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domingo, 2 de março de 2014

013. (ESPECIAL OSCAR 2014) ÁLBUM DE FAMÍLIA, de John Wells

Um exército imbatível de atores armados até os dentes com a pior das armas, a palavra, expõe a realidade e traz um dos filmes mais violentos do ano.
Nota: 9,0


Título Original: August: Osage County
Direção: John Wells
Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Chris Cooper, Ewan McGregor, Margo Martindale, Sam Shepard, Julianne Nicholson, Juliette Lewis, Abigail Breslin, Benedict Cumberbatch, Dermot Mulroney, Misty Upham
Produção: George Clooney, Jean Doumanian, Grant Heslov, Steve Traxler, Bob Weinstein, Harvey Weinstein
Roteiro: Tracy Letts (roteiro e peça)
Ano: 2013
Duração: 120 min.
Gênero: Drama

Beverly e Violet Weston estão casados há mais de 40 anos e têm três filhas crescidas, Barbara, Karen e Ivy. Quando Beverly desaparece, a família se reúne na casa dos Weston no Contado de Osage, no infernal deserto do Oklahoma. Mas é quando descobrem que Beverly cometeu suicídio que a coisa esquenta de forma inacreditável. Barbara, sua filha e seu marido, de quem ela está se separando; Karen e seu noivo; Ivy; Mattie Fae, irmã de Violet, seu filho e seu marido, todos se reúnem em volta da mesa de jantar na casa dos Weston para prestar condolências à Violet.


Não se engane com a primeira cena do longa. A troca de palavras sutis entre Violet e Beverly não é apenas uma pequena discussão entre dois velhinhos que se amam. Não se engane pela primeira música tocada no filme. A animada “Lay Down Sally”, de Eric Clapton, está longe de ser a representação do humor da família Weston. A emocionante “Last Mile Home”, é bem mais apropriada. A história pode parecer de uma família que acaba de passar por um momento difícil e está se desestruturando, entretanto, os Weston jamais foram uma família estruturada. O calor do Oklahoma se parece em muito com o clima quente, áspero e seco que ronda cada membro dessa família, e pior, que acaba contagiando cada indivíduo que se torna um membro do clã Weston. O suicídio de Beverly também não é uma coincidência: após tantos anos passando vergonha por seu hábito desagradável de beber, ele resolveu afogar a si próprio após ter sido afogado a vida toda pelo álcool e pelas palavras de sua esposa. E, como se não bastasse, Violet está com câncer na boca, sua arma infalível contra a maior parte dos integrantes de sua família.


A matriarca, no entanto, jamais usou seus artifícios sem propriedade, o que não significa que ela cobre alguma coisa de qualquer pessoa, Violet simplesmente diz a verdade na cara de todos. Diz não. Violet arremessa verdades ofensivas, sendo fria, inapropriada e invasiva de todas as formas imagináveis por um homem. E o mais louco em tudo isso é que Violet não se contenta em “conversar” com pessoas que, como Ivy, escutam tudo de boca fechada. Karen, que ri de tudo e finge que a vida é perfeita, também não é uma opção para a fúria da megera. Violet gosta dos que respondem, dos que mostram estarem incomodados, dos que tentam ser mais terríveis que ela. Violet gosta dos sets em que luta, hostilmente, com Barbara, Mattie Fae e, especialmente, Beverly. São esses que a enfrentam que deixam a boca cancerosa de Violet sedenta por palavras ofensivas. E não se engane, também, se está pensando que Mattie Fae é diferente da irmã. Charlie, o marido, e Pequeno Charlie, o filho, são seus alvos: Pequeno Charlie fica acuado, tem medo da mãe e faz o possível para não deixá-la brava, com Charlie a coisa é diferente, ele a enfrenta e a coloca em seu lugar, e é por amá-lo e por ficar calada uma vez ou outra que os dois estão há 38 anos casados.


