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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

044. MORTE SOBRE O NILO, de John Guillermin

O elenco de peso e a história de Agatha Christie sustentam uma adaptação clássica.
Nota: 9,0


Título Original: Death on the Nile
Direção: John Guillhermin
Elenco: Peter Ustinov, Jane Birkin, Lois Chiles, Bette Davis, Mia Farrow, Jon Finch, Olivia Hussey, I. S. Johar, George Kenndy, Angela Lansbury, Simon MacCorkindale, David Niven, Maggie Smith, Jack Warden, Harry Andrews, Sam Wanamaker, Froçois Guillaume, Barbara Hicks, Celia Imrie e Andrew Manson
Produção: John Brabourne, Richard B. Goodwinm e Norton Knatchbull
Roteiro: Anthony Shaffer e Agatha Christie (romance)
Ano: 1978
Duração: 140 min.
Gênero: Suspense / Thriller

Em pleno Rio Nilo, a bordo do cruzeiro S. S. Karnak, a jovem milionária Linnet Ridgeway é assassinada. Todos no barco possuem algum motivo para querer ver a jovem morte. Porém, o que o assassino não imaginava era que o astuto Detetive Hercule Poirot, qua também está a bordo, pode desvendar todo o mistério com a ajuda de seu amigo, o Coronel Race. Agora, o assassino e o detetive travarão uma batalha épica enquanto o cruzeiro flutua sobre o rio Nilo, e apenas um deles sairá vencedor.
A escritora Agatha Christie ficou conhecida no mundo todo como “Duquesa da Morte”, “Rainha do Crime” e outros títulos referentes a sua maestria como romancista policial. Sendo assim, é impossível traçar uma sinopse realmente decente de qualquer uma de suas histórias sem revelar alguma coisa que deve permanecer em segredo àqueles que ainda não conhecem o começo, o meio e o fim (sempre surpreendente) de determinado trabalho. Portanto, vou me ater a justificar, de forma rápida e concisa os motivos que cada personagem teria para matar Linnet. A jóias da protagonista são cobiçadas pela velha Sra. Van Schuyler, que está acompanhada pela Srta. Bowers, que teve a família falida por um passado relacionado aos Ridgeway. A criada de Linnet, Louise, está chateada com sua patroa pois ela se nega a dar o dote para que Louise se case com um homem que, segundo Linnet, é inadequado. A escritora Salome Otterburne está sendo processada por Linnet e Rosalie, sua filha, deseja proteger a mãe. O administrador americano Andrew Pennington tem fraudado a família Ridgeway há anos. Jacqueline de Bellefort está chateada com Linnet por sua amiga ter roubado-lhe o noivo. Simon Doyle, marido de Linnet, é o maior beneficiado no testamento de Linnet.


O diretor inglês, John Guillermin foi o responsável por filmes bem populares e bem agitados entre o final da década de 50 e o final da década de 80. Dentre eles: “A Maior Aventura de Tarzan” (1959), “Crepúsculo das Águias” (1966), “Inferno na Torre” (1974), “King Kong” (1976) e “Sheena – A Rainha das Selvas” (1984). Apesar de nenhum de seus filmes ser ovacionado pela crítica ou por especialistas, é necessário lembrar que alguns deles foram grandes precursores nas técnicas de efeitos especiais no cinema, e, nesse contexto, é impossível deixar de mencionar “King Kong”, que se tornou uma referência seguida por alguns diretores da era sexo-drogas-rockn’roll do cinema da década de 80. Em “Morte Sobre o Nilo”, não há efeitos, nem grandes cenas de ação, e é isso que torna o longa algo tão singular. Cenas como a que o grupo do cruzeiro visita um monumento onde Linnet sofrera um atentado (alguém jogará uma pedra gigante em direção à moça) são perfeitas justamente por não possuírem som algum além do som dos sapatos ou do vento. No barco, por outro lado, a beleza fica por conta de como o diretor consegue usar muito bem os pequenos espaços que possui.


Nito Rota, sem dúvida é um dos maiores compositores da historia do cinema, se não for o maior. Era o preferido de Fedreico Fellini e compôs a trilha sonora inesquecível dos dois primeiros longas da Trilogia “O Poderoso Chefão” (1972 – 1974) e de outros inúmeros clássicos da Sétima Arte. Seu trabalho aqui, como citei acima, é mesclar cenas com alto apelo musical e saber que algumas delas serão melhor recebidas sem música alguma, apesar de ser uma trilha sem grandes composições, é perfeita para o filme, trazendo a calma aparente do Rio Nilo quando necessário, e mostrando a ferocidade dos famosos répteis que habitam o local em outros momentos. Faço uma ressalva para uma cena realmente bela do longa: Poirot, obviamente, conversa com todos à bordo para tentar desvendar o caso. No momento em que vai dialogar com a personagem de Bette Davis, a veterana, na época com 70 anos, mais de 100 títulos, 2 Oscars de melhor atriz, outras 8 indicações na categoria, está sentada, sozinha no local mais alto e aparentemente mais agradável e tranquilo da embarcação, ela parece descansar, parece não se importar com tudo o que esta acontecendo a sua volta e se mostra como uma mulher fria, serena e inexpugnável. Mais tarde, quando o detetive reúne todos em uma sala para relevar que descobriu quem é o assassino, Bette é uma verdadeira estrela, literalmente, ela brilha como se fosse um astro e é impossível não notá-la. Davis parece uma faraoa, endeusada pela telona do cinema. Pode ser apenas um devaneio de um grande fã, mas que é algo a se pensar, isso é.


