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domingo, 19 de abril de 2015

JESUS CRISTO SUPERSTAR, de Norman Jewison

Um dos melhores e mais eficientes musicais de todos os tempos!



Ruínas em um deserto acolhem um ônibus abarrotado de homens e mulheres que são cuspidos para as areias. Uma vez fora do ônibus, começam a vestir roupas coloridas e aparentemente improvisadas, a tirar objetos estranhos e inesperados do interiror do carro e, finalmente, dançar ao som de  notas de rock que dão o tom primeiro do longa Jesus Cristo Superstar. As figuras que descem do ônibus são algumas das lendas do rock: Ted Neeley, Carl Anderson, Yvonne Elliman, Barry Dennen, Bob Bingham, Larry Marshall, Josh Mostel e Paul Thomas. Esses, interpretam, por sua vez, nomes bem conhecidos na história do filho de Deus: Jesus Cristo, Judas, Maria Madalena, Pilatos, Caifás, Zealotes, Herodes e o apóstolo Pedro.
A história de Jesus Cristo de Nazaré já foi contada das formas mais diversas: livros, poemas, cartas, cantigas, canções, peças de teatro – o que incluem desde as famosas representações da Paixão de Cristo realizadas na Semana Santa, até peças ficcionais baseadas na Bíblia -, e, claro, produtos audiovisuas para televisão e cinema. Entretanto, poucos produtos são tão interessantes quanto Jesus Cristo Superstar, musical – na melhor aplicação da palavra (todos os diálogos são cantados) - dirigido por Norman Jewison e protagonizado pelas já citadas figuras muito famosas da rock mundial. O filme é um musical onde Jesus é um hippie cantando rock. Podia ser uma bela piada ou uma bela crítica a respeito das interpretações da bílbia. Mas não é. É um filme inteligente que critica a sociedade da década de 1970, que vivia pelo capitalismo e pelo narsicismo. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo passou pelo período da Guerra Fria, repleto de ameaças e medos e, ao mesmo tempo, de lutas entre o capitalismo e o socialismo. Uma guerra sem sangue aparente, mas que submetia o ser humano à busca pelo poder de forma tão voraz quanto o lobo procura por sua presa.


No filme, a história é contada pelo ponto de vista de um personagem sempre muito oprimido: Judas, interpretado pelo cantor Carl Anderson. É Judas quem vê tudo o que está acontecendo com Jesus, e é ele quem tenta avisá-lo sobre as incertezas do futuro. Tudo por um motivo simples: Jesus Cristo se tornou popular de forma que já não se pode mais controlar o que o povo sente e confia a ele. J. C. - como o Messias é chamado por seus fieis no filme - é uma figura tão popular quanto figuras famosas que lutaram pelos direitos da minoria antes da década de 1970, quanto as que o fazem até hoje. Popular, no maior sentido da abreviação POP. J. C. é um homem que ganhou a admiração e a confiança do povo por sua forma simples e altruísta. É um homem que não se importa com luxos ou vaidades, e sim com o bem estar da humanidade. Seu defeito, segundo Judas, foi nascer em uma época onde a comunicação em massa não existia. Mas isso é assunto para linhas posteriores. Ainda segundo sua popularidade, homens e mulheres passam a acompanhar o “líder” por ele representar, para eles, um exemplo de espiritualidade e evolução inimagináveis.
Entretanto, Jesus não está sozinho nessa empreitada, Deus está lá o tempo todo. O Pai de Jesus parece observar tudo o que é feito ao redor de seu filho. Deus é, em boa parte do filme, represenado pela luz do Sol e, por vezes, da Lua. Também é usado como um artifício intimador, que relembra o quanto o calor e a luz do sol podem ser incomodativos. A luz é usada como um elemento narrativo poderoso, mas também é o que dita a fotografia do filme. Natural ou artificial, a luz a iluminar o ambiente é, quase que em todo o longa, baseada nas luzes do Sol e reflexo da Lua, seja para iluminar todo um ambiente, ou para destacar um personagem em particular. Assim, o Sol brilha nos rostos e nos corpos dos personagens, como se Deus lhes dissesse alguma coisa, como se o Pai alertasse quanto à necessidade de entenderem os propósitos da vida na terra. A luz do Sol, todavia, não compõe dramaticamente o filme apenas como um elemento que lembre Deus ou o desconforto do calor e da força incontrolável dessa luz. Em momentos muito específicos, Deus parece dar licença poética ao Sol e ele representa a repressão e o desconforto da Guerra, como na cena em que Judas é perseguido por tanques.


Mas não é apenas a luz do Sol ou a popularidade de Cristo que compõe as críticas construídas de forma muito perspicazes pelo longa. Como qualquer movimento hippie da década de 1970, esses homens e mulheres caracterizados para representar a vida de Cristo na telona pedem pela Paz. Pedem pelo fim das guerras. Pedem por um planeta mais igualidatário. Por um planeta livre de diferenças. Em uma cena já muito conhecida por aqueles que estão mais habtituados aos escritos bíblicos, Cristo chega ao templo e se depara com uma feira. Ali, estão presentes os prováveis maiores inimigos da cultura em questão: o capitalismo e a guerra. Na feira, nesse contexto, são vendidos, além dos tradicionais mantimentos alimentícios e vestes, armas de guerra como metralhadoras e granadas. Um Cristo muito revoltado e aos berros, coloca tudo abaixo e expulsa todos do local. Outra cena conhecida da vida do filho de Deus é apresentada de forma muito metafórica no longa. Quando os doentes pedem para que o salvador os ajude, vê-se uma clara referência não apenas às doenças da população que habita o planeta, mas às enfermidades que o próprio planeta sofre: o capitalismo, o indivudualismo, a ganância, a corrupção, a fome, a arrogância, a desigualdade, o descaso, o preconceito.
Jesus Cristo Superstar é uma adaptação para o cinema de uma peça da Broadway que fez muito sucesso nos primeiros anos da década de 1970. A peça, em cartaz até hoje, era dirigida por Mark Hellinger e protagonizada por Jeff Fenholt, Bem Vereen, Bob Bigham, Barry Dennen e Yvonne Elliman. A composição das canções da peça, mesmas músicas do filme, foram feitas por Andrew Lloyd Webber (músicas), mesmo dos filmes O Dossiê de Odessa, Cats, Evita e O Fantasma da Ópera, e por Tim Rice (letras), de filmes como 007 Contra Octopussy, Aladdin, O Rei Leão, Toy Story e Evita. No filme, Ted Neely, Carl Anderson, Yvonne Elliman, Barry Dennen, Bob Bigham e Josh Mostel emprestam suas poderosas  vozes aos personagens, entoando cada canção de forma impecável. Além das vozes inquestionáveis, os intérpretes são expressivos facial e corporalmente, construindo personagens tão ricos quanto a própria construção bíblica. As músicas, por fim, contribuem para essa construção, já que cada personagem possui um estilo e uma entonação musical muito própria.


