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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

038. OS INFILTRADOS, de Martin Scorsese

Scorsese jamais será enfadonho enquanto refletir sobre as realidades de sua terra natal.
Nota: 9,7


Título Original: The Departed
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Mark Wahlberg, Jack Nicholson, Martin Sheen, Ray Winstone, Vera Farmiga, Anthony Anderson, Alec Baldwin, Kevin Corrigan, James Badge Dale, David O’Hara, Mark Rolston, Robert Wahlberg
Produção: Brad Grey, Graham King, Brad Pitt,
Roteiro: William Monahan
Ano: 2006
Duração: 151 min.
Gênero: Drama

Quando criança, Colin foi apadrinhado pelo chefe do crime de Nova York, Frank Costello. Anos depois, Frank é um dos homens mais perigosos dos Estados Unidos e um procurado da Polícia Federal. Dessa forma, a mando de Costello, Colin se infiltra no FBI a fim de burlar os planos da polícia de pegar seu “pai”. Billy, por outro lado, é um jovem que deseja entrar para o FBI, mas que vê seu caminho bloqueado por pertencer a uma família extremamente suspeita. A condição para Billy é simples: ele será preso e terá de se infiltrar no bando de Costello.


Martin Scorsese é o melhor diretor vivo da Sétima Arte, e sei que poucas pessoas discordariam dessa afirmação. Em sua carreira, sua principal característica foi a de realizar produções reveladores. “Depois de Horas” (1985), “Cabo do Medo” (1991) e “Ilha do Medo” (2010), por exemplo, abordam as loucuras da psique humana; “Touro Indomável” (1980), “O Aviador” (2004) e “O Lobo de Wall Street” (2013) são biografias que acompanham personagens que viveram intensamente; “A Época da Inocência” (1993) é um romance nada convencional ambientado no século XIX; “A Invenção de Hugo Cabret” é uma ode ao cinema francês muito bem representado por George Méliès; “Taxi Driver” (1976), “New York, New York”(1977), “Os Bons Comanheiros” (1990) e “Gangues de Nova York” (2004) são os responsáveis por revelar o que há de mais belo e obscuro na cidade de Nova York. “Os Infiltrados” se encaixa nesse último grupo. O filme parece uma sequência, ou ainda, uma consequência de tudo o que ocorreu há tempos. Tempos revelados em “Gangues de Nova York”, em “Os Bons Campanheiros” e em “Cassino”, longas que retratam o passado sujo, medíocre e indigesto que fez parte do nascimento e do desenvolvimento dos Estados Unidos da América. Apesar de o longa se passar apenas em Nova York, com o desenrolar da trama, fica fácil perceber o quanto toda a sujeira afeta o país todo.


Além de ser referência no quesito “americanidade”, Scorsese é conhecido por manter alguns membros de sua equipe em seus filmes. Quatro deles são essenciais para transformar “Os Infiltrados” no único filme do diretor vencer do prêmios de melhor direção e filme no Oscar. A fotografia do longa é de Michael Ballhaus, diretor de fotografia de Scorsese em “Os Bons Companheiros”, “Gangues de Nova York”, “A Época da Inocência”, “Depois de Horas”, “a Cor do Dinheiro” e “A Última Tentação de Cristo”, a beleza estética desse longa não pode ser discutida, há uma delicada mistura moderna e uma referência deliciosa aos filmes de policias e bandidos das décadas de 80 e 90. Além da fotografia, a edição também faz esse resgate dos filme policiais, assim, Thlema Schoonmaker deixa claro que o filme é, acima de tudo sobre policias e bandidos. Schoonmaker tralhou com Srcosese desde 1980, dali por diante, todos os filmes do diretor foram editados por essa vencedora de 3 Osrcars. Sandy Powell já foi apontada, por alguns críticos, como a nova Edith Head, Powell e Martin trabalham juntos desde “Gangues de Nova York”,  o figurino de “Os Infiltrados” é muito característico e combina perfeitamente com a personalidade de cada personagem, e é aí onde acredito estar a perfeição do trabalho de Powell. Por fim, e o que eu mais admiro no longa, a trilha sonora estupenda de Howard Shore. Scorsese e Shore começaram juntos em “Depois de Horas” filme que possui uma trilha muito característica do compositor, depois, foi apenas em 2002, com “Gangues de Nova York”, que os dois voltaram a trabalhar juntos. Vieram, ainda, “O Aviador” e “A Invenção de Hugo Cabret”. Aqui, a trilha de Shore é pontual e magnífica ao contrastar a seriedade e  a inexpuginidade da polícia federal, com a boa vida e a violência que cercam os mafiosos. Recomendo que a trilha seja ouvida após o filme ser assistido para que a concentração possa ser apenas nela.


