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segunda-feira, 11 de novembro de 2013

055. GANGUES DE NOVA YORK, de Martin Scorsese

Em um de seus maiores filmes, o maior diretor da história do cinema revela as mãos, o sangue e a corrupção que construíram a América e todo o resto do mundo.
Nota: DEZ


Título Original: Gangs Of New York
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Leonardo DiCaprio, Daniel Day Lewis, Carmeron Diaz, Jim Broadbent, John c. Reilly, Henry Thomas, Leam Neeson, Brendan Gleeson, Gary Lewis, Stephen Graham, Eddie Marsan, Alec McCowen, David Hemming, Mychael Byrne
Produção: Alberto Grimaldi, Harvey Weisntein, Bob Weinstein,
Roteiro: Jay Cocks, Steven Zaillian, Kenneth Lonergan e Herbert Asbury (romance)
Ano: 2002
Duração: 167 min.
Gênero: Drama / Crima / História

Em 1847, irlandeses e nativos americanos brigavam pela região dos Cinco Pontos em Nova York. Durante a rápida batalha, o líder dos irlandeses, Padre Vallon, é assassinado brutalmente pelo líder dos nativos, Bill “O Açogueiro” Cutting. Após 16 anos, em plena Guerra da Secessão nos Estados Unidos, o filho de Vallon, Amsterdam, infiltra-se na gangue de Bill com o intuito de esperar a hora perfeita para matá-lo em frente a todos os seus seguidores. Entretanto, muito mais que apenas uma vingança está em jogo: a cidade de Nova York passa por mudanças que afetarão a todos seus habitantes.


Martin Scorsese já tem uma marca bem conhecida na sétima arte: seu amor e louvor por sua cidade natal, Nova York. Aqui, o diretor nos revela o passado sujo, nada glamoroso e totalmente desonesto dessa que se tornou a cidade mais importante do mundo. Para começar, temos a revelação de que a cidade era controlada por gangues terríveis que mandavam e desmandavam da forma que achavam melhor – posteriormente, isso seria papel das grandes famílias italianas, mafiosos vistos em longas como “O Poderoso Chefão” e “Os Bons Companheiros”. Além disso, os lados no início da trama dividem-se entre católicos (irlandeses) e protestantes (americanos), denotando como a América foi construída por tantas pessoas diferentes. Após passarem os 16 anos, não mudou muita coisa, todavia, é Bill quem comanda todo o local, sob o comando do político Tweed William ‘Boss’, outro homem sem honra ou dignidade alguma. Durante o longa, conferimos os defeitos do sistema criado na “Nova Inglaterra”, vemos as guerrilhas dentro da própria Nova York que pedem por melhoria no país e clamam pelo fim da Guerra da Secessão que deixou algumas famílias do país desoladas. Ainda podemos refletir um pouco sobre como toda a cidade de Nova York estava confusa, como tudo era uma bagunça ao passo que, enquanto imigrantes chegavam vindos da Itália, por exemplo, os “filhos da América” eram obrigados a pegar em armas e lutar por seu país. Por fim, nada que mude com o sistema corrupto e vigente da época pareça ser bem vindo, deixando com que a lei do mais forte e do mais esperto se sobreponha ao justo e honesto. Curiosamente, vale lembrar que Tweed ‘Boss’, um personagem real da história americana (assim como muitos outros personagens dessa história, incluindo Bill, que foi baseado em personagem real da época), bem como sempre aconteceu com os grandes políticos da história, não suja suas mãos com sangue, deixa isso para seus “milhares de açougueiros”, reservando-se ao direito de utilizar suas mãos apenas para contar seus dólares.


