quarta-feira, 14 de novembro de 2012

175. SRA. HENDERSON APRESENTA, de Stephen Frears


Um filme emocionante sobre um super-heroi real e ainda mais importante que os da ficção.
Nota: 9,2


Título Original: Mrs. Henderson Presents
Direção: Stephen Frears
Elenco: Judi Dench, Bob Hoskins, Will Young, Christopher Guest, Thelma Barlow, Kelly Reilly, Anna Brewster, Rosalind Halstead, Sarah Solemani, Natalia Ten
Produção: Norma Heyman
Roteiro: David Rose, Kathy Rose, Martin Sherman e Sheila van Damm (Livro)
Ano: 2005
Duração: 103 min.
Gênero: Drama /Comédia

Durante a Segunda Guerra Mundial diversas personagens foram criadas para estimular os jovens soldados nos campos de batalha, dentre os mais conhecidos temos os quadrinhos do Capitão América. Todavia, pessoas da vida real deram mais estímulo do que se possa imaginar aos soldados, dentre elas Laura Henderson, uma viúva que abriu a casa de shows Windmill, onde passaram a ser feitas apresentações com mulheres nuas para a diversão dos jovens e para que eles esquecessem um pouco de tudo o que estava acontecendo. O teatro continua aberto até os dias de hoje, claro que não com a mesma finalidade, mas com um prestígio cada vez maior.

A SENHORA HENDERSON E
ALGUMAS MENINAS DO WINDMILL.

Após a morte do marido, a velha Sra. Henderson acaba ficando entediada e, depois, de procurar gastar sua fortuna comprando, bordando ou fazendo caridade, ela resolve comprar o velho e a abandonado teatro Windmill em Londres. Em meio às danças, apresentações e problemas (que incluí a óbvia cópia das inovações do Windmill pelos demais teatros da cidade, resolvido pela proprietária colocando-se garotas nuas no palco), vemos a Laura Handerson ir e vir da França visitando um cemitério. Como se não bastasse, inicia-se a Segunda Guerra Mundial e todos ficam expostos ao perigo, entretanto, o Windmill sempre estará aqui para ajudar os jovens soldados e revelar alguns segredos que merecem ser contados.


O diretor do espetáculo que é esse filme é o inglês duplamente indicado ao Oscar Stephen Frears, o mesmo de filmes como “Ligações Perigosas” (1988), com Glenn Close, John Malkovich e Michelle Pfeiffer e vencedor de 3 Oscars; “Os Imortais” (1990), com Anjelica Huston, John Cusack e Annette Bening, indicado a 4 prêmios da Academia; “Alta Fidelidade” (2000), com John Cusack e Catherine Zeta-Jones, indicado ao Globo de Ouro; “Coisas Belas e Sujas” (2002), com Audrey Tatou e indicado ao Oscar de melhor roteiro; “A Rainha” (2006), com Helen Mirren, vencedora do Oscar de melhor atriz, e Michael Sheen; e, mais recentemente, “Chéri” (2009), com Michelle Pfeoffer , Rupert Friend e Kathy Bates. O trabalho de Frears nesse filme é bem aquilo que imaginamos que deveria ser: ele não decepciona em momento algum e consegue transformar uma história real em pura magia, nos fazendo imaginar se, na realidade, o que aconteceu não foi a magia de Laura Henderson sendo transformada em realidade para o mundo. Outra singularidade do filme é o também inglês George Fenton, compositor de mais de 110 títulos entre cinema e televisão, que é o responsável por nos trazer as músicas que serão acompanhadas pelas apresentações das belas moças do Windmill, além de dar um pouco mais de dramaticidade a algumas cenas e mais alegrias a outras.
Judi Dench é, sem dúvida, uma dama inglesa, e mais, ao lado de Maggie Smith é a maior atriz viva do cinema inglês. Aqui ela dá uma espetáculo ao interpretar a Sra. Henderson, e os motivos para tanta excelência são óbvios: Dench é impecável como uma viúva forte, que aprendeu muitas coisas com a vida e que não se deixa abalar tão facilmente, mas que parece esconder algum segredo daqueles que não precisamos contar para ninguém, a não ser que seja necessário, e é aí que está a grande sacada da interpretação de Judi, ela consegue demonstrar isso com apenas um olhar, um gesto, uma fala. Além de Dench, temos no elenco Bob Hoskins, o excêntrico Sr. Vivian Van Damm contratado por Henderson para ser o diretor do teatro, o ator é tão natural e sem preconceitos que chega parecer que conviveu com a própria personagem. O mais curioso, entretanto, em toda a produção, é que, tanto Dench, quanto Hoskins, passaram pela Segunda Grande Guerra, ela apenas sabendo da existência do tal teatro, já ele tendo visto apresentações com seu pai. No DVD do filme aconselho a assistirem, nos extras, o especial que mostra algumas das “garotas” do espetáculo. Há ainda, na internet um vídeo ótimo com fotos das apresentações originais.
No final das contas, “Sra. Henderson Apresenta” é bem diferente do que podemos imaginar, todavia isso não significa que seja decepcionante, muito pelo contrário: aqui não precisamos de trincheiras ou campos de concentração para compreendermos a dor de quem vai e quem fica, não precisamos de heróis como o Capitão América para salvar e estimular as nações, pelo simples fato de que, para nos mostrar a dor e salvar os jovens que estão indo para um lugar do qual eles jamais voltarão, temos a Sra. Henderson e o eterno Windmill. Por fim, esse filme não é apenas uma representação dos feitos da Laura Henderson na Inglaterra em meio ao tumulto da Segunda Guerra Mundial, e sim uma forma simples e bela de demonstrar como todos podemos nos ajudar quando necessário, nem que seja levando aos jovens mulheres nuas para que a guerra se torne menos cansativa, enfadonha, frustrante e desnecessária.