Leonardo DiCaprio é um dos melhores atores de sua geração. Lembro-me de ter assistido a ele, mesmo antes de ver “Titanic” (1997), em “Diário de Um Adolescente” (1995) e ter me surpreendido com a maestria de DiCaprio, mesmo tão jovem. O reflexo dos trabalhos do ator são vistos hoje. A interpretação é intensa e provocante, é aquele tipo de atuação que nos faz sentir como se fossemos o personagem: quando DiCaprio é violento, compreendemos sua violência, quando está com raiva, estamos com raiva, quando ele se acalma, acalmamo-nos também. A Matt Damon, sobra a tarefa de nos trazer um pouco de sarcasmo e muita naturalidade ao FBI. O ator também está excelente, e, como DiCaprio, quando está prestes a ser pego pela polícia, faz com que nos sintamos tão apavorados quanto ele. Jack Nicholson é o veterano em todos os sentidos, ele e seu personagem possuem a inteligência e a experiência de vida em comum, são homens inteligente e astutos. Nicholson dispensa elogios, mesmo assim, decerei alguns: o sarcasmo e a autoconfiança de Costello são impressionantes, a frieza com a qual o mafioso trata tudo e todos é contagiante e as particularidades de Frank nos enojam e cativam ao mesmo tempo.



“Os Infiltrados” não é o melhor filme de Martin Scorsese para ser o único a vencer os Oscars de melhor filme e melhor direção na carreira do diretor. Talvez tenha sido o momento em que a Academia se deu conta de como haviam sido injustos com o mestre a vida toda e resolveram premiá-lo, não pelo longa, e sim por uma carreira inteira. Mesmo assim, o filme é fantástico e jamais hesitaria em dizer que é o melhor do ano de 2006, com as atuações mais impressionantes e com uma qualidade técnica incomparável. A equipe que citei acima que compõe o time de Scorsese não decepciona em momento algum, o roteiro é claro e os diálogos são impecáveis. Apesar de ter citado apenas três intérpretes, o elenco todo é fantástico e merecia muito mais destaque nas premiações do que realmente obteve. De forma objetiva e muito bonita, Scorsese denuncia as mazelas dos Estados Unidos, mostra que a maior potência do mundo está longe de ser o lugar mais seguro para se morar. Ainda, como apenas o mestre consegue fazer, homenageia um estilo de filmes que se perdeu no tempo, o puro gênero policial de qualidade. Aqui, não existem muitas reflexões sobre a vida, não estamos falando de um filme espiritual como “A Invenção de Hugo Cabret”, e sim, de um filme objetivo sobre as realidades envolvendo corrupção e outras coisas muito mais sérias do que imaginamos. Realidades as quais os Estados Unidos, e todo o restante do mundo, estão expostos e sofrerão cedo ou tarde.


PREMIAÇÃO DOS CRÍTICOS DE FILMES DE TORONTO
Melhor Filme: Inside Llewyn Davis
Melhor Direção: Alfonso Cuarón, por Gravidade
Melhor Ator: Oscar Isaac, por Inside Llewyn Davis
Melhor Atriz: Cate Blanchett, por Blue Jasmine
Melhor Ator Coadjuvante: Jared Leto, por Dallas Buyers Club
Melhor Atriz Coadjuvante: Janifer Lawrence, por Trapaça
Melhor Roteiro: Speki Jonze, por Her
Melhor Primeiro Filme: Kleber Mendonça Filho, por Neighboring Sounds
Melhor Filme de Animação: The Wind Rises
Melhor Filme Estrangeiro: A Touch of Sin
Melhor Documentário: The Act of Killing
VENCEDORES DO PRÊMIO DOS CRÍTICOS DE FILME DE SAN DIEGO
Melhor Filme: Her
Melhor Direção: Alfonso Cuarón, por Gravidade
Melhor Atriz: Cate Blanchett, por Blue Jamine
Melhor Ator: Oscar Isaac, por Inside Llewyn Davis
Melhor Atriz Coaddjuvante: Shailene Woodley, por The Spectacular Now
Melhor Ator Coadjuvante: Jared Leto, por Dallas Buers Club
Melhor Roteiro Original: Spike Jonze, por Her
Melhor Roteiro Adaptado: Richard Linklater, Julie Delpy e Ethan Hawke, por Antes da Meia Noite
Melhor Filme Estrangeiro: Drug War
Melhor Documentário: The Act of Killing
Melhor Fotografia: Emmanuel Lubezki, por To The Wonder
Melhor Filme de Animação: The Wind Rises
Melhot Edição: Christopher Rouse, por Capitão Phillips
Melhor Direção de Arte: Catherine Martin e Karen Murphy, por O Grande Gatsby
Melhor Trilha Sonora: Arcade Fire, por Her
Melhor Elenco: Trapaça
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quinta-feira, 7 de março de 2013