Diretor de nove episódios da aclamada série “Plantão Médico” (1998 – 2009), de quatro episódios da premiada série “Shameless” (2011 - 2014) e do mediano filme “A Grande Virada” (2013), John Wells é vencedor de seis prêmios Emmy e conhecido mais por seus trabalhos como produtor (o que inclui a produção de uma das melhores minisséries dos últimos anos “Mildred Pierce” [2011]). A notícia de que ele seria o realizador de um filme como esse deixou muitas dúvidas quanto às possibilidades de seu trabalho. O longa, inquestionavelmente, lembra muito uma peça de teatro. Possui marcações teatrais, direção de arte teatral, diálogos teatrais que parecem intermináveis e, até mesmo, atuações um tanto teatrais. Mas isso não significa que o trabalho tenha ficado ruim. Muito pelo contrário. Apesar das marcações incomodarem um pouco, a arte do filme é linda, o figurino é característico e melancólico como esperamos que seja, o roteiro é espetacular, com alguns dos melhores diálogos do ano e, ainda mais interessantes, com falas que mais parecem monólogos que se estendem por minutos e minutos e as atuações são o que há de mais belo. As brigas que o contexto proporciona para a família também são interessantes e nos estimulam a cada momento. Os momentos de conflito entre Violet e Barbara são intensos, a conversa entre Mattie Fae e Charlie é definitiva, as revelações do passado são tocantes, os escândalos de Violet são deprimentes e suas ofensas são inacreditáveis. A trilha sonora também é algo primordial, trazendo canções fortes e adequadas, que misturam o calor do verão em Osage County, a intensidade da vida dos Weston e a afeição inevitável que uns nutrem pelos outros.


Meryl Streep e Julia Roberts são a dupla indicada ao Oscar desse longa. E que dupla, diga-se de passagem. Poucas vezes atrizes se deram tão bem na telona como essas duas. No Oscar, Meryl é indicada como melhor atriz principal e Julia como melhor atriz coadjuvante. Como ocorreu com Judi Dench e Cate Blanchett em “Notas Sobre um Escândalo” (2006) – indicadas, respectivamente, nas mesmas categorias que Streep e Roberts -, o difícil é dizer qual das duas é a protagonista e qual é a coadjuvante. Meryl, mais uma vez, está magnífica. Ela é uma Violet velha, indefesa fisicamente, frágil, viciada em calmantes, com poucos cabelos devido à quimioterapia. Mais uma vez somos enganados, pois quando a atriz coloca a peruca escura e os óculos, esquecemos por completo a boa mãe que a atriz viveu em “Um Amor Verdadeiro” (1998), onde sua personagem também lutava contra o câncer, e somos obrigados a dar espaço a uma mulher má, perversa, desagradável, que se delicia com o prazer de ofender os outros, e se esses outros são sua família, melhor ainda. Indicada pela décima oitava vez ao Oscar (recorde que deixa qualquer outro ator ou atriz muito para trás), essa dama da sétima arte não parece pretender humanizar sua personagem, em um dos momentos mais belos do longa, Violet conta uma passagem de sua infância que nos faz sentir pena, até ela mesma mencionar que é uma mulher diabólica e, ao concordarmos com ela, deixamos de sentir qualquer remorso. E uma das culpadas por ficarmos tão enojados com Violet é Barbara, personagem de Julia Roberts. Talvez por vermos que toda a monstruosidade da matriarca está refletindo em apenas uma coisa: a reprodução de outro monstrinho que tenta se igualar à mãe. Roberts tem a mesma fúria nos olhos, o mesmo desejo insaciável de aniquilar os outros apenas com palavras. A mesma intensidade vista em Streep, vemos em Roberts. Em uma das cenas mais deliciosas, e engraçadas do longa, Barbara, Violet e Ivy estão almoçando e Barbara se enfurece com a irmã e age como Violet: após Ivy atirar um prato no chão, Barbara debocha fazendo o mesmo e gritando que todos devem jogar o prato no chão, Violet, sorrindo diabolicamente, atira seu prato como se fosse algo normal a ser feito. Nessa cena, e na cena em que Barbara se joga sobre a mãe para tomar os calmantes de sua mão, vemos a perfeição na interpretação de Julia, que consegue, até mesmo, se parecer fisicamente com Streep por suas feições. E mais impressionante: compreendemos que, como Violet, Barbara se diverte com tudo aquilo.