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176. SEVEN – OS SETE CRIMES CAPITAIS, de David Fincher


O primeiro destaque de Fincher no cinema não podia ser menos que excelente.
Nota: 9,3


Título Original: Se7en
Direção: David Fincher
Elenco: Morgan Freeman, Brad Pitt, Gwyneth Paltrow, Kevin Spacey, R. Lee Ermey, Daniel Zacapa, John Cassini, Bob Mack, Peter Crombie, Reg E. Cathey
Produção:
Roteiro: Andrew Kevin Walker
Ano: 1995
Duração: 127 min.
Gênero: Drama / Thriller


Enquanto o detetive William Somerset está se aposentando e deixará o ofício, o jovem David Mills chega na cidade para ficar em seu lugar. Somerset é um homem velho e sozinho, nunca teve família e vive sua vida de forma pacata e tranquila; Mills, no entanto, está casado e planeja formar uma família no futuro. O que nenhum deles esperava é que o gênio calmo de Somerset e o gênio impetuoso de Mills teriam de se unir para desvendar o caso de um homem que parece fazer suas vítimas procurando nelas algum dos sete pecados capitais: gula, luxúria, ira, inveja, avareza, vaidade e preguiça.


Desde o início do século XIV a Santa Igreja Católica definiu que o ser humano pecava de sete formas horrendas que o fariam jamais atravessar os portões do céu, e sim, fazer com que fossemos recebidos de braços abertos no inferno. São eles: gula (o desejo insaciável por tudo), avareza (apego descontrolado pelo que é material), luxúria (apego ao prazer material e sensual), ira (raiva e ódio descontrolados), inveja (priorizar o que é alheio, ignorando a si próprio), preguiça (vadiagem, negligência, desgosto pelo trabalho e pela servidão) e, por fim, vaidade (orgulho, arrogância, soberba). Durante os anos cada pecado foi sendo associado a uma ou outra atitude,  e é nessa associação que o filme se centra, só para dar um exemplo: o pecador guloso, logo no início da trama, morre comendo demais, literalmente até seu corpo explodir. Esse é só o começo, a criatividade do roteirista Andrew Kevin Walker vai muito além disso e, para cada pecado, temos uma morte original, diferenciada e tipicamente atribuída a algum assassino daqueles que acreditam estar cometendo tais atrocidades em prol de melhorar o mundo, ou seja, fazendo tudo em nome de Deus. Fincher, como diretor, tem o papel de representar cada morte perfeitamente, e é nessas representações que o filme se torna tão bom e atinge seu auge, pois, muito além de proporcionar o melhor do gênero thriller, nos faz refletir sobre nossa existência e nossas escolhas. Esse foi o primeiro grande filme de David Fincher e foi a partir daqui que ele traçou sua carreira para deixar um pouco de lado os clipes musicais (foi um dos preferidos de Madonna e de George Michael) para dedicar-se mais ao cinema e dirigir três dos melhores filmes dos últimos anos: “O Curioso Caso de Benjamin Button” (2008), “A Rede Social” (2010) e “Millenium – Os Homens que não Amavam as Mulheres” (2013). Com “Seven”, portanto, o diretor mostra a que veio e nos presenteia com uma produção tipicamente sua: sem nada de terror imaginário, mas que mexe com nossa alma e nos traz um misto inacreditável de sensações.