081. COMPRAMOS UM ZOOLÓGICO, de Cameron Crowe

Inesperadamente, uma comédia americana de qualidade e muito bom gosto.
Nota: 9,0


Título Original: We Bought a Zoo
Direção: Cameron Crowe
Elenco: Matt Damon, Scarlett Johansson, Colin Ford, Maggie Elizabeth Jones, Thomas Haden Church, Angus Macfadyen, Elle Fannig, Patrick Fugit, John Michael Higgins, Carla Gallo, J. B. Smoove, Stephanie Szostak, Michael Panes, Kym Whitley
Produção: Cameron Crowe, Jullie Yorn, Rick Yorn
Roteiro: Alina Brosh McKenna, Cameron Crowe e Benjamin Mee (livro)
Ano: 2011
Duração: 124 min.
Gênero: Drama / Comédia


Benjamin Mee é um grande aventureiro que vê toda sua vida profissional desabar quando sua esposa morre e ele precisa cuidar de um filho adolescente e de uma menina de sete anos. Transtornado sem saber o que fazer, Benjamin procura por uma nova casa, longe de tudo o que eles conhecem para recomeçar a vida. E é nessa procura que encontra o lugar perfeito, uma casa linda e tudo aquilo o que ele e a filha imaginavam, mas existe um pequeno problema: o lugar é um zoológico abandonado pela maior parte dos humanos, e cheio de animais que precisam de ajuda. Benjamin, portanto, decide ficar com o lugar e reformar tudo para reabrir o Zoo e ver sua família feliz novamente.


Benjamin Mee, assim como o próprio zoológico, existe. Trata-se de um jornalista formado em psicologia que escrevia para o jornal inglês “The Guardian” e que, em outubro de 2006, procurava uma casa grande para viver com a esposa, os dois filhos, um irmão e a mãe de mais de setenta anos. Encontraram uma casa nos limites da reserva de Dartmoor, localizada naquela pontinha saliente a oeste da ilha da Inglaterra. A família se mudou e, alguns meses depois, Katherine, a esposa de Benjamin, começou a ter sintomas de um tumor cerebral. Para piorar toda a situação, Katherine morreu e, além de ter o dever de cuidar de todo o zoo, Benjamin precisou ajudar os filhos a superar a perda. Entre um problema e outro, Benjamin e sua família foram superando tudo e reabriram o zoológico em julho de 2007, e confessam o imenso sucesso que tem feito após o lançamento desse filme. Como se pode ver, através da história original, a vida de Benjamin e sua família não foi nada fácil a partir do momento em que resolveram comprar o zoológico, afinal, era preciso alimentar todos os animais – por volta de duzentos indivíduos, dar uma vida decente a eles, cuidar de vacinas e outras necessidades básicas, higienizar cada “jaula”, aprender a lidar com animais perigosos e de grande porte – leões, tigres, ursos -, além disso, não se podia esquecer de uma mãe já idosa, filhos adolescentes, um irmão e a esposa que ficou doente. No filme, foca-se nas preocupações com o zoológico, o que tira um pouco do drama e traz mais a superação mesmo, afinal, Benjamin tem um irmão que não depende dele para nada (mas acaba se rendendo as loucuras do irmão e vai para o zoo), a mãe não existe e a esposa morreu antes de o zoológico ser comprado. Cameron Crowe iniciou sua carreira como roteirista em “Picardias Estudantis” (1982), depois roteirizou e dirigiu meia dúzia de filmes conhecidos e de qualidade: “Digam o que Quiserem” (1989), “Jerry Maguire – A Grande Virada” (19996), “Quase Famosos” (2000), “Vanilla Sky” (2002) e “Tudo Acontece em Elizabethtown” (2005), vencendo o Oscar de melhor roteiro por “Quase Famosos” e sendo indicado a melhor filme e roteiro por “Vanilla Sky”. Ao seu lado, para adaptar a história está Aline Brosh McKenna, uma especialista em comédias: “Leis da Atração” (2004), “O Diabo Veste Prada” (2006), “Vestida Para Casar” (2008), “Uma Manhã Gloriosa” (2010) e “Não Sei Como Ela Consegue”. De forma geral, apesar da simplicidade do longa como um todo, o roteiro é bem escrito e a história segue uma linha real e muito tocante, a fotografia faz jus ao esperado e a edição também é ótima.