O restante do elenco não é menos sublime que a dupla citada à cima. Não podemos dizer que esse ou aquele intérprete segura essa ou aquela cena. A esses gladiadores, foi dado o mesmo treinamento, as mesmas armas, as mesmas chances de treinar antes de entrarem na arena, são os personagens que sairão vivos, ou mortos, não os atores. Margo Martindale é Mattie Fae, outra mulher perversa e rancorosa. É ela quem nos faz sentir que existem apenas duas possibilidades para um filho de uma dessas duas irmãs: ou ele se torna como elas, ou se torna um ser que se sente impotente e insignificante até uma etapa da vida, aliás, os quatro filhos delas se sentem assim, alguns mais, outros menos. Martindale é forte e não tem nada que faça parecer que sua interpretação é uma tentativa de se igualar a Streep ou alguma referência à sua personagem estar tentando imitar a irmã. Martindale deixa claro que ambas são assim, cada uma possui uma personalidade, mas ambas são o retrato da mãe que tiveram. Chris Cooper e Benedict Cumberbatch são Charlie e Pequeno Charlie, respectivamente. Cooper está majestoso, trazendo um Charlie que já sabe como lidar com a esposa e segura as pontas de tanta loucura; Cumberbatch é o retrato da opressão e vemos, claramente, como o Pequeno Charlie criado por ele está tentando sustentar, sobre sua cabeça, o enorme peso de ser filho de Mattie Fae. Mas o Clã Weston nada seria sem Juliette Lewis e Julianne Nicholson, Karen e Ivy. Enquanto Lewis traz uma personagem irritantemente sorridente e que finge que a vida é um paraíso e que ela vive em um conto de fadas desde que conheceu o noivo, Nicholson nos traz uma personagem simples, cativante que também poderá irritar a quem não se contenta com pessoas fracas. Abigail Breslin mostra que cresceu, vivendo Jean, a filha de Barbara, a pobre coitada que, provavelmente, está herdando o dom da língua maldita das mulheres de sua família. Ewan McGregor e Dermot Mulroney são os genros de Violet, Bill, marido de Barbara, e Steve, noivo de Ivy. Os atores provam, mais uma vez, que são muito mais que rostinhos bonitos e trazem personagens distintos. Enquanto Bill é um homem íntegro que, por não aguentar mais a genética da esposa, arrumou uma amante, mas que está tentando concertar as coisas – ao menos com filha -, Steve é um canalha que não tem ideia do que o espera entrando para essa família ao casar com uma das filhas de Violet Weston.



É triste ver como as interpretações magníficas e todo o resto que compõe esse filme foram esnobados pelas grandes premiações. Provavelmente, os votantes ainda não estão preparados para ouvir tantos palavrões saindo de bocas tão decentes quanto as de Meryl Streep e Margo Martindale, ou não conseguiram assistir ao filme sem encontrar um pouco de sua família ali dentro (e você também encontrará) e ficaram revoltados com isso. Ou, ainda, ninguém está pronto para uma trama com tantas verdades, tantas surpresas, tantas ofensas, tantas loucuras entre pessoas que deviam se amar e se respeitar e se tratam como se a família fosse um fardo. As metáforas escondidas, ou escrachadas, da trama, são o que dão o tom melancólico e até agradável. As verdades atiradas pela boca de Violet, como se sua língua fosse o componente principal de uma catapulta que atira pedras para demolir castelos, são, sem dúvida, terríveis e são destinadas a qualquer efeito que não seja lisonjeador.  Mas também não direi que muito do que é dito aqui, se escutado com atenção, deixa de ter graça. Violet, como outra personagem de Streep já foi apontada, é uma sádica notória. Sua risada é violenta, seu temperamento é violento, suas palavras são violentas e até a forma como anda, abraça e diz palavras bonitas (que são raras, mas existem) parece mais um tapa na cara a um carinho de uma mãe amável. Esse filme não é do tipo que traz alguma lição de vida. Ele não quer mostrar a ninguém como o amor é importante ou como a amizade salvará todos das desgraças a que estamos fadados. O longa se refere às decadências vivenciadas pelo ser humano ao longo da vida, que é “longa demais”, como apontaria T. S. Eliot. E também é uma forma de mostrar a intimidade de uma família que representa qualquer outra, afinal, todas as famílias do mundo podem fingir que tem vidas perfeitas e podem esconder o passado, mas todos os clãs a que pertencemos possuem um teto de vidro, e ele não é laminado. Quando estoura, seus cacos se espalham para todos os lados, e será muito difícil juntá-los, e renuí-los será impossível.Também não vemos a referência a uma mãe que há muito começou a perder o controle sobre a vida das filhas, já que Violet não quer controlar, quer importunar. Esse filme é uma exposição afiada e irônica, assim como a boca cancerosa de Violet Weston sempre será. 

