São 399 dias, e 399 críticas. No final dessas 399 críticas, serão postadas notícias, biografias de grandes nomes do cinema e da televisão e críticas e outros textos relacionados a filmes, séries e minisséries.
Um filme tocante sobre o olhar da
juventude em relação aos absurdos que resistiram na era pós Ditadura Militar no
Brasil
Título Original: Depois da Chuva
Direção, Roteiro e Produção: Cláudio
Marques e Marília Hughes
Elenco: Pedro Maia, Sophia Corral, Zeca
Abreu, Ricardo Burgos, Paula Carneiro, Talis Castro, Victor Corujeira, Aícha
Marques
Ano: 2014
Duração: 95 min.
Gênero: Drama / Histórico
O ano é 1984. Jovens de todo o país
comemoram o que, teoricamente, seria o fim da Ditadura Militar. Em Salvador,
Bahia, alguns estudantes se reúnem e exigem de uma escola da classe média que
seja autorizada a criação de um grêmio estudantil para que os interesses dos
alunos sejam explorados. Resistente, o corpo docente da escola aceita que a eleição
para o grêmio, como a eleição para presidente no país, seja feita de forma
indireta. Após vinte anos de repressão, alguns alunos acreditam que essa forma
vá contra a democracia estabelecida para aniquilar com o regime ditatorial.
Outros acreditam que conseguir o apoio da escola para a criação do grêmio já é
uma vitória, e que a forma como isso será feito pela primeira vez não é muito
relevante. Caio, um dos jovens, acredita que, assim como a política brasileira,
a criação desse grêmio não mudará nada. Logo, ele decide continuar vivendo sua
vida e esquecer as tais eleições para presidência do grêmio.
Dessa forma, o longa acompanha Caio, o
protagonista, por todas as suas descobertas como adolescente e cidadão, seus anseios,
problemas, incertezas, questionamentos. A sexualidade começa a aflorar de forma
nítida quando o jovem se apaixona pela colega de classe, Fernanda, enquanto a
política adentra em seu cotidiano na medida que o garoto começa a perceber o
quanto as coisas ainda estavam erradas no país. Em uma das cenas mais expressivas
do longa, por exemplo, os alunos se apresentam em uma espécie de show de talentos.
Após um deles entoar ao som de um violão e de forma simples e “sensata” “Pra
não dizer que eu não falei das flores”, canção símbolo da época de autoria de
Geraldo Vandré, Caio e seus amigos aparecem no palco travestidos e cantando um
rock do qual quase não compreendemos a letra. Mas também, não é preciso que
entendamos qualquer coisa do que é dito. Segundos antes da cena começar, a
Semana de Arte Moderna de 1922 é citada com ênfase. Sobre o olhar reprovador da
professora e de alguns alunos, bem como aconteceu com os artistas do início do
século passado, Caio e seus colegas que estão no palco quebram com os padrões
vigentes de forma que até Anita Malfati e Mario de Andrade se orgulhariam de
poder se levantar para aplaudir. No final das contas, a professora e uma
minoria do corpo discente permanece estático e mudo. A maioria maciça aplaude
aos gritos, aprovando a performance.
Essa é, sem dúvida, a primeira forma de
o protagonista externar sua indignação sobre o que está acontecendo, sobre a
sociedade e a política brasileira. Depois ainda virá um problema com uma
redação muito realista, a qual a professora considera um ultraje. Nela, Caio
expressa sua opinião de como nada mudou. O que podemos concluir da leitura
feita posteriormente é que o garoto pensa que não basta que um militar não
esteja na presidência no Brasil, para que as coisas mudem, é preciso que o
pensamento da população mude e que ela lute por um país melhor, não apenas na
teoria, mas na prática. E se for preciso querer e fazer o impossível para
chegar a essas melhorias, que seja. Mas a professora não é a única a reprimir
as atitudes do menino. O diretor da escola também faz isso. E aí nota-se uma
comparação clara: o ambiente escolar, os muros que cercam a escola nada mais
são que não as barreiras impostas por uma ditadura. A escola nada mais é que a
representação do regime ditatorial que governou o país durante vinte anos,
alegando que tudo sempre estava muito bem e que o país evoluía cada dia mais.
Os pais de Caio também não ajudam muito para que o jovem seja compreendido. A
mãe é relapsa, do tipo que está muito mais preocupada com sua imagem, chegando
a justificar a falta de atenção para com o filho afirmando que ela não dá
problemas para ele, e que ele não pode fazer o mesmo. O pai, que mora em outra
casa, mal liga para o garoto.
