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terça-feira, 22 de setembro de 2015

COBERTURA 48º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO

No último dia da Mostra Competitiva de curtas, médias e longas-metragem do Festival, foram apresentados O Sinaleiro, de Daniel Augusto, O Corpo, de Lucas Cassales, e Prova de Coragem, de Roberto Gervitz.



  Um homem idoso vive no meio do nada, onde trabalha como sinaleiro. O curta O Sinaleiro, baseado em um conto do britânico Charles Dickens possui uma história bastante interessante à medida que explora a solidão humana e suas consequências. Vivendo sozinho, o sinaleiro passa o tempo construindo bonecos de palito de fósforo, cuidando de uma horta, caçando animais para colocá-los em potes de vidro. Além disso, a casa deteriorada onde vive, a goteira incessante e insuportável, o trabalho de anotar o horário que o trem passa e informar à central contribuem para enlouquecer o homem e criar a tensão desejada no espectador. O futuro do velho é aguardado ansiosamente e os 15 minutos do filme ganham um ritmo frenético até o desfecho surpreendente.


O Corpo foi um dos vencedores do Festival de Gramado deste ano. O curta conta a história de um garoto que vive no interior no Rio Grande do Sul com o pai e a mãe. A visita de uma bela jovem, entretanto, modifica a vida do jovem. A direção de elenco apresenta boas intepretações, sobretudo do menino, que passa por momentos delicados na vida (matar uma galinha e descobrir que o pai e mãe não são pessoas tão boas quanto ele pensa). Com fotografia excelente, planos muito bem compostos e movimentos de câmera inteligentes, a narrativa, como em vários filmes aqui citados, enaltece o machismo e a objetificação da figura feminina. A medida que o filme passa, tudo piora, já que o filme dá a entender que a culpa dos pais do garoto terem atitudes inadequadas se deve à essa estranha visita feminina.


Em Prova de Coragem, uma mulher engravida do marido, um médico que deseja poder ser mais livre. Com a novidade e após encontrar um amor da adolescência, Hermano começa a revisitar o passado e questionar toda sua vida. Com uma história pouco original e que já delata no título que as provas que Hermano buscará são aquelas que reafirmam sua masculinidade e superioridade frente a tudo, o filme é um verdadeiro desastre. A fotografia é a mais tradicional de telenovelas possível, com planos batidos e movimento de câmera muito desagradável. Não existem cenas com alguma iluminação diferenciada e as cenas são resolvidas com cortes demais. Os flashes do protagonista sobre a juventude parecem ter sido jogados na trama e a montagem não se preocupa em criar o ritmo necessário.
Com um roteiro clichê e bastante machista, os diálogos construídos ao longo da trama são tediosos. Além disso, os desempenhos do elenco são muito fracos. Em alguns momentos isso se deve à uma mise én scene confusa, onde os atores se movimentam mecanicamente em um espaço que eles parecem não reconhecer. Talvez tenha faltado ensaio, ou os atores não reconheceram os locais de filmagem de forma mais ampla. Dessa forma, todas as movimentações, os diálogos, as discussões, se tornam mecânicas demais e realistas de menos. Para coroar, a tentativa de imitar o sotaque gaúcho (a trama se passa na cidade de Farroupilha) não funciona e o incômodo passa a ser não apenas na movimentação, mas também, na fala.


A última noite do 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro começou bem com um filme aplaudido e bastante comentado após a sessão. Mesmo sendo o último dia do Festival e sendo uma segunda-feira, a sessão estava lotada e O Sinaleiro causou uma tensão tão grande que ao final do curta, o público demorou a aplaudir esperando para ver se nada mais aconteceria. O Corpo e Prova de Coragem, entretanto, quebraram com a qualidade do primeiro filme da noite. Dois filmes onde a figura masculina faz questão de dominar a figura feminina de alguma forma e onde as narrativas se perdem em si mesmas e não fazem nada, além de decepcionar o espectador. Hoje À noite (terça-feira, 22), serão revelados os vencedores dos prêmios do Festival. Confira, amanhã (quarta-feira, 23), a lista dos vencedores e comentários gerais sobre a premiação.

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COBERTURA 48º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO

Fechando o final de semana (domingo, 20), a Mostra Competitiva de curtas, médias e longa do Festival de Brasília apresentou A Outra Marge, de Nathália Tereza, História de uma Pena, de Leonardo Mouramateus, e Santoro – O Homem e sua Música, de John Howard Szerman.