VENCEDORES DOS SINDICATOS:
Sindicato dos Roteiristas:
Melhor Roteiro Original: Spike Jonze, por Ela
Melhor Roteiro Adaptado: Billy Ray, por Capitão Phillips, baseado no livro “A Capitain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALS, and Dangerous Days at Sea”, de Richard Phillips com Stephan Talty
Melhor Roteiro para Documentário: Sarah Polley, por Stories We Tell
USC Roteiristas (Roteiros Adaptados):
John Ridley, por 12 Anos de Escravidão
Sindicato dos Diretores:
Melhor Direção em Filme: Alfonso Cuarón, por Gravidade
Melhor Direção em Documentário: Jehane Noujaim, por The Square
Sindicato dos Produtores:
Melhor Filme (empate): 12 Anos de Escravidão e Gravidade
Melhor Animação: Frozen: Uma Aventura Congelante
Melhor Documentário: We Steal Secrets: The Story of WikiLeaks
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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

045. UMA LINDA MULHER, de Garry Marshall

Uma forma simples, bela, inteligente e agradável de quebrar tabus sem ofender à nenhuma geração.
Nota: 9,0


Título Original: Pretty Woman
Direção: Garry Marshall
Elenco: Julia Roberts, Richard Gere, Ralph Bellamy, Jason Alexander, Laura San Giacomo, Alex Hyde-White, Amy Yesbeck, Elinor Donahue
Produção: Aron Milchan, Steven Reuther
Roteiro: J. F. Lawton
Ano: 1990
Duração: 119 min.
Gênero: Comédia / Romance

Durante o dia, milhões de pessoas passam pela Calçada da Fama em Hollywood fotografando as estrelas de pessoas famosas. Durante a noite, essas estrelas e esses nomes servem para apenas um propósito: delimitar o espaço de atendimento das prostitutas. Vivian Ward é uma dessas prostitutas que trabalha na Calçada da Fama. Edward Lewis, por sua vez, é um empresário rico que está de passagem por Los Angeles e precisa de companhia. Agora, Vivian e Edward irão unir o útil ao agradável.


O sonho de qualquer mulher, não importa a classe social ou o tipo de emprego que tenha, é, em algum momento da vida, ser arrebatada por um belo homem que se proponha a fazer tudo por ela, ou, ao menos, sustentá-la. E se esse “príncipe encantado” vier montado em um porshe ao invés de um cavalo e estiver hospedado na suíte do hotel mais caro de um grande cidade ao invés de possuir castelos, melhor ainda. É isso o que acontece com Vivian, e mais, ele está disposto a gastar horrores de dinheiro com ela para que ela se torne uma dama. O problema é que esse príncipe propõe um negócio, não um plano de vida: toda essa mordomia, facilidade e esse sexo com um homem bonito durará apenas alguns dias e, depois, Vivian voltará a ser apenas mais uma profissional do sexo andando de um lado ao outro da Sunset Boulevard. Esse filme poderia ser um drama terrível sobre a pobre prostituta que vê sua chance de ser uma rica mulher ir por água abaixo ou um filme imbecil sobre uma prostituta que ve sua chance de dar um golpe ir por água a baixo, isso, se não fosse dirigido pelo ótimo Garry Marshall. O diretor, indicado a 4 Emmy’s, foi o responsável não apenas por popularizar Julia Roberts como um síbolo feminino de beleza para mulheres e de desejo para homens, e sim, por trazer de volta as comédias românticas que, como “Uma Linda Mulher”, “Noiva em Fuga” (1999), “Idas e Vindas do Amor” (2010) e “Noite de Ano Novo” (2011), celebram o amor de forma bela, misturando o real com o fantasioso, a verdade com a idealização e nos servindo como modelo para termos a certeza de que românticos ainda não foram extintos.


