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quarta-feira, 25 de junho de 2014

005. ... E O VENTO LEVOU, de Victor Fleming

David O. Selznick, Victor Fleming, Sidney Howard, Max Steiner, William Cameron Menzies, Ernest Haller, Hal C. Kern, Vivien Leigh, Clark Gable e um elenco assombroso trazem um dos maiores e mais inesquecíveis clássicos do cinema. Somente vendo para compreender sua grandiosidade.
Nota: 9,8


Título Original: Gone With the Wind
Direção: Victor Fleming. Não creditados: George Cukor e Sam Wood
Elenco: Vivian Leigh, Clark Gable, Leslie Howard, Ollivia de Havilland, Hattie McDaniel, Butterfly McQueen, Evelyn Keyes, Ann Rutherford, Barbara O’Neill, Oscar Polk, Everett Brown, Rand Brooks, Harry Davenport, Leona Roberts, Jane Darwell, Ona Munson, Isabel Jewell, Jackie Maron, Mickey Kuhn, Cammie King Conlon
Produção: David O. Selznick
Roteiro: Sidney Howard e Margaret Mitchell (romance). Não creditados: Oliver H. P. Garrett, Bem Hecht, Jo Swerling e John Van Druten
Ano: 1939
Duração: 238 min.
Gênero: Drama
CONFIRA O TRAILER DO FILME:

Scarlett O’Hara vive em Tara, uma fazenda localizada no estado da Georgia, ao sul dos Estados Unidos. É uma moça bela, rica, esperta, orgulhosa, prepotente e desafiadora. Quando descobre que o homem que “ama” e com quem pretendia se casar, Ashley, está noivo de outra jovem, Malanie, Scarlett se casa com o irmão de Melanie. Entretanto, a Guerra da Secessão leva seu marido embora e Scarlett acaba por se tornar uma viúva que passa a viver em Atlanta, ao lado de Melanie, que espera ansiosa a volta de Ashley da Guerra. Em meio a isso tudo, Scarlett se reencontra com Rhett Butler, um homem mais velho e de péssima reputação que, certa vez, presenciou uma cena humilhante em que a bela se declarou para Ashley, que a ignorou e confirmou sua paixão por Melanie. Devido a Guerra, Scarlett resolve deixar Atlanta, como todos os habitantes da cidade, e voltar à Tara. Todavia, verá que sua terra não é mais a mesma, que sua família não é mais a mesma, que ela não é mais a mesma e que, provavelmente, o único homem com o qual poderá contar é Rhett Butler.


No primeiro semestre de 1936, David O. Selznick começou a idealizar a criação de “... E O Vento Levou”. No final de julho daquele mesmo ano, o produtor, após travar uma luta com outros dois estúdios, convenceu Margaret Mitchell, autora do livro homônimo, a vender os direitos de sua obra. Outras grandes produtoras, como a Universal e a Warner Bros. já haviam se recusado a investir no livro. O filme, entretanto, custaria uma fortuna (a quantia era o que o conselho da Selznick International Pictures pretendia gastar com todos os filmes de um ano). Para dirigir o longa, Selznick estava convencido de que o único capacitado era George Cukor, e, para roteirizar o longa, foi escolhido Sidney Howard, que enviou o primeiro roteiro em agosto de 1937 (repleto de falhas, foi revisado, refeito e, finamente, usado). Além deles, para trazer toda a realidade estética que o livro denotava, foi escolhido William Cameron Menzies como diretor técnico de produção. Para o protagonista, Rhett, Selznick teve Clark Gable em mente desde o início. Após alguns nãos e tentativas frustradas de encontrar outro ator, Gable finalmente foi convencido e cedido pela MGM para viver o personagem (o sogro de Selznick era um dos sócios do estúdio). Definiu-se, portanto, que as filmagens começariam em janeiro de 1939. Havia um porém apenas: quem seria Scalatte? Durante o ano de 1938, centenas de atrizes foram entrevistas e 400 chegaram a fazer testes de câmera com Cukor. Dentre tantas estrelas famosas, Paulette Goddard, namorada de Charles Chaplin, e Joan Bennett se tornaram as favoritas. Enquanto o estúdio se decidia entre a protagonista, ainda foi escalado Leslie Howard, que aceitou viver Ashley apenas para produzir “Intermezzo, uma História de Amor” (1939). Após recusar Goddard (ela e Chaplin não haviam oficializado a relação, o que poderia gerar um escândalo), a desconhecida Vivien Leigh foi escolhida.