Um agroboy, morador da cidade de Campo Grande no Mato Grosso do Sul está apaixonado por uma jovem bastante ousada. Durante uma noite, o jovem vaga pela capital sul matogrossense pensando nesse amor que lhe consome. Um agroboy apaixonado não é algo que as pessoas estão acostumadas a ver todos os dias. A outra margem mostra que eles existem. Aliás, existem aos montes em lugares onde eles são a maioria, como em Campo Grande. Apesar de uma história que pode saturar o espectador, o curta foi realizado todo durante a noite, e tem uma das fotografias mais surpreendentes e interessantes do Festival. Além disso, a  mixagem de som deixa cada camada sonora do filme bem clara, tornando o curta um dos melhores produtos audiovisuais do festival.


História de uma Pena narra o convívio social de alguns jovens e seus desafios frente à formação e às aulas de um professor que deseja ensinar poesia. Com planos longos e repletos de diálogos ou monólogos, o curta tem uma fotografia realista e os planos são muito bem compostos. A história contada é bastante simples: jovens com os hormônios à flor da pele e um professor tentando ensinar alguma coisa. Apesar disso, a forma como Mouramateus apresenta a narrativa, revelando momentos os de ócio (do qual fazem parte a droga, o sexo, as festas) e os de obrigação dos jovens (do qual fazem parte o professor, as tarefas, os horários), é bastante convincente. Além disso, o diálogos e monólogos foram criados e interpretados de forma muito natural, ficando claro o quanto a direção do curta é cuidadosa.


Claudio Santoro viveu entre 1919 e 1989. Saiu do Amazonas com a ajuda do governo para estudar no Rio de Janeiro. Lá, conheceu musicistas, intelectuais, grupos que o fizeram se dedicar cada vez à música e foi aluno de Hans-Joachim Koellreutter. Comunista, acabou vivendo em outros países além do Brasil, como França e Alemanha, onde aprofundou seus estudos e conheceu novas realidades. Foi, também, professor na Universidade de Brasília, onde valorizou o estudo da música. Santoro foi um dos maiores compositores e regentes da história da música brasileira, recebendo inúmeros prêmios e homenagens tanto em território nacional quanto internacional. Uma das homenagens mais significativas, é darem seu nome ao Teatro Nacional, conhecido, hoje, como Teatro Nacional Claudio Santoro.
Santoro – O Homem e sua Música é um documentário bastante tradicional e cheio de clichês. Os depoimentos de amigos, familiares, intelectuais são como em qualquer outro filme do gênero e estão ali com uma finalidade apenas: enaltecer o trabalho do protagonista. As interpretações gráficas (desenhos, vídeo arte) das músicas do compositor são pouco criativas e não demonstram, nem de longe, o que se sente ao ouvir uma peça de Santoro. As narrações em off se prolongam ao longo do filme, o que incomoda o espectador, à medida que o longa perde o ritmo criado. O único trunfo do filme são as apresentações das peças de Santoro (aquelas onde músicos, seja orquestra ou não, aparecem) que, ao menos, irão conquistar quem gosta das músicas compostas por Claudio.


Com curtas inteligentes e com fotografias e som excelentes, e com um longa confuso e com muito pouco a ser ressaltado, a noite de domingo foi bastante contraditória. Enquanto A Outra Margem traz uma história nada comum à maioria da população brasileira de forma inteligente, História de uma Pena revela algo que todos já conhecemos, mas com poesia, humor e sinceridade. Duas realidades diferentes, mas que se complementam. O longa da noite, entretanto, se dedica a homenagear Santoro e deixa de se preocupar com o resultado final como produto. A intenção em homenagear um homem tão importante é linda, mas de boas intenções o cinema está cheio (de filmes de baixa qualidade). 

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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

COBERTURA 48º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO

Com direção de Gustavo Spolidoro, Ana Rieper, Camilo Cavalcanti, Eduardo Goldenstein e Eduardo Nunes, o documentário em longa-metragem 5 Vezes Chico – O Velho e sua Gente foi o filme apresentado no quarto dia da Mostra Panorama Brasil (domingo, 20).