Peter Ustinov, intérprete de Hercule Poirot, venceu 2 Oscars de melhor ator coadjuvante e eternizou o personagem, sobretudo, na televisão. No cinema, foram apenas 3 filmes vivendo o detetive, na televisão foram seis vezes. “Morte Sobre o Nilo” foi seu primeiro trabalho como o personagem. Não li nenhum livro de Agatha Christie, mas acredito que Poirot seja quele tipo de personagem 8 ou 80, ou seja, ou ele é muito sério ou muito irônico, ou ele é muito esperto ou muito idiota, eu outras palavras, ou ele se parece com Holmes ou com Clouseau. Se minha aposta fosse certa, Ustinov é perfeito no papel, pois acredito que Poirot sejá ainda mais sério e mais inteligente que Holmes. Dessa forma, há pouco a falar sobre a interpretação do ator, além de dizer que ele é perfeito nos momentos sérios do longa e melhor anda quando o personagem debocha dos suspeitos. Dentre os demais personagens destaco apenas alguns deles. Lois Chiles é Linnet, apesar de morrer logo no filme, a atriz mostra um pouco de seu talento, o que é o suficinete para não haver críticas negativas sobre ela. A Sra. Van Schuyler é vivida por Bette Davis,  o retrato do perfil que ela mesma montou: séria, carrancuda, antipática, onipotente e uma verdadeira dama. Davis lida bem com o fato de sua personagem ser cleptomaníaca e, apesar de não ter grandes cenas, nunca nos esquecemos que ela está ali (e isso não se deve apenas pelo brilho). Maggie Smith, uma das maiores atrizes vivas, vive a Srta. Bowers e o primeiro nome que me fez querer assistir a esse filme pela primeira vez (nem sabia que e Davis estava no elenco), nos faria esquecer de Van Schuyler se qualquer outra atriz a tivesse interpretado, tamanha a beleza e a inteligência de sua personagem. Uma mulher tão séria quanto a patroa, Smith nos apresenta alguém que se mostra caridosa quando necessária, mas que, a cima de tudo, é uma pessoa sensata e conformada. Angela Lansbury nos presenteia com a interpretação da alcoólatra Salome, apesar de ter poucas cenas, quando aparece acaba sendo um arraso. Não foi a toa que deixei a dupla Simon MacCorkindale e Mia Farrow por último. Não simpatizo com nenhum deles, que interpretam, respectivamente, Simon Doyle e Jacline De Bellefort, em alguns momentos os dois parecem perfeitos no papel, em outros estão exagerados demais, em outros estão apagados demais e, tendo em vista a excelência desse elenco, é quase inadmissível que duas personagens tão importantes como o marido da morta e a melhor amiga traída da morta sejam interpretados de forma tão decepcionante.

Alguns críticos consideram “Morte Sobre o Nilo” uma das melhores adaptações para o cinema das obras de Agatha Christie. O elenco do longa já fala por si só, aliando isso a um diretor conhecido por renovar o cinema, mais um roteirista experiente em filmes do gênero suspense, mais uma trilha sonora perfeita (indispensável para esse tipo de filme), não duvido que os críticos tenham razão. Se o filme é fidedigno à obra é um detalhe do qual não posso falar, mas posso afirmar, sem sombra de dúvida, que o longa é um filme bem feito que cumpre com seu propósito: mostrar, mais uma vez, que ninguém no mundo superará Agatha Christie tão cedo. O longa é prático, matar é algo que se torna comum, a história nos faz participar de tudo o que acontece, os atores e atrizes dão vida a personagens totalmente diferentes, e é essa diversidade que faz com que, em ao menos algum momento, nos encontremos, também, à bordo do S. S. Karnak, chegando a nos sentirmos até um pouco suspeitos.


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048. DE BICO CALADO, de Niall Johnson

Uma boa comédia de humor negro.
Nota: 7,0


Título Original: Keeping Mum
Direção: Niall Johnson
Elenco: Rowan Atkinson, Kristin Scott Thomas, Maggie Smith, Patrick Swayze, Tamsin Egerton, Toby Parkes, Liz Smith, Emilia Foz, James Booth, Patrick Monckton, Rowley Irlan, Vivianne Moore, Murray McArthur, Morgan Gower, Alex Macqueen
Produção: Julia Palau, Matthew Payne, Nigel Wooll
Roteiro: Richard Russo e Niall Johnson
Ano: 2005
Duração: 103 min.
Gênero: Comédia / Crime / Assassinos

Há mais de trinta anos Rosie Jones, uma mulher grávida, assassinou seu marido e a amante do mesmo. Ela foi internada e sua filha entregue à adoção. Hoje, Walter Goodfellow é um admirado pastor de uma pequena cidade. Casado com Gloria, ele é pai de Holly, uma jovem fogosa, e de Petey, um garoto excluído que sofre bulling na escola. Gloria, desolada pela falta de atenção do marido, acaba iniciando um romance com seu professor de golf, o bonitão Lance. Com a chegada da misteriosa governanta, a vida de todos mudará drasticamente.