Morgan Freeman é o tipo de ator que dispensa apresentações, completando cem títulos em seu currículo como ator em 2014, ele iniciou sua carreira há 48 anos e, desde então esteve em produções de drama, ação, policial, comédia, terror, thriller, romance e documentário e conquistou a fama de ser um dos melhores atores da indústria moderna do cinema. Aqui ele é o velho Somerset, um homem cansado que se vê um pouco perdido quando precisa decidir o que quer fazer de sua vida, mas é também por competência de Freeman que sabemos pouco sobre tal personagem, por, em vários momentos, as feições do ator denotam que Somerset possui um passado que ninguém conhece, talvez um que ele prefira não lembrar, ou, simplesmente, um passado triste que não é da conta de ninguém além dele. Brad Pitt, por motivos diferentes de Freeman, não precisa de tantas apresentações, ator há 25 anos, parece-me que apenas ao lado de Fincher ele consegue chegar aos pontos máximos de suas atuações e ser um ator realmente agradável de se assistir no cinema, que não se torna repetitivo ou clichê demais. Como o detetive Mills, ele é perfeitamente nervoso e traz o típico homem que não sabe o que fazer ao certo de sua vida, mas que procura pela felicidade como qualquer outro. Digo apenas uma palavra sobre a atuação de Kevin Spacey, e a digo com muito pesar por achá-lo um excelente ator: decepcionante.


Por fim, Freeman e Pitt acabam formando uma bela dupla no cinema, não por estarem tão bem em seus respectivos papeis, mas por darem vida tão perfeitamente a duas pessoas totalmente diferentes que possuem desejos em comum. Com esse filme, estamos diante de uma crítica imensa que mostra como o mundo seria mais perverso ainda se todos acreditássemos em tudo o que nos é pregado pelas igrejas, afinal, se apenas nós podemos nos arrepender daquilo que fazemos, somente nós podemos refletir e decidir realmente o que é, e o que não é pecado, ou será que Deus está tão acima de nós para Ele decidir o que podemos ou não fazer? E se Ele pode tomar essas decisões, quem deve ter o direito de interpretá-las? Nós ou a Igreja?


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177. TOMATES VERDES FRITOS, de Jon Avnet


Uma aventura sem igual pela história de vida de duas jovens contada por uma mulher que merece ser ouvida.
Nota: 9,2


Título Original: Fried Green Tomatoes
Direção: Jon Avnet
Elenco: Kathy Bates, Mary Stuart Masterson, Mary-Louise Parker, Jessica Tandy, Chris O’Donnell, Stan Shaw, Cicely Tyson, Gailard Sartain
Produção: Jon Avnet, Jordan Kerner
Roteiro: Fannie Flagg (roteiro e romance) e Carol Sobieski
Ano: 1991
Duração: 130 min.
Gênero: Drama / Comédia

Evelyn Couch é uma mulher triste que possuí como única distração visitar a tia doente do marido, que, aliás, a odeia e se recusa a deixar com que entre em seu quarto. Em uma de mais uma das frustrantes visitas, Evelyn conhece a simpática contadora de histórias Ninny Threadgoode. A partir desse momento, ambas descobrirão novas coisas da vida, e provarão como idade ou sexo não possuem absolutamente nada a ver com a busca pela felicidade e com a aceitação de acontecimentos mais improváveis.


Ainda dentro do filme temos um artifício poucas vezes utilizado, pois requer mais que apenas talento e excelência da direção e do roteiro: Ninny conta a história de Idgie e Ruth, duas amigas que se reencontram após um trágico acidente que marcou suas vidas para sempre, e juram proteger e amar uma a outra independentemente do que todos possam pensar ou dizer a respeito de sua relação. E, sem sombra de dúvida, é nessa história que se centra toda a beleza e magia do filme. Jon Avnet não havia feito absolutamente nada para o cinema como diretor antes desse filme, aliás, seus principais trabalhos são conhecidos por sua produção. Entretanto, apesar de relativamente inexperiente, Avnet nos apresenta algo singular, simples, original, preciso e muito mais do que apenas agradável. A fotografia do filme vai além das simples e grossas paisagens do local onde Idgie e Ruth vivem, ela percorre a sensibilidade de cada personagem e nos trás algo inimaginável, uma mágica indescritível, pois através dos pensamentos de nossas personagens novos mundos e perspectivas são apontadas e até mesmo delatadas. Em “Tomates Verdes Fritos” somos expostos a todos os tipos de temas: amor, amizade, preconceitos diversos, velhice, “meia-idade”, problemas em relacionamentos, inferioridade feminina (comum na época de Idgie e Ruth e persistente nos dias atuais protagonizadas por Ninny e Evelyn).


