o sofrimento dos negros. Mas nem por isso são filmes menores ou menos originais. A escolha de Paolo Sorrentino em trazer um homem mais velho foi genial e perfeita, afinal, tudo muda quando vemos o mundo sobre os diferentes olhares das diferentes idades do ser humano. Chega a ser interessante assistir os filmes de Fellini e a esse como um complemento, passando de década em década da vida do ser humano para se tentar refletir e compreender melhor nossa própria vida. O que Sorrentino faz é algo vivo, charmoso, elegante, atraente e melancólico. E é por combinar tanta vida à melancolia que seu filme é uma obra de arte maravilhosa que nos faz refletir, acima de tudo, sobre a vida. Se o filme ganhará o prêmio no Oscar, é uma dúvida imensa, afinal, o grande favorito para a categoria nem chegou a ser indicado, mas, o fato é que, vencendo ou não, sem dúvida, esse é um dos grandes filmes da nova década.

 SINDICATO DOS DIRETORES DE ARTE
Melhor Direção de Arte em Filme de Época: Catherine Martin, por O Grande Gatsby
Melhor Direção de Arte em Filme de Fantasia: Andy Nicholson, por Gravidade
Melhor Direção de Arte em Filme Contemporâneo: K. K. Barett, por Ela

SOCIEDADE DOS FOTÓGRAFOS
Melhor Fotografia: Emmanuel Lubezki, por Gravidade
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