Não simpatizo com Matt Damon por ter assistido aos filmes da franquia “Bourne”, entretanto, cada vez que estou assistindo a um filme com ele sendo o protagonista, não posso deixar de admitir o quanto o ator é talentoso, e, desde ter visto “O Talentoso Ripley” (1999), criei certa admiração por seu trabalho no cinema. Apesar de não ter nenhuma semelhança com o verdadeiro Benjamin Mee – fisicamente falando -, o personagem é real, mas não um completo conhecido, o que torna sua atuação mais livre que a de atores que interpretam pessoas famosas, dessa forma, Matt Damon realiza um trabalho muito natural, e é essa naturalidade – o que, na minha opinião, mais define a interpretação de alguém como boa ou ruim – que faz dele o perfeito líder para um elenco tão agradável. Scarlatt Johansson parece ter se dedicado bastante aos seus trabalhos nos últimos dois anos, pois vê-la em “Os Vingadores” (2012), “Hitchcock” (2012) e “Compramos um Zoológico”, tornou-se uma surpresa pra lá de agradável e – para enfatizar ainda mais – inesperada; mesmo não achando os trabalhos da atriz grande coisa, parece que daqui para frente ela está disposta a se entregar mais as suas personagens e atingir essa naturalidade da qual tanto falo, nesse filme, ela é a veterinária que ajuda a cuidar de tudo, Kelly Foster. Colin Ford, pasme, tem apenas 16 anos e já atou em mais de 40 títulos, dentre séries e filmes para televisão e poucos filmes para o cinema, sendo assim, era de se esperar que sua interpretação como o filho adolescente e problemático de Benjamin fosse algo, no mínimo, satisfatório, e, mesmo sem saber da carreira do ator, o achei convincente e ótimo na pele de um jovem que já sofreu mais que o necessário. A jovem Maggie Elizabeth Jones, por sua vez, faz a filha, Rosie Mee, uma menina inocente que não entende muito o que está acontecendo, mas parece ter compreendido que a mãe jamais poderá estar ao seu lado novamente e vive como uma criança normal. Para completar o elenco principal, parece que Elle Fanning está desbancando sua irmã mais velha (Dakota) e apresenta uma performance hilária de uma jovem – irmã da personagem de Johansson – que se apaixona pela primeira vez na vida e precisa escolher se quer seguir o caminho de sua paixão ou não, ela e Ford protagonizam as cenas mais simpáticas do longa, não sabendo como falar sobre seus sentimentos, o perfeito retrato do primeiro amor de adolescentes.


Falar sobre as reflexões e sobre tudo o que “Compramos Um Zoológico” aborda é algo muito difícil, mas se torna simples se eu apenas resumir afirmando que ele fala sobre tudo em uma vida normal e cotidiana. Sem apaziguar nada e tratando tudo de forma muito real, como a dor e o sofrimento, de morte, tristeza e a falta que seres humanos e animais fazem; todavia, ao mesmo tempo, fala, de forma tão real quanto a dor, sobre o amor e a superação, sobre como a união (famílias e amigos) pode fazer com que obstáculos sejam superados e todos possam voltar a ser felizes, ou ao menos que todos possam ter mais momentos felizes que tristes. Claro que a perda de uma mãe em qualquer família é algo difícil, portanto, como se era de se esperar, toda a família Mee fica arrasada, tão arrasada quando o Zoológico para o qual eles resolvem se mudar. Nesse contexto, o local se torna uma fuga, uma forma de por toda a angústia para fora. Sim, pois, ao mesmo tempo em que se reúne a recuperação de um espaço físico (aqui um zoológico), a família tenta se recuperar da morte da mãe; em contraponto, ao mesmo tempo em que o filho odeia e teme pelo fato da mãe estar morta, ele resolve odiar o zoo também, pois a forma como o pai tenta recuperar a felicidade agride seu sentimento como filho, afinal, a mãe dele acaba de morrer, onde está o respeito e o luto? Para quebrar o gelo, a filha de Benjamin aceita a mudança e, como é uma criança muito pequena, tenta superar tudo o que está acontecendo ao lado do pai. No final das contas, assim como o amor da mãe unia a família, as lembranças do quanto ela poderia gostar de estar ali, ao lado deles, faz com que esse filme seja o exato tipo de auto-ajuda que estamos dispostos a ler, pois não há apenas o drama da superação o tempo todo, pouco a pouco, enxergamos, de forma nítida e bela, o resultado da superação.


