A história da imaginação com uma pitada
de indecência.
Nota: 9,3
Título Original: Finding Neverland
Direção: Marc Forster
Elenco: Johnny Depp, Kate Winslet, Julie
Christie, Radha Mitchell, Dustin Hoffman, Freddie Highmore, Nick Roud, Luke
Spill, Ian Hart, Kelly Macdonald, Mackenzi Crook, Eileen Essell, Jimmy Gardner,
Oliver Fox, Angus Barnett, Toby Jones
Produção: Nellie Bellflower, Richard N. Gladstein
Roteiro: David Magee e Allan Knee (peça)
Ano: 2004
Duração: 106 min.
Gênero: Biografia / Drama / Comédia
James Matthew Barrie nasceu em 9 de maio
de 1860, nono de dez filhos, desde pequeno, era fascinado pelas histórias de
piratas contadas por sua mãe. Após a morte de seu irmão David, a relação de
James e sua mãe jamais foi a mesma, o que marcou muito sua infância. Trabalhou
como jornalista, depois mudou-se para Londres, onde escrevia trabalhos
humorísticos, em 1888 publicou “Auld
Licht Idylls”, começando a fazer sucesso, fundou, ao lado de alguns amigos, um
clube de cricket, três anos depois surgiu seu grande sucesso “The Little
Minister”, o que o fez começar a escrever apenas peças de teatro. Em 1894,
casou-se com a atriz Mary Ansell, e dez anos depois estreou com sua maior obra:
“Peter Pan”, que foi escrita baseada em sua experiência com a família Llewelyn
Davies. J. M. Barrie morreu em 1937, aos 77 anos, deixando, além de um legado
inestimável, uma vida cheia de mistérios acerca de sua controversa
personalidade.
No filme, vemos Barrie comemorando o
fracasso de uma de suas peças, depois as dúvidas básicas de um escritor ao
tentar escrever mais alguma coisa. Em contraponto, temos a estranha relação
entre ele e sua esposa, pois nenhum dos dois parecia se importar mais um com o
outro como deveriam. Dessa forma, Barrie acaba conhecendo os filhos da viúva
Sylvia Llewelyn Davies em uma praça, e inicia, com os quatro meninos e a mãe,
uma bela amizade. Dessa amizade, Barrie encontrou forças e inspirações para
criar a inesquecível história de Peter, o menino que morava na Terra do Nunca e
não crescia, e de Wendy, a jovem por quem o garoto se apaixonava. Apesar de
todos os problemas relatados no filme, vemos, por fim, o sucesso de sua peça e
os rumos que sua vida tomou após isso tudo.
Ao encontrar os Llewelyn Davies e
começar a frequentar a casa da família para encontrar os meninos – Peter, Jack,
George e Michael – começaram as desconfianças e críticas advindas da sociedade.
Segundo a biógrafa de Barrie, Janet Dunbar, o escritor possuía disfunção erétil,
e muitos acreditam que ele era assexuado, o que poderia ser uma explicação para
os problemas em seu casamento, no entanto, na época, alguns afirmavam que
Barrie, além de manter uma relação mais íntima com a matriarca Sylvia, cometia
pedofilia com os garotos, atraindo-os com sua facilidade de esquecer-se do real
e penetrar no imaginário de todos. Dessa forma, vemos, ainda no filme, as
tentativas racionais de Emma Du Maurier, esposa do escritor George Du Maurier e
mãe de Sylvia, de afastar Barrie de sua família. Além disso, somos expostos as
tentativas e frustrações do escritor ao tentar realizar mais um bom trabalho
para apresentá-lo ao seu produtor, claro que essa particularidade do filme –
encontrada em algumas outras produções – faz com que as pessoas que escrevem,
sendo escritores de livros ou qualquer outro gênero, se identifiquem, seja pela
dificuldade em encontrar uma boa história, ou pela preocupação do que o público
achará do que se está escrevendo. Mesmo que Marc Forster tenha dirigido bons filmes,
tais como “A Última Ceia” (2001), “Mais Estranho que a Ficção” (2006) e “007 –
Quantum of Solace” (2008), nenhum de seus dez filmes pode ser comparado com a
qualidade de “Em Busca da Terra do Nunca”, o que faz desse, a sua obra prima.