Em meio a toda essa ficção, Cláudio Marques
e Marília Hughes trazem cenas reais da época. Misturando cenas ficcionais,
baseadas na juventude do diretor, com cenas documentais coletadas por todo o
país que mostram Brasília e o Rio de Janeiro, por exemplo. Assim, em,
inacreditavelmente, seu primeiro longa-metragem, Cláudio e Marília unem a
ficção e a realidade da forma mais inteligentes possível. Cenas que trazem cidadãos
sendo reprimidos pela polícia militar, comícios de políticos que prometem
melhorar o país, cenas que mostram reações positivas da população em manifestações
(a maioria sufocada pela polícia), momentos cruciais para a política nacional,
como a eleição de Tancredo Neves como presidente e a eclosão da AIDS no mundo.
Propagandas e outras referências, como músicas, revelam a forma como a
sociedade vivia e via o mundo. De forma séria e discreta, os autores brincam
com esses elementos, com frases e nomes de pessoas importantes, fazendo alusões
espertas e concisas a coisas e pessoas que marcaram a história contemporânea do
Brasil. Tais cenas, ficcionais (geralmente alternando com muita ou pouca luz) ou
documentais (aparentemente amadoras para os dias de hoje), são mostradas com
poucos cortes, fazendo com que o ritmo do longa flua naturalmente e com closes
intimistas que se aproximam de determinadas partes dos corpos dos personagens.
Outro trabalho impressionante dos
diretores é em relação aos atores. Pedro Maia, escolhido a dedo para viver
Caio, por exemplo, passou por um processo de preparação de oito meses. Tempo
suficiente para que os autores conhecessem o jovem a ponto de modificar o
roteiro original para que Caio e Pedro não fossem tão diferentes. A
caracterização é tão forte que as poucas expressões de Pedro Maia, em sua
estreia no cinema, denotam o que se passa no interior de Caio. Aliás, o que se
passa no interior de todos os jovens (do Brasil e do mundo) conscientes, não
importa a época, quando percebem que alguma coisa está errada no país em que
vivem. Mais que isso: Caio é a personificação do próprio país que está tentando
gritar o medo, o desespero, a agonia que sente, mas não pode por estar sendo
reprimido por todos à sua volta. E talvez é aí que esteja a beleza da relação
do protagonista com Fernanda. Com ela, representada de forma simples e muito tocante
por Sophia Corral, Caio pode ser ele mesmo. A personagem também foi adaptada
para que Sophia e Fernanda fossem mais semelhantes. Sofia, aliás, foi escolhida
justamente por ela e Pedro Maia já terem uma relação de amizade próxima.
Segundo os diretores, os coadjuvantes da escola também eram os colegas de
classe de Pedro, o que facilitava o ator se sentir mais a vontade durante as
filmagens. As demais relações de Caio podem ser resumidas em relações que o
oprimem (com a mãe, com o pai, com os professores, com os colegas de escola) e
em relações que o apoiam (de forma geral, com os amigos de verdade, pessoas
mais velhas que conheceu fora do colégio).
A princípio, Caio está distante das
eleições para o grêmio estudantil, mais tarde, convencido por Fernanda, o jovem
decide se tornar o presidente do grêmio e é eleito. Pouco antes disso, Tancredo
Neves, a esperança de o Brasil se tornar um país democrático e justo, é eleito
presidente da nação. Em uma cena memorável, o hino nacional é tocado (provando,
mais uma vez, o quanto a trilha sonora desse filme é impressionante) enquanto
jovens andam pelas ruínas de uma imensa fábrica de cimento na capital baiana.
Quase que paralelamente à morte do presidente, um jovem se suicida. Preocupados com o
passado histórico do Brasil e resgatando arquivos impressionantes, Cláudio e
Marília criaram uma história simples, que pode ser adaptável para qualquer tempo
e qualquer ser humano, ao passo que é muito fácil se identificar com os
personagens. Um desses resgates, e uma dessas identificações, fica pelo
destaque dado à morte de Tancredo: o país se torna órfão num momento em que
todos precisam da figura paterna representada pelo líder, pelo pai que podia
resolver os problemas e que traria certa salvação da ditadura. Ao menos essa
era a esperança do povo. O que “Depois da Chuva” faz com quem o assiste,
principalmente com os jovens, tenha esse indivíduo vivenciado a ditadura ou
não, tenha sido ele ou sua família perseguido pelo regime ou não, saiba ele ou
não tudo o que o período de vinte anos significou para a nação, é tocar o mais
profundo possível de sua alma como ser humano e cidadão brasileiro.