O Rio São Francisco é um dos rios mais importantes do Brasil, atravessando cinco estados, 521 municípios. Apresenta dois estirões navegáveis e, em seu curso, foram construídas seis usinas hidrelétricas, o que confere ao rio uma importância econômica e social imensa. Mas não é só isso que torna o Rio São Francisco um dos cursos d’água mais importantes e impressionantes do Brasil. A diversidade natural e social encontradas por onde passam suas águas é inigualável. E é sobre essa diversidade de natureza e de gente que o longa 5 Vezes Chico – O Velho e sua Gente trata.
Cinco diretores foram escolhidos para dirigir o filme e falar sobre as realidades de cada estado por onde o rio passa. Cada um deles com uma trajetória notável no cinema brasileiro e com estilos muito diferentes. Representando Minas Gerais, foi escolhido Gustavo Spolidoro, que filmou a nascente do rio e focou seu trabalho em dois pescadores, Moranga e Carlúcio, que contam as típicas histórias de pescadores como se fossem fatos incontestáveis e arrancam risadas do público a todo instante. Ann Rieper representa o segundo estado, a Bahia. O foco da diretora é a religião, a fé depositada sobre o Velho Chico pelo povo baiano, revelando as várias religiões que formam aquele estado. Os personagens são um artista que esculpe santos e orixás, uma mulher de 71 anos que preza pelo amor, e aqueles que pedem e prometem a Bom Jesus da Lapa.
O estado do Pernambuco tem Camilo Cavalcanti como o diretor que apresenta ao espectador Nilson, Dona Maria e seus filhos, uma família que vive daquilo que o rio São Francisco lhes oferece. Uma família que representa a grande maioria do povo ribeirinho. Eduardo Goldenstein homenageia o estado do Segipe com a história de um homem que revive a passado cangaceiro e leva o espectador até o local onde Lampião, Maria Bonita e o bando foi dizimado, lembrando que o a cultura de um povo é o que o mantem vivo. Eduardo Nunes, por fim, traz um desfecho emocionante onde apresenta a foz do rio no Oceano Atlântico, ressaltando que depois dali o rio se transforma em mar, uma imensidão desconhecida.


Izabella Faya foi quem idealizou e produziu este longa. Segundo ela mesma, a ideia surgiu a partir de uma conversa onde ela se deu conta do número de histórias que o Velho Chico guarda. Nesse contexto, o filme apresenta exatamente esses dois lados: o velho, o rio, a natureza de um lado, e sua gente, a população ribeirinha do outro. Em momentos de contemplação do rio e de sua natureza, o espectador é levado a imaginar quantas histórias já aconteceram nas margens do rio e por tudo o que aquelas águas correntes já passaram. Por outro lado, estão os depoimentos de um povo que depende do rio São Francisco, de tudo o que ele oferece ou tira de cada cidadão. Os depoimentos são de pessoas simples que passaram a vida naquelas margens, e revelam a importância do rio para essa gente, à medida que até o grande Velho Chico é pouco para tantos causos.
Como documentário filmado com muitas cenas externas, 5 Vezes Chico possui uma fotografia iluminada por luz natural incrível. Planos que acompanham o curso das águas, alguns realizados dentro do próprio rio, e outros feitos para que o espectador tenha a sensação de que o rio observa todos à sua volta dão mais beleza e deixam o longa ainda mais interessante e intimista. Mesmo que o documentário não possua grandes novidades estéticas ou narrativas, 5 Vezes Chico – O Velho e sua Gente cumpre sua missão em homenagear o rio e as mais de 16 milhões de pessoas que vivem perto dele de forma sincera e tocante.


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COBERTURA 48º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO

Uma das sessões mais esperadas do Festival ocorreu ne noite de sábado (19) e contou com a apresentação dos filmes Quintal, de André Novais Oliveira, Afonso é uma Brazza, de Naji Sidki e James Gama, e Big Jato, de Claudio Assis.



No ano passado, André Novais Oliveira arrebatou público e crítica com seu Ela Volta Na Quinta, longa híbrido (“meio documentário, meio ficção”) que aborda o cotidiano de seus pais, que protagonizam o filme. Em Quintal, voltamos a ver o cotidiano dos pais do cineasta, mas, dessa vez, eles estão sozinhos em casa e a trama é abordada permeando o fantástico. O vento em velocidade absurda que tira os pés da mãe de André do chão e o buraco negro que se forma do lado de fora da casa representam, de forma cômico e muito agradável, como o cotidiano de pessoas idosas pode ser imprevisível. Os efeitos especiais nos dois casos são bastante realistas. As piadas feitas de forma natural no dia-a-dia tão um ritmo interessante ao filme. A fotografia do longa lembra bastante o gênero de documentário, com planos fixos e poucos cortes em uma mesma cena.