É inquestionável: o time de atrizes presente nesse filme é fantástico. Comecemos com Kathy Bates, que vive Evelyn Couch e é simplesmente perfeita em mostrar a transição da personagem antes e pós conhecer Ninny e a história de Idgie e Ruth: primeiramente ela é a perfeita mulher que se sente rejeitada pelo marido, pela sociedade e por tudo e todos, o perfeito “lixo humano”; após suas conversas com Ninny, a personagem resolve emagrecer e tomar jeito na vida, e é aí que Bates faz seu trabalho com tanta beleza: na primeira parte do filme ela é o perfeito retrato da maior parte das mulheres do mundo da época ( e talvez até hoje), depois ela se torna uma mulher forte e decidida, o perfeito retrato do que as mulheres em sua antiga situação gostariam de ser. Existem atrizes com as quais eu tenho, simplesmente, o maior remorso por ser impossível conhecer, dentre elas: Grace Kelly, Bette Davis, Audrey Hepburn, Elizabeth Taylor e, sem sombra de dúvida, Jessica Tandy, essa última morreu há dezoito anos e aqui interpreta, com toda sua maestria, Ninny, uma senhora que sabe de tanto da vida que não se aguenta em si mesma e precisa contar tudo para alguém, mas mais que isso: Tandy é um arauto de tudo o que os bons velhinhos (menosprezados por tantas pessoas estúpidas, sem vergonha e sem um pingo de amor próprio) podem apresentar a sociedade mal tratada pelo tempo e pelos avanços científicos. Mary Louise-Parker, na época bem desconhecida, vive Ruth Jamison, totalmente diferente do que estamos acostumados com a Louise-Parker de hoje, a personagem é recatada e parece um pouco apagada no início do filme, mas depois se revela outra mulher maravilhosa em meio a tantas personagens excelentes, e a interpretação da atriz só tem a agregar a tudo isso. Por fim, temos Mary Stuart Masteerson que pode nunca ter chegado ao estrelato de Louise-Parker, mas, sem dúvida, sua atuação da menina rebelde, mas amorosa, chega a ser tão importante e bela quanto a de Jessica Tandy, e se após essa afirmação  acerca do trabalho da atriz são precisos mais comentários, sinto muito, não sei quais são eles.


Confesso que ouvi durante muito tempo dezenas de elogios acerca de “Tomates Verdes Fritos”, minha expectativa era tanta em ver algo onde mulheres contavam histórias e comiam tomates verdes fritos que, quando vi que não era nada daquilo, comecei a me decepcionar, mas bastou Tandy entrar em cena e começar a contar a história de Idgie e Ruth e pronto: o filme tomou minha alma de tal forma que tudo o que eu espera, não no desenrolar do filme (como disse, esperava algo bem diferente), mas no resultado final, aconteceu da forma mais positiva possível.


178. DIVINOS SEGREDOS, de Callie Khouri


Uma forma simples e bela de se mostrar o quanto temos a aprender com os mais velhos e o quanto erramos em julgá-los.
Nota: 8,7


Título Original: Divine Secrets of the Ya-Ya Sisterhood
Direção: Callie Khori
Elenco: Sandra Bullock, Ellen Burstyn, Maggie smith, Fionnula Flanagan, Cherry Jonesm, James Garner, Asheley Judd, Shirley Knight, Angus MacFadyen
Produção: Hunt Lowry
Roteiro: Callie Khouri, Mark Andrus e Rebecca Wells (romance)
Ano: 2002
Duração: 116 min.
Gênero: Comédia

Sidda Wlaker é uma famosa escritora que mora em Nova York e está estreando com sua nova peça na Broadway. Tudo vai bem, até que uma jornalista da revista Time (uma das de maior circulação em todo o país) distorce suas confissões a respeito da mãe de Sidda, Vivi, e de seu passado. Não demora muito e Vivi, com quem, realmente, Sidda tem uma relação tempestuosa, liga para a filha com sete pedras nas mãos e não deixa as supostas ofensas baratas. Agora, será papel da irmandade formada na infância de Vivi, por ela e suas três melhores amigas (hoje, idosas enlouquecidas), unirem mãe e filha contando os segredos que apenas as Ya-Ya conhecem.


Callie Khouri ficou conhecida por roteirizar o filme dirigido por Ridley Scott “Thelma & Louise” (1991), com o qual venceu o Oscar de melhor roteiro, além disso, trabalhou com Lasse Hallstrom em “O Poder do Amor” (1995); na direção foram apenas dois além desse: “Hollis & Rae”(2006), feito para TV, e a comédia “Loucas Por Amor, Viciadas em Dinheiro” (2008), protagonizada por Diane Keaton, Queen Latifah e Katie Holmes. Aqui o trabalho de Khori na direção não possui nada de excepcional, mas é bem feito e merece uma certa gratificação por tê-lo feito. Entretanto, o roteiro escrito em parceria com Mark Andrus – responsável por “Melhor é Impossível” (1997) e “Tempo de Recomeçar” (1997) – é algo excelente, muito bem feito, divertido, e mais que convincente, pois mostra várias realidades da vida sem ser muito rude ou franco demais, nos proporcionando uma história original e real. A trilha sonora de David Mansfiel e T-Bone Burnett é divertida e totalmente propícia para cada cena do filme.