Não é preciso ser um gênio para saber que a governanta Grace e a mulher grávia no início do longa são a mesma pessoa. Até acho que Emilia Fox, intérprete de Rosie, e Maggie Smith, intérprete de Grace, possuem suas semelhanças físicas. Até mesmo algumas expressões das atrizes são parecidas. Somos mais convencidos de tudo isso quando Gloria revela, durante o longa, que era uma menina órfã. O filme não é algo memorável, mas a ironia e o sarcasmo presentes para contar toda essa história louca são tão deliciosos e o roteiro possui diálogos tão bem escritos que todo o longa acaba nos cativando de alguma forma. “De Bico Calado” é um filme inteligente, não devemos esperar muitas coisas a respeito dele, mas que é divertido e engraçado, isso ele é. O trabalho técnico não merece muito destaque, o que merece ser avaliado é como a criação do ambiente em que essa família vive é explorado. As fofocas de velhos e os desejos dos jovens, o contraponto entre o conservadorismo religioso de pequenas cidades e a inovação trazida pelos adolescentes. Além disso, a cidade é um personagem ímpar, típica do interior inglês.


Rowan Atkinson ficou famoso por viver o Mr. Bean na televisão e no cinema, não gosto do personagem, portanto não acho que a atuação de Atkinson seja grande coisa vivendo Bean. Aqui ele é o confuso Walter, um homem que já deixou de se preocupar com sua esposa e está mais preocupado com o sermão que deve fazer em uma grande reunião de pastores. O ator nos apresenta uma boa atuação sobre um homem como qualquer outro: um homem de meia idade confuso que não sabe como retomar o calor perdido pelos anos de casamento. Kristen Scott Thomas é a também confusa Gloria, aliás, o casal é uma excelente representação ao que alguns homens e mulheres estão expostos quando ficam casados durante muito tempo, ela, ao contrário do marido que encontra consolo no tal sermão, acaba se interessando por outro homem e tudo piora quando descobre que a mãe é uma assassina. Os filhos do casal são representados por Tamsin Egerton e Toby Parkes, respectivamente Holly e Pettey, ela é uma adolescente típica: interessada em sexo e em experimentar todo o tipo de rapaz possível; o garoto é um menino que precisa de mais atenção para aumentar sua auto confiança e deixar de lado as brincadeiras dos colegas. O amante de Gloria, Lance, é vivido por Patrick Swayze, o perfeito bonitão americano odiado pelos ingleses conservadores, Swayze é engraçado e ele mesmo satiriza esse perfil. O melhor do longa é Maggie Smith, o motivo para que eu resolvesse conferir o filme. Como a assassina Grace, Smith está engraçada e parece muito natural, demonstrando que verdadeiros loucos não sabem a hora de parar e não ligam para as vidas alheias, a única coisa que importa é garantir que um grupo seleto, nesse caso sua filha e a família dela, estejam bem, mesmo que isso signifique matar um ou outro indivíduo.



O ditado poucas vezes foi pôde ser tão cruelmente cômico aplicado quando nesse filme: “Tal mãe, tal filha”. Ou ainda, lembro-me de uma frase da insuportável tia Guida no terceiro filme da Saga Harry Potter: “Se tem alguma coisa errada com a cadela, haverá alguma coisa errada com o filhote”. Assim como não é preciso ser um gênio para saber que Grace e Rosie são a mesma pessoa, não precisamos de muito para saber que Gloria e Holly são assassinas em potencial. Isso tudo, por que as atuaões do longa são perfeitas para cada pepel, e são exatamente o que sustentam esse filme, que tinha tudo para ser fraco. Em especial, as mulheres do longa nos trazem personalidades totalmente diferentes, mas que, em algum momento, se mostrarão muito semelhantes.


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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

053. BONNIE E CLYDE – UMA RAJADA DE BALAS, de Arthur Penn

O precursor no gênero será sempre o melhor.
Nota: 9,4


Título Original: Bonnie and Clyde
Direção: Arthur Penn
Elenco: Warren Beatty, Faey Dunaway, Michael J. Pollard, Gene Hackman, Estelle Parsons, Denver Pyle, Dub Taylor, Evans Evans, Gene Wilder, Martha Adcock, Harry Appling, Owen Bush, Mabel Cavitt, Patrick Cranshaw, Frances Fisher
Produção: Warren Beatty
Roteiro: David Newman, Robert Benton e Robert Towne
Ano: 1967
Duração: 11 min.
Gênero: Comédia / Ação

Bonnie Parker tem uma vida sem graça como garçonete em uma pequena cidade, onde mora com sua mãe. Certo dia, o aventureiro Clyde Barrow se apresenta, rouba um carro e foge com a moça a tira colo, que está achando tudo aquilo o máximo. No meio do caminho, eles acabam achando o jovem Moss, que também se propõe a sair por aí roubando as pessoas. Depois, ainda se juntam à trupe o irmão de Clyde e sua esposa, Buck e Estelle. Agora, os cinco se tornarão as bandidos mais famosos dos EUA.