Mas a escolha dos atores não seria o único problema que a produção enfrentaria dali para frente. Cukor não se acertou com Gable e Leigh detestava o mau hálito do companheiro de cena. E mais: após filmagens e mais filmagens, parecia que nada saia do lugar. Na metade de fevereiro de 1939, George Cukor deixou a produção. Selznick, assim, chamou Victor Flemming, que ainda estava enroscado com “O Mágico de Oz” (1939). Quando o diretor leu o roteiro se escandalizou, chamando-o de “uma porcaria”. Bem Hecht, então, foi chamado para a revisão. Alicerçado pelo roteiro de Howard, Hecht refez o que podia durante dias e noites a fio e apresentou sua obra prima. Em março, finalmente, “...E O Vento Levou” voltou a ser rodado. Mas os problemas não acabaram por aí, eles apenas aumentavam e aumentavam. Selzinck trabalhava dia e noite e ainda tinha mais dois projetos (“Intermezzo” e “Rebecca, a Mulher Inesquecível”, primeiro filme de Alfred Hitchcock em Hollywood), Vivien Leigh e Clark Gable tinham constantes ataques de fúria, Sidney Howard teve de ser chamado novamente para ajudar com o roteiro e Victor Fleming abandonou o projeto durante duas semanas. Quando voltou, haviam cinco equipes ajudando nas filmagens para que o longa fosse entregue no prazo. A última cena foi rodada no final de junho daquele ano. Mas a obra ainda não estava pronta: a trilha sonora de Max Steiner (uma das melhores, mais expressivas, cativantes e grudentas trilhas de todos os tempos – o Tema de Tara arrepia cada vez que é escutado) estava atrasada, o material deveria ser editado, havia mais tempo de filme do que o planejado e a tensão entre todos os envolvidos continuava crescendo. Finalmente, em 15 de dezembro de 1939, em Atlanta, Georgia, “...E O Vento Levou” teve sua história estreia, com três dias de festa e com direito a um baile para 3 mil convidados. Estava consagrada a lenda.


Sem dúvida alguma, “...E O Vento Levou”, além de ser a maior bilheteria da história do cinema (se atualizarmos os valores), é um dos filmes de maior impacto já feitos pela Sétima Arte. Mas não é apenas esse fato que o torna um dos maiores clássicos da história do cinema, se não o maior. Desde o início do longa, com as grandes letras do título, até a dramatização acerca do desfecho, o filme possui inúmeros momentos memoráveis. O primeiro a ser filmado, por exemplo, foi o incêndio (exagerado) da munição dos sulistas para que os nortistas não tirassem proveito de suas armas. Toda aquela grandiosidade foi acompanhada por bombeiros e assistentes prontos para qualquer imprevisto, cenários de grandes filmes do cinema foram queimados para conferir realidade à cena e até o cavalo teve que ser maquiado por estar gordo demais. Isso tudo, sem falar na fotografia histórica da cena e que acompanhou o resto da produção: de forma maravilhosa, sobrepunha-se o fogo alaranjado ao fundo, com as figuras escuras que deveriam ser os personagens.


E esse recurso seria utilizado outras inúmeras vezes antes e depois daquela cena. O uso das sombras para expressar o interior dos personagens e a assombração gerada por uma guerra são usadas para substituir os corpos de Scarlett e Melanie enquanto ambas estão cuidando dos feridos em Atlanta. Por um momento, a sombra de Melanie nos faz lembrar Virgem Maria, o que denota toda a pureza, simplicidade, honestidade e bom caráter de Melanie, palavras que, facilmente, poderiam definir com exatidão o perfil da personagem. Mais tarde, faz-se um contraste entre as sombras e o sol avermelhado, tanto na clássica cena em Tara onde Scarlett jura amor por sua terra, quanto em Atlanta enquanto Scarlett e a escrava fazem o parto de Melanie, ou na imagem do cavalo puxando a carroça que leva Scarlett, Melanie, o bebe e a escrava para Tara. Quando Rhett abandona Scarlett, Malanie, o bebe e a escrava no meio de uma estrada, o fundo alaranjado se contrapondo com a imagem dos personagens (não apenas sua silhueta ou sombra) ele se alia às expressões, à sujeira, às roupas rasgadas e até mesmo ao suor evidente, trazendo mais drama a uma cena que poderia ser repleta de defeitos, mas que se torna perfeita. Outra cena inovadora e inesquecível é quando Scarlette obrigada a ficar em Atlanta para cuidar de Melanie, que está grávida, precisa chamar o médico e, para tanto, precisa ir até à estação onde centenas de feridos estão entre a vida e a morte. Nunca uma cena panorâmica havia sido filmada como aquela.


A grandiosidade das residências dos personagens (Tara, Twelve Oaks, a mansão de Scarlett e Rhett) foram componentes que influenciaram outros autores a criarem ambientes semelhantes. O mais conhecido, provavelmente, seja o que Orson Welles realizou em seu clássico supremo, “Cidadão Kane” (1941). Xanadu, a residência do protagonista, possui tanta beleza estética quando qualquer uma das casas da Gerogia. As escadarias, lareiras ornamentais, o pé direito excessivamente alto e as grandes e pesadas portas de madeira são vistas novamente no longa de Welles. Aliás, podemos fazer referências ao que se diz respeito, inclusive, a como os personagens e os espaços em que vivem são influenciados uns pelos outros nos dois filmes. Quando Scarlett volta à Tara, por exemplo, passa por Twelve Oaks e vê as escadarias onde, outrora, almejou casar-se com Ashley. Agora, tudo em volta está destruído, apenas restam as escadas. E, assim, acontece com a protagonista: tudo a sua volta está destruído, ela está cansada, suja, com as roupas esfarrapadas.  Kane, do filme de Welles, também está passando por um momento terrível quando o vemos pela primeira vez no longa (está em seu leito de morte). Entretanto, uma coisa ainda vive para esses dois personagens: seu orgulho, sua vaidade, sua arrogância e sua prepotência.