Algumas pessoas gostam de apontar os defeitos desse filme falando sobre a falta de realidade de algumas batalhas durante a trama, dizer que esse ou aquele ator parece estar no filme para debochar de uma produção tão ridícula e que todo o enredo não possui nexo algum. Defeitos existem nesse filme, mas são poucos comparados com a beleza estética e com a grandiosidade das interpretações de atores muito bem selecionados que passam desapercebidos. Não digo isso apenas por ser um admirador e defensor inquestionável do estilo e do trabalho de Martin Scorsese, digo isso por que acredito que um trabalho tão minucioso como esse deve ser valorizado como merece. Portanto, aponto como o elenco é bom escolhido, aponto como o figurino está belo (principalmente por ser tão característico com os costumes de cada povo), aponto a falta de pudor de Martin ao mostrar Nova York como ela realmente era, sem fazer rodeios ou enrolar o espectador, aponto como o diretor tem a facilidade de alternar cenas de lugares sombrios para lugares claros, de lugares abertos para lugares fechados. Nesse contexto, também sou obrigado a apontar que poucos filmes possuem mais de 160 minutos, como esse, e conseguem fazer com que o assistamos sem monotonia, sem querer que tudo acabe logo. O fim demora a chegar, mas ele vem de forma tão agradável que nos divertimos do começo ao fim (e acredito que um dos maiores trunfos seja trazer personagens reais e eventos reais que acorreram nos EUA). Por fim, aponto a genialidade da trilha sonora composta por Howard Shore, que mistura gêneros e ritmos típicos de todas as culturas que colonizaram os EUA, comprovando, mais uma vez, a miscigenação da América, destaque para a canção do U2 “The Hands That Built America”.


Essa é a primeira parceria entre Leonardo DiCapio e Martin Scorsese, o ator vive Amsterdam, um jovem sedento por vingança que está disposto a tudo para fazer justiça com as próprias mãos. Mesmo que o ator já estivesse perto de completar 30 anos na época em que o longa foi filmado, ele consegue trazer um pouco da infantilidade do personagem por ser jovem, o que se contrasta com a maturidade do rapaz por ter sido criado sozinho no mundo. Daniel Day-Lewis vive Bill Cutting de forma realmente debochada, mas não é que o ator deboche do filme, ele satiriza a forma absurda como funcionava o sistema na época; como de costume, Day-Lewis está excelente no papel, conseguindo a façanha de nos confundir se ele é o vilão da história, ou se apenas está fazendo o que deve ser feito, afinal, é a lei da selva e da guerra: ou você mata, ou você morre. Cameron Diaz é a mocinha da vez (por que nenhum filme pode ser composto apenas por homens), Jenny, uma mulher sedutora que tem como mania roubar os outros; mesmo que eu tenha o costume de não gostar de nenhuma mocinha de qualquer filme americano, essa não é uma garota comum, Diaz dá à personagem um caráter forte de uma mulher que já passou por poucas e boas e não é nenhuma santa. Jim Broadbent, um dos melhores atores ingleses de sua época, é William Tweed, como disse, um homem que não suja suas mãos e a atuação de Broadbent fica ainda mais bela quando vemos a despreocupação dele em relação ao bem estar da população, dando prioridade às eleições em qualquer circunstância.



“Gangues de Nova York”, semelhante a “Taxi Driver”, também de Scorsese, mostra o lado escuro de Nova York, diferentemente de “Taxi”, que aborda os problemas e a escória da cidade no Século XX, “Guangues” traz um panorama de NY quando a cidade ainda estava se formando. Sendo assim, um filme acaba completando o outro – como a maioria dos longas do diretor que retratam a cidade -, pois um fala sobre a criação de todo o sistema governamental e da chegada de diversos povos até a América, e o outro nos mostra como a cidade se tornou suja e nos apresenta a escória que começou a ser formada séculos atrás, por uma marginalização provocada pelos poderosos da época. Mesmo que esse tenha sido o momento de Martin mostrar, da forma mais nua e crua possível, como Nova York não foi criada baseada em pilares democráticos e politicamente corretos, a beleza do filme não se perde, afinal, é mais um momento na carreira desse diretor brilhante em que ele satiriza e critica a forma tosca como o ser humano deixa que outras pessoas o controlem. E mais: mostra como todas as cidades do mundo, sejam pequenas, sejam as mais importantes do planeta, possuem seu passado negro de obscuridade e vermelho de sangue.