Quando fui assistir a esse filme pela primeira vez, comentei com meu pai sobre a falta de necessidade de incluírem ao título “Uma Rajada de Balas”. Enquanto eu assitia ao filme, meu pai perguntou se já havia passado da metade do longa. Ao passo que eu respondi que sim ele completou: “então compreendeu o por que das rajadas de bala?” Realmente, há como entender por que o título no Brasil se tornou “Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas”. O filme é violento para sua época, e não é violento uma vez ou outra, como alguns filmes da época. “Bonnie e Clyde” é um filme de ação do começo ao fim, as cenas dos roubos representam, sem dúvida, mais de um clímax na história toda. As perseguições e os deboches acerca da fama dos protagonistas são outro trunfo. Arthur Penn foi indicado três vezes ao Oscar de melhor direção, uma antes desse filme, outra por esse filme e outra depois de filme. Seu trabalho é algo impressionante por termos cenas de perseguições e cenas de tiroteio tão bem realizadas, mesmo existindo limitações. O roteiro foi escrito por roteiristas, na época, inciantes, que tiveram suas carreiras iniciadas justamente por esse filme, que lhes rendeu uma indicação ao Oscar: David Newman, de “Superman: O Filme” (1978), Robert Benton, do maravilhoso “Kramer vs. Kramer” (1979) e de Robert Towne (não creditado) de “Chinatown” (1974). E é importante lembrar que a união desse roteiro excelente e de Penn resultou em um longa revelador que pode ser considerado uma das maiores inovações da época, trazendo mudanças no cinema que refletiram na geração sexo-drogas-rockn’roll, que se destacou nos anos 80, até hoje.


Todos os interpretes do quinteto que compõe a trupe foram indicados ao Oscar. Warren Beatty (Clyde) e Faye Dunaway (Bonnie) foram indicados nas categorias de ator e atriz principais, respectivamente, Gene Hackman (Buck) e Michael J. Pollard (Moss) foram indicados na categoria de ato coadjuvante e Estellle Parsons (Blanche) venceu na categoria de atriz coadjuvante por sua interpretação de uma mulher histérica. Beatty interpreta Clyde de forma inteligente: o homem se torna um mistério, ele tem suas manias e seus trejeitos, o que o torna um homem comum, cheio de seus problemas, seus desejos e seus sonhos. Beatty é simples e muito natural em sua interpretação e chega a comover em certos momentos. Faye Dunaway começou sua carreira, verdadeiramente, após viver Bonnie no cinema, no filme ela nos apresenta uma moça desesperada para deixar a cidade insuportável onde vive o quanto antes, mesmo que isso signifique cometer verdadeiras loucuras. Dunaway é intensa e forte o tempo todo, cheia de vida. Pollard é um garoto jovem que não tem nada a perder e que resolve se aventurar, na época o ator já tinha seus 28 anos e trabalhava desde os 20, mas o que vemos é um jovem violento sedento do gosto pela aventura. Gene Hackman que, mais tarde venceria 2 Oscars por suas atuações, vive um homem que deseja começar uma nova vida, mas que se vê tentado demais a não partir com o irmão na aventura de sair roubando bancos. Hackman é o típico ex-presidiário que deseja ter uma nova vida longe do crime, mas, ao mesmo tempo, é o típico homem que não consegue deixar um vício. Estelle Parsons não venceu seu Oscar à toa, suas concorrentes eram de peso, mas sua atuação como uma mulher que está à beira de um ataque de nervos a todo tempo é completa e muito bem estruturada, uma construção impecável, que mistura ódio e pena vindos do espectador, uma construção que apenas um grande atriz seria capaz de fazer.



Como apontei, esse filme foi um marco para o cinema. O Oscar nos mostra isso: é uma comédia de humor negro sobre dois bandidos que matam dezenas de pessoas e roubam bancos a torto e direito e conseguiu a façanha de ser indicado a 10 Oscars, levando o prêmio em 2 categorias. O longa é recheado de violência, de barulho (pessoas gritando, pessoas atirando, pessoas morrendo), não parece haver muita lei e os bandidos vão de um estado a outro buscando a liberdade. Em meio a tudo isso, o longa ainda consegue ser divertido, engraçado e inspirador. Não que assisti-lo seja uma motivação para roubar e matar, mas é uma motivação para viver. Essa tal liberdade que os personagens procuram é contagiante e o final épico e perfeito nos alerta quanto a consequências de nossas insanidades. Não há como deixar de esquecer daquele ditado que todos adaptam ao seu gosto: quem rouba uma vez, rouba duas; quem mata uma vez, mata duas, e por aí se vão Bonnie e Clyde até o fim de suas vidas.


