domingo, 13 de setembro de 2015

QUE HORAS ELA VOLTA?, de Anna Muylaert

Novo longa de Anna Muylaert denuncia as desigualdades, os preconceitos e as injustiças em um filme realista, bem humorado, inteligente e instigante. A representação de boa parte do Brasil em uma das melhores produções brasileiras dos últimos anos.   



Val é uma pernambucana mãe de uma garota, Jéssica. Val sai de sua terra e vai morar em São Paulo para cuidar de Fabinho, que pertence a uma família de classe alta paulista. Dez anos depois de ver sua filha pela última vez, Val recebe a ligação da jovem dizendo que deseja ir para São Paulo prestar vestibular. Jéssica vai ao encontro da mãe, e as coisas se complicam quando a menina não respeita o sistema clássico entre “quem deve mandar” e “quem deve obedecer”.


A história é simples. A história é vista todos os dias por todos os brasileiros. Os personagens são os mais cotidianos possíveis. A forma de se contar, de se ver, de se experimentar essa história é que faz a diferença. O roteiro é contado sobre o ponto de vista de Val, a figura da chamada “empregada doméstica” tão conhecida pelos brasileiros, mas a forma como se conta possibilita que qualquer espectador disposto a seja representado. Simples: os sentimentos, a intimidade, as frustrações, os desejos, as conquistas da protagonista são conquistas humanas, independente de cor, sexo, raça, origem, orientação, ou o que for. Além disso, outro fator que faz com que a forma de contar essa história seja única são os dois pontos técnicos que compõe basicamente um produto audiovisual: a imagem e o som. Com enquadramentos impecáveis e muito bem compostos e posicionamento de atores (mesmo aqueles fora de quadro) muito bem ensaiados, e com qualidade sonora elevada e muito realista, o filme lembra que a direção é de Anna Muylaert, diretora sempre muito preocupada com a excelência em seus trabalhos.


Claro que essa relação da temática com o interior da protagonista possui limites, e outras questões importantes irão surgir. É bom ir para o cinema com uma visão mais ampla da vida. Aberto às possibilidades. Não é qualquer espectador que consegue adentrar um universo do qual fazemos partes, mas pouco notamos. A classe dominante, aquela que domina as salas dos cinemas, ainda muito elitizado, deve estar disposta a reconhecer o preconceito e a tentar entender a questão migratória e maternal/feminina. As denúncias feitas por Anna, também roteirista do longa, são inúmeras e quem conferir o filme deve estar disposto a refletir sobre elas, ou cairá no erro de achar que o filme é um produto simples e sem grandes novidades ou pretensões. O mais inteligente do filme é como a principal dessas denúncias, o preconceito de classes, não possui grandes destaques em cenas que chamem a atenção. Anna denuncia, assim, que essa segregação está incutida no ser humano e pede, de forma muito clara, por mudanças.


Outras questões levantadas sobre o longa fazem referência à sociedade hipócrita que forma o Brasil, à medida que Barbara, a patroa, na intimidade do lar, afirma considerar Val da família, mas recusa a apresentá-la dessa forma para a sociedade. Em contraponto, há a relação entre Val e Fabinho, de mãe e filho, afinal, foi ela quem criou e deu o amor materno ao menino durante anos. Da mesma forma que a relação entre Val e Barbara é construída pautada pela submissão, a de Val e Fabinho é pautada pelo amor e pela dependência. Relação, essa, desconstruída ao longo do filme como qualquer relação entre pais e filhos, na busca pela dependência. Há, também, a denúncia do preconceito em relação a nordestinos que vivem fora do nordeste, que são marginalizados e vistos como inferiores a qualquer outro cidadão. Nesse caso, Muylart traz Jessica questionado e lutando para provar que ninguém é melhor que ninguém. Durante o filme, como na vida real, mais e mais discussões surgem, algumas ganhando proporções maiores, outras sendo tratadas de forma mais rápida.   
Grande parte da responsabilidade de denunciar esse preconceito enraizado nos brasileiros é do elenco monstruoso reunido por Anna. Os personagens são bastante tradicionais: a empregada submissa aos patrões, a filha rebelde, o adolescente mimado (Fabinho), a patroa abusiva, o marido desocupado (José Carlos). As relações estabelecidas também são típicas entre esses personagens. Relações que ficam muito clara pelas interpretações do elenco. Regina Casé, finalmente, deixa de ser Regina Casé e assume o papel de uma mulher que acaba se diminuindo por imposição do sistema e que, aos poucos, amadurece e nota que está na hora de mudar sua vida. Casé apresenta uma interpretação sincera, convincente e realista de uma mulher que deseja o melhor para a filha. Uma mulher humana, que reconhece sua imperfeição e que descobre que nunca é tarde para nada. Camila Márdila e Michel Joelsas representam dois jovens típicos do momento atual brasileiro: ela, Jessica, está inconformada com o preconceito, revoltada com as diferenças e exige a igualdade; ele, Fabinho, é o garoto de classe alta mimado que pode sempre contar com o dinheiro dos pais para forçar sua felicidade. Karine Teles e Lourenço Mutarelli, Barbara e José Carlos, são o retrato da classe alta brasileira: preocupados apenas com eles mesmos e cheios da razão.