Quando Margaret Mitchell escreveu “... E O Vento Levou”, criou uma história para ser amada pelo povo americano. Assim, a protagonista representa todos e nenhum dos americanos. Scarlett, como os EUA, país que viria a se tornar a maior potência do mundo anos depois do lançamento do filme, possui momentos de glória e paz interior, amadurece durante uma etapa, sofre com guerras e disputas, vê sua vida desabar ao seu redor, tem que trabalhar de forma dura para ganhar dinheiro e sustentar sua família, faz coisas nada dignas para que não tenha de voltar à estaca zero (como casar com o noivo da irmã para pagar as dívidas de Tara), cai e volta a se reerguer, dá a volta por cima como poucas pessoas conseguiriam fazer e, em um desfecho magnífico, prova que, depois de perder tudo o que perdeu (isso depois de conquistar tudo o que uma mulher poderia sonhar), não desistirá de seguir em frente, voltará às suas origens e buscará pela felicidade. Mitchell, assim sendo, materializou a força e determinação americana em uma personagem histórica. Adaptar a vida de Scarlett, portanto, não era um trabalho fácil (como foi provado pelo número de vezes que o roteiro teve de ser revisado), mas, no final das contas, o grupo de pessoas que se envolveu para finalizar o roteiro, acertou de forma inacreditável.


As transformações na vida de Scarllatt acontecem com as transformações da sociedade em que ela vive. Tudo é lindo, verde e belo enquanto é uma menina mimada morando em Tara, o local mais pacifico e próspero que podemos imaginar. Depois, casa-se e perde o marido, que estava na Guerra. Assim como a guerra tornou os EUA um local agressivo com batalhas em todos os lugares do leste do país, a vida de Scarlett passa a ser uma batalha travada por sua consciência e seu coração, enquanto isso, ela fica dividida entre ser uma mulher responsável e digna, que ajuda a os moribundos que vem da guerra, ou em voltar a ter uma vida tranquila. Chegando em Tara, Scarlett encontra com a destruição que assolou toda a região. Destruído está, também, o interior de cada membro da família da protagonista: sua mãe morreu, os empregados se foram, o pai está louco, a comida e o dinheiro foi roubado, as irmãs recuperam-se das doenças. Quando a guerra chega a seu fim, Scarlett começa a se tornar uma verdadeira mulher madura, que trabalha em Tara plantando algodão para poder sobreviver. Assim como Tara, o sul do país está mudado: a população daquela região volta faminta e destruída, enquanto os nortistas começam a adentrar o sul lentamente.


Ao longo do desenvolver da trama, vemos a cultura do sul dos Estados Unidos expressa pelos escravos e pelos patrões: de um lado, os negros, que possuíam crenças baseadas naquilo que seus antepassados (africanos) trouxeram de sua terra natal, crenças que geraram costumes e modos de viver. Vale lembrar, inclusive, que não vemos soldados rebeldes ou coisas do tipo, apesar de o norte lutar por sua liberdade, eles não expressam sua opinião. Do outro lado, a crença dos brancos, dos americanos que vieram da Europa, de onde trouxeram o cristianismo e, sobretudo, o catolicismo, o ideal religioso que reinava perante qualquer outro ideal. Através dessa religião, foi que os moldes da época foram moldados: a submissão feminina, as tradições nas grandes fazendas sulistas, as grandes festas que duravam um dia inteiro, a escravidão dos negros.


Entretanto, assim como a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais fizeram em uma escala global, a Guerra da Sucessão fez naquele país: dividiu boa parte de sua história. Assim sendo, os costumes e crenças começaram a mudar. Os escravos, nesse contexto, seriam libertos das grandes fazendas e começariam a se enquadrar na sociedade americana. Alguns se dirigiriam para o norte e outros permaneceriam no sul. A relação entre negros e brancos, no entanto, permaneceria como sendo uma relação difícil, pois os brancos guardariam resentimentos por terem sofrido tanto com uma guerra que parecia apenas querer a liberdade dos negros. Os negros, então teriam sua liberdade conquistada em todos os estados norte-americanos, os brancos sulistas, por outro lado, passariam por um momento muito complicado: os grandes senhores de terras não tinha máquinas, não tinhas estrutura (casas, celeiros, depósitos e plantações haviam sido destruídas com a guerra), não tinham escravos e não tinham renda suficiente para pagar os impostos.


Outro ponto forte da trama, são as controversas geradas por Scarlett e Rhett. Enquanto a protagonista se diz apaixonada, durante todo o longa, por Ashley, Rhett acaba se rendendo a beleza de Scarlett e confessa seu amor por ela. Após os dois primeiros casamentos, Scarlett, finalmente, se renderá a Rhett e eles se casarão. O problema é que se as pesquisas já provaram que opostos (humanos) não se atraem, Rhett e Scarlett provam que iguais também podem se repelir dependendo dos perfis observados. Em comum, Scarlett e Rhett são orgulhosos, donos da verdade, ambiciosos e cabeças duras. A diferença é que Rhett está disposto a mudar para encarar o casamento com a mulher que ama. Nesse contexto, podemos até entrar no papel do homem e da mulher naquela época: Rhett é um homem mais flexível e grande piadista, justamente por ser um homem ele pode ver o lado espirituoso de tudo com mais facilidade e sem preconceitos. Já Scarlett se esconde sobre uma máscara de mulher fútil e forte que não se importa com nada, apenas com ela mesma. Scarlett é, apenas, o que muitas mulheres passariam a ser no futuro: donas de seu próprio nariz que só pensam em elas mesmas (não por que querem, mas por que o sistema as força a serem assim). Claro que existem momentos de belos e de declarações de amor e Scarlett até irá assumir sua paixão por Rhett, mas, no fundo, Scalatte e Rhett são parecidos demais para estarem juntos em uma mesma casa, e nem uma mansão é capaz de aguentar tanto orgulho, tanta prepotência, tanta vaidade, tanta ambição, tanta falsidade. O exterior visto na telona, definitivamente, não define o interior dos personagens, isso, só pode ser apresentado pelas magníficas interpretações dos atores escolhidos a dedo.