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segunda-feira, 17 de junho de 2013

068. O XANGÔ DE BAKER STREET, de Miguel Faria Jr.

Um dos melhores textos da história do cinema brasileiro!
Nota: 9,0


Título Original: O Xangô de Baker Street
Direção: Miguel Faria Jr.
Elenco: Joaquim de Almeida, Anthony O’Donnell, Maria de Medeiros, Letícia Sabatella, Cláudia Abreu, Cláudio Marzo, Marcello Antony, Caco Ciocler, Jana Almeida, Roberto Bonfim, Thalma de Freitas, Denise del Cueto, Christiane Fernandes, Malu Galli, Ary França, Clementino Kelé, Marco Nanini, Emiliano Queiroz, Jô Soares
Produção: Bruno Stroppiana, José Zimerman, Tino Navarro
Roteiro: Marcos Bernstein, Arthur Conan Doyle, Miguel Faria Jr. Patrícia Melo e Jô Soares (romance)
Ano: 2001
Duração: 124 min.
Gênero: Comédia / Thriller

Em 1886, na cidade do Rio de Janeiro, ocorre o roubo de um violino Stradivarius que havia sido dado de presente pelo próprio imperador Dom Pedro II à baronesa Maria Luíza. Para encontrar o instrumento, a famosa atriz francesa Sarah Bernhardt aconselha Dom Pedro a chamar o detetive inglês Sherlock Holmes. Quando Holmes e seu fiel escudeiro, Watson, chegam ao Brasil se deparam com uma situação muito mais perigosa e séria que o roubo do violino: mulheres estão sendo assassinadas por um serial killer. Agora, Holmes e Watson terão de enfrentar os perigos da Cidade Maravilhosa e tentar focar em seus casos deixando de lado as tentações brasileiras, como: feijoada, caipirinha, florestas e a sedução que apenas boas brasileiras podem propiciar a qualquer homem.


Miguel Faria Jr. dirigiu alguns importantes títulos do cinema brasileiro desde a década de 1970, para mim um de seus trabalhos mais célebres é o documentário maravilhoso sobre o compositor e poeta brasileiro “Vinicius” (2005), longa que relembra os sucessos de Vinicius de Moraes e nos traz depoimentos de grandes nomes que compõe a cultura brasileira. Aqui, o diretor é responsável por nos levar de volta a era do Segundo Reinado Brasileiro, período que compreende os 58 anos em que Dom Pedro II governou nosso país. Obviamente, esse tipo de produção nunca é algo simples de se realizar, afinal, voltar mais de 100 anos no tempo é algo que exige muito de toda uma equipe de produção. Apesar disso, Miguel Faria tira de letra essa tarefa e nos apresenta um Brasil muito agitado, cheio de novidades e com a cultura à flor da pele. Aliás, o roteiro é uma adaptação do romance homônimo do muito versátil Jô Soares, e nos trás os grandes nomes da época em questão cultural e social que envolveram o Brasil. Por começar, temos a atriz Sarah Bernhardt, o próprio Imperador Dom Pedro II e sua esposa a Imperatriz Tereza Cristina e figuras como Chiguinha Gonzaga, Machado de Assis e Olavo Bilac; e personagens fictícios, como o próprio Holmes e seu amigo Watson, a Baronesa Maria Luíza e o Marques de Sales; e os acontecimentos, que também se dividem entre reais, como: as reuniões dos intelectuais para falar sobre a abolição da escravidão, a ascensão do samba e do maxixe, a fama e o glamour da vida na corte e as práticas religiosas de negros; e fictícios, como o surgimento de palavras como “serial killer” e “caipirinha”, a homossexualidade de Sherlock Holmes, o uso de inúmeras drogas (o que compõe ficção e realidade) e as trapalhadas do detetive e suas sacadas inusitadas – a exemplo, a “batalha de violinos” travada contra o Marquês de Sales e as deduções durante os casos. Não esquecendo, que o próprio Holmes é um personagem totalmente fictício da literatura inglesa. A trilha sonora do longa, bem como sua fotografia e sua edição, é um presente e totalmente propícia. Acrescente a isso, é sempre bom conferir as belezas e a variedade de culturas verificadas no Brasil e a forma como pessoas que chegam do exterior se maravilham com tudo isso.


Joaquim de Almeida é um ator português que já trabalhou em todo tipo de filme imaginável, desde grandes blockusters a cults conhecidos por poucos, estando tanto no cinema quanto na televisão americana em séries bem populares e conhecidas no mundo todo. Aqui, vive o lendário investigador Sherlock Holmes, um homem engraçado que gosta de se divertir da melhor forma possível, mas também  alguém talentoso e muito dedicado em seu trabalho. Almeida trás toda essa graça e seriedade em um homem só, algo extremamente difícil de ser realizado, sem contar suas feições e seu jeito bobo de turista europeu no Brasil. Ao lado de Almeida está Anthony O’Donnell, um inglês pouco conhecido que acaba sendo ofuscado por seu personagem não ter muita participação, apesar disso, também é muito engraçado; o ator já esteve em participações pequenas em vários filmes interessantes, destaco “O Segredo de Vera Drake”. O excelente Cláudio Marzo é o Imperador Dom Pedro II, como de se esperar, um homem inteligente e esperto, mas que acaba se entregando por alguns defeitos que compartilhava com todos os monarcas da época, Marzo não poderia estar melhor. Cláudia Abreu é a bela Baronesa Maria Luíza, a atriz, como sempre, está muito bonita e extremamente sensual, sendo um dos centros femininos da história, conquistando, inclusive, ao Imperador do Brasil. Marcello Antony vive o mais que suspeito Marquês de Sales, um homem atraente que acaba chamando a atenção de Holmes durante o caso. Caco Ciocler é Miguel Lara, dono de uma simples livraria, mas que tem suas opiniões bem formadas e, no contexto da época, parece que tem muito a mostrar. A atriz Sarah Benhardt é interpretada pela portuguesa Maria de Medeiros. Malu Gali vive Chiguinha Gonzaga, transparecendo toda a garra e determinação dessa mulher que foi uma das mais importantes para a história de nossa país, aliás, vale lembrar que, no contexto cultural da trama, foi Chiquinha quem difundiu o estilo maxixe em nossa cultura. Jô Soares, por fim, além de criar a história, também faz uma pontinha prá lá de engraçada e divertida como o desembargador.