Se Jesus Cristo tivesse nascido no novo século, teria as letras J. C. entre parênteses ao lado de seu nome em seu perfil do Facebook, onde faria postagens recorrentes; seria uma das figuras mais seguidas do Twitter em todo o mundo e foto alguma seria mais twitada que aquela onde caminha sobre as águas; postaria fotos de seus feitos – desde transformar água em vinho, até alimentar centenas de pessoas com uma dezena de peixes – em seu Tumblr; e poderia, facilmente, ter criado a selfie para que pudesse registrar sua vida via Instagram – talvez até um de seus discípulos postasse uma foto desse estilo com Cristo ao fundo sendo crucificado. Sua crucificação seria acompanhada pelos jornais e tablóides de todo o mundo e sua ressureição seria noticiada em tempo real. Teria de dar entrevistas contando como era morrer e o que ele esperava para os proximos anos. Em uma coletiva de imprensa, Ele seria obrigado a revelar seus segredos, falar sobre o futuro da humanidade e prometer que voltaria se fosse preciso. Até mesmo sua ascenção teria dia, local e hora marcada. Antes de ir, entretanto, Jesus teria de ouvir milhões de pessoas fazerem os pedidos mais egosístas imagináveis. Se Jesus Cristo tivesse nascido neste século e não agisse assim, seria ofuscado por qualquer romano que o reprimisse nas redes sociais. Ao menos, tudo isso é o que o Judas do filme parece a alegar no número musical que dá título ao filme. 
Ou, simplesmente, Jesus usaria toda a tecnologia para, finalmente, alcançar o mundo com sua bondade e sabedoria, concientizando a todos e dando sua vida pela humanidade de forma menos deprimente. Assim, Cristo deixaria um mundo livre de doenças não biológicas citadas acima, com pessoas que fazem o bem sem distinguir ninguém ao seu redor. Ou isso, ou Cristo veio na hora certa, fez o que tinha que ser feito com os recursos que tinha e deixou os seres humanos sabendo o quão difícil seria a vida a terra. Jesus Cristo Superstar apresenta possibilidades, indaga a sociedade sobre como o ser humano tem agido nos quase dois milênios desde que Cristo foi embora, traz questões pertinentes a respeito das desnecessárias guerras e disputas, condena o preconceito e a desigualdade. Tudo, sobre o olhar de quem mais foi julgado nessa história toda: Judas Iscariotes. Quem foi Jesus Cristo? Seria um real filho de Deus? Um enviado dos céus? Ou um simples filho de um carpinteiro? Um homem comum que, como tantos outros, conquistou o povo por sua simpatia e carisma? Se Cristo foi ou não tudo que se lê na Bíblia, jamais poderemos saber – e o filme nem faz questão de responder a isso -, mas uma coisa é inquestionável: ninguém no mundo foi, é ou será tão popular quanto Jesus Cristo de Nazaré.


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domingo, 2 de março de 2014

010. (ESPECIAL OSCAR 2014) O LOBO DE WALL STREET, de Martin Scorsese

Scorsese volta às origens e denuncia, mais uma vez, a corrupção que construiu a América.
Nota: DEZ


Título Original: The Wolf of Wall Street
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Matthew McConaughey, Kyle Chandler, Rob Reiner, Jon Bernthal, Jon Favreau, Jean Dujardin, Joanna Lumley, Cristin Milioti, Chrstine Ebersole, Shea Whigham, Katarina Cas, P. J. Byrne
Produção: Martin Scorsese, Leonardo DiCaprio, Riza Aziz, Joey McFarland, Emma Tillinger Koskoff
Roteiro: Terence Winter  e Jordan Belford (autobiografia)
Ano: 2013
Duração: 180 min

Gênero: Comédia / Biografia

Em 1986, aos 24 anos, Jordan Belfort entrou para o mundo dos negócios trabalhando para a corretora Rotschild. O sonho de Belfort era um sonho simples e comum: tornar-se rico. De forma nada convencional e muito rápida, Jordy abriu sua própria corretora em menos de dois anos. Entre 1988 e 1998, Jordan Belfort somou uma quantia avaliada em mais de 8 bilhões de dólares, roubando somas monetárias de pessoas simples e chegando a passar a perna em grandes investidores. Após gastar o dinheiro que ganhou com muitas festas, sexo e drogas, Belfort foi preso em 1998 e permaneceu 22 meses na prisão. Após deixar a cadeia, Belfort passou a ensinar pessoas a como ganhar dinheiro.