Vivian Leigh, como apontei, foi escolhida entre centenas e mais centenas de mulheres loucas para viverem Sarlatte O’Hara. Sua personagem é, hoje, um dos maiores símbolos dos anos de ouro de Hollywood, e, por que não dizer um dos maiores ícones da história do cinema. E nem mesmo as origens da atriz (ela era inglesa) fizeram o povo criticar sua Scarlett. Leigh se eternizou por um feito pouco realizado nos dias de hoje: foi amada e odiada em um mesmo papel, mas, a cima de tudo, a Scarlett O’Hara da atriz vencedora do Oscar pelo papel foi compreendida, afinal, nenhuma mulher passa pelo que ela passou sem perder um pouco a dignidade. Nenhum país passa pelo que os EUA passaram sem perder um pouco a dignidade. Essa Scarlett é absurdamente deprimente, mas é digna de respeito por sua coragem em enfrentar os padrões da época. É uma mulher empreendedora perigosa e, ao mesmo tempo, é sexy e cheia de estilo. Scarlett, por fim, é uma verdadeira diva de cinema. Pena que nasceu um pouco adiantada. Outros atores até foram muito cotados para viver Rhett, por Clark Gable estava inclinado a declinar o convite se Selznick, mas não há como imaginarmos um ator melhor para viver a lenda que Rhett Butler se tornou. Nem mesmo se procurarmos em cada lista dos melhores atores da história do cinema. Gable traz um personagem cínico e extrovertido, um homem sedutor, um perfeito cafajeste e o melhor exemplo dentre os verdadeiros gentlemans. Suas feições tornam o personagem ora um bom homem, ora um homem agressivo, ora um bom marido, ora um marido raivoso. A forma como o ator transforma seu personagem durante os vários momentos do longa (quando se declara a Scarlett, quando está passando a lua de mel com a esposa, quando a filha do casal protagonista nasce, quando cansa de ser ignorado pela mulher que ama, quando decide se juntar aos soldados americanos) é de uma beleza indescritível. Somente essa verdadeira lenda do cinema para dar conta do recado


Leslie Howard e Olivia de Havilland (que está prestes a completar 100 anos em 2016), o casal Ashley e Melanie Wilkes, são simples e sabem que as verdadeiras estrelas do longa devem ser Leigh e Gable, mas não é por isso que deixam de apresentar grandes interpretações. Enquanto Howard é o perfeito homem que perdeu tudo e sofreu justamente por conta da guerra, de Havilland é a mulher de um homem que luta na guerra. Ambos são boas pessoas. Ambos são pessoas completamente diferentes de Scarlett e Rhett. Dentre os coadjuvante, não podemos, jamais de deixar de nos lembrarmos de duas personalidades negras da época: Butterfly McQueen, como a servente Prissy, e Hattie McDaniel, como a servente Mammy. Enquanto McQueen ganha destaque por interpretar uma escrava atrapalhada e que, evidentemente, possui muitos traumas que devem vir de sua infância, McDaniel sempre será lembrada como a eterna personificação da empregada doméstica. A “tia Anastácia” americana é representada como uma escrava preocupada com as filhas de seu patrão, pondo-se, até mesmo, no lugar da mãe das meninas, o que lhe concedeu o apelido: mammy. McDaniel foi a primeira atriz negra a vencer um Oscar (esse, de melhor atriz coadjuvante). Aquela grande atriz que não compareceu à grande estreia do próprio filme na Georgia (ainda existiam proibições aos negros), mas pode subir ao palco e agarrar aquele homenzinho dourado ser julgada ou apontada. Mas uma inovação inquestionável dessa produção incrível.



Este ano, mais precisamente em dezembro, “... E O Vento Levou” completará seus 75 anos desde sua estreia em Atlanta. 75 anos em que esteve na memória de cada homem e mulher que o assistiu, não apenas por ser um filme longo demais ou por ter uma protagonista que faz de uma cortina seu novo vestido, mas por que é um filme que marca por dezenas de coisas. Não há como deixar a história de lado depois de assistir ao filme, assim como não podemos deixar de fazer algumas conclusões: Scarlett, por exemplo, jamais passará fome (em qualquer sentido imaginável), Rhett, lá no fundo, nunca deu a mínima para nada, Mammy será sempre o estereótipo da escrava serviçal que obedece a patroa em qualquer situação, Melanie (e de Havilland) sempre será o perfeito retrato de uma mulher boa e digna. E Tara... Tara sempre será a preciosa terra onde Scarlett nasceu. Tara será, eternamente, o berço de muitas gerações de estadunidenses. Homens e mulheres que nasceram para amar seu país. Em uma representação inigualável, “... E O Vento Levou” é o retrato de qualquer homem ou mulher, o retrato de qualquer país no mundo, onde pessoas sorriem, choram, casam-se e divorciam-se, onde se acorda dia após dia para se enfrentar a vida como ela é, cheia de altos e baixos.