Xangô é um orixá justo, forte, destemido, imponente e valente; Baker Street é um endereça conhecido mundialmente por ser onde vive Sherlock Holmes na história original criada por Sir Arthur Conan Doyle. Daí o título “O Xangô de Baker Street”, ou seja, o inglês justo e destemido que vem ao Brasil salvar a nação de algum perigo. Não posso me conter em ficar calado e não comentar uma das maiores sacadas do longa: em 1888, ainda durante o reinado da Rainha Vitória, o Reino Unido, mais especificamente sua capital, Londres, vivenciou o terror denominado Jack, o Estripador, considerado o primeiro serial killer da história da humanidade. Sem mais, deixo apenas na imaginação de cada leitor quem é o verdadeiro criminoso, o que Holmes e Watson fazem no Brasil e qual pode ser a relação entre os eventos reais e ficcionais da trama. Apenas digo mais uma coisa: Jô é realmente um homem muito perspicaz para conseguir reunir tão bem fatos da realidade e da ficção em uma história tão divertida e totalmente instigante.


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sábado, 26 de janeiro de 2013

120. HANNIBAL, de Ridley Scott


A volta de Hannibal Lecter só prova uma coisa: enquanto houver seres humanos para servirem de alimento, o maior canibal do cinema permanecerá forte e vivo.
Nota: 9,2


Título Original: Hannibal
Direção: Ridley Scott
Elenco: Anthony Hopkins, Julianne Moore, Gary Oldman, Ray Liotta, Frankie Faison, Giancarlo Giannini, Francesca Neri, Zelijko Ivanek, Hazelle Goodman, David Andrews, Francis Guinan
Produção: Dino De Laurentiis, Martha De Laurentiis, Ridley Scott
Roteiro: David Mamet, Steven Zaillian e Thomas Harris (romance)
Ano: 2001
Duração: 131 min.
Gênero: Drama / Thriller

Aviso: antes de ler qualquer comentário sobre esse filme, acho bom esclarecer as ordens em que os longas sobre Hannibal Lecter foram lançados e a ordem cronológica:
Em ordem de lançamento: “O Silêncio dos Inocentes” (1991), “Hannibal” (2001), “Dragão Vermelho” (2004) e “Hannibal – A Origem do Mal” (2007).
Em ordem cronológica: “Hannibal – A Origem do Mal”, “Dragão Vermelho”, “O Silêncio dos Inocentes” e “Hannibal”.

Enquanto Manson Verger, uma das vítimas do Dr. Hannibal Lecter – Verger se apaixonou por Lecter, sádico, como somente o canibal pode ser, Hannibal drogou Verger, que cortou seu próprio rosto, desfigurando-se -, Clarice Starling, a agente do FBI que esteve com Hannibal antes de sua fuga, volta a procurar o criminoso. Entretanto, lidar com Hannibal Lecter não é uma tarefa fácil e o que era um jogo entre um homem vingativo e a polícia, se tornar mais uma manipulação do serial killer mais adorado do cinema.


Ridley Scott tem alguns bons títulos no cinema, alguns fracassos e algumas grandes produções, dentre elas “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979), “Thelma e Louise” (1991), “Gladiador” (2000), “Falcão Negro em Perigo” (2001), “Cruzada” (2005), “O Gângster” (2007), Robin Hood” (2010) e “Prometheus” (2012). Após o sucesso estrondoso e inacreditável de “O Silêncio dos Inocentes” (1991), a primeira história de Hannibal Lacter adaptada para o cinema, onde o assassino ajuda Clarice Starling a encontrar outro serial killer para que possa cometer uma fuga digna de cinema – o filme é um dos únicos que venceu as cinco categorias mais importantes do Oscar: filme, direção, ator, atriz e roteiro adaptado –, era de se esperar que uma sequência entrasse ou para a lista das sequências dispensáveis, ou para as memoráveis. Apesar de o filme ser ótimo, temos a primeira opção. Isso se deve, principalmente, pela substituição da atriz que interpreta a agente Starling, acrescente a isso, o roteiro é mais fraco e não há toda aquela tensão proposta pelo primeiro longa. Em contra ponto, a trilha sonora de Hans Zimmer é tão incrível – se não melhor – quanto a de Howard Shore (responsável por “O Silêncio dos Inocentes”), a edição e mixagem de som são perfeitas e a montagem das cenas é incrível, repleta de metáforas e referências a própria história.