Afonso Brazza foi um cineasta, ator e produtor que realizou seis longas durante uma breve carreira. Seu amor e dedicação pelo cinema são revelados no documentário Afonso é uma Brazza. O curta-metragem se baseia em imagens captadas nos bastidores dos filmes realizados por Afonso e mistura comentários do diretor e de pessoas que trabalhavam com ele, com as filmagens dos longas de Afonso. Além disso, o filme apresenta a vida pessoal do cineasta, falando sobre a esposa que tanto amava, Claudete Joubert, a família, o medo da morte, as dificuldades financeiras, os sonhos ainda não realizados. De forma simples, mas divertida, o filme faz uma homenagem sem grandes momentos para cineasta. Ou melhor, o média faz uma homenagem para um cinema brasileiro difícil de ser realizado, mas que só existe por figuras como Afonso Brazza.


O filme mais aguardado do Festival, Big Jato conta a história de Xico, um adolescente que vive em uma pequena cidade do sertão pernambucano e sonha em ser poeta. Antes de pensar em seguir sua vida sozinho, Xico ajuda o pai, que trabalha em um caminhão que limpa as fossas das casas alheias. O longa é baseado em uma história criada pelo escritor Xico Sá e tem um roteiro diferente dos demais filmes de Claudio Assis, é mais tradicional, com amarras mais nítidas. O mesmo se pode dizer sobre a fotografia, que, apesar de bem feita, não tem muitas novidades e acaba sempre caindo em planos muito clichês. Um dos pontos interessantes é a iluminação natural do sertão nas cenas externas. Apesar de ter uma trilha sonora inteligente e som ambiente bastante característico, a mixagem de som peca e apresenta um trabalho com camadas de som que se misturam e confundem o espectador. Por fim, as interpretações do longa, em sua maioria, são bastante caricatas e um pouco fracas, o próprio Matheus Nachtergaele, excelente nos demais longas de Claudio, não consegue separar os dois personagens que encara em Big Jato (o pai de Xico e seu irmão gêmeo).
Como de costume, antes de a sessão começar, os filmes e suas equipes foram apresentadas. Quando chegou a vez de a equipe do longa Big Jato subir ao palco, entretanto, Claudio Assis foi recebido com vaias. Com palavras como “machista” e “machista não passará”, a voz do cineasta foi sufocada e ele teve que passar o microfone para r Nachtergaele. Em uma segunda tentativa, a voz de Claudio foi novamente abafada e ele não pôde terminar seu discurso. Era a estreia do filme do cineasta. As vaias não foram para o longa, e sim para o diretor. A repressão à voz de Claudio foi uma reação das mulheres de Brasília pelas atitudes que o pernambucano vem apresentando nos últimos anos e teve como faísca comentários feitos por ele frente ao novo longa de Anna Muylaert, Que Horas Ela Volta?. No Pernambuco, Claudio Assis e Lírio Ferreira passaram dos limites e ofenderam Anna e a protagonista do longa, Regina Casé. No final da sessão de Big Jato em Brasília, o filme acabou sendo ovacionado. Vale ressaltar, entretanto, que quem foi vaiado, foi Claudio, e quem foi aplaudido, foi o conjunto do longa.



Durante a apresentação dos curtas, os espectadores riram muito e se deliciaram com ambas as histórias, contadas com muito humor e naturalidade. Quintal é um filme que resulta de uma história simples, despretensiosa, mas não por isso menos interessante que qualquer outra. Afonso é uma Brazza é um curta também cheio de simplicidade, mas que revela a história de um homem surpreendente. Big Jato, por outro lado, é um filme com uma história modesta, mas que, na tentativa de contá-la de forma original, cai em um número absurdo de clichês. Com roteiro que permeia entre o cômico e o dramático, com algumas metáforas muito bem-vindas, Big Jato é um filme que conta uma história interessante, mas realizada de forma muito superficial e clássica demais, o que não convence. 

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domingo, 20 de setembro de 2015

COBERTURA 48º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO

Baseado na vida da psiquiatra Nise da Silveira, o longa Olhar de Nise, de Jorge de Oliveira e Pedro Zoca, foi apresentado na Mostra Panorama Brasil, no dia 19 (sábado).