Segundo uma senhora que estava sentada ao meu lado na sessão lotada (sem nenhuma poltrona vaga) na sala de cinema quanto assisti ao filme, Que Horas Ela Volta? é uma tese. Concordando com ela, afirmo, também que uma página e meia de comentários sobre o longa não são suficientes para falar tudo sobre ele. Mas as pontuações em relação à história e em relação à técnica são o suficientes para o espectador assistir ao filme com mais atenção. Para alguns, claro, o cotidiano e as situações cômicas que sustentam o longa serão enfadonhas e a produção não passará de um filme muito popular. Mas esse pensamento não tem a ver com o filme, e sim com uma reação às denúncias sociais do filme. Uma pena que, em pleno 2015, uma história de uma mulher que trabalha como empregada doméstica contada por uma mulher ainda seja alvo do preconceito daqueles que irão assistir ao filme sem esperanças de que algo assim possa ser tão maravilhoso. Muitos homens já falaram sobre como o filme é inferior. Eu prefiro ficar com as palavras da senhora sentada ao meu lado: Que Horas Ela Volta? retrata um Brasil novo. O Brasil que queremos. Um Brasil que precisa dar a volta por cima e terminar com as diferenças. Ou, pelo menos, tentar diminuí-las ao máximo.    
Bônus: música tema do filme:

  
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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

“QUE HORAS ELA VOLTA?” É O ESCOLHIDO PARA REPRESENTAR O BRASIL NO OSCAR 2016

Dentre oito filmes selecionados, o longa Que Horas ela Volta?, de Anna Muylaert, foi o escolhido pelo Ministério da Cultura como o representante oficial do Brasil para concorrer na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2016.



Para ser considerado apto para tentar a vaga e concorrer com quase outras duas centenas de filmes de todo o mundo na categoria de melhor filme estrangeiro na premiação do Oscar 2016, o longa deveria ter sido apresentado em salas comerciais entre 1º de outubro de 2014 e 30 de setembro de 2015. No Brasil, foram selecionados oito filmes para concorrer a essa vaga. Todos os filmes possuem potencial considerável, mas o escolhido foi o longa Que Horas ela Volta?, dirigido por Anna Muylaert e protagonizado por Regina Casé. O filme já arrancou aplausos e grandes elogios das críticas e de festivais internacionais. Muylaert, que também escreveu o roteiro do longa, venceu prêmios no Festival Internacional de Berlim, no Festival Internacional de RiverRun e no Festival do Cinema Mundial de Amsterdam. Regina Casé e Camila Márdila venceram o prêmio especial do júri do Festival de Cinema de Sundance de melhor interpretação feminina dramática. Que Horas Ela Volta? Tem sido um dos filmes mais aclamados e comentados dos últimos anos no Brasil e é um forte concorrente para a estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Confira o trailer do longa Que Horas Ela Volta? abaixo:


E mais: confira todos os concorrentes e suas sinopses:

QUE HORAS ELA VOLTA?, de Anna Muylaert
Com: Regina Casé, Camila Márdila, Michel Joelsas, Karine Teles, Lourenço Mutarelli, Helena Albergaria, Luis Miranda e Theo Werneck
Val se muda do Pernambuco para São Paulo para dar melhores condições de vida para a filha, que fica no Pernambuco sob os cuidados da avó. Val, então, arruma emprego como babá de Fabinho na capital paulista e passa a viver na casa dos patrões integralmente. Treze anos depois, a filha, Jéssica, vai ao encontro da mãe para prestar vestibular. Jéssica, entretanto, parece muito mais à vontade na casa do que deveria, o que causa desconforto.


A HISTÓRIA DA ETERNIDADE, de Camilo Cavalcante
Com: Irandhir Santos, Marcelina Cartaxo, Zezita Matos, Débora Ingrid, Claudio Jaborandy, Maxwell Nascimento
A jovem Alfonsina é filha de Nataniel, um home agressivo e autoritário, tem mais quatro irmãos e um tio, Joãozinho, um artista epilético que é considerado um louco pelo irmão, mas por quem Alfonsina é secretamente apaixonada. Querência, na casa dos 40 anos, acabou de enterrar um filho e está tentando passar por isso quando o sanfoneiro cego, Aderaldo, se declara apaixonado e pronto para enfrentar tudo com ela. Dona das Dores criou os filhos e ficou sozinha na aldeia enquanto eles ganharam o mundo, ela espera, ansiosa, pela visita do neto, Geraldo.


ALGUÉM QUALQUER, de Tristan Aronovich
Com: Tristan Aronovich, Amanda Maya, Maísa Magalhães, Renata Souza, Ana Maria Saad
Zé, um faxineiro e restaurador de cadeiras de palha sofre um ataque cardíaco e descobre que só tem mais seis meses de vida. Com o susto e após reencontrar uma prima, Jandira, Zé começa a refletir sobre a vida e sua existência.


CAMPO DE JOGO, de Eryc Rocha
Documentário.
A partir de um campeonato de comunidades da Zona Norte do Rio de Janeiro, o futebol no cotidiano da periferia é explorado como um esporte místico e que mistura a bola rolando no campo, com a vida real dos personagens.


CASA GRANDE, de Fellipe Barbosa
Com: Thales Cavalcanti, Marcello Novaes, Suzana Pires, Clarissa Pinheiro, Bruna Amaya, Georgiana Góes, Sandro Rocha, Lucélia Santos
Hugo e Sônia possuem uma família tradicional brasileira que vive em uma bela casa num bairro burguês carioca. O que o casa de filhos da família não sabe é que Hugo está prestes a declarar falência e ver todo o conforto e mesquinharias da família ir por água abaixo. Enquanto isso, Jean, o filho mais velho, enfrenta o vestibular e outras descobertas da idade.   


ENTRANDO NUMA ROUBADA, de André Moraes
Com: Deborah Secco, Bruno Torres, Júlio Andrade, Lúcio Mauro, Jose Mojica Marins, Marcos Veras, Thogun Teixeira, Aramis Trindade  
Um grupo de amigos e artistas decadentes ganha 100 mil reais e resolve realizar um filme: o Aceleração Máxima, que se passa na estrada e conta com assaltos, tiros e perseguição. Entretanto, a melhor forma encontrada para que o filme seja realizado é tornando-o algo um pouco mais real do que deveria.


ESTRADA 47, de Vicente Ferraz
Com: Daniel de Oliveira, Francisco Gaspar, Júlio Andrade, Ivo Canelas, Sergio Rubini, Thogun Teixeira, Richard Sammel
Em meio a Segunda Guerra Mundia, soldados da FEB acabam se perdendo do batalhão. Quando conseguem se juntar, o grupo deve decidir se volta para o batalhão e sofre as consequências da deserção, ou se enfrentam os inimigos do Eixo. No caminho, conhecem um jornalista que lhes revela um segredo capaz de ser barganhado pelo perdão.