No filme, Belfort é um homem rico, casado com uma mulher perfeita, tem dois filhos e mora em uma mansão dos sonhos de qualquer ser humano. Para conquistar tudo isso, ele foi para Nova York, começou a trabalhar em uma grande empresa, acabou abrindo sua corretora com o amigo Donnie Azoff, fez fortuna, separou-se da esposa chata, casou com a esposa bonita. Com todo seu dinheiro, comprou iates luxuosos, promoveu festas que chegaram a custar mais de meio bilhão de dólares (bilhão!) e consumiu drogas lícitas e ilícitas. O problema é que Belfort nunca investiu seu dinheiro para ganhar mais dinheiro, ele gastava o dinheiro de seus clientes, e foi quando a polícia pegou seu esquema que sua vida esquentou de verdade.


Jordan Belfort nos conta toda sua história. Ele conversa com o público, é como se todo o filme não passasse de um monólogo, onde Belfort se vangloria por cada um de seus feitos. Ele já começa o longa casado com uma mulher invejável e com toda a vida dos sonhos. Tudo de mais interessante que aconteceu com o personagem nos é apresentado. Por exemplo, a forma como ele se tornou o lobo de Wall Street: um apelido dado por uma colunista da revista Forbes, a mais importante publicação de negócios os EUA. O apelido, obviamente, foi aceito por Belfort de imediato. A paixão por sua segunda esposa é outra passagem interessante: Naomi Lapaglia, uma mulher sensual que transpira luxúria e que vê todo o sucesso do marido, aguenta as traições (não de bico calado, mas aguenta) e que contorna as mancadas de Jordan pelo uso das drogas. Naomi se mostra uma mulher de grande personalidade desde o início: aparece nua para Belfort quando ele menos espera, grita com ele e o ameaça quando desconfia de uma traição após o casamento, critica o marido devido ao uso excessivo de drogas, cobra de Belfort responsabilidade paternal, e, em uma das melhores cenas do longa (em que os intérpretes de Naomi e Jordan mostram perfeita sincronia) abre as penas para o marido provocando-o e, quando ele se atira no chão para se deliciar com a esposa ela se masturba e informa que ele apenas verá sua vagina durante um bom tempo e que tocá-la será um milagre. O que vem na sequência seria desagradável revelar. Não podemos deixar de citar as cenas incríveis nos bastidores de Wall Street. O início do longa já é louco: dois homens – um deles Belfort – arremessam um anão em um alvo. Ao redor deles, acontece uma festa inacreditável após o expediente de um grupo formado quase que só por homens típicos da tão famosa rua de Nova York. E se os acontecimentos inusitados dentro do escritório já são inacreditáveis, é por que os acontecimentos fora dele ainda não foram checados: Belfort sofre um naufrágio e é resgatado por um helicóptero; em uma festa na casa de Belfort, quando ele ainda era casado com a primeira esposa, Naomi é apresentada por uma amiga e Donnie fica tão fissurado por ela que se masturba na frente de todos; e, após tomar uma droga guardada há 15 anos, Jordan fica tão mal que tem que se arrastar até seu carro para tentar impedir que Donnie, também drogado, revele segredos pelo telefone da casa de Belfort, que foi grampeado pelo FBI. Alguns fatos são reais, outros, pura ficção. Assim como não é tarefa do diretor Martin Scorsese julgar ou não o que Belfort fez, não é minha tarefa dissertar acerca das veracidades do longa, portanto, caso se interesse sobre aquilo que aconteceu ou não com Belfort, acesse: http://www.publico.pt/cultura/noticia/acusado-de-glorificar-o-crime-e-o-excesso-quao-verdadeiro-e-o-lobo-de-wall-street-1618897#/0.


Quando Martin Scorsese foi anunciado como o diretor dessa adaptação não houve nenhum cinéfilo que não tenha se animado com o longa. Quando o trailer foi lançado não existiu uma pessoa que o assistisse e não tivesse vontade louca de conferir o filme todo. Quando o filme foi lançado, uma enxurrada de críticas negativas caiu sobre a cabeça do mestre. A maioria alegando que Scorsese, ao contrário do que fez em seus filmes anteriores, defende e até glorifica tudo o que o protagonista fez. Outros reclamavam que o longa não possui tanto conteúdo para que possua 180 minutos de duração e que toda a história não passa de enrolação. Alguns ainda falam sobre o filme ser confuso e muito exagerado ao mostrar todas as farras do pessoal da Wall Street. E, ainda, existem os que se consideram mais católicos que Martin (que sonhava em ser padre) e dizem que o longa possui muito sexo, drogas e nudez. O fato é que esse filme é de Martin Scorsese, e o diretor pode fazer o que ele quiser em seus trabalhos com apenas uma certeza: o filme será um acontecimento para o cinema. Aqui, ele foge da Paris vista em seu último filme, “A Invenção de Hugo Cabret” (2011) e volta à Nova York, sua terra natal. Mais que isso: ele deixa a homenagem ao cinema de lado e volta a abordar o tema que lhe rendeu a fama. É necessário apontar que, durante a carreira de Scorsese, vimos muitos de seus filmes completarem uns aos outros. Alguns até parecem cópias deles mesmos, mas todos são originais pela forma diferenciada que cada um mostra, ou delata, o que aconteceu para que os Estados Unidos se formacem. Apesar das três horas de filme, tudo passa de forma muito agradável. Entramos em mundo de cobiça, corrupção, boemia, alucinações, luxúria, enfim, Martin nos coloca dentro do mundo dos negócios. Filmado em 35 mm e em digital, o longa, além de inovar (como “A Invenção de Hugo Cabret” fez com o 3D), sendo lançado nos EUA apenas em versão digital, parece cada vez mais realista e, como sempre, os ângulos escolhidos por Scorsese nos fazem participar da trama em alguns momentos e, em outros, apenas assistir aos absurdos que estão acontecendo e invejar todo o luxo que a vida de Belfort se tornou.