Sandra Bullock está longe da perfeição e, em 2002, estava mais longe ainda, apesar de divertida e empolgante, ela convence pouco nesse filme e, surpreendentemente, suas melhores cenas são as dramáticas, o que nos leva a pedir, mais uma vez, à indústria hollywoodiana que lhe dêem um papel realmente sério. Entretanto, Bullock está acompanhada de um quarteto definitivamente fantástico. Ellen Burstyn é Vivi Abbott, uma mulher que parece esconder dezenas de segredos, mas que ama sua família acima de tudo, e Burstyn tem uma capacidade inacreditável em demonstrar como uma velha mulher se sente após tantos anos fazendo coisas que, agora, ela percebe terem sido massacrantes para as pessoas que ela ama. Fionnula Flanagan é uma das amigas de infância de Vivi, Teensy Whitman, uma mulher velha que teve de enfrentar muitas coisas difíceis na vida, mas nem por isso deixou de viver e aprender com as dores, Flanagan consegue chegar ao extremo da dor e ao extremo da filosofia carpe dien nos trazendo uma das interpretações mais comoventes do filme. Shirlery Knight é Necie Kelleher, a mais recatada das quatro amigas, aquele tipo de pessoa que nos passa uma áurea simples e feliz, a típica mãe de casa, avó querida e mulher de bem com a vida. Por fim, mas não menos importante, Maggie Smith, uma das melhores atrizes vivas, é Caro Bennett uma senhora que anda prá lá e prá cá com seu oxigênio, mas que não perdeu a força de vontade de viver e jamais deixará o sarcasmo de lado, e ninguém melhor que Smith para viver uma mulher com esse perfil. Não posso me dar ao luxo de não destacar a atriz Ashley Judd, que interpreta Vivi quando jovem, em todos os seus problemas e temperamento forte perante ao marido, aos filhos e a vida que odeia; além dos atores David Lee Smith e James Garner, que vivem, respectivamente, Shep jovem e Shep velho, o marido de Vivi, um homem que ama sua família e, sobretudo, sua esposa, a personagem e os atores nos proporcionam alguns dos momentos mais belos do filme.


Apesar de não ser nenhuma grande comédia e não ter atraído muitos críticos ou público, o filme, com toda sua simplicidade, é uma lição de vida, a qual aprendemos com aqueles que mais podem ensinar: os mais velhos. E é aí que o filme acerta, não são apenas homens e mulheres mais velhas tentando ensinar alguma coisa para os espectadores, são homens e mulheres ensinando coisas a alguma personagem mais jovem, o que humaniza e deixa o filme todo cada vez mais real. Finalmente, “Divinos Segredos” é mais um filme repleto de belezas por mostrar, realmente, a vida como ela é, sendo aquele tipo de produção que costumo chamar de uma comédia de erros e acertos.


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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

179. PARIS, TE AMO, Diversos


Com a cidade luz como plano de fundo, o filme apresenta 18 diferentes histórias sobre a vida de moradores parisienses.
Nota: 8,8


Título Original: Paris Je T’aime
Direção: Olivier Assayas, Frédéric Auburtin, Emmanuel Benbihy, Gurinder Chadha, Sylvain Chomet, Joel Coen, Ethan Coen, Isabel Coixet, Wes Craven, Alfonso Cuarón, Gérard Depardieu, Christopher Doyle, Richard LaGravenese, Vincenzo Natali, Alexander Payne, Bruno Podalydès, Walter Salles, Oliver Schmitz, Nobuhiro Suwa, Daniela Thomas, Tom Tykwer e Gus van Sant
Elenco: Fanny Ardant, Leila Bekhti, Melchior Belson, Juliette Binoche, Seydou Boro, Steve Buscemi, Sergio Castellitto, Willem Dafoe, Gèrard Departieu, Cyril Descours, Marianne Faithfull, Bem Gazzara, Maggie Gyllenhal, Bob Hoskins, Olga Kurylenko, Li Xin, Elias McConnell, Aïssa Maïga, Margo Martindale, Yolande Moreu, Emily Mortimer, Florence Muller, Nick Nolte, Bruno Podalydès, Matalie Portman, Ludivine Sagner, Barbet schroder, Rufus Sewell, Gaspard Ulliel, Elijah Wood
Produção: Emannuel Behbihy, Caudine Ossard
Roteiro: Emmanuel Benbihy, Bruno Podalydès, Paul Mayeda Berges, Gurinder Chadla, Gus Van Sant, Joel Coen, Ethan Coen, Walter Salles Daniela Thomas, Christopher Doyle, Rain Li, Gabrielle Keng, Isabel Coixet, Nobuhiro Suwa, Sylvain Chomet, Alfonso Cuarón, Oliver Assayas, Olivier Schimits, Richard LaGravenese, Vincenzo Natali, Wes Craven, Tom Tykwer, Gena Rowalnds, Alexander Payne, Nadine Eid
Ano: 2006
Duração: 120 min.
Gênero: Comédia / Drama / Romance / Thriller