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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

151. O TALENTOSO RIPLEY, de Anthony Minghella


O perigo de tentarmos encontrar a nós mesmos está exatamente nessas descobertas a respeito de nossos próprios desejos, medos e anseios.
Nota: 9,5

Título Original: The Talented Mr. Ripley
Direção: Anthony Minghella
Elenco: Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Jude Law, Cate Blanchett, Philip Seymour Hoffman, James Rebhorn, Sergio Rubini, Phiplip Baker Hall, Celia Weston, Fiorello, Stefania Rocca
Produção: William Horberg, Tom Sternberg
Roteiro: Anthony Minghella e Patricia Highsmith (romance)
Ano: 1999
Duração: 139 min.
Gênero: Drama / Thriller / Crime

Quando Tom Ripley se passa por um ex-colega de Dickie Greenleaf e é convidado pelo pai milionário do jovem para tentar trazê-lo de volta para a América – Dickie cansou da vida de riquinho vivendo com os pais e mudou-se para a Europa – o trambiqueiro vê sua chance de conquistar o jovem e permanecer rico por muito tempo. Entretanto, quando Dickie começa a enjoar da presença “grudenta” de Ripley é chegada a hora de escolher entre o certo e o fácil, e Tom se verá em uma rede de mentiras e mortes impossível de se escapar.



Patricia Highsmith se tornou uma escritora famosa por suas histórias de thriller psicológicos, além de grandes obras literárias, ela também escreveu contos, é óbvio que todos no mesmo tom macabro, irônico e repletos do bom humor negro que todo mundo gosta. Para Ripley ela reservou aquele tipo de história sobre a qual não podemos contar muito, afinal, qualquer detalhe poderia estragar quase toda a diversão e a intenção de surpreender o espectador. Após “O Paciente Inglês” (1996), esperava-se que Minghella permanecesse em seu patamar (que é bem alto, por sinal), e foi exatamente isso que aconteceu. Apesar de os dois filmes abordarem temáticas totalmente diferentes, o estilo de Minghella permanece o mesmo: sóbrio, objetivo, com tomadas amplas ou fechadas muito bem feitas e a exploração maravilhosa de cada cenário. Além disso, a fotografia e a edição do filme, bem como seu figurino – que surpreende mais ainda quando vemos a clara mudança de Tom Ripley: do garoto pobre dos EUA, ao amigo do rico Dickie na Europa – são obras a parte. A trilha sonora é do mesmo compositor de “O Paciente Inglês” – que venceu o Oscar em 1997 pelo filme -, Gabriel Yared. Obviamente, isso contribui ainda mais para as semelhanças entre os dois filmes, mas, ainda assim “O Talentoso Ripley” é uma produção original que surpreende a cada cena, mesmo sabendo o enredo todo da trama, cada ação de Ripley é imprevisível e surpreendente.