Elenco e equipe 46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2013, onde venceu os prêmios de melhor ator (Pedro Maia), melhor roteiro (Cláudio Marques e Marília Hughes) e melhor trilha sonora)
David O. Selznick, Victor Fleming,
Sidney Howard, Max Steiner, William Cameron Menzies, Ernest Haller, Hal C.
Kern, Vivien Leigh, Clark Gable e um elenco assombroso trazem um dos maiores e
mais inesquecíveis clássicos do cinema. Somente vendo para compreender sua
grandiosidade.
Nota: 9,8
Título Original: Gone With the Wind
Direção: Victor Fleming. Não creditados:
George Cukor e Sam Wood
Elenco: Vivian Leigh, Clark Gable,
Leslie Howard, Ollivia de Havilland, Hattie McDaniel, Butterfly McQueen, Evelyn
Keyes, Ann Rutherford, Barbara O’Neill, Oscar Polk, Everett Brown, Rand Brooks,
Harry Davenport, Leona Roberts, Jane Darwell, Ona Munson, Isabel Jewell, Jackie
Maron, Mickey Kuhn, Cammie King Conlon
Produção: David O. Selznick
Roteiro: Sidney Howard e Margaret
Mitchell (romance). Não creditados: Oliver H. P. Garrett, Bem Hecht, Jo
Swerling e John Van Druten
Ano: 1939
Duração: 238 min.
Gênero: Drama
CONFIRA O TRAILER DO FILME:
Scarlett O’Hara vive em Tara, uma
fazenda localizada no estado da Georgia, ao sul dos Estados Unidos. É uma moça
bela, rica, esperta, orgulhosa, prepotente e desafiadora. Quando descobre que o
homem que “ama” e com quem pretendia se casar, Ashley, está noivo de outra
jovem, Malanie, Scarlett se casa com o irmão de Melanie. Entretanto, a Guerra da
Secessão leva seu marido embora e Scarlett acaba por se tornar uma viúva que
passa a viver em Atlanta, ao lado de Melanie, que espera ansiosa a volta de
Ashley da Guerra. Em meio a isso tudo, Scarlett se reencontra com Rhett Butler,
um homem mais velho e de péssima reputação que, certa vez, presenciou uma cena
humilhante em que a bela se declarou para Ashley, que a ignorou e confirmou sua
paixão por Melanie. Devido a Guerra, Scarlett resolve deixar Atlanta, como
todos os habitantes da cidade, e voltar à Tara. Todavia, verá que sua terra não
é mais a mesma, que sua família não é mais a mesma, que ela não é mais a mesma
e que, provavelmente, o único homem com o qual poderá contar é Rhett Butler.
No primeiro semestre de 1936, David O.
Selznick começou a idealizar a criação de “... E O Vento Levou”. No final de
julho daquele mesmo ano, o produtor, após travar uma luta com outros dois
estúdios, convenceu Margaret Mitchell, autora do livro homônimo, a vender os
direitos de sua obra. Outras grandes produtoras, como a Universal e a Warner
Bros. já haviam se recusado a investir no livro. O filme, entretanto, custaria
uma fortuna (a quantia era o que o conselho da Selznick International Pictures
pretendia gastar com todos os filmes de um ano). Para dirigir o longa, Selznick
estava convencido de que o único capacitado era George Cukor, e, para
roteirizar o longa, foi escolhido Sidney Howard, que enviou o primeiro roteiro
em agosto de 1937 (repleto de falhas, foi revisado, refeito e, finamente,
usado). Além deles, para trazer toda a realidade estética que o livro denotava,
foi escolhido William Cameron Menzies como diretor técnico de produção. Para o
protagonista, Rhett, Selznick teve Clark Gable em mente desde o início. Após
alguns nãos e tentativas frustradas de encontrar outro ator, Gable finalmente
foi convencido e cedido pela MGM para viver o personagem (o sogro de Selznick
era um dos sócios do estúdio). Definiu-se, portanto, que as filmagens
começariam em janeiro de 1939. Havia um porém apenas: quem seria Scalatte?
Durante o ano de 1938, centenas de atrizes foram entrevistas e 400 chegaram a
fazer testes de câmera com Cukor. Dentre tantas estrelas famosas, Paulette
Goddard, namorada de Charles Chaplin, e Joan Bennett se tornaram as favoritas.