Escrever sobre um filme como “Paris, Te Amo” da mesma forma que escrevi todas as outras críticas (seguindo a linha de sinopse, produção e atuação) é impossível, afinal, são 18 histórias totalmente diferentes que não possuem absolutamente nada em comum (a não ser o fato óbvio de que todas as nossas vidas possuírem algo em comum), é como se fossem 18 curtas metragens ambientados na Cidade Luz, que foram colocados em apenas um filme para que as pessoas assistam a curtas. Pois bem, para escrever sobre esse filme, irei destacar as histórias que mais me chamaram a atenção ou mais fazem sentido para a sociedade atual. Segue a lista de todos os enredos, com alguns comentários sobre cada um, destacando, como disse, os melhores:
1.                 Montmartre, de Bruno Podalydès: um homem para na rua e fica observando algumas mulheres, quando uma delas desmaia, ele a socorre: um retrato sobre agradáveis coincidências de nossa existência;
2.                 Quais de Seine, de Curinder Chadha: três amigos estão observando garotas, enquanto dois tentam chamar a atenção, um fica quieto em seu canto, quando uma garota cai ele vai ajudá-la e acaba se apaixonando: uma representação perfeita dos problemas da principal luta na juventude: encontrar um amor;
3.                 Le Marais, de Gus Van Sant: basta dizer que é dirigido por Van Sant que já se imagina algo diferenciado, pois bem, um francês se apaixona por um rapaz que não entende quase nenhuma uma palavra do que ele diz (o outro fala apenas inglês) e somente o destino poderá dizer se alguma coisa poderá existir entre os dois: a inclusão da diversidade sexual no filme;
4.                 Tuileries , de Joel e Ethan Coen: um americano está em uma estação de metrô de Paris, quando é surpreendido por um casal do outro lado, os dois estão se agarrando despudoradamente. O problema é que o casal parece louco mesmo, e a garota acaba parando ao lado do turista e daí por diante ele terá que se virar com seu pequeno dicionário de expressões francesas. No elenco o único que merece ser lembrado é Steve Buscemi que, sem nenhuma palavra, consegue mostrar exatamente os sentimentos de um pobre turista. É, também, uma crítica àqueles filmes que só mostram a beleza das viagens a lugares desconhecidos, ou seja, no maior estilo Coen, a mais pura verdade.


5.                 Loin Du 16e, de Walter Salles e Daniela Thomas: o filme está na lista por dois motivos: primeiro, é uma parceria de dois cariocas genuinamente brasileiros em meio a figuras muito conhecidas em todo o mundo; segundo, fala sobre uma estrangeira vivendo em Paris, não preciso dizer que ser um não francês na França já é complicado, ainda mais se sua língua nativa é derivada do espanhol e sua pele é morena, o que é o caso. É claro que quem se destaca na história é a Colombiana indicada ao Oscar em 2004 Catalina Sandio Mareno, que interpreta com simplicidade e mostra como pessoas em sua situação devem se apagar perante o restante do mundo. Apesar de um pouco dramático e sem graça, é um dos melhores filmes do filme;
6.                 Porte de Choisy, de Christopher Doyle: apesar de a sequência criticar beleza e os problemas acarretados pelos estereótipos, é confuso e realmente chato.
7.                 Bastille, de Isabel Coixet: um homem tenta pedir o divórcio de sua esposa, mas descobre que ela está doente e resolve ficar com ela: um verdadeiro soco no estômago. Com Miranda Richardson;
8.                 Place dês Victoires, de Nobuhiro Suwa: mulher passa pela morte do filho e não consegue superá-la, apesar de dramático demais, o filme estrela Juliette Binoche, perfeita no papel de uma mãe sofredora;


9.                 Tour Eiffel, de Sylvaim Chomet: a história de um menino deslocado que tem como pais um mímico e uma mímica que se conheceram na cadeia. Um dos piores entre todos os 18 filmes;