Para viver o psicopata no cinema foi escolhido Matt Damon, apesar de não gostar do ator em grande parte de seus filmes, aqui ele está fantástico. Dentre as principais características de Ripley, temos sua habilidade em imitar pessoas e assinaturas de forma quase perfeita, entretanto, durante o filme, parece que a personagem acredita em suas próprias mentiras, e Damon é tão fantástico que parece que ora ele está manipulando Ripley, ora a personagem manipula seu intérprete; enfim, realizar um trabalho tão maravilhoso ao interpretar um psicopata (que, para piorar, acredita ser necessário matar esse ou aquele indivíduo) como Damon realiza, é algo digno de ser assistido e admirado. Ao lado do ator está Jude Law como Dickie, em uma de suas melhores interpretações, como um homem mimado que resolveu sumir no mundo para tentar buscar algum sentido na vida, ao menos é nisso que ele acredita, para mim Dickie é um ingrato notório, em suma, Law também está ótimo, o que pode ser verificado em uma das melhores cenas do filme, em que ele e Damon duelam em uma discussão que parece interminável – seu desfecho é ótimo e só prova ainda mais a loucura de Ripley. Gwyneth Paltrow é a namorada de Dickie, uma escritora que, apesar de inteligente, é um tanto chata demais, daquele tipo de riquinha estressante e sem graça, apesar da personagem ser dessa forma, Paltrow é mais uma surpresa ótima. Quem não é surpresa alguma e só confirma seu talento é a dupla formada por Cate Blanchett e Philip Seymour Hofman – os dois não tem nada a ver um com o outro e nem chegam a contracenar juntos, que fique claro -, ela vive Meredith Logue, filha de pessoas ricas, a jovem também tenta fugir da família, mas acaba caindo nas falsidades de Ripley quando ele chega a Europa e diz a ela, para surpreendê-la e conquistá-la mais rapidamente, que ele é Dickie Greenleaf, ela, inocentemente, acredita em tudo o que ele fala, do começo ao fim; Hoffaman é o amigo de Dickie, Freddie Miles, mais um bon vivant que vive sua vida como se não tivesse responsabilidade alguma e acreditando que a é vida feita apenas dessas pequenas emoções, que ele considera emoções inacreditáveis. Por fim, a última vítima de Ripley - um bom homem que se apaixona por ele -, Peter Smith-Kingsley, interpretado por Jack Davenport, mais um presente em um elenco tão bem composto, Peter é inocente, iludido e apaixonado, mas comedido para não deixar transparecer tudo para uma sociedade preconceituosa.

Apesar de Ripley ser o mais louco de todos, deve-se destacar que não há uma personagem que seja nessa história que não tenha vários problemas, e isso, por um simples motivo: todos aqui, sem exceção, são personagens que interpretam personagens criadas por eles para a vida ser algo menos irritante, monótona, sem graça, enfim, para viverem de forma mais emocionante. O problema se concentra na intensidade com qeu isso se faz presente, afinal, é normal inventarmos isso ou aquilo sobre nos mesmos e apenas para nós mesmos para esquecermos um pouco os problemas do mundo, mas viver dessa forma o tempo todo, sabendo que não somos aquilo que queremos que os outros acreditem, é algo desumano. Sendo assim, “O Talentoso Ripley” explora o íntimo do ser humano, encontrando os segredos mais obscuros de cada indivíduo, retirando até a última pedra daquele porão onde todos acabamos escondendo nossos segredos, dúvidas e medos. O problema está no exato momento em que a porta desse esconderijo nada secreto é aberta, pois descobrimos coisas sobre nós mesmos que jamais sabemos que existem, e até aspectos que não desejamos descobrir. E é aí que mora o perigo.



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segunda-feira, 9 de julho de 2012

254. OS IRMÃOS GRIMM, de Terry Gilliam

Uma boa viajem ao Século XIX e  inesquecíveis contos dos irmãos Grimm.
Nota: 7,5


Título Original: The Brothers Grimm
Direção: Terry Gilliam
Elenco: Heath Ledger, Matt Damon, Lena Headey, Monica Bellucci , Roger Ashton-Griffiths, Mackenzie Crook, Peter Stormare, Jonathan Pryce, Laura Greenwood
Produção: Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Charles Roven, Daniel Bobker
Roteiro: Ehren Kruger
Ano: 2005
Duração: 118 min.
Gênero: Fantasia / Aventura

Jacob e Wilhelm Grimm foram estudiosos de sua língua materna, eruditos, historiadores e narradores. Nascidos na Alemanha entre 1785 e 1786, ficaram conhecidos pelo mundo todo por viajarem à procura de lendas e contos populares, foram responsáveis por popularizar quase 400 contos, 10 lendas e 600 cantigas folclóricas. Dentre os mais conhecidos temos: “A Branca de Neve”, “Cinderela”, “O Ganso de Ouro”, “O Príncipe Sapo”, “Os Músicos de Bremen”, “Rapunzel”, “Chapeuzinho Vermelho”, “A Bela Adormecida”, “João e Maria” e o divertido “Rumpelstiltskin”. Morreram entre 1859 e 1863, deixando um legado inestimável que acompanha gerações e gerações de jovens pelo mundo todo.