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quinta-feira, 3 de maio de 2012

321. O AVIADOR, de Martin Scorsese



Mais que apenas uma grande produção sobre um grande homem, esse filme se traveste de biografia para falar de cinema.
Nota: 9,8



Título Orginal: The Aviator
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Leonardo Di Caprio, Cate Blanchett, John C. Heily, Alec Baldwin, Alan Alda, Iam Holm, Kate Beckinsale, Gwen Stefani, Jude Law
Produção: Martin Scorsese, Bob Weinstein e Harvey Westein
Roteiro: John Logan
Ano: 2004
Duração: 170 min.
Gênero: Drama / Biografia

Aviador, empresário, cineasta, produtor, engenheiro, Howard Hughes foi tudo isso e representou muito mais para sua geração, era visto como um homem envaidecido por tanta glória e dinheiro que acabou se afogando em suas loucuras para conquistar mais daquilo tudo o que ele já possuía e não precisava. Visto como um filme meio confuso e monótono, foi com esse filme que o mais que perfeito Martin Scorsese me conquistou, sua técnica é perfeita e ele erra pouquíssimas vezes, as quais passam despercebidas em meio a tanta grandiosidade, típicas do homem retratado na trama. No filme vemos as várias faces do homem que se tornou lenda, as construções de seus principais projetos aeromobilísticos, suas ambições como diretor e produtor de cinema, os altos e baixos de seus negócios (que alcançavam o topo e o precipício de forma inacreditável), suas relações com estrelas do cinema como Katharine Kepburn, Ava Gardner e Jean Harlow, e com as suas relações de negócios com homens como Noah Dietrich (seu contador), Juan Trippe (magnata da área aérea) e Ralph Owen Brewster (político republicano e seu adversário).


Scorsese é, indiscutivelmente, um dos maiores mestres da história do cinema e talvez o melhor entre os vivos, pode-se dizer que é o mais merecedor entre todos de ser chamado de “um homem para o cinema”, sua vida parece se resumir, hoje, aos seus filmes feitos, os que estão por vir e, especialmente, por sua dedicação em restaurar filmes antigos, logo ele é merecedor de toda a glória que possuí por simplesmente fazer arte por amor, não para levantar seu ego ou chamar a atenção como uns e outros. Aqui seu papel é o mais importante, como diretor ele eleva cada intérprete a um patamar único, até mesmo os mais insignificantes se tornam satisfatórios, não é nenhuma novidade a mestria com a qual esse homem conduz esse filme, a novidade está mesmo em ele tornar toda essa produção um espetáculo, não por vontade de mostrar que ainda está vivo e é merecedor de crédito, mas por que não há como um filme que fale sobre o controverso Howard Hughes ser ameno e sem toda a pompa e circunstância que o homem sempre esbanjou. As cenas em que ele voa, ou aquelas em que ele aparece tentando fazer seu filme e as em que ele está nas festas mais glamorosas possíveis são impecáveis. Howard Shore é o responsável por uma trilha sonora clássica, bem como em “A Invenção de Hugo Cabret” (2011), ele não pode fazer de forma diferente, afinal em ambos os filmes, elas condizem com seu contexto. A maioria da parte técnica do filme é a mesma que no filme de 2011, e todos fazem seus trabalhos com a mesma grandiosidade que a dupla Scorsese-Shore, dentre eles o roteirista John Logan que nos confunde a cada momento, mas não deixa de esclarecer nada até o final do filme, se é que é possível esclarecer alguma coisa sobre a vida de Hughes.


A personagem central da trama que enriqueceu aos 18 anos devido a herança do pai é vivido pelo ainda aspirante a grande ator Leonardo Di Caprio, há algo em suas interpretações que me chama a atenção, gosto da forma como ele parece se entregar às suas personagens e não entendo o por que de tantos críticos e premiações o ignorarem tanto. Quem realmente me atrai, e jamais se mostrou menos merecedora é a atriz Cate Blanchett, a australiana não é nenhum referencial da beleza hollywoodana, mas faz tudo tão bem que se torna uma mulher linda em vários aspectos, aqui ela é a lendária Katherine Hepburn (provavelmente a lenda, como uma boa americana, se revolveu no túmulo ao se ver interpretada por Blanchett menos de um ano depois de sua morte), mas a atriz é tão completa e lembra tanto Hepburn em seus gestos e formas de falar que por vezes até esquecemos que quem está ali não é a própria Katherine Hepburn. Dentre os outros intérpretes eu destacaria essencialmente apenas três: John C. Reilly, como Noah Dietrich, as cenas em que ele implora para que Hughes interrompa suas loucuras para analisar seus negócios são ótimas; Alec Baldwin, como o insuportável Juan Trippe, sempre tentando levar vantagem com o fato de Hughes ser doente; e Alan Alda, como o também sarcástico Senador Ralph Owen Brewster; mas não posso deixar de citar atrizes como Kate Beckinsale (Ava Gardner) e Gwen Stefani (Jean Harlow) e os atores Jude Law (Errol Flynn), Adam Scott (Jonny Meyer) e Iam Holm (Professor Fitz).