Foi com “Uma Linda Mulher” que Richard Gere e Julia Roberts se tornaram símbolos sexuais sem apelação alguma, ou seja, eles passaram a ser desejados e admirados, mas nunca representando vulgaridade. Roberts ainda não tinha uma carreira consolidada, havia realizado poucos filmes e era um iniciante no auge de seus 23 anos. Não era o ideal de beleza que temos hoje, mas já era uma atriz muito competente que não deixou a peteca cair em nenhum momento do longa, provando sua qualidade como atriz e se tornando a mais linda mulher do mundo por sua simpatia, seu carinho e seu talento. Como Vivian, ela eternizou a beleza dos anos 90 e nos trouxe uma personagem que batalha na vida para atingir seus sonhos. Além disso, Roberts nos presenteia com uma mulher simples, sincera, honesta e de um coração enorme, que prova que os valores espirituais sempre serão mais importantes que os valores materiais. Richard Gere, por outro lado, já era conhecido e tinha uma carreira consolidada. Já era um homem que chamava a atenção, mas interpretar o rico Edward Lewis lhe trouxe o apelo sentimental com o qual o personagem trata uma prostituta e lhe garantiu o posto de homem mais desejado da década de 90. Além disso, Gere tem uma interpretação belíssima de um homem sem preconceitos, que não trata Vivian de forma diferente pelo fato de ela ser uma profissional do sexo.


De tempos em tempos, o cinema aparece com novidades impressionantes que desafiam os padrões sociais e culturais do mundo todo. “Bonequinha de Luxo” (1961) trouxe Audrey Hepburn no papel de uma prostituta e George Peppard como praticamente um gigolô, porém, em momento algum os personagens são tratados diretamente como tais: Hepburn volta para casa apenas ao amanhecer, Peppard se despede de uma “amiga” recebendo dinheiro dela. Em 1976, progredimos com esse tema e Martin Scorsese, em seu brilhante “Taxi Driver”, chegou a mostrar uma jovem prostituta levando um cliente para seu quarto. No início da década de 80, o próprio Richard Gere nos mostrou o lado masculino da coisa em “Gigolô Americano” (poucas vezes a prostituição masculina seria mostrada de forma tão reveladora). Em 1990, “Uma Linda Mulher” rompeu com todos os padrões possíveis e revelou uma prostituta que não via sua vida como depressiva, que fazia isso por não ter outra opção, mas também por saber como era mais fácil agir dessa forma a tentar outros trabalhos considerados mais dignos pela sociedade. Cinco anos depois, a prostituição masculina voltou a ser tema com “O Diário de um Adolescente”, protagonizado por Leonardo DiCaprio, mostrava um jovem viciado que tinha que se prostituir para comprar drogas. “Moulin Rouge! – Amor em Vermelho” (2001), devido a toda sua teatralidade e sua beleza estética, deixa a prostituição subentendida em um contexto relacionado a uma casa de shows. Por fim, com nacionalidade brasileira, o longa “Bruna Surfistinha” (2011), trouxe Deborah Secco na adaptação da vida da garota de programa Raquel Pacheco sem pudores ou vergonhas.



Nesse contexto, “Uma Linda Mulher” foi um divisor de águas, não apenas por se tratar sobre o tema da prostituição, que passou a ser mais abordado e menos preconceituoso no cinema após esse filme, e sim, como um modelo de quebra de tabus. Qual o problema em ser uma prostituta? Qual o problema em ser homossexual? Qual o problema em ter vários relacionamentos? Qual o problema de se falar sobre sexo? Qual o real problema de gostar de fazer sexo? Qual o problema de pessoas velhas se apaixonarem e quererem viver esse amor? Qual o problema de pessoas de idades muito diferentes se apaixonarem? Em suma, qual o problema de um ser humano querer viver sua vida sem ser julgado? E quem somos nós para julgar os desejos ou moldes alheios? O que menos importa nesse filme é se é um longa com qualidade técnica ou não (até por que, a qualidade técnica de 1990 está longe de ser comparada a do tempo em que vivemos hoje), o que interessa é que Vivian e Edward nos mostram  que o mais belo da vida é deixar de se importar com os outros, viver sua vida sem se importar com o que os outros pensam e sem cuidar da vida alheia. Esse casal improvável mostra, de forma simples, bela e romântica que mais vale viver um amor, seja qual for, a chorar por sua perda no futuro.