A façanha do diretor é tamanha que, como disse, em momentos, estamos dentro do longa, somos bandidos, frequentamos festas caras e vestimos roupas de 3 mil dólares, em outras ocasiões, somos apenas espectadores, apenas desejamos tudo o que os personagens possuem: a riqueza, a beleza e a astúcia. Scorsese consegue nos fascinar com a história de Belfort (é impossível não sentir um pouco de inveja ou um pouco de admiração por um homem que ganha 4 milhões de dólares por minuto). No entanto, o diretor, de forma maestral, após passar quase duas horas apenas mostrando a beleza de se ter dinheiro e poder gastá-lo da forma que bem se entende, nos traz os “tiras” e vemos a vida do homem rico e admirado por todos, com sua bela mansão, seu belo carro e sua bela esposa ir por água abaixo. Durante todo o longa, Scorsese preparou tudo com cuidado. As músicas falam por si só, seja de forma engraçada ou séria, a canção tocada para Jordy e Naomi dançarem em seu casamento é “Goldfinger”, deixando claro que a paixão por dinheiro de Belfort é comparável à paixão do vilão de 007 por ouro. Scorsese atribuí características muito próprias a cada personagem, apresenta paisagens claras, belas e interessantes ao olho humano e mostra o glamour da vida de pessoas ricas. Mas também, o diretor traz cenas humilhantes para esses endinheirados, apresenta a realidade triste da necessidade do uso de drogas por quem trabalha com negócios – afinal, a pressão é tanta que sem um cigarro (e uma cocaína, e um crack, e algumas pílulas) ninguém segura esse rojão -, mostra o quão deprimente é ser casado com uma mulher fantástica como a de Belfort e precisar de prostitutas para provar que qualquer mulher pode ser sua. O mais deprimente em tudo isso, é ver como Belfort termina o longa achando que a vida ainda é um paraíso. A escolha de Scorsese em colocar o empresário no final do filme não me parece uma homenagem, está longe disso, é mais uma forma sutil do diretor mostrar o quanto esse homem pode ser desprezível.


Leonardo DiCaprio é, se dúvida, um dos melhores atores de sua época. Desde antes de “Titanic” (1998), o ator já se mostrava uma promessa para as próximas décadas. Desde “Gangues de Nova York” (2002), DiCaprio amadureceu, e isso não se deve apenas a sua passagem dos 28 aos 40 anos. Scorsese tem parte nisso. Acredito que DiCaprio vinha sendo moldado por Scorsese como o mocinho bom e honesto dos quatro longas anteriores da dupla para que o diretor entregasse o verdadeiro papel que o ator merecia. Como Belfort ele está fantástico, e ainda parece trazer um pouco da insanidade de Brandon Darrow vivido em “Celebridade” (1998), longa de Woody Allen. Há pouco de Belfort em DiCaprio, e é isso que faz da interpretação de DiCaprio a melhor do ano. Ao mesmo tempo, o ator é nojento e sensual, mesquinho e adorável,  ambicioso e amoroso, desprezível e digno de pena. Apontar apenas uma cena do ator que seja memorável no longa é algo impossível. DiCaprio vai além dos limites que acreditávamos que ele possuía como ser humano. Em uma das melhores cenas, ele debocha de um homem com quem está fechando um negócio por telefone. Outra excelente é a discussão com a esposa Naomi. Sem falar nos momentos em que Belfort está completamente chapado ou quando se mostra um verdadeiro líder admirado por todos na empresa. Ainda existem os momentos cômicos ao extremo, como quando é obrigado a rolar sobre as escadas após ingerir muita droga e não conseguir ter controle sobre seu corpo e ainda ter de arrancar o telefone do amigo e impedir que o mesmo engasgasse com um pedaço de presunto. Isso tudo sem falar nas feições debochadas que nos apresenta durante todo o longa: quando é chamado de “pequeno homem”, quando morde a mão ao comentar com o pai sobre as mulheres com quem ele fica, quando joga dinheiro ao vento, quando nos confessa que tudo o que fazia era ilegal, quando (mais uma fez na cena perfeita dele e Naomi) tenta conquistar o perdão da esposa e dá o troco na mesma por brincadeirinhas que ele não aprova nem um pouco.


Ao lado do ator, e não menos incrível, está a revelação Margot Robbie, como Naomi. A atriz é uma das belezas mais estonteantes lançadas nos últimos anos e nos apresenta uma interpretação intensa, provando que não é apenas um corpo bonito. Robbie é ousada: em seu primeiro grande filme, aparece em um nu frontal de tirar o fôlego, provoca DiCaprio na cena mais que sensual em que se masturba em frente ao marido e fala com ele de uma forma sexy e apelativa ao extremo. Antes disso, ela tem outra boa cena, onde discute com o Belfort e joga água na cara dele algumas vezes, é uma mistura de cena esposa ciumenta com cena cômica. A química entre DiCaprio e Robbie é inegável e mesmo a cena em que os dois discutem a ponto de DiCaprio bater em Robbie é maravilhosa e a sintonia entre os atores permanece do começo ao fim. Jonah Hill, outra grande revelação dos últimos anos, é Donnie, um completo viciado em drogas que faz sua vida pessoal virar um inferno o tempo todo. O personagem criado pelo roteirista é ainda mais intragável que Belfort: é um homem inútil e bajulador que está disposto a tudo para conseguir dinheiro. Hill nos apresenta o personagem mais típico e desagradável. O ator acaba se destacando pela cena em que se masturba em frente a todos, um ato tão ousado quanto os de Robbie, mas a cena em que vê todos os seus colegas sendo presos pela polícia demonstra como o ator tem timing para drama também. Sem falar nas cenas em que o ator está chapado e não consegue nem falar direito. Para acompanhar esse trio, um elenco fantástico. Matthew McConaughey, por exemplo, é o perfeito homem de negócios que acredita ser o homem mais incrível do mundo. Max Belfort, pai do protagonista, é interpretado por Rob Reiner, que consegue mostrar o lado pai e o lado administrador de forma maravilhosa. Jean Dujardin nos presenteia com uma interpretação surpresa como um banqueiro suíço, trazendo cenas engraçadas e debochadas. Joanna Lumley, por fim, tem uma participação como a tia de Naomi, Emma, uma inglesa classuda e muito suspeita que ajudará Belfort a esconder seu dinheiro.