Mais que um filme sobre a vida de Howard Hughes, esse é um filme sobre mais uma estrela do cinema, diretor de “Anjos do Inferno” (1930), que, como tantas outras, deixou-se levar pela vida bela e deliciosa que o dinheiro e a fama trazem aos seres humanos, perdendo todas as chances possíveis de se tornar uma pessoas realmente feliz. Ao contrário dos filmes mais famosos de Scorsese, na sua maioria mais obscuros e com cenas em lugares mais fechados e sombrios, esse é feito em cenários amplos e com cores bem chamativas, mas sem perder a essência do diretor: o filme nos faz refletir profundamente sobre até onde vale a pena ir para se ter aquilo que se deseja, e se não seria muito melhor e mais simples sabermos a hora de parar, a resposta não vem com o desfecho da trama, ou depois de muito se pensar sobre ela, talvez essa resposta nunca chegue, afinal como sabermos o que a vida deseja de nós e o que nós realmente desejamos de nossas vidas?


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domingo, 25 de março de 2012

355. SWEENEY TODD: O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET, de Tim Burton.

Obscuridade, Burton, Depp, Bonham Carter em um musical, poderia ser mais aterrorizantemente delicioso?
Nota: 8,7



Título Original: Sweeney Todd – The Demon Barber of Fleet Street
Direção: Tim Burton
Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Alan Rickman, Timothy Spall, Sacha Baron Cohen, Ed Sanders
Roteiro: John Logan, Hugh Wheeler e Christopher Bond
Ano: 2007
Duração: 116 min.
Gênero: Drama / Musical

CONFIRA O TRAILER DO FILME:

             Benjamin Baker passou quinze anos longe de Londres por culpa do juiz Turpin que desejava acima de tudo sua esposa. Agora Baker voltou com a certeza de que sua esposa morreu e com sede de vingança de todos aqueles que lhe tiraram a liberdade, a esposa e a filha do casal que mora na casa do juiz (o pior é que o velho quer casar com a menina), ele volta a sua casa e com o apoio da Sra. Lovett eles farão do povo de Londres o recheio dessa história muito louca. Essa é a adaptação de uma peça de teatro, e dessa vez temos as duas impressões: por vezes vemos claramente a adaptação, como nas cenas no restaurante; outras vezes vemos cenas mais amplas que não chegam nem perto de uma peça, como a maior parte das cenas nas ruas imundas da capital inglesa.


             Tim Burton é fantástico, fato. Por vários motivos: é um excelente diretor e sua mente está sempre processando histórias malucas de personagens mais malucos ainda. A obscuridade habitual dele dobra nesse filme, a época claramente ajuda (provavelmente Londres foi uma das cidade mas sujas do mundo durante séculos, devido a falta de limpeza do rio Tâmisa), é por volta de 1850 e a cidade é um verdadeiro amontoado de lixo. Burton é marido de Bonham Carter, digo, de fato, mas seu casamento com Johnny Depp já é mais velho e seus frutos foram mais numerosos, no total oito: “Edward Mão de Tesoura” (1990) o clássico moderno; “Ed Wood” (1994) o fracasso sobre o fracassado; “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça” (1999), a direção de arte dos sonhos; “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005), a refilmagem adaptada que conquistou a mundo; “Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (2007), o musical do ano; “Alice no País das Maravilhas” (2010), a adaptação muito bem feita tecnicamente que não conquistou a crítica; e o ainda inédito “Sombras da Noite” (previsto para 2012), o filme que eu pensei que era um drama pesado sobre vampiros, mas com o primeiro trailer vi uma comédia negra das melhores, própria dessa dupla. A arte do filme, bem como o figurino, é brilhante, o fato de o filme ser negro não significa que sua técnica seja mal feita, muito pelo contrário, todos que desejam fazer filmes desse estilo deveriam assistir a “Sweeney Todd”. A trilha sonora adaptada da peça é ótima e todas as músicas merecem ser ouvidas diversas vezes, apesar de as vozes não serem as mais perfeitas do mundo elas são adequadíssimas para o contexto.