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sábado, 23 de fevereiro de 2013

094. O CASAMENTO DO MEU MELHOR AMIGO, de P. J. Hogan


A clássica comédia água com açúcar liderada por Julia Roberts.
Nota: 8,5


Título Original: My Best Friend’s Wedding
Direção: P. J. Hogan
Elenco: Julia Roberts, Dermant Mulroney, Cameron Diaz, Rupert Everett, Philip Bosco, M. Emmet Walsh, Rachel Griffiths, Carrie Preston, Susan Sullivan, Chris Masterson
Produção: Ronald Bass, Jerry Zucker
Roteiro: Ronald Bass
Ano: 1997
Duração: 105 min.
Gênero: Comédia / Romance

Julianne e Michael foram os melhores amigos na juventude, além disso, acabou rolando um clima e os dois tiveram um momento “amizade colorida”. Todavia, esse tempo passou e eles acabaram se distanciando fisicamente um do outro. Apesar dessa distância, um tempo depois Michael liga para Julianne e conta que irá casar em três dias e quer que ela seja a madrinha. O problema é que Julianne descobriu que sempre foi apaixonada por ele e precisa correr contra o tempo para acabar com esse casamento.


Cinematograficamente falando, esse filme não contribuiu em nada de muito relevante, além do fato de ter sido uma das grandes comédias de sua época, entretanto o fato é que, popularmente, o longa conquistou o mundo todo. Isso se deve, talvez, ao fato de ser original a história de uma mulher tomando as rédeas e tentado conquistar um homem ao invés de apenas acabar com a vida de sua rival, digo, Julianne até tenta provar que a noiva de Michael é pouco para ele se comparado a ela, mas o que ela mais tenta fazer é mostrar para ele como ele ainda a ama e a deseja. Ao menos, é isso o que Julianne coloca em sua própria cabeça e faz virar algo real, afinal, para ela, não há como duas pessoas com a história deles se esquecerem tão fácil. A grande sacada do filme está na confusão de sentimentos dos protagonistas, digo, quem nunca sentiu que estava completamente apaixonado por amigo ou uma amiga, e, na realidade, tudo não passava de devaneios de uma mente perturbada ou pervertida? Há ainda aqueles que passaram por isso, e nunca esqueceram essas paixões, mesmo que elas não tenham sido concretizadas. Por fim, existem aqueles que amaram os amigos e, surpreendentemente, foram correspondidos e viveram uma boa vida juntos. Enfim, durante o longa somos pegos de surpresa pela nossa própria falta de que lado tomar na história: estamos do lado de Julianne, que deseja voltar a ter laços mais estreitos com o homem que acredita amar, ou achamos mais correto defender a noiva de Michael, uma jovem apaixonada que está perdida em meio aos planos de Julianne? E será mesmo que Julianne ama Michael, ou ela apenas está com ciúmes por que ele encontrou alguém que ela acredita que preencherá o vazio que ele sente pela ausência dela? E quanto ao pobre Michael? O que ele deve fazer para conseguir equilibrar tudo? No final das contas, Julianne vira aquele típico personagem que surgiu em meados dos anos 90 e não deixaram o gosto do povo até hoje: o do anti-heroi que defende seu próprio bem, não que ele queira destruir os outros a sua volta como fazem os vilões, ele apenas deseja ser feliz, e o resto que se dane. Em meio a toda essa confusão, está a ótima trilha sonora do filme, composta por James Norton Howard e com grandes clássicos dos anos 90 como “I Say A Little Prayer”, cantada no jantar de noivado de Michael pelo melhor amigo gay de Julianne.