Heath Ledger caracterizado e o escritor Jacob Grimm
O escritor Wilhelm Grimm e Matta Damon caracterizado como o mesmo.
Jacob e Wilhelm, no filme, são dois irmãos que ganham a vida contando contos de fadas pela Alemanha comandada por Napoleão Bonaparte. Além de contar história, eles enfrentam seres mágicos que assolam pequenas vilas, a princípio eles apenas iludem o povo para arrancar dinheiro facilmente das pessoas. Entretanto, jovens donzelas estão desaparecendo em uma floresta, e não há nada de mentiras quanto a magia que envolve esse mistério. Os Grimm terão, portanto, de desvendar esse mistério, que está bem longe de fazer parte seus contos de fadas e suas mentiras.
Terry Gilliam é o diretor do conceituado “Brazil – O Filme” (1985), com Jonathan Pryce, Robert De Niro, Katherine Helmond e Jim Broadbent, também foi o responsável por títulos como “O Pescador de Ilusões” (1991), “Os 12 Macacos” (1995), “Medo e Delírio” (1998) com Johnny Depp e Benicio Del Toro, e, recentemente, “O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus” (2009), com Johnny Depp, Heath Ledger, Andrew Garfield, Christopher Plummer, Jude Law e Colin Farrell. Seu trabalho aqui não é grande coisa, na verdade, apesar de bom, o filme não é grande coisa, mas Gilliam satisfaz, não como em seus outros títulos, mas satisfaz. Ehren Kruger, o roteirista, foi responsável por títulos como “Pânico 3” (2000), “O Chamado” (2002), “O Chamado 2” (2005) e “A Chave Mestra” (2005), é dele, portanto, a responsabilidade de transformar toda a comédia desse filme em algo bem negro, o que deixa a trama um pouco mais madura. O italiano, Dario Marianelli é o responsável pela trilha sonora do filme, antes desse seu único trabalho de destaque havia sido em “Orgulho e Preconceito” (2005), que, aliás, é uma trilha maravilhosa que lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar, venceu apenas em 2008 com “Desejo e Reparação” (2007), uma trilha perfeita. Para os Grimm ele compôs um ótimo tema, e o restante das músicas escolhidas é bem no estilo contos de fada obscuro que o enredo exige.



Heath Ledger vive Jacob Grimm, o irmão mais velho, mas também o mais idiota e sonhador dos dois, é dele o papel de se culpar pelas mentiras contadas pelos irmãos, mas é também ele quem dá o tom de contos de fadas às histórias dos dois. Matt Damon é o conquistador Wilhelm Grimm, o mais fanfarrão e aproveitador dos dois, mas é o mais equilibrado e pé no chão. O engraçadíssimo Peter Stormere é o pseudo-vilão Cavaldi, um homem que gosta de torturar os outros, mas que é exagerado e impulsivo. Jonathan Pryce dá vida ao General que força os Grimm a descobrirem o mistério da floresta amaldiçoada, um claro deboche aos militares da época. Monica Bellucci é uma bela e descontrolada Rainha que está presa em uma torre há décadas. Por fim, Lena Headey, é a bela Angelika, a mulher que vai conquistar os corações dos irmãos Grimm, e irá ajudá-los em sua busca para derrotar o mal que assola a vila onde ela mora.



“Os Irmãos Grimm” aborda valores de amizade, veracidade, companheirismo e paz mundial. Mas também satiriza a população da época, e mais, faz uma homenagem aos irmãos que contribuíram de forma fantástica para a cultura mundial. Conhecidas obras deles são relembradas durante cenas do filme, tais como, com uma menina na floresta vestida com uma capa vermelha (Chapeuzinho Vermelho), a torre que envolve mais da metade da trama (Rapunzel), dois irmãos na floresta jogando pedaços de pão pelo caminho a fim de criar uma trilha (João e Maria), uma tal vovó sapo que deve ser beijada para ajudar os personagens a encontrar o caminho para casa (O Príncipe Sapo), um caçador e uma velha oferecendo maças (A Branca de Neve), uma rainha adormecida há séculos e donzelas que também estão fadadas a um sono profundo. Por fim, o filme pode não ser nenhuma obra estética ou trazer lições e mais lições acerca das histórias que envolvem as personagens, mas relembrar os contos dos irmãos Grimm e ver essa singela homenagem a dupla é algo maravilhoso.



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