             Johnny Depp lidera um time de feras: Helena Bonhan Carter é a Sra. Lovett, suja, pobre e tem tudo para ser odiável, mas vivida pela atriz se torna extremamente cativante; Alan Rickman é o juiz Turpin, desse só podemos ter desprezo e ódio (mais um show por parte do ator); Timothy Spall é o perfeito Beadle, nojento e repugnante; o mesmo de pode dizer da primeira vítima de Todd, Pirelli, vivido por Sacha Baron Cohen; Jayne Wisener é a filha de Baker, Johana; Laura Michelle Kelly é a esposa de Baker, Lucy; Ed Sanders o ajudante da Sra. Lovett, o pequeno Toby, dono de uma voz e interpretação impressionantes; Jamie Campbell Bower é o amante de Johanna, Anthony. Depp é o perfeito Benjamin Baker, posteriormente Sweeney Todd para enganar um pouco os otários que lhe causaram mal, convenhamos que Depp é um dos melhores atores da atualidade, mas temos que ser sinceros (peço desculpa aos fãs dele, onde quase me encaixo) até chegar aqui ele teve que penar muito, possui personagens péssimas e atuações horríveis, mas o fato é que desde Edward ele prosperou e como Benjamin Baker ele é maravilhoso, ninguém teria feito melhor.


             Com a abertura do filme já podemos ter uma idéia de seu brilhantismo, ela é ótima. De música em música em música o filme voa e passa muito rápido, é o tipo de filme que se teve ter espírito para o inesperado e os litros de sangue que rolam durante o enredo são incontáveis. Logo é uma ótima pedida para os dias que seu lado diabinho está falando mais alto e você está louco para rir da morte alheia, mas previno já: comer tortas jamais será a mesma coisa.


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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

376. ENTREVISTA COM O VAMPIRO, de Neil Jordan

É impressionante como filmes sobre vampiros estão se perdendo de forma tão rápida, nesse vemos uma fidelidade rara ao que se considerou ser um vampiro durante incontáveis anos, e o vemos de forma muito bem realizada.
Nota: 9,0


          Título Original: Interview eith the Vampire: The Vampire Chronicle
          Direção: Neil Jordan
      Elenco: Brad Pitt, Tom Cruise, Antonio Banderas, John McConnell, Virginia McCollam, Thadie Newton, Kirsten Dunst, Helen McCrory
          Roteiro: Anne Rice (ela também escreveu o romance)
          Ano: 1994
          Duração: 123 min.
          Gênero: Drama/Fantasia

CONFIRA O TRAILER DO FILME:


          Já foram realizados centenas de projetos para abordar o tema de vampiros, alguns morrem com estacas, outros não, outros são vencidos por crucifixos, outros apenas se sentem desconfortáveis com o símbolo religioso, ainda existem aqueles que queimam até os ossos com a luz solar, outros resolveram inovar e brilham quando expostos à mesma luz. O fato é que todos são iguais em um sentido, se não necessitam exclusivamente de sangue humano para viver, eles o desejam desesperadamente.
          Aqui o Conde Drácula é um mito, a estaca, o alho e o crucifixo não ameaçam os vampiros, mas eles morrem com o sol, sofrem com o fogo, são loucos por sangue e difíceis de matar. Louis de Pointe Du Lac (Brad Pitt) é vampiro há 200 anos e, nos anos 1990, decide contar sua história para um jornalista: foi um proprietário de terras que, após perder a esposa e filha recém nascida, se entrega á depressão e acaba se rendendo a nova "vida" proposta pelo já vampiro Lestat de Lioncourt (Tom Cruise). Daí por diante Louis viverá uma vida regada á sangue e morte humana e animal até se conformar que o que ele realmente deseja são os seres humanos. Para que isso aconteça ele e Lestat acabam por "adotar" uma indefesa garota (Kristen Dunst, ainda bem novinha) e a transformam em uma vampira sedenta por humanos. É Louis quem narra o filme do começo ao fim expondo todos os desejos e dúvidas que teve durante todas suas vidas e morte.
          Neil Jordan não é bem o tipo integro na sociedade nos padrões considerados corretos, é diretor de poucos filmes, mas os que dirigiu tem um quê bastante excêntrico (é claro que esse não foge da regra, afinal é um filme sobre vampiros); recentemente dirigiu, roteirizou e produziu uma das séries mais polêmicas dos últimos anos, Os Bórgias (comentei sobre ela na crítica sobre o filme Casanova). Resumidamente a série trata sobre a nada controvérsia família que tinha como líder um papa que teve filhos, esposa, amantes e que reinou na Europa mandando e desmandando em todas as mentes católicas do mundo. Seus trabalhos, como um todo, não são espetaculares, o que deixa claro que ele não possui a genialidade de diretores como Martin Scorsese ou Alfred Hitchcock, mas Jordan não deixa a desejar e faz seu trabalho com competência e coragem. A trilha sonora não poderia ser melhor, composta por Elliot Goldentha (vencedor do Oscar em 2002 por "Frida") foi indicada ao Oscar em 1994, por sinal foi a única indicação ao prêmio ao lado da Direção de Arte de Dante Ferretti e Francesca Lo Schiavo, que ganharam o prêmio esse ano na mesma categoria por "A Invenção de Hugo Cabret". O filme venceu prêmios, na maioria técnicos em outras premiações como o BAFTA, e chegou a ganhar, desmerecidamente, o Framboesa de Ouro, por melhor casal para Pitt e Cruise.


          Aliás são eles que realmente me surpreendem nesse filme e o fazem valer a pena, é provavelmente a única atuação de Cruise decente e a uma, das várias, atuações sensacionais de Brad Pitt. Pelo primeiro não possuo simpatia alguma, acho ele muito exagerado e pouco flexivo, do tipo de ator que não passa segurança e tem sempre atuações muito parecidas. Pelo segundo confesso ter um certo carisma; Pitt não é nenhum James Stewart, mas gosto de seus trabalhos e ele sempre acaba conquistando minha admiração, especialmente em dois de seus últimos filmes: "O Curioso Caso de Benjamim Button" e "O Homem que Mudou o Jogo", pelos quais foi indicado ao Oscar. Ainda não tive a chance de assistir "O Clube da Luta", mas dizem que ele é incrível, Dunst com esse filme mostrou que tinha tudo para ser uma das melhores atrizes de sua época, é convincente do começo ao fim é se mostra a própria bonequinha amaldiçoada. Quem não é nem capaz de realizar um bom trabalho é Antonio Banderas, tudo bem que vindo dele não se pode esperar muito, mas aqui ele interpreta um vampiro com 400 anos, provavelmente o mais velho na Terra, e o faz muito mal para uma personagem tão rica.
          "Entrevista com o Vampiro" é aquele tipo de filme que nos deixa com vontade de assistir mais e mais vezes, ou melhor, nos dá vontade de que ele dure mais tempo para que a diversão e qualidade demorem a chegar ao fim, fim esse que surpreende por ser obvio e nos deixa animados com a possibilidade de que jamais se perca a verdadeira identidade dos filmes que retratam os vampiros de forma relativamente fiel e o fazem com tanta qualidade.