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domingo, 2 de março de 2014

011. (ESPECIAL OSCAR 2014) ALABAMA MONROE, de Felix Van Groeningen

A realidade deprimente de como a perda afeta negativamente o ser humano.
Nota: 9,7


Título Original: The Broken Circle Breakdown
Direção: Felix Van Groeningen
Elenco: Veerle Baetens, Johan Heldenbergh, Nell Cattrysse, Geert Van Rampelberg, Nils De Caster, Robbie Cleiren, Bert Huysentruyt, Jan Bijvoet, Sofie Sente, Ruth Beeckmans, Jan Hammenecker, Clanka Heirman, Kirsten Pieters, Yves Degryse, Dominique Van Malder, Marianne Loots, Sanderijin Helsen
Produção: Arnold Heslenfeld, Dirk Impens, Laurette Schillings, Frans van Gestel e Rudy Verzyck
Roteiro: Johan Heldenbergh (peça teatral), Mieke Dobbels (peça teatral), Carl Joos, Feliz Van Groeningen e Charlotte Vandermeersch
Ano: 2012
Duração: 111 min.
Gênero: Drama / Musical / Romance

Didier Bontinck é um músico country que alterna sua vida entre os palcos, a reforma do lugar onde vive e sua vida pessoal. Elise Vandevelde é uma tatuadora que divide seu tempo entre seu estúdio e sua vida pessoal. Quando Didier entrou no estúdio de Elise, alegando que nada na vida valia tanto para ser tatuado e fazendo outras piadas para conquistá-la, nenhum dos dois imaginava que estavam encontrando os parceiros de suas vidas. Rapidamente, ambos se entregam ao novo amor, Elise engravida, os dois casam e deixam a vida traçar o caminho da felicidade. Entretanto, o mundo desaba quando descobrem que a filha, que acaba de completar seis anos de idade, está com câncer.


Sem mais delongas, já aviso: Maybelle, a filha do casal, morrerá antes dos primeiros quarenta minutos de filme. E revelar isso não é estragar o prazer de assistir a esse longa. Aqui, o interessante é ver como os personagens reagem antes, durante e após a morte da menina. Esse filme, faz um apanhado sobre uma família que vai do paraíso ao inferno em sete anos. A princípio, Didier e Elise vivem uma vida feliz. O início do relacionamento é cheio de risadas, sexo e novas experiências. Os dois estão começando a se descobrir e isso é o que deixa a vida tão animada e divertida. As discussões são praticamente inexistentes e tudo são flores. Elise, que antes trabalhava apenas com o estúdio, até começa a cantar junto com o grupo composto apenas por homens com o qual  Didier canta. E os homens e ela fazem muito sucesso juntos, o que contribui ainda mais para que eles vivam nessa felicidade constante. Quando Elise descobre a gravidez, a primeira reação de Didier é pegar a chave do carro e deixar a namorada sozinha. Após algumas horas ele já está acostumado com a ideia e a felicidade do casal se completa quando a pequena Maybelle nasce. Tudo continua maravilhoso, como os dois tem o privilégio de passar um bom tempo em casa, assistem ao crescimento da menina de perto. E a menina tem o privilégio de ter esse exemplo de casal em casa para também ser feliz. A descoberta da doença é o início da catástrofe para a família. Dali por diante, tudo apenas piora. Claro que existem momentos, como quando o médico fala sobre o transplante de medula óssea, que uma chama de esperança reascende na casa dos Vandevelde Bontinck. Mas isso tudo é muito passageiro. Maybelle morre e os pais, obviamente, entram em um processo de depressão muito difícil de sair. E o interessante é que o que ocorre com um é o contrário do que ocorre com o outro. Enquanto Elise está sempre descontrolada sobrando alguns momentos de sobriedade, Didier tenta permanecer calmo e sereno, estourando em alguns momentos realmente tocantes. E para piorar, eles já estão juntos há sete anos e o casamento já não é mais aquela paixão louca dos primeiros encontros.


Veerle Baetens, vencedora do Prêmio de Filmes Europeus como melhor atriz, é sexy, deprimente e verdadeiramente humana vivendo Elise. Durante o longa, verificamos várias mudanças de humor da personagem que são apresentadas de forma magnífica por Baetens. Podemos até dividir o filme em três fases: o antes, o durante e o depois da vida de Maybelle. A Elise apresentada por Baetens antes do nascimento da filha é uma mulher sensual que deixaria qualquer homem louco, as tatuagens que a personagem já fez demonstram o quanto vive intensamente cada momento. Depois do nascimento de Maybelle, a mulher passa a ser uma mãe mais séria, ainda tem desejos e não os esconde, mas passou a viver pela filha e a ter mais cuidados. Após a morte da menina é que Baetens torna sua interpretação um assombro, trazendo toda a dor e a angústia que somente alguém que já passou por isso poderia compreender. Durante essa temporada de premiação e assistindo aos indicados aos Oscar, diversos atores me chamaram a atenção em como estavam sendo injustiçados por não estarem entre os indicados. Em um ano com tantas atuações masculinas imponentes, entretanto, as mulheres perderam um pouco de espaço. Se tivesse de escolher mais uma atriz para concorrer no Oscar, sem dúvida, seria Veerle Baetens, e, em meu mundo, ela seria uma grande concorrência para Cate Blanchett. Aliás, as atrizes até tem algumas semelhanças em suas personagens, pois ambas tiveram seus mundo demolidos e estão passando por sérios problemas psicológicos por conta disso.