Enquanto o estúdio se decidia entre a protagonista, ainda foi escalado Leslie
Howard, que aceitou viver Ashley apenas para produzir “Intermezzo, uma História
de Amor” (1939). Após recusar Goddard (ela e Chaplin não haviam oficializado a
relação, o que poderia gerar um escândalo), a desconhecida Vivien Leigh foi
escolhida.
Mas a escolha dos atores não seria o
único problema que a produção enfrentaria dali para frente. Cukor não se
acertou com Gable e Leigh detestava o mau hálito do companheiro de cena. E
mais: após filmagens e mais filmagens, parecia que nada saia do lugar. Na
metade de fevereiro de 1939, George Cukor deixou a produção. Selznick, assim,
chamou Victor Flemming, que ainda estava enroscado com “O Mágico de Oz” (1939).
Quando o diretor leu o roteiro se escandalizou, chamando-o de “uma porcaria”.
Bem Hecht, então, foi chamado para a revisão. Alicerçado pelo roteiro de
Howard, Hecht refez o que podia durante dias e noites a fio e apresentou sua
obra prima. Em março, finalmente, “...E O Vento Levou” voltou a ser rodado. Mas
os problemas não acabaram por aí, eles apenas aumentavam e aumentavam. Selzinck
trabalhava dia e noite e ainda tinha mais dois projetos (“Intermezzo” e
“Rebecca, a Mulher Inesquecível”, primeiro filme de Alfred Hitchcock em
Hollywood), Vivien Leigh e Clark Gable tinham constantes ataques de fúria,
Sidney Howard teve de ser chamado novamente para ajudar com o roteiro e Victor
Fleming abandonou o projeto durante duas semanas. Quando voltou, haviam cinco
equipes ajudando nas filmagens para que o longa fosse entregue no prazo. A
última cena foi rodada no final de junho daquele ano. Mas a obra ainda não
estava pronta: a trilha sonora de Max Steiner (uma das melhores, mais
expressivas, cativantes e grudentas trilhas de todos os tempos – o Tema de Tara
arrepia cada vez que é escutado) estava atrasada, o material deveria ser
editado, havia mais tempo de filme do que o planejado e a tensão entre todos os
envolvidos continuava crescendo. Finalmente, em 15 de dezembro de 1939, em
Atlanta, Georgia, “...E O Vento Levou” teve sua história estreia, com três dias
de festa e com direito a um baile para 3 mil convidados. Estava consagrada a
lenda.
Sem dúvida alguma, “...E O Vento Levou”,
além de ser a maior bilheteria da história do cinema (se atualizarmos os
valores), é um dos filmes de maior impacto já feitos pela Sétima Arte. Mas não
é apenas esse fato que o torna um dos maiores clássicos da história do cinema,
se não o maior. Desde o início do longa, com as grandes letras do título, até a
dramatização acerca do desfecho, o filme possui inúmeros momentos memoráveis. O
primeiro a ser filmado, por exemplo, foi o incêndio (exagerado) da munição dos
sulistas para que os nortistas não tirassem proveito de suas armas. Toda aquela
grandiosidade foi acompanhada por bombeiros e assistentes prontos para qualquer
imprevisto, cenários de grandes filmes do cinema foram queimados para conferir
realidade à cena e até o cavalo teve que ser maquiado por estar gordo demais.
Isso tudo, sem falar na fotografia histórica da cena e que acompanhou o resto
da produção: de forma maravilhosa, sobrepunha-se o fogo alaranjado ao fundo,
com as figuras escuras que deveriam ser os personagens.
E esse recurso seria utilizado outras
inúmeras vezes antes e depois daquela cena. O uso das sombras para expressar o
interior dos personagens e a assombração gerada por uma guerra são usadas para
substituir os corpos de Scarlett e Melanie enquanto ambas estão cuidando dos
feridos em Atlanta. Por um momento, a sombra de Melanie nos faz lembrar Virgem
Maria, o que denota toda a pureza, simplicidade, honestidade e bom caráter de
Melanie, palavras que, facilmente, poderiam definir com exatidão o perfil da
personagem. Mais tarde, faz-se um contraste entre as sombras e o sol avermelhado,
tanto na clássica cena em Tara onde Scarlett jura amor por sua terra, quanto em
Atlanta enquanto Scarlett e a escrava fazem o parto de Melanie, ou na imagem do
cavalo puxando a carroça que leva Scarlett, Melanie, o bebe e a escrava para
Tara. Quando Rhett abandona Scarlett, Malanie, o bebe e a escrava no meio de
uma estrada, o fundo alaranjado se contrapondo com a imagem dos personagens
(não apenas sua silhueta ou sombra) ele se alia às expressões, à sujeira, às
roupas rasgadas e até mesmo ao suor evidente, trazendo mais drama a uma cena que
poderia ser repleta de defeitos, mas que se torna perfeita. Outra cena
inovadora e inesquecível é quando Scarlette obrigada a ficar em Atlanta para
cuidar de Melanie, que está grávida, precisa chamar o médico e, para tanto,
precisa ir até à estação onde centenas de feridos estão entre a vida e a morte.