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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

379. A INVENÇÃO DE HUGO CABRET, de Martin Scorsese.

Apenas um gênio conseguiria demonstrar o valor do amor, da amizade e dos propositos da vida de forma tão fantástica e ainda homenagear a criação e a evolução do cinema de forma tão perfeita.
Nota: DEZ






          Título Original: Hugo
          Direção: Martin Scorsese
       Elenco: Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Asa Butterfield, Chloë Grace Moretz, Ray Winstone, Emily Mortimer, Christopher Lee, Helen McCrory, Michael Stuhlbarg, Frances de la Tour
          Produção: Johnny Depp, Tim Headington, Graham King, Martin Scorsese
          Roteiro: John Logan
          Duração: 126 min.
          Ano: 2011
          Gênero: Aventura / Drama

CONFIRA O TRAILER DO FILME:


          Hugo e o pai são companheiros de uma vida, até que o menino se vê sem saber o que fazer quando o pai morre e o tio o leva para uma estação de trem onde ele terá que cuidar dos relógios. Desesperado o garoto se agarra a única coisa que o faz lembrar do pai e de seus bons momentos juntos: um autômoto (uma espécie de robô humano). A partir daí o menino se entregará as mais inimagináveis aventuras para consertar o objeto e tentar descobrir o que envolve o mistério de sua criação. Em meio a tudo isso veremos um interceptor que insiste em apanhar órfãos e entregá-los aos orfanatos, a senhora dona de um café e seu pretendente, a dona de uma floricultura e o proprietário de uma livraria/biblioteca. No entanto as surpresas não acabam por aí, Hugo também encontrará um dos maiores ídolos da história, um precursor no que se acredita ser o cinema, alguém que mudará sua vida para sempre. Revelar sua identidade seria um desacato a todos aqueles que desejam ver o filme, portanto irei parar por aqui fazendo uma ressalva: Ben Kingsley foi pouco ovacionado esse ano por uma atuação digna de todos os prêmios coadjuvantes possíveis no cinema.


          Scorsese tem dedicado os últimos anos de sua vida à restauração de filmes há muito perdidos no tempo e espaço de nossas gerações, aqui ele recria boa parte de todas as descobertas que o fizeram se tornar o maior cineasta de sua geração por um simples fato: ele é simples quando se deve ser simples, agressivo quando se exige agressividade, moderado quando se pede moderação, violento quando retrata a verdade violenta da vida, e faz tudo isso com a perfeição de um mestre em sua arte. Digo "sua arte" por que foi exatamente isso que ele criou: sua própria forma de fazer filmes, claro que ele não é nem de longe um dos primeiros cineastas da história, mas podemos considerá-lo precursor de muitas técnicas que não existiam antes das décadas de 60 e 70. Scorsese, Coppola, Spielberg são três grandes nomes do que no futuro viriam a ser a era drogas, rock e qualidade do cinema contemporâneo. Scorsese optou por fazer um filme 3D, e provavelmente ele mostra o que deve ser encarado como 3D, afinal assistir a "Hugo" sem ser em terceira dimensão já é algo inexplicável, imagina-se que ter toda essa magia mais perto de cada um de nós seja algo insuperável nas mãos dessa lenda. Sequências como os pesadelos do jovem Hugo, as lembranças do grande ídolo, as escapulidas do órfão do inspetor da estação de trem, a cena em que o autômoto faz sua parte na história entre tantas outras jamais serão esquecidadas por aqueles que as virem.



          Ao lado desse ícone tão adorado temos grande nomes que o auxiliam na criação do figurino simples e cheio de presença feito por Sandy Powell (a qual já trabalhou mais vezes com Scorsese), a edição magnífica de uma equipe técnica escolhida a dedo pelo diretor, bem como aqueles que editam o som ou escolhem a fotografia, a trilha sonora delicadamente composta pelo também mestre Howard Shore que nos delicia com músicas bem ao estilo parisiense e merecia ganhar o Oscar por combinar tão bem seu trabalho com o do amigo Scorsese. Se o que surpreende em "O Artista" é a falta de cor não deixar o filme chato, aqui o que surpreende é o excesso de cor compor uma imagem tão perfeitamente planejada e nos fazer sonhar e imaginar a cada passo que o jovem Hugo dá no caminho de sua felicidade. Além dessa equipe técnica fantástica conta-se ainda com uma equipe de atores de tirar o fôlego que ou se entregam facilmente a esta trama adorável ou se deixam levar pelo talendo do diretor em tirar o máximo de seus atores.