10.             Parc Monceau, de Alfonso Cuarón: uma comédia divertida sobre várias coisas, falar mais seria estragar o prazer do filme que, aliás, é um dos únicos que proporciona diversão, qualidade e criatividade. Com Nick Nolte;
11.             Quartier dês Enfants Rouges, de Olivier Assayas: uma atriz que está em Paris gravando seu filme descobre o mundo das drogas, bebidas e festas: um retrato bem clichê das jovens atrizes. Com Maggie Gyllenhaal;
12.             Place dês Fetes, de Olivier Schmitz: por uma ironia do destino um homem sofre um ferimento e justo a mulher que ele procurava quando foi ferido o ajuda em seu momento de morte: mais uma porrada no estômago sobre as tristes coincidências da vida;
13.             Pigalle, de Richard LaGravenese: marido e mulher parecem tentar mudar a rotina de seu casamento indo até um bar de streep-tease, entretanto eles se decepcionam um com o outro e saem, bravos, do lugar. Todavia, a vida é uma bela caixinha de surpresas para alguns e os dois acabam vendo o quanto se amam e não podem viver longe um do outro. Com Bob Hoskins e Fanny Ardant;


14.             Quartier de la Madeleine, de Vincenzo Natali: a princípio pensei, e torci para, que fosse uma filmagem de algum filme de terror que ocorre em Paris, se é isso eles não deixam claro, se for... bem não faz diferença, decididamente o pior de todos. Com Elijah Wood;
15.             Pere-Lachaise, de Wes Craven: um homem e uma mulher estão em Paris em sua lua de mel adiantada, quando vão ao cemitério mais famoso da cidade, ela acaba descobrindo que está meio decepcionada com ele, agora somente as grandes personalidades enterradas ali poderão ajudá-lo a reconquistar a noiva. Apesar de parecer chato demais, acaba sendo uma agradável surpresa que se apaga devido a palhaçada apresentada no curta anterior;
16.             Faubourg Sait-Denis, de Tom Tykwer: um garoto cego acaba se apaixonando por uma jovem, o desfecho é um deleite para os olhos, a alma e o coração. Com Natalie Portman;


17.             Quartier Latin, de Gérard Depardieu: ex-marido e ex-mulher se reencontram e falam sobre suas vidas: ele, com uma nova esposa grávida, e ela tentando mais um relacionamento com outro homem. O retrato perfeito de um ex-casal que chegou a uma das idades mais fantásticas da vida e percebeu que um ainda é amigo do outro, dessa forma, devem estar um ao lado do outro para sempre, afinal, estarão ligados por algo inexplicável. Com os mais que veteranos Bem Gazzara e Gena Rowlands;
18.             14e Arrondissement, de Alexander Payne: pela primeira vez na vida, uma mulher viaja para Paris, sozinha ela vaga pela cidade conhecendo os mais inúmeros lugares, aproveitando a comida, praticando seu francês e relembrando de seu passado e de pessoas queridas. Em um dado momento, ela senta em um banco para comer um sanduíche e se pega pensando na vida e em tudo o que a rodeia. Sem sombra de dúvidas o melhor dos curtas, na realidade, o único que realmente se eleva entre todos e salva a produção. Payne optou por algo simples, não escolheu uma grande atriz do cinema, nem pensou em uma história fantástica e impressionante, em seu real desfecho, a personagem, interpretada pela fantástica Margo Martindale (da série “Justified”, 2010) tem uma das falas mais belas e verdadeiras do cinema, com a qual todos se identificarão: “Era como se eu me lembrasse de algo que nunca conheci. Ou que sempre esperei, sem saber exatamente o que. Talvez fosse algo que eu havia esquecido. Ou algo que eu senti falta toda a vida. O que posso dizer é que senti ao mesmo tempo, alegria e tristeza. Mas não tristeza demais, pois me sentia viva.”


Durante o desfecho da trama, algumas personagens se encontram, outras seguem suas vidas normalmente, outras apenas tomam destinos diferentes e outras, como é o caso das personagens de Binoche e Rowlands, apenas trocam olhares sinceros que nos expõe um mar de sentimentos que ambas podem estar sentindo. No final das contas, o filme acaba sendo decepcionante pelo fato de ter tantos diretores e intérpretes famosos por seu talento e competência, mas nos é provado que na vida, de uma forma ou outra, todos estamos ligados por algum motivo, por alguma força inexplicável que rege o universo. Talvez seja Deus, talvez seja mais de um, talvez seja o destino, talvez seja apenas coincidência mesmo e não estamos ligados coisa nenhuma. Eu fico com o destino, pois que ele faz das suas, isso ele faz.