ESTRANHOS, de Paulo Alcantara
Com: Jackson Costa, Cyria Coentro, Caco Monteiro, Nelito Reis, Ângelo Flávio, Mariana Muniz, Agnaldo Lopes, Tom Carneiro
Uma professora cortejada pelo açougueiro e pelo diretor da escola onde trabalha. Um ex prostituta que apanha do marido. Um assaltante gay e seu parceiro. Duas crianças que estão descobrindo o amor. E um louco apaixonado. Diferentes personagens. Diferentes vidas. Mas não por isso histórias isoladas. 


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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Websérie "Superação": Haitianos no Brasil realizam projeto para combater preconceito

Websérie quer mostrar aos brasileiros as dificuldades que os haitianos enfrentam quando chegam no país


por (adaptadoRede Brasil Atual
Personagens da websérie
Imigrantes haitianos, em São Paulo, estão produzindo uma websérie para contar aos brasileiros as dificuldades que enfrentam por aqui. O projeto Superação é uma forma de buscar integração e combater o preconceito. O primeiro episódio da websérie, que foi lançando na semana passada, é uma parceria entre a associação Comunidade Haitianos no Brasil e as secretarias de Cultura e Direitos Humanos de Santo André.
Um casal de haitianos recém-chegados a Santo André, na grande São Paulo, passa por crises e superações no novo país. O roteiro é uma ficção, mas poderia ser a história real da chegada ao Brasil de muitos imigrantes haitianos, conta o jornalista Pierre Montalais, um dos idealizadores do projeto e ator de primeira viagem.
"Não só a integração dos haitianos aqui é difícil. A vida é difícil. Com esse projeto, posso compartilhar minha cultura", relata Pierre.
O diretor Cristiano Roppa conta que até os nomes dos personagens principais, Papouch e Miselene, foram tirados de listas de imigrantes haitianos que chegam ao Brasil. "Quando Pierre propôs para a gente, trouxe muitas das vivências que ele já teve, as dificuldades e tudo o mais. Nós colocamos esses elementos todos no argumento da série. Ela tem um lado fictício e tem um lado muito realista."

Satisfeitos, hatianos exibem seus documentos brasileiros.
O projeto quer auxiliar na integração dos haitianos, aqui no Brasil, e também registrar o início da imigração na cidade. Um dos objetivos é que a série faça parte do acervo da prefeitura, disponível para as escolas do município, e também da Cinemateca Brasileira.
Os haitianos reclamam que a comunidade ainda é invisível nas mídias, a não ser quando acontecem casos policiais. Por isso, os vídeos também têm a intenção de quebrar preconceitos. "Tem haitianos aqui que tem talento, que tem capacidade intelectual. Pensam que todos os haitianos que vêm para o Brasil só trabalham na construção, na limpeza. Têm haitianos que fizeram faculdades, como vocês. Têm engenheiros, médicos, jornalistas, tem de tudo, aqui no Brasil", diz Pierre.
"Se a gente conhecer um pouquinho mais da história deles, conhecer um pouquinho mais da cultura, das dificuldades que passaram, no Haiti, a gente vai entender um pouco mais, abrir mais o coração, e recebe-los com muito amor", Loide Almeida, produtora.
 Confira a reportagem de Jô Miyagui para o Seu Jornal, da TVT:
Confira também, A Chegada,  primeiro episódio da Websérie: 
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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

BIOGRAFIA: INGMAR BERGMAN - PARTE III

No dia 14 de julho, o cineasta Ingmar Bergman teria completado 98 anos de vida. Entretanto, o sueco morreu em 2007, completando, hoje, 8 anos desde sua morte. Confira, algumas imagens da carreira de Bergman e um quadrinho curioso baseado em uma entrevista do cineasta.






 Essa história em quadrinhos foi baseada em uma entrevista de Bergman à jornalista Anna Salander, que, especula-se, é mais uma criação do próprio cineasta. A entrevista completa você pode encontrar no site mostraingmarbergman.com.br











  

domingo, 2 de agosto de 2015

BIOGRAFIA: INGMAR BERGMAN - PARTE II (1970 - 2007)

No dia 14 de julho, o cineasta Ingmar Bergman teria completado 98 anos de vida. Entretanto, o sueco morreu em 2007, completando, hoje, 8 anos desde sua morte. Confira, a segunda parte da biografia de um dos mais enigmáticos cineastas da história do cinema.