Dividindo a tela com Veerle Baetens, o igualmente competente Johan Heldenbergh. O Didier criado por ele é um homem independente, um pouco bruto e muito reservado, mas também é um homem decidido, romântico e que conquista as mulheres com a voz e o olhar. O fato de o personagem estar menos alterado após a morte da filha por suas crenças não significa que a interpretação do ator seja menor que a de Baetens, pelo contrário: a batalha travada por essas duas feras é, a cada cena, mais bela e instigante. O Didier de antes do nascimento é esse homem romântico e entregue ao seu amor. Quando a filha nasce ele se mostra um pai preocupado e muito carinhoso, apesar de sua brutalidade, sempre faz o que pode pela filha. Após a morte da pequena, Didier vira um homem deprimido e muito contido. A forma como o ator faz com que cada homem se identifique com ele é ótima e a naturalidade encontrada em Johan é algo sublime e poucas vezes visto em qualquer ator. As cenas em que Heldenbergh esbraveja e expõe ao mundo um sofrimento sempre muito guardado são as grandes cenas do ator. O momento em que grita à uma plateia sua ira por a Igreja não encorajar o transplante de medula óssea, o que fez com que a ciência não fosse avançada o suficiente para salvar sua filha, é um dos momentos mais emocionante do longa. Outro destaque é a química existente entre os protagonistas. Assim como Leonardo DiCaprio e Margot Robbie tiveram uma química hilária em “O Lobo de Wall Street”, Heldeberg e Baetens possuem algo realmente intenso, que vai do belo ao horrível. Fica difícil escolher qual dupla se saiu melhor esse ano.




A escolha em filmar as fases da vida do casal de forma misturada, indo e vindo todo o tempo, foi uma sacada de mestre. Isso nos emociona mais ainda, pois quando estamos ao lado dos personagens no sofrimento, o filme nos leva para o dia em que os protagonistas se conheceram, por exemplo, e tudo fica ainda pior, fica ainda mais triste e melancólico. Em uma das falas mais aterradoras que lembro de ter ouvido no cinema, Elise rebate contra o marido dizendo que ela sempre soube que tudo era bom demais para ser verdade, que aquilo tudo o que eles viviam não poderia durar, afinal, a vida não é generosa, pois quando amamos e nos apegamos a alguém, a vida traz rancor, ela leva tudo para longe, ela trai. Não há como não parar um pouco após assistir ao longa para refletir sobre as palavras da protagonista. E talvez isso desagrade um pouco ao público sedento por ver e ouvir apenas coisas belas no cinema. “Alabama Monroe” é indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e é um dos grandes favoritos, concorrendo com “A Grande Beleza” e “A Caça”. E se vencer, sem dúvida, será mais que merecido. E antes que esqueça: o nome em português, pela primeira vez desde que me lembro, supera o título original. Por que “Alabama Monroe”? Bom, essa pergunta deixarei que a última tomada do filme explique, assim como a última tomada explicou o por quê do balbuciar Rosebud em “Cidadão Kane” (1941). Mas afirmo uma coisa, o efeito que as imagens finais dos dois filmes causam é o mesmo: uma angústia eterna e uma compreensão inexplicável.


TABELA TEMPORADA DE PREMIAÇÕES 2014
Confira a tabela da Temporada de Premiações 2014! Veja, também, quem foram os vencedores dos principais prêmios de sindicatos e associações. Os filmes coloridos e em negrito possuem indicações ao Oscar e seu número de vitórias está indicado na última coluna da tabela, mas isso não significa que o longa possui indicações nas categorias que venceu algum prêmio. Os filmes em preto sem ser em negrito não possuem indicação alguma no Oscar.Os filmes em preto sem ser em negrito não possuem indicação alguma no Oscar. Para visualizar melhor, basta abrir a imagem em outra janela/guia/abaOBSERVAÇÕES: os filmes coloridos e em negrito possuem indicações ao Oscar e seu número de vitórias está indicado na última coluna da tabela, mas isso não significa que o longa possui indicações nas categorias que venceu algum prêmio. Os filmes em preto sem ser em negrito não possuem indicação alguma no Oscar.
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

025. (ESPECIAL OSCAR 2014) ANTES DA MEIA-NOITE, de Richard Linklater

Roteiro poderoso, interpretações realistas, direção verdadeira. Um dos filmes mais inteligentes do ano.
Nota: 9,2


Título Original: Before Midnight
Direção: Richard Linklater
Elenco: Etahn Hawke, Julie Dely, Seamus Davey-Fitzpatrick, Jennifer Prior, Charlotte Prior, Xenia Kalogeropoulou, Walter Lassally, Ariane Labed, Yannis Papadopoulos, Athia Rachel Tsangari, Panos Koronis, Enrico Focardi, Manolis Goussias, Anouk Servera, Yota Argyropoulou, Serafim Radis, Tety Kalafati e John Sloss
Produção: Christos V. Konstantakopoulos, Richard Linklater, Sara Woodhatch
Roteiro: Richard Linklater, Kim Krizan, Julie Delpy e Ethan Hawke
Ano: 2013
Duração: 109 min.
Gênero: Comédia / Drama / Romance

Após 18 anos desde seu primeiro encontro, Jesse e Celine finalmente estão casados. Há 9 anos, o casal se reencontrou e começou a viver junto. Dessa união, vieram duas filhas, muitas conquistas, muitas frustrações e todas as dádivas e problemas que apenas um casamento pode trazer. Celine está indecisa sobre sua carreira e começa a cogitar a possibilidade de trabalhar para o governo da França, onde eles vivem. Jesse está confuso sobre qual deve ser o tema abordado em seu próximo livro e ainda tenta manter um bom relacionamento com seu filho, Hank, que vive nos Estados Unidos com a mãe. Para sair um pouco da rotina, Jesse e Celine decidem passar o verão com as filhas em uma ilha na Grécia.