Nise da Silveira nasceu em uma família abastada de pais bastante liberais e que estimulavam as artes. Na juventude, formou-se em medicina com outros 156 colegas, todos homens. Desde sempre, mostrou-se uma grande profissional e uma mulher muito ligada às artes. Foi presa política durante o governo de Getúlio Vargas na sala 4 da chamada praça vermelha. Depois de liberta, voltou a trabalhar em hospitais psiquiátricos. Negando-se a fazer parte dos tratamentos de choque, Nise desenvolveu a terapia ocupacional e chegou a chamar a atenção de Carl Jung, um de seus mentores. O trabalho artístico desenvolvido com os doentes foi seu grande orgulho até sua morte.
No quadro atual, o cinema e a sociedade brasileira passam por mudanças muito grandes em relação à participação da mulher. Discussões têm sido levantadas diariamente em todos os cantos desse país. Falar sobre Nise da Silveira numa época como essa é essencial. Enquanto alguns teóricos defendem que apenas Freud, Jung e Nise entenderam os psicopatas, outros sequer citam a psiquiatra. O que Jorge e Pedro fazem em Olhar de Nise é trazer de volta à memória do povo brasileiro quem foi Nise da Silveira, uma das mulheres mais importantes da história brasileira do século passado. Uma mulher que lutou contra o sistema ao estudar medicina, ao morar com um homem sem serem casados, ao enfrentar o governo repressor, ao questionar a terapia de choque, ao conseguir o patrocínio para ir à Europa e se encontrar com Jung. Uma mulher que dedicou sua vida à inclusão social, de si mesma e de seus pacientes.


Para contar essa história sublime, os diretores usam três tipos de filmagem: depoimentos atuais de pessoas que conviveram ou que estudaram Nise, um depoimento da própria Nise datado em 1997 e cenas que recriam passagens da vida da psiquiatra. Naqueles depoimentos, a câmera está fixa e enquadra muito bem quem está falando (artistas, amigos, intelectuais). No depoimento de Nise, a câmera está posicionada à frente da psiquiatra, como de costume, mas se torna um depoimento mais natural à medida que o gato de Nise está sentado em seu colo e é algo gravado, aparentemente, na casa da própria Nise. Nas cenas recriadas, por fim, a fotografia em sépia lembra que são coisas do passado e tudo é filmado de forma simples e muito direta. Cenas extras do Instituto Nise da Silveira, com planos muito próximos dos doentes, dão um tom muito especial ao filme.
Um dos focos do documentário são as relações de Nise com a classe artística do Brasil durante toda sua vida, como: Manoel Bandeira, Otávio e Bárbara Brandão, Graciliano Ramos (com quem passou um tempo presa). Aliando-se a isso a educação artística que recebeu dos pais, Nise sempre foi muito envolvida com poesia, pintura, teatro e música. No contexto da terapia ocupacional, um dos grandes depoimentos é o do artista gráfico e pintor Almir Mavignier, que fala sobre como os trabalhos de Nise revelaram artistas de potencial na pintura. Mavignier fala sobre eles e sobre como a sensibilidade de Nise e a força de vontade dela estimulavam os artistas. Em paralelo, imagens dos pacientes e de suas obras são mostradas.
Olhar de Nise é um documentário bastante tradicional que acerta ao misturar vários tipos de imagens com diferentes posicionamentos de câmera e diferentes fotografias para que o espectador possa se concentrar mais no que se fala sobre a protagonista. O início do filme possui uma narrativa um pouco cansativa, mas que só está ali para situar a história e acaba sumindo com o tempo. As alternâncias entre depoimentos feitos hoje, o depoimento de Nise há 18 anos, as cenas recriadas, fotografias e outros documentos criam um ritmo agradável que não deixa o filme se tornar cansativo. O que fica, do longa, é a homenagem tocante feita para Nise da Silveira, uma mulher muito além do seu tempo que viveu para ajudar a medicina a encontrar caminhos mais inteligentes para o tratamento dos doentes mentais. O que fica são os aplausos no final da sessão, que já nem sei mais se eram para o filme, ou para Nise, a emoção causada pelo longa, a forma como ele toca o espectador, que, sem dúvida, sairá pensativo da sala de cinema. 


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sábado, 19 de setembro de 2015

COBERTURA 48º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO

Na noite de sexta-feira (18), a Mostra Competitiva de Filmes em curta, média ou longa metragem apresentou três filmes bastante distintos: Cidade Nova, de Diego Hoefel, Copyleft, de Rodrigo Carneiro, e Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba.