Anthony Hopkins volta a dar vida ao personagem mais enigmático e incrível do cinema e da literatura contemporâneos. Assim como no primeiro filme, vemos uma interpretação sem defeito algum, a única diferença é que o próprio personagem está ficando mais velho, todavia, sua sede e apetite por carne humana não diminuiu, bem como sua loucura, seu caráter, seu bom gosto, sua indiferença as suas vítimas, sua determinação, sua astúcia, e, sobretudo, sua invisibilidade. Não há, simplesmente, como não fazer comparações rápidas de Julianne Moore (Starling desse filme) com Jodie Foster (Starling de “O Silêncio dos Inocentes”), Moore nos apresenta uma personagem mais madura, com menos medo de tudo a sua volta, no entanto, sua Starling é menos natural, um pouco mais artificial e clichê que a de Foster, mesmo assim, não há como negar: é difícil decidir qual das duas encarou melhor Starling, bem como é praticamente impossível saber se teria sido melhor Foster continuar ou Moore ter assumido desde o primeiro longa. Sempre que assinto a um filme com Gary Oldman sem saber que ele está no filme me surpreendo quando descubro qual era sua personagem, por algum motivo deixei passar seu nome durante a abertura, e por outro motivo mais estúpido, não recordava que ele estava na produção, mas mereço um desconto por não o ter reconhecido logo de cara: ele vive Manson Verger, o homem louco totalmente desfigurado. O fato é que o personagem já era louco antes de conhecer Hannibal – ele estuprava crianças, o que já é o suficiente para ser odiado -, sendo assim, resta a Oldman tornar esse homem ainda mais detestável e repugnante, não por sua aparência, mas por seus atos e pela forma como age perante todos, além disso, não há intenção de humanizar Verger em momento algum. Por fim, temos a excelente atuação de Giancarlo Giannini, de “007 – Cassino Royale” (2006) e “007 – Quantum of Solace” (2008), que interpreta o Inspetor Rinaldo Pazzi, um homem que descobre o paradeiro de Lecter, mas que prefere ficar com o segredo para si e entregar o criminoso para Verger, que está oferecendo três milhões de dólares pelo assassino; o medo, a desconfiança e o desespero de Pazzi são notados a cada olhar de Giannini.


Não existe outro ator que pudesse viver o Doutor Hannibal Lecter com tanta classe e sobriedade quanto Anthony Hopkins, isso, porque apenas o ator poderia imortalizar uma personagem tão complexa, e mais, somente ele poderia interpretar com tanta veracidade um homem que perturbaria qualquer profissional da sétima arte. Apesar de um problema aqui e outro ali, o fato de termos a volta de Hannibal e o time de atores que compõe esse elenco, faz do longa mais um filme memorável, não somente sobre mais um serial killer digno de filmes a seu respeito, e sim, do maior, melhor e mais inteligente serial killer produzido pelas indústrias do entretenimento e da cultura, juntas. O melhor de tudo fica a cargo do desfecho, que nos dá apenas uma certeza, mas a melhor certeza de todas: nada mudará para Hannibal Lecter enquanto ele puder saciar sua gula pela carne humana. 


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121. O SILÊNCIO DOS INOCENTES, de Jonathan Demme


O maior filme de suspense/thriller psicológico/terror de todos os tempos. Uma verdadeira obra da Sétima Arte.
Nota: DEZ


Título Original: The Silence of the Lambs
Direção: Jonathan Demme
Elenco: Jodie Foster, Anthony Hopins, Anthony Heald, Frankie Faison, Stuart Rudin, Diane Baker, Roger Corman,
Produção: Ron Bozman, Edward Saxon, Keneth Utt
Roteiro: Ted Tally e Thomas Harris (romance)
Ano: 1991
Duração: 118 min.
Gênero: Drama / Thriller

Aviso: antes de ler qualquer comentário sobre esse filme, acho bom esclarecer as ordens em que os longas sobre Hannibal Lecter foram lançados e a ordem cronológica:
Em ordem de lançamento: “O Silêncio dos Inocentes” (1991), “Hannibal” (2001), “Dragão Vermelho” (2004) e “Hannibal – A Origem do Mal” (2007).
Em ordem cronológica: “Hannibal – A Origem do Mal”, “Dragão Vermelho”, “O Silêncio dos Inocentes” e “Hannibal”.
A ordem respeitada no blog será a cronológica.


Clarice Starling está quase se formando na academia do FBI, formada em psicologia, é destinada para conversar com o assassino em série Hannibal Lecter para tentar arrancar dele alguma informação relevante sobre o caso “Buffalo Bill” – Lecter não possui nada com o caso, mas sua inteligência e perspicácia mostram que ele é o único que pode ajudar o FBI. “Buffalo Bill, por sua vez,  é um assassino em série que mata mulheres e tira pedaços de suas peles, como se não bastasse o alto número de suas vítimas, ele sequestra a filha de uma senadora. Agora, o estado está disposto a negociar com Lecter para ter sua ajuda no caso, entretanto, o canibal enxerga ai a oportunidade de voltar a sua vida normal.