A década de 1990 foi marcada pela definitiva entrada de Julia Roberts no cinema: conquistou o público e a crítica com “Uma Linda Mulher”, chegando a ser indicada ao Oscar de melhor atriz pelo papel. Mas aqui devemos falar sobre sua atuação como Julianne que, bem como no filme do começo dos anos 90, é uma comédia bem construída que exige um bom desempenho de Roberts, pois, é aqui que ela deve mostrar um pouco de maturidade em alguns sentidos e a adolescente em está dentro de todo ser humano em outros, por uma lado ela precisa agir conscientemente para que tudo de certo, por outro, ela precisa voltar à época em que ela e Michael eram dois jovens bobos que acabaram tendo um romance. Ao lado de Roberts está Dermot Mulroney, como Michael, um homem apaixonado, típico desse tipo de história: ele não percebe que Julliane está apaixonada por ele, e apenas acredita que ela está tentado fazer o melhor para ser uma boa madrinha em seu casamento. As cenas mais cômicas do longa ficam a cargo de Cameron Diaz e Rupert Everett. Ela é Kimberly, a noiva, uma jovem de vinte anos que está realizada por concretizar o tal sonho do casamento, uma menina bobinha criada na riqueza que só se importa com o amor e vê em Michael em homem integro, bonito e inteligente com quem poderá casar, ter filhinhos lindos e loiros e viver feliz para o resto da vida. Everett é o amigo gay de Julianne, George, talvez o mais racional do elenco principal, é dele a árdua tarefa de deixar claro a Julianne que o que ela está fazendo é uma completa loucura, mas que ele estará ao seu lado para qualquer momento, é a perfeita representação do amigo fiel que está ao nosso lado para qualquer momento.


“O Casamento do Meu Melhor Amigo” talvez seja, ao lado de “Uma Linda Mulher”, um dos grandes marcos da comédia inteligente pós moderna. É claro que é algo difícil encontrar homens heterossexuais que assumam gostar de ambos os filmes, entretanto, o que está em jogo aqui é a forma como os temas são abordados, e não o público ao qual os filmes se destinam. Em termos de qualidade, “Casamento” é uma comédia que vale mais a pena ser assistida que centenas de comédias no estilo americano, realizadas ou por pessoas tão estúpidas e imbecis quanto o próprio resultado da trama, ou por seres intelectualmente muito superiores aos que assistiram aos filmes, e que só estão interessados nos lucros que uma comédias dessas possa gerar. O fato é que, ao trazer uma comédia romântica com uma protagonista que deseja roubar o noivo de outra, o filme nos apresenta uma anti-heroína impossível de não se apaixonar e torcer do começo ao fim, dando ao filme uma característica totalmente original e única. Quanto ao público que se deseja atingir, é óbvio que são o público feminino e o homossexual – parcela da população que estava em alta na época -, e quanto a esse objetivo, de fato, poucos filmes foram tão bem sucedidos.


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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

138. (ESPECIAL OSCAR 2013) ESPELHO, ESPELHO MEU, de Tarsem Singh


Uma adaptação que tinha tudo para dar errado, e deu.
Nota: 6,5


Título Original: Mirror Mirror
Direção: Tarsem Singh
Elenco: Julia Roberts, Lily colins, Armie Hammer, Nathan Lane, Jordan Prentice, Mark Povinelli, Joe Gnoffo, Danny Woodburn, Sabastian Saraceno, Martin Klebba, Ronald Lee Clarkm, Sean Bean
Produção: Bernie Goldman, Ryan Kavanaugh, Brett Ratner
Roteiro: Marc Klein, Jason Keller, Melisa Wallack, Jacob Grimm (estória) e Wilhelm Grimm (estória)
Ano: 2012
Duração: 106 min.
Gênero: Aventura / Fantasia

São poucas as pessoas que não conhecem o conto dos irmãos Grimm sobre a jovem Branca de Neve, que perde a mãe bem cedo, depois o pai – um rei – morre e ela se vê obrigada a ficar sobre os cuidados da madrasta, a Rainha. No conto, um caçador é contratado, pela má Rainha, para matar a jovem e trazer seu coração. O homem fica com pena e leva o coração de uma corça, deixando a menina fugir. Branca de Neve encontra anões que a ajudam, mas acaba – após muitas tentativas - sendo “assassinada” pela madrasta, que também é uma bruxa. Ainda no conto, a madrasta morre, um príncipe salva a vida de Branca de Neve ao beijá-la e os dois vivem felizes para sempre.