Um jovem volta à região de sua cidade natal no interior do Ceará. A cidade, agora, está embaixo d’água, apenas com parte dos postes para fora da água. Ao lado do local, uma nova cidade foi erguida e é onde o rapaz terá de enfrentar passado, presente e futuro. Cidade Nova tem uma fotografia espetacular que ganha o espectador logo no primeiro plano do filme, onde o protagonista e outro jovem observam a “cidade velha”, agora submersa. O diálogo carregado de nostalgia e humor negro deixa o espectador bastante curioso com o restante do filme. Apesar de a fotografia e a mixagem de som permanecerem ótimas, o enredo envolve pouco o espectador à medida que não há tempo para desenvolver o personagem e suas relações, e o que sobra é um homem perdido, sem rumo. A história e os questionamentos do jovem poderiam ser melhor desenvolvidos.


Com uma proposta corajosa e bastante ousada, Copyleft conta a história de um jovem homossexual que tem medo de ser quem é e acaba tentando a “cura” em um gel para a masculinidade.  Outro filme com fotografia interessante, que prioriza os tons pasteis e planos fixos, e com mixagem de som de qualidade, o filme ainda conta com animações curiosas e uma montagem que mistura a história de Pedro, o protagonista, com divagações interessantes sobre a homofobia e suas consequências. A interpretação do protagonista, por vezes é bastante exagerada e, mesmo que seja intencional para chamar mais a atenção para a causa, incomoda. Apesar do fato de que falar sobre a homofobia e suas consequências seja uma urgência, o filme exagera um pouco e, em alguns momentos, cai no erro de defender, sobretudo, homens homossexuais, travestis e mulheres transexuais e esquece de incluir as mulheres homossexuais ou homens transexuais no discurso.


Para a Minha Amada Morta conta a história de um homem, pai de um garotinho, que fica viúvo da mulher que amava. Assistindo a algumas fitas VHS que a esposa guardava no escritório onde trabalhava, descobre que ela mantinha um caso extraconjugal com outro homem. Desesperado, ele decide ir atrás do amante e de sua família. O enredo do longa da noite não é algo muito novo para nenhum espectador ligado, especialmente, em filmes americanos do gênero. A forma como Aly Muritiba conta esta história, entretanto, é incrível. Com uma fotografia que lembra bastante as séries americanas que estão em alta no momento e que são um novo conceito apropriado pela televisão brasileira e pelo cinema mundial, o filme conta com planos longos (alguns com vários minutos de duração) com grande carga dramática, onde os atores revelam todo seu potencial sem que os cortes quebrem a grandiosidade de suas interpretações e da direção de Muritiba.
Além da imagem proporcionada pela câmera, pelos atores e pela mise èn scene conduzida por Aly Muritiba ser excelente, o filme possui qualidade sonora impecável. Segundo o próprio diretor, o design de som foi realizado por um amigo músico que está com ele desde seu primeiro filme. A edição e a mixagem de som também não fogem dessa qualidade técnica que pode ser conferida na grande maioria dos trabalhos do cineasta. Tudo isso, aliado a uma trilha sonora impactante e que não se sobressai em momento algum, cria uma tensão e uma expectativa sobre cada cena e sobre as cenas que virão após aquela. E, sem dúvida, o elenco, protagonizado por Fernando Alves Pinto (uma das melhores atuações do ano no cinema), Mayana Neiva e Lourinelson Vladmir, contribui com suas interpretações realistas e que também se mantem em um nível sempre muito equilibrado. Com tamanha qualidade técnica, o que será revela no desfecho do longa, sem dúvidas, é o grande trunfo para prender o espectador, mas não é o único.



Diferente das noites anteriores do Festival, onde os filmes selecionados tinham histórias inteligentes que tinham crianças como pontos de vistas (na quarta-feira) e filmes que incomodavam o espectador de diferentes formas (na quinta-feira), os filmes apresentados no terceiro dia da Mostra Competitiva de filmes do Festival possuem em comum uma fotografia exuberante e uma qualidade sonora inquestionáveis. Cada um deles aborda temas muito diferentes, apesar de os três terem homens confusos e cheios de questionamentos sobre a vida como centro das histórias. Com reações diversas do público e bastante expressivas, especialmente em relação aos dois últimos filmes, a quarta noite do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro mostrou que o evento ainda tem muito o que surpreender. 
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COBERTURA 48º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO

A tarde do quarto dia do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, sexta-feira (18), começou com uma master classe de Marcos Bernstein, roteirista de Central do Brasil, e se seguiu com as Mostras Brasília e Panorama. Nesta, foi apresentado o longa Através, de André Michilis, Diogo Martins e Fábio Bardella.