A década seguinte começou com Documentário Farö (1970) e terminou com Documentário Farö 1979 (1979), sobre a ilha onde Bergman possuía uma casa e onde viveu seus últimos anos de vida. A casa fora comprada na década de 1960 e representou a expressão concreta de sua preferência por lugares isolados e pelas perturbações humanas. Durante os anos 70, seguiu o caminho das traições humanas com A Hora do Amor (1971) e, mais uma vez, Bergman voltou seus olhares à mulheres. Gritos e Sussurros (1972) reuniu no elenco algumas das mulheres mais desejadas do cineasta: Harriet Andersson e Liv Ullmann, com quem teve casos amorosos, e Ingrid Thulin , além da filha de cinco anos, Linn Ullmann. O filme trata do relacionamento de três irmãs, uma à beira da morte e outras duas que vem para visitá-la. No ano seguinte, Bergman lançou seu mais importante trabalho na televisão sueca, a minissérie Cenas de um Casamento (1973), que revelava a vida íntima de um casal (vivido por Liv Ullmann e Erland Josephson) que mantêm (ou sustenta) um relacionamento há dez anos. Na televisão, ainda vieram as adaptações da peça de Molière, Misantropen (1974), e da ópera de Mozart, A Flauta Mágica (1975). Exilado na Alemanha, os filmes seguintes foram: Face a Face (1976), O Ovo da Serpente (1977) – que contou com a participação do americano David Carradine – e Sonata de Outono (1978) – onde Bergman retoma os conflitos femininos, desta vez, entre uma mãe (Ingrid Bergman) e sua filha (Liv Ullmann).

Gritos e Sussurros (1972)
No final de 1981, Bergman começou as filmagens de seu novo longa. No início do ano seguinte, o cineasta anunciou, oficialmente, que o filme que estava produzindo seria seu último trabalho para o cinema. Em março do mesmo ano as filmagens do longa terminaram e, finalmente, em dezembro, Ingmar Bergman estreou o último filme de sua carreira cinematográfica: Fanny e Alexander (1982). Foi o maior filme feito por Bergman: 60 personagens, direção de arte e figurino de época, colorido, um roteiro de mais de mil páginas e seis meses de filmagens, que resultaram em um filme de 188 minutos. O filme é, claramente, o retrato da juventude do cineasta. Dois anos depois, Ingrid Thulin estrelou na televisão Depois do Ensaio (1984). Em 1986, o cineasta lançou Documentário Fanny e Alexander (1986), sobre seu último filme nos cinemas. Nos anos seguintes, Bergman lançou duas biografias escritas: Lanterna Mágica (1987) e Imagens (1990). Em 1988, ao lado de um grupo de cineastas europeus, o cineasta participou da criação da Academia de Cinema Europeu, que fundou, no ano seguinte, a Sociedade de Ciunema Europeu, das quais Bergman foi o primeiro presidente.

Sonata de Outono (1978)
Com Na Presença do Palhaço (1997), Bergman retoma um personagem de Fanny e Alexander, o inventor Carl Akerblom, tio das crianças do filme de 1982. Saraband (2003) foi o último filme da carreira de Ingmar Bergman. Protagonizado por Liv Ullmann e Erland Josephson, o filme narra a visita de uma senhora a casa do ex-marido. Algumas pessoas vêem esse filme como uma retomada de Cenas de um Casamento, já que os personagens principais tem os mesmos nomes e profissoões e se separaram há trinta anos, mesma época em que os personagens do outro filme. Sobre Saraband, Bergman dizia: “Eu o escrevi da maneira que me acostumei a escrever por mais de 50 anos – parece uma peça, mas poderia facilmente ser um filme, um programa de televisão ou simplesmente algo para ler”. No mesmo ano, Ingmar Bergman concordou em conversar com a diretora Marie Nyreröd sobre medos, arrependimentos, paixões e sobre seus filmes, o que resultou no documentário A Ilha de Bergman (2004). Os documentários The Women and Bergman (2008) e The Men and Bergman (2008), ambos feitos para televisão por Anna Beling, mostram atrizes e atores, respectivamente, falando sobre como foi trabalhar com o cineasta. Por fim, os documentários de Stig Björkman: Imagens do Playgroud (2009) e … Mas o Cinema é Minha Arte (2010), o primeiro feito em cima de imagens realizadas por Bergman no início dos anos 1950 com uma câmera 9.5 milímetros, o segundo, um documentário com entrevistas com Liv Ullmann e grandes cineastas influenciados pelo sueco. Em 2013, diversos cineastas falaram sobre Bergman em Trespassing Bergman, de Jane Magnusson e Hynek Pallas.