“O Lobo de Wall Street” é indicado a 5 prêmios no Oscar. O mais importante, obviamente, é a indicação como melhor filme do ano. “O Lobo de Wall Street” está entre os cinco favoritos, o problema é que, provavelmente poderíamos classificá-lo como o quarto favorito, perdendo para “12 Anos de Escravidão”, “Gravidade” e “Trapaça”, nessa ordem. Em minha opinião, o único desses que poderia ser melhor que o longa de Scorsese é “Gravidade”, devido a todas as inovações feitas por Alfonso Cuarón. Scorsese é indicado como melhor diretor. Ao seu lado estão bons nomes, mas nomes com carreiras muito inferiores: Cuarón, David O Russel, Steve McQueen e Alexander Payne, o provável vencedor é Cuarón, devido às grandes vitórias nas principais premiações até hoje e ao fato de ter se entregado ao filme de forma inacreditável, desenvolvendo táticas improváveis e muito inusitadas para chegar ao resultado final incrível que é o filme. Leonardo DiCaprio conseguiu a inesperada indicação como melhor ator. Inesperada não significa desmerecida, mas é inacreditável ver o ator indicado por uma comédia. Apesar de acreditar que essa seja uma das interpretações mais surpreendentes e agradáveis de sua carreira, as chances de ele tirar o prêmio de Matthew McGonaughey (excelente em “Clube de Compras Dallas”) é mínima. Mesmo assim, reforço: achei Christian Bale fraco para comédia, McConaughey parece demais com ele mesmo em algumas cenas e Chiwetel Ejiofor é um negro que representa um negro que sofreu preconceito e todos os negros europeus ou americanos já sofreram preconceito alguma vez na vida, DiCaprio possui, por fim, a melhor atuação do ano. Jonah Hill é indicado como melhor ator coadjuvante, o que é mais surpreendente ainda. O que continua não significando incompetência, ele apenas esteve fora de muitas outras premiações importantes. O prêmio já é de Jared Leto e eu não serei um a discutir quanto essa escolha muito previsível da Academia. Por fim, o roteiro de Terence Winter aparece na categoria de melhor roteiro adaptado. Apesar de o provável ganhador ser “12 Anos de Escravidão”, prefiro o roteiro de Winter e ainda torço para que ele vença. A forma como todo o enredo se desenvolve e a sacada de DiCaprio narrar e “conversar” diretamente com o espectador são excelentes e formam um filme com pouca complexidade na trama. Repare: o filme não tem complexidade linear, não nos perdemos na história nem nada do tipo, mas a forma como Winter e Scorsese alternam entre o paraíso e o inferno dos ricos é algo em que devemos prestar muito a atenção para que exposição não se confunda com glorificação. Duas considerações: Telma Schoonmaker ter ficado de fora como melhor edição foi a maior decepção do ano para mim, o trabalho dessa mulher incrível e vivo, inteligente e merecedor de aplausos. Por último, acredito que o filme seja uma das maiores decepções no Oscar esse ano, as chances para qualquer vitória são mínimas. E é triste ver como um filme com tanta qualidade seja desprezado por ser real.



Em uma cena fantástica, o pai de Jordan alerta: um dia você sofrerá as consequências, e, ao contrário do que muitos dizem, “O Lobo de Wall Street”, um dos melhores filmes do ano (a melhor comédia em anos), não glorifica nenhum ato ilícito para lucro financeiro, ele apenas expõe uma realidade nojenta e apavorante. O problema da maioria das pessoas é que é difícil rir de piadas com humor negro, é complicado perceber a ironia humorística de uma canção debochada e é ainda mais difícil admitir que seria incrível ter uma vida como a de Belfort. Para piorar a situação, o povo de modo geral ainda tem medo de admitir que a vida pode ser resumida em sexo, dinheiro e comida sim, pois são essas coisas que, hoje, matem o ser humano vivo. Sem uma delas, nada pode dar certo, pois sem elas não temos nem a auto confiança para permitirmos sermos amados ou amarmos alguém. A nudez, o sexo, o uso de drogas, o consumo desenfreado de bebidas alcoólicas, a roubalheira de dinheiro, a cobiça, a inveja e o desejo, tudo isso faz parte da vida do ser humano, o problema é que assistir a tudo isso em um filme biográfico ainda é algo difícil para o mundo, afinal, a verdade ainda é difícil. Entretanto, a verdade deve ser dita e divulgada. Jamais negarei que Scorsese surpreende e pesa a mão nesse filme (não a ponto de ser ofendido como já chegou a acontecer), mas ele faz isso para dizer apenas uma coisa: no final das contas, mesmo que passemos por momentos de glória, todos sofreremos as consequências de nossos atos, e nenhum homem será poupado. Ou, o diretor estava apenas voltando às suas origens e delatando que as mãos que constroem a América hoje nada possuem em diferente daquelas que, outrora, atracaram em Nova York: são egoístas, mesquinhas, sujas, rasteiras e intragáveis como qualquer outro ser humano.



TOTAL DE VITÓRIAS NA TEMPORADA DE PREMIAÇÕES 2013 - 2014
             As contagens são referentes aos prêmios que estão nas tabelas das postagens anteriores (aqui e aqui), ou seja, as principais categorias do Oscar. Todas as demais categorias de todos os prêmios podem ser conferidas no ESPECIAL RESULTADOTEMPORADA DE PREMIAÇÕES 2013 – 2014. Nem todos os filmes indicados ao Oscar estão listados abaixo, apenas aqueles que aparecem nas tabelas.