Foi em “Antes do Amanhecer” (1995) que a história de amor entre Jesse e Celine começou. Eles se conheceram em um trem de Budapeste à Viena. Encantado com Celine, Jesse a convida para permanecer em Viena até o amanhecer, quando ela voltará para Paris e ele para os Estados Unidos. Assim, o casal apaixonado decide que aproveitará ao máximo o tempo juntos. Em “Antes do Pôr-do-Sol” (2004), o segundo filme da trilogia, narra o que acontece nove anos depois, quando Jesse lança um livro em Paris onde relata os acontecimentos daquela viagem. Celine, percebendo que a história contada é a deles, vai até o escritor e os dois passam algumas horas discutindo o que aconteceu em suas vidas durante todos esse anos. Em “Antes da Meia-Noite”, o passado é evocado dezenas de vezes. Lembramo-nos de histórias vividas pelo casal enquanto estavam juntos ou separados e descobrimos novas informações. Após nove anos de casamento, é claro que nem tudo mais são flores, e isso é provado durante cada minuto desse longa. Problemas vêm à tona em discussões memoráveis e tão realistas que é impossível não se identificar com o casal. Jesse já está com quarenta anos e Celine está quase lá, já não são mais um casal jovem e apaixonado perdidamente, são pais de duas crianças que devem ser conscientes e sábios em alguns momentos. Mas com isso, também veio a rotina. Celine, inclusive, reclama que o sexo é sempre do mesmo jeito, isso quando ele acontece. A relação de Celine com Hank também é abordada por ser algo tão pacífico, o que chega a deixar Jesse irritado. E a falta de humor de Celine e o humor exagerado de Jesse é mais um motivo para discussão, isso sem falar no fato de eles já estarem envelhecendo e estarem sentindo que isso não é fácil.


O roteiro de Linklater, Krizan, Delpy e Hawke, indicado ao Oscar de melhor roteiro original, é maravilhoso. Aliás, os roteiros originais do Oscar esse ano são magníficos, mas nenhum deles possui uma história tão realista, cotidiana e com diálogos tão pontuais e inteligentes. Eu dividiria o filme em alguns “atos”: a introdução é a despedida de Jesse e Hank no aeroporto, o primeiro “ato” é a viagem até a casa dos amigos na grécia, o segundo é o almoço na casa desses amigos, o terceiro é o passeio que o casal protagonista dá até chegar em um hotel onde passarão a noite como presente dos amigos, e o quarto e último é a noite no hotel. Na introdução, vemos a relação de pai e filho que Jesse e Hank tentam manter mesmo de longe. Esse medo de Jesse em perder o filho pela distância será abordado e citado durante todo o longa. No primeiro “ato” a história nos é apresentada, os personagens lembram naturalmente do passado, Jesse nos informa que é um escritor e Celine apresenta seus problemas com o emprego. É ali, também, que a crise do casal inicia. Diga-se de passagem, apenas por uma falta de diálogo, por uma interpretação errada, por uma colocação mal feita. O segundo “ato” é o mais agradável: na casa dos amigos, Jesse e Celine comentam detalhes de suas vidas. Jesse fala sobre suas ideias para um novo livro. Na mesa do almoço, o casal se junta a mais três casais de três gerações: dois jovens que acabaram de se conhecer e confessam ter passado parte do relacionamento conversando apenas por telefone, os amigos de Jesse e Celine que passam ou passaram por momentos difíceis como o casal, e o pai de um deles e a viúva de um amigo, um casal de amigos idosos. É nesse almoço que inúmeros assuntos são abordados: amor, sexo, dinheiro, carreira profissional, idade, tecnologia, paixão. No terceiro “ato” são as reflexões sobre Jesse e Celine que tomam a tela. Um provoca o outro em todos os sentidos, não são expostos apenas os problemas, e sim tudo o que o casal já passou. O último “ato” dá espaço às discussões do casal: tudo desaba em volta deles e percebemos que isso apenas acontece por dúvidas que ambos possuem em suas vidas particulares. Enquanto Celine vive a dúvida do que deve fazer com seu emprego, Jesse vive a dúvida por estar longe de seu filho e desejar voltar a estar ao lado dele. É esse último ato, também, que lembra que, não importa o que aconteça, o amor que Jesse e Celine nutriram um pleo outro há 18 anos ainda está dentro deles.