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180. O CONCERTO, de Radu Mihaileanu


A vida como ela realmente é no melhor do estilo cinema europeu.
Nota: 9,7


Título Original: Le Concert
Direção: Radu Mihaileanu
Elenco: Aleksey Guskov, Dmitri Nazarov, Mélanie Laurent, Fronçois Berléand, Miou-Miou, Veleriy Brinov,Lionel Abelanski, Vlad Ivanov, Laurent Bateau
Produção: Alain Attal
Roteiro: Radu Mihaileanu, Alain-Michel Blanc, Matthew Robbins, Héctor Cabello Reyes e Tierry Degrandi
Ano: 2009
Duração: 119 min.
Gênero: Comédia / Drama

Andrey Filipov foi, há 30 anos, o renomado regente da Orquestra do Teatro Bolshoi – uma das mais importantes da Rússia -, mas acabou demitido por problemas políticos do país e continuou no teatro trabalhando como auxiliar de limpeza. Hoje, a orquestra é composta por músicos terríveis, pois àquela, outrora regida por Filipov, dispersou-se e nunca mais voltou a se encontrar. Quando apenas o faxineiro descobre um convite para a orquestra tocar no parisiense Châtelet Theater, ele decide reunir seus antigos companheiros e formar uma orquestra de verdade para tocar ao lado da exímia solista de violino Anne-Marie Jacque. Agora, só resta convencer os músicos e enganar uma ou outra pessoa, para que, dessa forma, Filipov possa realizar o maior desejo de sua vida particular.


Quando falo sobre o cinema europeu, costumo dizer que os filmes ingleses são aqueles que possuímos de mais tradicional e histórico, o cinema alemão costuma seguir a linha mais crítica e reflete sobre ideologias políticas, econômicas e sociais, o italiano faz a vez das obras de artes mais extravagantes – mas nem por isso menos belas-, os espanhóis são mais simples e gostam de trazer a vida cotidiana, o cinema francês, por fim, costuma nos apresentar filmes belos como a vida realmente deve ser, produções divertidas, mas que tocam lá no fundo de nossas almas, e esse filme não foge a regra. Tenho que destacar o fato de o filme ser uma produção francesa e russa, contando ainda com o diretor e roteirista romeno e roteiristas franceses, americano e chileno, indispensável dizer o quanto o filme trás uma diferença de culturas totalmente agradável. O diretor Rahu Mihaileanu dirigiu dois filmes que fizeram sucesso dentro da Europa e em festivais pelo resto do mundo: “Trem da Vida” (1998) e “Um Heroi do Nosso Tempo” (2005), em “O Concerto” ele nos proporciona não somente um história, belíssima, mas também uma técnica original e preciosa em um filme que deveria ser totalmente simples e se transforma em uma obra.


Aleksey Guskov é Andrey Filipov, logo na primeira cena simpatizamos com o ator e com a personagem: Filipov, o faxineiro, está assistindo ao ensaio da nova orquestra Bolshoi, mas ele não assiste apenas, ele se sente como se ainda fosse o regente do grupo. Guskov é mais conhecido por seus trabalhos para televisão, o que não significa incompetência no cinema; muito pelo contrário: o ator é vivo, e consegue expressar de forma fantástica os anseios e medos de sua personagem. Mélanie Laurent, oriunda de “Bastardos Inglórios” (2009), é a bela Anne-Marie Jacque, a personagem virá a se tornar o centro da história, e isso fará com que seja exigido da atriz uma melodramaticidade bem diferente da conferida em “Bastardos”, mas, igualmente ao filme de 2009, não há como se decepcionar ou deixar de se apaixonar por Laurent, não apenas por sua beleza francesa, mas pela qualidade de seu trabalho. Ao lado da jovem atriz, está a veterana do cinema francês Miou-Miou, que interpreta a mulher que cuidou, e ainda cuida, de Anne-Marie, Guylène, apesar de aparecer pouco no filme, a atriz consegue ser maravilhosa em cada uma de suas pequenas cenas. Dmitri Nazarov, bem como o protagonista e a maior parte do elenco, é um ator desconhecido, mas que interpreta de forma inigualável o atrapalhado violoncelista Sasha, o melhor amigo de Filipov. Citar todos os outros integrantes da orquestra é impossível, portanto, me atenho a dizer que são todos atores muito talentosos, claramente mais velhos e experientes, que nos arrancam inúmeras gargalhadas e nos fazem suspirar e arrepiar com a principal cena do filme.


No final das contas, o que nos é apresentado aqui não são aquelas comédias enjoativas típicas da TV e do cinema americano, temos aqui uma história baseada naquilo que a vida pode realmente ser, ninguém se passa por um palhaço ou tenta ser o mais estranho possível, cada personagem é única, simples, comum, e, nem por isso deixam de ser divertidos; mas também não somos abrigados a assistir duas cansáveis horas de um drama extremamente triste e deprimente, com personagens que apenas vêm seu mundo desabar e não fazem absolutamente nada para mudar isso. Portanto, o que nos é apresentado é uma representação perfeita da vida, nada de muito drama, mas também nenhum senso cômico exagerado, apenas a vida como ela é: uma deliciosa comédia de acertos e erros.


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