Esse foi o primeiro filme a ser lançado sobre o assassino Hannibal Lecter, causou tanto frisson no mundo todo que logo foi aceito pelo público, pela crítica – vencendo prêmios importantes como dos críticos de Boston, de Chicago, do Kansas e de Nova York – e pelos próprios colegas – venceu os Sindicatos dos Produtores, Diretores e Roteiristas; além disso, é um dos únicos filmes - ao lado de “Um Estranho no Ninho” (1975) e “Aconteceu Naquela Noite” (1934) – da história do cinema a vencer os cinco principais prêmios do Oscar: melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor ator (Anthony Hopkins) e melhor atriz (Jodie Foster). A febre pelo longa foi tanta que a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América o considera culturalmente, historicamente e esteticamente importante para a humanidade. Também não é para menos, não há um momento do filme em que o roteiro se perca, bem como, não há uma cena que não seja totalmente detalhista e bem pensada, tanto Jonathan Demme – conhecido por “Filadélfia” (1993) e “Sob o Domínio do Mal” (2004) – quanto sua equipe técnica estão incríveis. Tak Fujimoto, o diretor de fotografia de “Terra de Ninguém” (1973), faz cada cena ampla (aquelas realizadas em exteriores) ficarem magníficas, assim como transforma o esconderijo de Buffalo Bill em uma casa escura, mas com a iluminação necessária para não nos perdermos, acrescente a isso, tudo envolvendo uma tal cena em que dois homens são assassinados e um deles é preso, suspenso, em uma cela, é inacreditavelmente belo. Craig McKay, o editor da clássica série televisiva “Holocausto” (1978), é o responsável por uma montagem cheia de detalhes que não deixa nada ficar em branco, ou seja, sem nenhum furo entre uma cena ou outra. Por fim, e, talvez, o mais importante para essa produção, Howard Shore, compositor da trilogia “O Senhor dos Anéis”, traz a trilha mais inimaginável e perfeita para cada cena do filme. Curiosamente, os três homens citados a cima participaram, ao lado de Demme, do longa “Filadélfia”. Na imagem a seguir está uma análise sobre o pôster oficial do filme: na mariposa vemos uma caveira, caveira essa, composta por sete corpos de mulheres nuas (no detalhe), essa pintura (da caveira feita de mulheres) é uma obra de Salvador Dalí (1904 – 1989), alguns acreditam que ela simboliza as sete mulheres vítimas de “Buffalo Bill”, é bom lembrar que o número sete é, também, um número místico, rodeado de histórias e lendas. Dalí não pintou a obra com o  intuito de que ela fosse parar no pôster do filme.



Aqui, Anthony Hopkins vivia, pela primeira vez, o assassino em série Hannibal Lecter, é nesse filme, também, que começamos a perceber o quanto o canibal é louco e como suas manias são atenuantes durante cada uma das tramas. Em uma cena protagonizada por Jodie Foster ela comenta o fato de Lecter não poder ser grosseiro com ela e não querer fazer mal a ela, nesse momento vemos a contradição do assassino e, mais, vemos a forma psicótica com a qual ele criou seu próprio mundo de ilusões, desejos e acontecimentos, como qualquer outro homem perturbado pelos fatos de seu passado. Jodie Foster é Clarice Starling, uma jovem que ainda é estagiária no FBI, sendo assim, é sua primeira vez interrogando alguém como Hannibal e seu primeiro grande caso, o medo e pavor da personagem destacados pelas feições da atriz se contrapõe em relação a inteligência e coragem da mesma, pois, mesmo temendo ao que irá encontrar na casa de “Buffalo Bill” ou das coisas que lhe acontecerão caso seja manipulada pela mente fértil de Lecter, Starling permanece forte, sem deixar a peteca cair em nenhum momento. Apesar de o elenco ser ótimo e ser muito forte, o único que se destaca, ao lado do brilhantismo de Hopkins e Foster, é Ted Lavine, que vive “Buffalo Bill”, seu personagem é um homem com dúvidas quanto a sua sexualidade, mas que insiste em bater na tecla de ser um travesti, entretanto, falar ou afirmar qualquer coisa a respeito de “Bill” é algo muito difícil, pois sua personalidade e suas atitudes são essências para o suspense do filme, dessa forma, me calo dizendo que sua interpretação é excelente.


O interessante nos filmes de Hannibal Lecter é que sabemos quem são os criminosos ou o que as personagens querem, não há necessidade de apelar para esconder o assassino, afinal, é nesse fato de o espectador saber quem são os culpados que torna esse filme tão bom: queremos saber o que acontecerá com eles, pois, de uma forma ou outra, nos afeiçoamos ao pior tipo de gente que há na terra. Nesse contexto, não saber o próximo passo de Hannibal é algo sensacional, pois, mesmo tento a certeza de que ele permanecerá vivo e conseguirá fugir – isso é, para os que já leram algo sobre o quarto filme da série ( “Hannibal” ) -, não sabemos como ele fará isso ou aquilo, não sabemos, ainda, quais serão os próximos passos tomados pela agente Starling que, mais que tudo na vida, está disposta a vencer seus medos para prender o assassino procurado pelo FBI. Não há como não analisar, ao menos um pouco, o título do longa, em tradução livre “The Silence of the Lambs” seria “O Silêncio dos Cordeiros”, cordeiros esses, seres totalmente inocentes (inclusive pelos arquivos da Bíblia Cristã) que assolam os sonhos de Starling por alguns problemas em sua infância. Mesmo que o título em português não siga a tradução correta, o título em inglês é uma metáfora, pois as jovens mortas no filme são todas inocentes, bem como a agente Starling e, até mesmo, Hannibal. Ou será que Lecter também está por trás desse mistério? Questões como quem é realmente inocente ou culpado acabam sendo feitas durante o longa. Mas quem, no mundo todo, é totalmente culpado de algo? Quem, na face da terra, é tão bom e puro para permanecer em silêncio e se tornar um completo inocente?



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