Etha Hawke é um ator sem muitos trabalhos conhecidos pelo público em massa, e até já encarou, além de trabalhos como roteirista, títulos onde é o diretor. Não assisti aos filmes anteriores a esse, portanto, não posso traçar paralelos a respeito das interpretações ou do roteiro, mas posso afirmar, sem dúvida, que Hawke está incrível. Não é preciso muito para ele encorporar Jesse, afinal, o personagem é um homem  comum, um homem normal com todos os defeitos e qualidades que qualquer ser humano possa ter. O próprio ator está casado pela segunda vez e, sem dúvidas, expõe as próprias experiências no filme. O Jesse criado por Hawke, é um homem de bom humor, que faz piada de tudo, mas é um pai amável, um marido fiel e um profissional dedicado. Talvez a maior semelhança entre o personagem e os homens do mundo real seja a forma desligada como Jesse leva toda a discussão: o escritor não leva a sério tudo o que está acontecendo, ele acha que Celine exagera e que trazer tudo à tona naquele momento é algo desnecessário. E se o personagem de Hawke é o retrato do homem que se esquiva dos diálogos para não arrumar problemas, a personagem de Julie Delpy, Celine, é a típica mulher que acredita que todos os mínimos detalhes da vida de um casal devem ser discutidos. Delpy não se importa com a idade que chega, ela ainda é uma mulher bonita e interessante e é assim que trata Celine. Entretanto, com a chegada dos quarenta, a personagem está um pouco paranoica e quer se sentir desejada mais que nunca. Além disso, os hormônios dessa mulher de personalidade forte estão se alterando como em qualquer mulher dessa idade. Por fim, Celine vive um conflito interno com sua vida profissional, e isso faz com que ela compreenda que é impossível uma mãe controlar tudo à sua volta sem deixar nada escapar. E são nos reflexos dessas alterações hormonais e dessa confusão em sua vida profissional que vemos o melhor da atuação de Delpy.


“Antes do Amanhecer”, “Antes do Pôr-do-Sol” e “Antes da Meia-Noite” são filmes que retratam a vida de um casal. Não é um casal específico, a trilogia retrata a vida de qualquer casal do mundo, qualquer casal normal que passe por problemas no relacionamento e que encontre muita felicidade pelo caminho. Jesse e Celine, durante esse longa, revivem algumas coisas do passado ou vivem outras que são reflexos do que foi vivido. São um casal apaixonado que está junto há muito tempo e que já passou por muito na vida. Alguns especialistas acreditam que seja exatamente entre os sete e dez anos de relacionamento continuo que um casal tem suas grandes crises, passando esse período juntos, o relacionamento está garantido por um bom tempo. Em alguns momentos, sabemos que Jesse e Caline estão apenas tapando o sol com a peneira, deixando os problemas de lado ao invés de resolvê-los, mas, na maior parte do roteiro, temos as mais belas demostrações de amor. O amor, claramente, muda com o passar do tempo, e é disso que esse casal está provando. Hawke e Delpy são quem sustentam esse filme, o longa é deles. A direção é ótima e a trilogia é fechada com chave de ouro. O roteiro do longa tem poucas chances no Oscar concorrendo com “Ela”, o melhor roteiro do ano em todos os sentidos, mas são poucos os filmes que retratam a vida de forma tão fiel, trazendo os melhores diálogos em anos e nos fazendo, mais uma vez, acreditar que o amor é possível.

VENCEDORES DO CÍRCULO DE CRÍTICOS DE FILME DE LONDRES
Melhor Filme: 12 Anos de Escravidão
Melhor Direção: Alfonso Cuarón, por Gravidade
Melhor Ator: Chiwetel Ejiofor, por 12 Anos de Escravidão
Melhor Atriz: Cate Blanchett, por Blue Jasmine
Melhor Ator Coadjuvante: Barkhad Abdi, por Capitão Phillips
Melhor Atriz Coadjuvante: Lupita Nyong’o, por 12 Anos de Escravidao
Melhor Roteiro: Joel e Ethan Coen, por Inside Llewyn Davis: Baladas de um Homem Comum
Melhor Filme Estrangeiro: Azul é a Cor Mais Quente
Melhor Documentário: The Act Of Killing 

VENCEDORES DO PRÊMIO DA ACADEMIA BRITÂNICA DE FILME E TELEVISÃO (BAFTA):
Melhor Filme: 12 Anos de Escravidão
Melhor Direção: Alfonso Cuarón, por Gravidade
Melhor Ator: Chiwetel Ejiofor, por 12 Anos de Escravidão
Melhor Atriz: Cate Blanchett, por Blue jasmine
Melhor Ator Coadjuvante: Barkhad Abdi, por Capitão Phillips
Melhor Atriz Coadjuvante: Jennifer Lawrence, por Trapaça
Melhor Filme Estrangeiro: A Grande Beleza
Melhor Filme de Animação: Frozen: Uma Aventura Congelante
Melhor Documentário: The Act of Killing
Melhor Trilha Sonora: Steven Price, por Gravidade
Melhor Som: Glenn Freemantle, Skip Lievsay, Christopher Benstead, Niv Adiri e Chris Munro, por Gravidade
Melhor Figurino: Catherine Martin, por O Grande Gatsby
Melhor Edição: Dan Hanley e Mike Hill, por Rush, No Limite da Emoção
Melhor Fotografia: Emmanuel Lubezki, por Gravidade
Melhor Maquiagem e Cabelo: Evelyn Noraz, Lori Mccoy-Bell e Katherine Gordon, por Trapaça
Melhores Efeitos Especiais: Gravidade
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