Isso se deva, talvez, por um conjunto de fatores muito importante – elenco,
equipe técnica, enredo -, mas também pela forma genial com a qual o diretor
apresenta toda a história, levando-nos a mundos desconhecidos e nos convencendo
de que “Neverland” realmente existe, se não em algum lugar de nosso planeta, em
nossa imaginação, que, de certa forma, nunca deixa de ser infantil. Acrescente a
isso, David Magee, que viria a escrever outros dois filme que eu adoro – o
vencedor do Oscar “As Aventuras de Pi” (2012) e a comédia independente “A Vida
Num só Dia” (2008) -, assina esse roteiro magnífico que, mesmo mostrando a
paciência e afeição que Barrie sentia pelos meninos Llewelyn Davies, não deixa
escapar as suposições de adultério e pedofilia, contrapondo-as com a beleza da
imaginação de Barrie e sua Terra do Nunca. Por fim, antes de falar sobre as
atuações estupendas, a trilha sonora vencedora do Oscar é composta por Jan A.
P. Kaczmarek, apesar de o compositor ter feito poucos trabalhos notáveis, essa
é uma das trilhas que mais gosto compostas na última década, e, para se ter uma
idéia de seu grande trabalho, ele concorria com nomes como John Williams,
Thomans Newman e James Newton Howard.
Johnny Depp vive Sir James Matthew
Barrie, como já disse, um homem muito misterioso, confuso na época em que se
passa a história narrada no filme e, acima de tudo, um grande escritor, talvez
o que eu mais goste na atuação de Depp é essa maneira simples com a qual ele
não deixa transparecer nada sobre o íntimo do personagem – a não ser em momentos
como o em que ele conta a Sylvia a rejeição por parte da mãe, que preferia o
irmão David -, nos deixando com dúvidas sobre as reais intenções de Barrie
acerca de Sylvia e seus filhos, mas não esquecendo de deixar claro o quanto o
homem possuía uma forte imaginação e como podia transformar seus sonhos em
realidade. Kate Winslet, uma das melhores atrizes de sua geração, que foi se
aprimorando de forma inacreditável a cada filme, é Sylvia Llewelyn Davies, uma
viúva um pouco desesperada, que não sabe muito o que fazer agora que não tem
mais o marido ao seu lado e vê em Barrie um amigo com o qual pode dividir a
carga da preocupação com o futuro dos filhos. Julie Christie vive a mãe de
Sylvia, Emma Du Maurier, em uma das melhores interpretações do filme, onde faz
a vez da parte racional do longa, mas sem deixar o espírito de mãe se perder em
meio ao desejo de que as vidas de sua filha e netos sigam em frente. Freddie
Highmore é o único ínterprete dos filhos que vale a pena falar, não que as
outras atuações seja ruins, pelo contrário, mas sua personagem, Peter, é quem
deu origem ao nome do eterno Peter Pan, o que faz do jovem um dos centros da
história e o filho mais relevante de Sylvia. Os outros meninos – Jack, George e
Michael – são vividos, respectivamente, por Joe Prospero, Nick Roud e Luke
Spill, todos, como citei, ótimos, mas com pequenas participações. Outras duas
pequenas paticipações que merem algum destaque, são os irreconhecíveis Dustin
Hoffman, como Charles Frogman, o produtor de Barrie, e Kelly Macdonald,
intérprete de Peter Pan na peça.
Além de a história de “Peter Pan” nos
trazer a lição de que devemos aproveitar nossa infância e de que devemos fazer
com que nossos filhos e sobrinhos façam o mesmo, temos lições de amizade,
companheirismo, amor, compaixão e, acima de tudo, a lição de que jamais devemos
desistir de nossos sonhos, jamais devemos nos dar por vencidos e deixar de
sonhar ou deixar de acreditar em nossos desejos mais profundos, afinal, bem
como “toda a vez que alguma criança diz que não acredita em fadas, uma fada
morre em algum lugar do planeta”, toda a vez que resolvemos não acreditar mais
em nossos sonhos, em nossa própria mente eles começam a ser apagados, até,
assim como as fadas, restar um mísero fio de luz, que sumirá a qualquer
instante. E essa é a magia proposta, não apenas pelo cinema, mas pela história
de Peter Pan e pela história contada aqui, deixando de lado todas as suposições
acerca do protagonista, nos concentremos apenas na beleza que é assistir a um
filme que incentive tanto uma das práticas mais belas do ser humano: sonhar,
afinal como apontou algum sábio pensador no decorrer de nossa história, sonhar é lindo e não custa nada.
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