Mulher. Negra. Cubana. Cintia vive em Havana e pensa em sair do país, visto que Raul Castro revogou a lei da “carta branca” que obrigava os cubanos a pedirem autorização para viajarem ao exterior. Antes de decidir se sai de Cuba ou não, a jovem viaja pelo país para visitar os avós. No meio do caminho, Cintia encontra diferentes, pessoas, culturas, sonhos, desafios, medos e, mais uma vez, incertezas.
Filmado com uma equipe de guerrilha – os três diretores/roteiristas/fotógrafos/montadores, a atriz e um produtor/ator andavam em um carro por Cuba realizando o filme – o longa quebra com os padrões que o cinema acostumou o espectador. Logo de início isso já pode ser visto: dois planos longos com personagens entrando e saindo deles e sem se preocupar em enquadrar os rostos dos mesmos. Depois a cidade é apresentada e uma banda sonora é colocada no extremo lado direito de um plano cheio de linhas que convergem diretamente para a banda. Por vezes, o filme lembra um documentário, à medida que acompanha Cintia de forma leve e um pouco distante da personagem. Cenas mais próximas, onde Cintia nunca se dirige ao espectador diretamente, entretanto, lembram que o filme é uma ficção. Outra característica interessante proposta pelo longa é a apresentação dos diferentes locais por onde Cintia passa com planos fixos de prédios das cidades e panorâmicas, valorizando e caracterizando os locais por sua arquitetura.


Através é uma ficção, sem dúvidas, mas que faz referências a inúmeras vidas reais. E não podia ter sido lançado em momento mais oportuno, levando em consideração a situação dos imigrantes na Europa, e por que não dizer, dos imigrantes que chegam ao Brasil vindos de outros países da América Latina. Como eles, Cintia está viajando para encontrar uma melhor condição. A insegurança da jovem em sair de Cuba é a maior semelhança dela com outros imigrantes. Além disso, é essencial compreender a importância da viagem para o ser humano se redescobrir. Como Ingmar Bergman fez em inúmeros de seus filmes, como Juventude, Morangos Silvestres, O Silêncio e Persona, Walter Salles fez com Central do Brasil, e Sean Penn em Na Natureza Selvagem, o trio de diretores faz em Através. Cintia passa a questionar suas atitudes, suas decisões, opta por conhecer e se envolver com pessoas diferentes, enfrenta situações nunca imaginadas e tenta descobrir o que realmente deseja.


Cinthia Rodríguez, intérprete de Cintia, é a grande responsável por mostrar, de forma sutil e muito agradável tudo o que se passa na mente da protagonista. Sem grandes momentos de reflexões ou desabafos, são as expressões corporais e faciais da atriz que denotam o que a jovem vive. Além de expressões, Cinthia tem uma presença corporal e espiritual fantástica. As relações construídas pela atriz com o restante do elenco (em sua maioria, moradores de Cuba, ditos não atores) parecem acontecer com muita naturalidade. A cada indivíduo que ela encontra (seja em um trem ou ônibus, alguém que se proponha a ajudar a jovem, ou parentes e amigos próximos que ela conhece de longa data) se torna visível, desde o primeiro minuto, que há a construção de uma relação. A Cintia apresentada é uma jovem cativante, sincera, espontânea, mas também, como qualquer outra jovem, é confusa, insegura e insiste em procurar respostas.   



Como em qualquer filme daqueles citados acima sobre a importância da viagem para a redescoberta humana, não interessa o desfecho do longa. Como não interessa saber se Isak Borg voltará vivo para sua casa, não interessa saber se Cintia ficará em Cuba ou sairá de lá. O que mais interessa em Através, é o percurso, as situações pelas quais a personagem passa, as pessoas que conhece, o que ela vive nesse caminho sempre muito difícil. Mais importante ainda, é reconhecer que André, Diogo e Fábio contam essa história muito comum e vivenciada por milhares de pessoas no mundo todo de forma original, inteligente e agradável para se ver e ouvir, especialmente na telona.

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