12 Anos de Escravidão: 106 vitórias
Gravidade: 44 vitórias
Clube de Compras Dallas: 41 vitórias
Blue Jasmine: 30 vitórias
Ela: 30 vitórias
Trapaça: 24 virórias
Iside Llewyn Davis: 14 vitórias
Nebraska: 6 vitórias
Frozen: 6 vitórias
O Lobo de Wall Street: 5 vitórias
Capitão Phillips: 5 vitórias
Antes da Meia Noite: 5 vitórias
A Grande Beleza: 3 vitórias
O Grande Gatsby: 2 vitórias
Walt nos Bastidores de Mary Poppins: 2 vitórias
Philomena: 2 vitórias
All is Lost: 1 vitória
Os Suspeitos: 1 vitória
O Grande Mestre: 1 vitória
Jackass: Vovô Sem Vergonha: 1 vitória

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012. (ESPECIAL OSCAR 2014) 12 ANOS DE ESCRAVIDÃO, de Steve McQueen

Um belo retrato do sofrimento dos negros na América, mas não é o melhor filme do ano.
Nota: 9,6


Título Original: 12 Years a Slave
Direção: Steve McQueen
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Lupita Nyong’o, Michael Fassbender, Benedict Cumberbatch, Paul Giamatti, Alfre Woodard, Paul Dano, Sarah Paulson, Andy Dylan, Liza J. Bennett, Kelsey Scott, Bryan Batt, Brad Pitt, Taran Killam, Christophr Berry, Chris Chalk, Tony Bentley, Cameron Zeigler, Quvenzhané Wallis
Produção: Dede Gardener, Anthony Katagas, Jeremy Kleiner, Steve McQueen, Arnon Milchan, Brad Pitt, Bill Pohlad, John Ridley, Tessa Ross e Bianca Stinter
Roteiro: John Ridley e Solomon Northup (livro “Twelve Years a Slave”)
Ano: 2013
Duração: 134 min.
Gênero: Drama / Biografia

Nova York, 1841, o negro Solomon Northup despede-se da esposa e dos filhos que estão indo em uma viagem para que a mulher possa trabalhar. Andando pela rua, ele acaba conhecendo dois homens que se apresentam como proprietários de um circo e que desejam tê-lo como violinista. Após uma bebedeira, Solomon acorda em um porão usando correntes pressas à parede. Apartir dali, informam-no que ele é um escravo e deve se comportar como tal. Mesmo tentando negar tudo, Solomon é levado e vendido como o escravo Platt. Começando na fazenda do bom Sr. Ford, passará pelas terríveis mãos do Sr. Epps e, ao lado da escrava Patsey, terá de se conformar em ser um escravo rebelde.




Quando Solomon acorda no porão, já começamos a sentir remorso, pânico e pena daqueles que viveram situações semelhantes, basta os carcereiros entrarem para que nossos sentimentos mudem e passemos a sentir ódio, nojo e raiva daqueles que, um dia, trataram os negros de forma tão absurda e ultrajante. É bom revelar, desde já, que os proprietários do circo não tiveram nenhuma participação no sequestro. Nesse porão, Solomon passa por uma situação terrível para que ele pare de se dizer um homem livre: um homem bate nele lembrando que “na verdade” ele é um escravo. Depois, quando Solomon chega até o vendedor de escravos, o homem é obrigado a trocar seu nome. Pode parecer algo ameno nos dias de hoje, mas ele, que um dia fora Solomon Northup, teria de se acostumar a ser chamado de Platt (e usar o sobrenome de seu proprietário). Nesse contexto, o tal senhor de escravos mostra toda sua ganância e falta de compaixão, tratando os negros como mercadorias, como animais que estão à venda, batendo em seus peitos, obrigando que pulem e mostrem seus dentes. Quando Solomon é vendido, após tantos sustos e surpresas inimagináveis, encontra um dono bom e até compreensível. O Sr. Ford ouve as opiniões do escravo para as melhorias em sua fazenda e chega a presenteá-lo com um violino. Entretanto, Solomon vive em guerra com John Tibeats, o chefe carpinteiro da fazenda que mais parece um monstro impiedoso. Uma das figuras mais desagradáveis da trama, John acaba apanhando de Solomon e tenta enforcá-lo como vingança. O Mestre Ford, entretanto, acaba ajudando Solomon e o envia para a propriedade de Edwin Epps, um homem duro e louco. Ali, o escravo começa a trabalhar com algodão e se aproxima da escrava Patsey, a maior colhedora da fazenda. Solomon, além de sofrer o que qualquer escravo sofria nas mãos de um homem como Epps, também tem que aguentar os insultos e as agressões do patrão por Epps ser apaixonado de uma forma muito estranha por Patsey. Por um tempo, ainda, enquanto Epps enfrenta uma praga em sua lavoura, Solomon é enviado à fazenda do Juíz Turner, que se mostra tão generoso que chega a indicar o escravo violinista para uma grande festa e ainda garante que o que ele ganhar será seu. Após a praga da fazenda de Epps ser removida, Solomon volta ao seu antigo dono e continua levando sua vida sofrida. Certo dia, porém, Solomon acaba sendo agraciado com a surpresa do único homem que lhe ajudou realmente.