          Se Martim Scorsese quis realizar esse filme a pedido de sua pequena filha, devemos a essa menina um dos filmes mais incríveis dos últimos anos, já se disse muito sobre o fato de os filmes desse ano não serem tão bons, mas encontrar a qualidade que se encontra em "a Invenção de Hugo Cabret" não é para qualquer um, talvez devemos isso a bela Paris que se empresta para ser o plano de fundo, ou a estação de trem tão bem arquitetada, ou os cafés e croissants consumidos pelas personagens, ou as músicas que levam o filme ao extremo do que se pode pensar ser magnífico, o fato é que não importa se é um filme sobre política, assassinos, órfãos, contrabandistas, chefes de máfias ou o que for, sendo Scorsese, jamais será decepcionante.
          

          As onze merecidíssimas indicações ao Oscar:
          Melhor Filme: Johnny Depp, Tim Headington, Graham King, Martin Scorsese
          Melhor Direção: Martin Scorsese
          Melhor Roteiro Adaptado: John Logan
          Melhor Trilha Sonora: Howard Shore
          Melhor Direção de Arte: Dante Ferreti e Francesca Lo Schiavo
          Melhor Montagem: Thelma Schoommaker
          Melhor Efeitos Visuais: Robert Legato, Joss Williams, Ben Grossmann e Alex Henning
          Melhor Edição de Som: Philip Stockton e Eugene Gearty
          Melhor Mixagem de Som: Tom Fleischman e John Midgley
          Melhor Figurino: Sandy Powel
          Melhor Fotografia: Robert Richardson



ESPECIAL: "O Artista" e "A Invenção de Hugo Cabret" vencem cinco prêmios cada e Meryl Streep leva o prêmio de Melhor Atriz após quase 30 anos.


   Para compensar o fim de semana sem ter publicado nada eis aqui a lista dos vencedores do Academy Awards, o Oscar. O filme "O Artista", mudo e preto e branco, se consagra e é eleito o melhor filme do ano, ao lado do filme de Martin Scosese, "A Invenção de Hugo Cabret", é o maior vencedor da noite com cinco prêmios. Além desses dois curiosamente apenas mais um filme levou mais de um prêmio, "A Dama de Ferro" venceu nas categorias de maquiagem e atriz para a incrível Meryl Streep. 




    A última vez que ela levou um Oscar para casa foi em 1983 por "A Escolha de Sofia", além desse também venceu na categoria de atriz coadjuvante por "Kramer vs. Kramer" em 1979. A atriz mal acreditou em sua vitória e comemorou ao lado do marido Dom Gummer e do vencedor da mesma categoria, só que masculina, Jean Dujardin. Streep havia ganhado o Globo de Ouro e o BAFTA, já Dujardin ganhou também o prêmio do Sindicato dos Atores. Michel Hazanavicius venceu Scorsese na categoria de melhor direção, mas ambos os filmes dos diretores perderam nas categorias de Roteiro Original e Reteiro Adaptado, respectivamente.


Confira a lista dos premiados:
Melhor Filme: O Artista
Melhor Atriz: Meryl Streep, por A Dama de Ferro
Melhor Ator: Jean Dujardin, por O Artista
Melhor Atriz Coadjuvante:Octavia Spencer, por Histórias Cruzadas
Melhor Ator Coadjuvante: Christopher Plummer, por Toda Forma de Amor
Melhor Diretor: Michel Hazanavicius, por O Artista
Melhor Edição: Millenium - Os Homens que não Amavam as Mulheres
Melhor Documentário: Undefeated
Melhor Documentário em Curta-Metragem: Saving Face
Melhor Animação: Rango
Melhor Trilha Sonora: O Artista
Melhor Canção Original: Man or Muppet, de Os Muppets (Bret McKenzie)
Melhor Roteiro Original: Meia-noite em Paris
Melhor Roteiro Adaptado: Os Descendentes
Melhor Som: A Invenção de Hugo Cabret
Melhor Edição de Som: A Invenção de Hugo Cabret
Melhores Efeitos Visuais: A Invenção de Hugo Cabret
Melhor Curta-Metragem de Animação: The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore
Melhor Curta-Metragem: The Shore
Melhor Filme Estrangeiro: A Separação
Melhor Maquiagem: A Dama de Ferro
Melhor Figurino: O Artista
Melhor Direção de Arte: A Invenção de Hugo Cabret
Melhor Fotografia: A Invenção de Hugo Cabret



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