Fanny e Alexander (1982)
Ingmar Bergman foi casado 5 vezes, teve 9 filhos reconhecidos e casos com inúmeras atrizes. A primeira esposa veio em 1943, a dançarina e coreógrafa Else Fischer, com quem teve Lena. Dois anos depois, Bergman casou com Ellen Lundström, diretora de cinema com quem teve quatro filhos: Eva (que se tornou diretora de cinema), Jan e Anna e Mats (gêmeos que se tornaram atores). Em 1950, após passar um tempo na companhia da jornalista Gun Grut em Paris, Bergman se divorciou de Ellen e se casou com Gun, com quem teve Ingmar Jr. Durante o casamento, Bergman teve casos com as atrizes Harriet Andersson (1951) e Bibi Andersson (1955). Em 1959 se divorciou e casou com a pianista finlandesa Käbi Laretei, com quem teve Daniel, que também se tornou diretor de cinema. No mesmo ano, teve uma filha com uma amante, Ingrid Von Rosen. No meio desse casamento, Bergman teve um dos seus relacionamentos mais conhecidos e aclamados, com a atriz Liv Ullmann, com quem teve uma filha, Linn, que se tornou crítica literária e escritora. Em 1969, Bergman se separou novamente e voltou a casar em 1971 com Ingrid von Rosen, sua última esposa, com quem permaneceu casado até 1995, quando ela morreu de câncer no estômago. A partir daí, a vida do grande cineasta Ingmar Bergman se resumiu a permanecer em sua casa na Ilha de Farö, na Suécia, até morrer em 2007.

Saraband (2003)
Durante sua carreira, Ingmar Bergman viu quatro de seus filmes vencerem o Festival de Cannes (Sorrisos de uma Noite de Amor, O Sétimo Selo, No Limiar da Vida e a Fonte da Donzela), recebendo mais um prêmio por sua carreira. No Festival de Berlim, Morangos Silvestres ganhou um Urso de Ouro e o diretor foi homenageado com uma retrospectiva completa de seus filmes em 2011. Em Veneza, recebeu um prêmios especial por sua carreira, homenageado ao lado de John Ford e Marcel Camé em 1971. No Globo de Ouro foram sete filmes: Morangos Silvestres, A Fonte da Donzela, Através de um Espelho, Cenas de um Casamento, Face a Face, Sonata de Outono e Fanny e Alexander. Por fim, no Oscar, foram três prêmios de melhor filme estrangeiro (A Fonte da Donzela, Através de um Espelho e Fanny e Alexander), além dos prêmios de melhor fotografia para Gritos e Sussurros e de melhor fotografia, direção de arte e figurino para Fanny e Alexander. Em 1971, Bergman foi homnegaeado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas por sua carreira com o prêmio Irving G. Thalberg e em 1990 recebeu um prêmio especial do Sindicato dos Diretores dos Estados Unidos.

Trespassing Bergman (2013)

Fontes:
MANDELBAUM, Jacques. Ingmar Bergman – Masters of Cinema – Cahiers du Cinéma. 2ª ed. Phaidon, 2011.
CASTAÑEDA, Alessandra; LUCCAS, Giscard; ZACHARIAS, João Cândido (org.). Ingmar Bergman; 1ª ed. Rio de Janeiro: Jurubeba Produções, 2012.

ACHED, Jan. O Cinema Segundo Bergman. p. 72 – 77 Revista Bravo! Ano 6 Ed. D’Avilla, LTDA., 2002. 

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