De forma simples e indireta, enquanto John Ridley conta a história de Solomon, ele nos presenteia com os costumes e crenças da época. Claro que, tudo aqui é visto pela perspectiva dos negros, os reais protagonistas da trama. No início, por exemplo, vemos um norte americano que está se acostumando com o fim da escravidão, um norte que apoia os movimentos abolicionistas e que já estão bem habituados aos negros serem tratados com respeito e dignidade. Depois que Solomon é pego e levado ao sul dos EUA, vemos uma região ainda muito escravista, que não dá a mínima para as palavras de um negro que se auto declara livre. O Sr. Ford e sua esposa, entretanto, representam uma camada da sociedade do local que trata os negros com igualdade até uma certa altura, o próprio capataz da fazenda parece estar ali apenas para manter a ordem entre os escravos. Ainda no sul, temos uma situação muito parecida com as que estamos acostumados em ver nas novelas e romances brasileiros que tratam da escravidão: o desejo ou paixão de um patrão por sua escrava. A construção do que Epps sente por Patsey é impressionante: não podemos dizer que ele a ama desde o princípio, mas podemos afirmar que ele se apaixona e a deseja pelo fato de ela colher tão bem que chega a ser chamada por ele de Rainha das Colheitas. Com o tempo, percebemos que Epps se martiriza por essa paixão, essa obsessão  que nutre por sua escrava. E isso fica muito claro quando ele a estupra. Em uma cena muito típica da época, o que ocorreu no mundo todo, a Sra. Epps acaba atirando uma garrafa na cara de Patsey quando ve seu marido a observar enquanto ela dança. Anos mais tarde, vemos Epps com uma menina negra em seus braços, o que nos enoja mais ainda se levarmos em consideração que ele, provavelmente, pretende criar outra Patsey, ou, quem sabe, ela seja fruto de alguma relação dele com alguma escrava. Para piorar a situação, em uma cena inesquecível, Epps não consegue, a princípio, castigar Patsey com o chicote, e ordena que Solomon o faça. Após algumas chicotadas leves, o patrão toma o objeto do escravo e termina o serviço, alegando que um homem faz o que deseja em sua propriedade.


Steve McQueen dirigiu mais de vinte curtas-metragem e outros dois bons longas antes desse. “Fome” (2008) é um filme forte e de diferente opiniões, “Shame”, com Michael Fassbender, não é nada diferente: trata da vida de um homem viciado em sexo. “12 Anos de Escravidão” também não é um filme simples ou agradável. Muito pelo contrário: é violento, é triste e expõe o pior dos homens. No entanto, são poucas as cenas em que os escravos são violentados de forma inovadora ou que possamos ver algo além do que já foi mostrado em outros filmes. Inquestionavelmente, o longa é maravilhoso, mas não existem grandes novidades na produção além de sermos expostos à perspectiva de um escravo. Mesmo assim, não posso negar: o conjunto da obra é muito original. Os cenários são componentes muito bem preparados e cada cena é única e possui valor histórico inestimável. A forma como McQueen consegue captar os sentimentos e as verdades no rosto de seus atores é incrível e parece que o diretor não perde muita coisa em alguma cena. A fotografia do longa é belíssima, assim como o figurino, ambos muito característicos e que nos remontam direto à época em que a história realmente aconteceu. Mas cenas bonitas e bem feitas, uma história tocante e boas interpretações não são o suficiente para fazer o melhor filme do ano. McQueen e Ridley pecam ao tentar detalhar doze difíceis anos de um homem, um homem que foi de livre à escravo. Durante todo o filme, não sabemos a quanto tempo Solomon foi roubado de seu lar, não somos situados no tempo e tudo fica muito confuso. Em uma das últimas cenas do filme, simplesmente, Solomon fica com os cabelos brancos e não sabemos o que aconteceu. Um palpite seria que tudo o que o filme mostra aconteceu nos primeiros quatro ou cinco anos da vida do personagem, e os outros anos, Solomon teve de viver trabalhando para Epps. Ainda, apenas a história de Solomon é explorada, momentos da vida de Patsey, uma das melhores personagens do longa, são deixados de lado e, como em uma grande telenovela, o que acontece a alguns personagens, seu presente e futuro, é deixado de lado e não sabemos da vida de ninguém que não seja Solomon.


Chiwetel Ejiofor traz uma das mais impressionantes interpretações do ano. Apesar de sabermos que muito do que o ator mostra é o que, provavelmente, viveu em sua vida (relacionado a preconceitos) é impossível não se emocionar e não aplaudir de pé sua interpretação como Solomon. Ele é intenso e, ao mesmo tempo, sabe abaixar a cabeça quando necessário, é forte e corajoso, mas começa a se acalmar quando vive a disciplina da fazenda dos Epps. Ejiofor traz um homem comum, um pai de família, um trabalhador que vê seu mais precioso bem ser levado: sua liberdade. E é por demostrar todo esse desespero de forma tão magnífica que quase ficou difícil decidir se ele ou Leonardo DiCaprio serão mais injustiçados se perderem o Oscar. Lupita Nyong’o é, sem rodeios, a melhor atriz do ano. Em uma interpretação visceral como a pobre Patsey, Lupita possui os momentos mais dramáticos e arrasadores do longa. Na cena em que é estuprada por Epps, é seu silêncio que fala, quando é açoitada pelo mesmo homem, seus gritos adentram nossa alma de forma inacreditável. E se alguém se atrever a dizer que a atriz é exagerada demais em alguma cena, basta lembrar a situação que ela vivia para saber que nenhum exagero é demais. Michael Fassbender sim, em alguns momentos, parece querer chamar demais a atenção. Claro que Epps, seu personagem, é um descontrolado alcoólatra, mas isso não é motivo para o ator ser tão escandaloso em alguns momentos. Apesar das alterações exageras de voz de Fassbender, as feições dele em todo o longa são algumas das melhores do ano e os deboches do personagem são ótimos. Na cena em que Epps chicoteia Patsey, por exemplo, as feições de Fassbender mostram o quanto aquele homem está se sentindo proprietário daquela mulher.Talvez o ator devesse ter explorado mais esse lado e ter deixado os escândalos para Nyong’o. Ao lado de Fassbender, Sarah Paulson mostra uma esposa de Epps que já perdeu a cabeça há muito por culpa do marido, mas que não o deixa de forma alguma. As cenas de ciúmes, inveja e nojo dela para com Patsey são os grande momentos de Paulson. Benedict Cumberbatch, mais uma vez em um filme indicado ao Oscar, dá vida ao bom Sr. Ford, um homem de Deus definitivamente. Cumberbatch e Liza J. Bennett (esposa de Ford) são o retrato perfeito de um casal que não pede pela igualdade, mas vive ela em seu proprio lar. Paul Dano vive o insuportável John Tibeats, apesar de ter uma boa interpretação, a construção de Epps feita por Fassbender é tão terrível que Dano fica esquecido. Não se pode deixar de comentar, mesmo que rapidamente, a sempre muito bem-vinda interpretação de Alfre Woodard como uma escrava que se casa com um homem branco, a atriz está, como de costume, magnífica e representando a negritude de forma muito particular.