No filme, a mãe de Branca de Neve morre ao dar a luz, seu pai se apaixona pela mulher mais bela do mundo e acaba casando com ela. De forma muito misteriosa o rei desaparece e é dado como morto pela “Besta” que habita as florestas. Nesse contexto, Branca de Neve é criada pela madrasta, que a tranca em uma torre e, apesar de não deixar faltar nada para a menina, a esconde do mundo. Entretanto, Branca de Neve acaba fugindo e encontra seu Príncipe. Porém, a Rainha está falindo e resolve casar com o mesmo jovem. Branca de Neve volta ao castelo e a Rainha manda um homem matá-la na floresta, mais uma vez a menina acaba conseguindo fugir e encontra os anões, que são ladrões. Agora, Branca de Neve terá de ajudar seu verdadeiro amor, destruir a Rainha, tomar seu trono de volta, matar a Besta e voltar para casa a tempo de fazer algum relaxamento de beleza.


Para aqueles que não recordam, na história original, a maior marca da Rainha talvez seja sua principal fala: “Espelho, espelho meu... Há, neste mundo, alguém mais bela do que eu?”. Durante toda a vida a resposta foi “não, minha bela Rainha”, entretanto, ao que o espelho responde “Não minha Rainha, mas há uma jovem que está predestinada a se tornar a mulher mais bela da Terra. Branca de Neve”, a fúria da Rainha é tão grande que ela manda a jovem ser assassinada. Talvez a única coisa realmente boa e interessante aqui, seja a forma como o espelho é mostrado na história. Para conversar com ele a Rainha apenas o invoca e entra em uma dimensão completamente diferente, na qual o seu reflexo a espera para conversar com ela. Claro que é esse reflexo que possuí o dom da magia, e a Rainha é alertada de como o uso da magia pode trazer consequências. A beleza estética do filme condiz com o que esperamos da Rainha: Tarsem Singh, diretor de “Imortais” (2011) tem ao seu lado uma bela fotografia, uma boa mixagem de som, efeitos de primeira, uma maquiagem impecável e um figurino de cair o queixo, indicado ao Oscar melhor figurino esse ano. Todavia, as atuações dos protagonistas são uma vergonha, o roteiro não possui nexo e o desfecho acaba com toda a história.


Quando li, não lembro onde, que Julia Roberts faria a Rainha em uma adaptação da Branca de Neve e os Sete Anões, confesso que fiquei empolgado, afinal, ela pode não ser a mulher mais bela da Terra, mas imaginai que sua atuação a elevaria a esse patamar. Eu estava enganado. Ela está bonita, não posso negar, mas a personagem é tão imbecil e sem toda a inteligência e pretensões que a personagem original tinha que até mesmo Roberts dá suas escorregadas na neve que está caindo e torna sua atuação ora boa, ora surpreendente, ora péssima. Lily Collins é uma garota jovem e bonita, mas a nova versão lutadora de Branca de Neve jamais vai colar na história, além disso, em seus momentos inocentes, ela parece mais uma garota mimada que uma menina que viveu trancada em um castelo sem pai ou mãe. Apesar disso, ver a força de vontade da personagem de lutar contra a Rainha é algo incentivador. Armie Hammer, apesar de seus 26 anos de idade, é o melhor ator de sua idade em atividade no cinema, e, sem dúvidas o mais promissor: em dois anos de trabalho no cinema ele nos apresentou duas interpretações impecáveis em “A Rede Social” (2010) e “J. Edgar” (2011). Qual foi minha decepção em vê-lo interpretando um papel do verdadeiro mocinho imbecil, a gota d’gua é vê-lo como um “cachorrinho” quando toma uma poção mais idiota que sua personagem para que a Rainha o convença de se tornarem marido e mulher.


A história de Branca de Neve é um dos contos mais lidos e conhecidos no mundo, não obstante, é a animação mais importante da história do cinema por ter sido o primeiro longa metragem do gênero. É primordial dizer que o problema não está, realmente, nas interpretações de Collins (aliás, a “menos ruim” de todos), Roberts ou Hammer, e sim na forma tosca como suas personagens são apresentadas. A beleza da rainha e toda sua classe a precedem, mas o problema é o quanto a personagem consegue ser fútil e sem graça. Já o príncipe, é uma total vergonha para os príncipes de plantão do mundo dos contos de fadas. Tendo em vista todos os problemas do filme – problemas esses, necessários de serem resolvidos para termos um bom resultado -, pergunto-me, incansavelmente, qual a dificuldade de realizar um longa metragem idêntico ao conto dos irmãos Grimm, mas com seres humanos reais vivendo as personagens.

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