Nove é o número de indicações arrebatadas pelo filme esse ano no Oscar, o segundo maior número, perdendo apenas para “Gravidade” e “Trapaça”, maiores concorrentes do longa na categoria de melhor filme do ano. Mesmo que “Gravidade” tenha surpreendido pelas técnicas utilizadas (algumas desenvolvidas para o filme), a morte de Nelson Mandela parece ter emocionado as premiações do mundo todo e “12 Anos de Escravidão” vem como o grande favorito. O mesmo não podemos dizer em relação a Steve McQueen, indicado como melhor diretor. Se “12 Anos de Escravidão” impressiona pelo tema, Alfonso Cuarón, diretor de “Gravidade” impressiona pela arte de seu longa, sendo o grande favorito das premiações até agora e do Oscar. Vale lembrar que o filme venceu o Sindicato dos Produtores (termômetro para a categoria principal do Oscar), dividindo o prêmio com “Gravidade”, e que perdeu o prêmio dos Sindicato dos Diretores para Cuarón. John Ridley, apesar do roteiro confuso, é indicado em melhor roteiro adaptado. “Capitão Phillips” que possui diálogos muito superiores e uma história mais ágil e cheia de expectativas, é seu grande concorrente, o ponto forte de Ridley é a temática e o fato de o longa possuir uma primeira hora maravilhosa que conquista a todos. Ejiofor, como o esperado, é indicado como melhor ator. Ao longo da temporada, em mais de 40 prêmios, o ator venceu 22 duas vezes na mesma categoria. Com uma interpretação surpreendente, o prêmio está entre ele e Matthew McConaughey. Espero que a Academia continue se emocionando e que Ejiofor saia vencedor. Michael Fassbender, apesar de muito bem no papel e de possuir a segunda melhor atuação coadjuvante do ano, não tem chances contra o parceiro de McConaughey na telona, Jared Leto, de “Clube de Compras Dallas”,  que merecidamente (após vencer 27 prêmios ao longo da temporada), levará o prêmio de melhor ator coadjuvante para casa. Lupita Nyong’o, indicada como melhor atriz coadjuvante, progoniza a maior luta do ano, levando em consideração a certeza quanto ao prêmio de melhor atriz ser de Cate Blanchett. A principal concorrente dessa revelação maravilhosa é a queridinha Jennifer Lawrence, por w“Trapaça”. Até agora, a loira venceu 12 vezes, a morena, 22. O figurino belíssimo de Patricia Norris, vencedora do Sindicato dos Figurinistas, é indicado como melhor figurino, concorrendo com “O Grande Gatsby” e tendo grandes chances de levar, merecidamente, a estatueta. Joe Walker é indicado na categoria de melhor edição por um trabalho muito bonito que deixa o filme ainda mais tocante, mas não melhor que o do trio de “Trapaça” ou que Christopher Rouse de “Capitão Phillips”, que disputam o prêmio com Alfonso Cuarón e Mark Sanger, por “Gravidade”. Outro grande componente do filme, a arte de Adam Stockhausen e Alice Baker, indicada como melhor direção de arte. Apesar de ser um trabalho bonito, será difícil tirar o prêmio de “Gravidade”, “O Grande Gatsby” ou “Ela”, vencedores do Sindicato dos Diretores de Arte.




Sendo o favorito como vencedor da estatueta do Oscar de melhor filme, “12 Anos de Escravidão” pode ter suas chances de ser o grande vencedor da noite frustradas pelo trabalho excepcional de Alfonso Cuarón e sua equipe impecável em “Gravidade”. Mesmo assim, não podemos negar que o filme seja bonito e que contenha uma denúncia importante sobre a escravidão. Aliás, por incrível que pareça, as atrosidades cometidas contra negros séculos atrás, parecem não cansar nunca. “12 Anos de Escravidçao” faz o que Martin Scorsese fez em “O Lobo de Wall Street”. Enquanto Scorsese não mostra nada de novo em relações aos seus trabalhos anteriores, “12 Anos de Escravidão” não mostra nada de novo em relação ao que já vimos sobre a escravidão e a forma brutal como negros foram tratados. A semelhança é que ambos o fazem de forma inacreditávelmente original e convincente. A diferença é que os negros nunca estiveram tão em alta, e os corruptos, tão em baixa. E esse filme poderia ter sido perfeito se o roteiro tivesse sido melhor desenvolvido. Tudo bem que a história era sobre os doze anos de escravidão vividos por Solomon Northup, mas não custava nada ter omitido algumas coisas ou ter usado uma narração em off para que ele contasse algumas passagens de sua vida e de seus companheiros sem o filme virar uma confusão. “12 Anos de Escravidão” é, sem dúvida alguma, um dos melhores filmes do ano, mas, definitivamente, não é o melhor.


TABELA TEMPORADA DE PREMIAÇÕES 2014
Confira a tabela da Temporada de Premiações 2014! Veja quem foram os vencedores dos principais prêmios internacionais e dos críticos. Os filmes coloridos e em negrito possuem indicações ao Oscar e seu número de vitórias está indicado na última coluna da tabela, mas isso não significa que o longa possui indicações nas categorias que venceu algum prêmio. Os filmes em preto sem ser em negrito não possuem indicação alguma no Oscar. Para visualizar melhor, basta abrir a imagem em outra janela/guia/aba. OBSERVAÇÕES: os filmes coloridos e em negrito possuem indicações ao Oscar e seu número de vitórias está indicado na última coluna da tabela, mas isso não significa que o longa possui indicações nas categorias que venceu algum prêmio. Os filmes em preto sem ser em negrito não possuem indicação alguma no Oscar.

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