Nunca uma cena panorâmica havia sido filmada como aquela.
A grandiosidade das residências dos
personagens (Tara, Twelve Oaks, a mansão de Scarlett e Rhett) foram componentes
que influenciaram outros autores a criarem ambientes semelhantes. O mais
conhecido, provavelmente, seja o que Orson Welles realizou em seu clássico
supremo, “Cidadão Kane” (1941). Xanadu, a residência do protagonista, possui
tanta beleza estética quando qualquer uma das casas da Gerogia. As escadarias,
lareiras ornamentais, o pé direito excessivamente alto e as grandes e pesadas
portas de madeira são vistas novamente no longa de Welles. Aliás, podemos fazer
referências ao que se diz respeito, inclusive, a como os personagens e os
espaços em que vivem são influenciados uns pelos outros nos dois filmes. Quando
Scarlett volta à Tara, por exemplo, passa por Twelve Oaks e vê as escadarias
onde, outrora, almejou casar-se com Ashley. Agora, tudo em volta está destruído,
apenas restam as escadas. E, assim, acontece com a protagonista: tudo a sua
volta está destruído, ela está cansada, suja, com as roupas esfarrapadas. Kane, do filme de Welles, também está passando
por um momento terrível quando o vemos pela primeira vez no longa (está em seu
leito de morte). Entretanto, uma coisa ainda vive para esses dois personagens:
seu orgulho, sua vaidade, sua arrogância e sua prepotência.
Quando Margaret Mitchell escreveu “... E
O Vento Levou”, criou uma história para ser amada pelo povo americano. Assim, a
protagonista representa todos e nenhum dos americanos. Scarlett, como os EUA,
país que viria a se tornar a maior potência do mundo anos depois do lançamento
do filme, possui momentos de glória e paz interior, amadurece durante uma
etapa, sofre com guerras e disputas, vê sua vida desabar ao seu redor, tem que
trabalhar de forma dura para ganhar dinheiro e sustentar sua família, faz
coisas nada dignas para que não tenha de voltar à estaca zero (como casar com o
noivo da irmã para pagar as dívidas de Tara), cai e volta a se reerguer, dá a
volta por cima como poucas pessoas conseguiriam fazer e, em um desfecho
magnífico, prova que, depois de perder tudo o que perdeu (isso depois de
conquistar tudo o que uma mulher poderia sonhar), não desistirá de seguir em
frente, voltará às suas origens e buscará pela felicidade. Mitchell, assim
sendo, materializou a força e determinação americana em uma personagem
histórica. Adaptar a vida de Scarlett, portanto, não era um trabalho fácil
(como foi provado pelo número de vezes que o roteiro teve de ser revisado), mas,
no final das contas, o grupo de pessoas que se envolveu para finalizar o
roteiro, acertou de forma inacreditável.
As transformações na vida de Scarllatt
acontecem com as transformações da sociedade em que ela vive. Tudo é lindo,
verde e belo enquanto é uma menina mimada morando em Tara, o local mais
pacifico e próspero que podemos imaginar. Depois, casa-se e perde o marido, que
estava na Guerra. Assim como a guerra tornou os EUA um local agressivo com
batalhas em todos os lugares do leste do país, a vida de Scarlett passa a ser
uma batalha travada por sua consciência e seu coração, enquanto isso, ela fica
dividida entre ser uma mulher responsável e digna, que ajuda a os moribundos
que vem da guerra, ou em voltar a ter uma vida tranquila. Chegando em Tara, Scarlett
encontra com a destruição que assolou toda a região. Destruído está, também, o
interior de cada membro da família da protagonista: sua mãe morreu, os
empregados se foram, o pai está louco, a comida e o dinheiro foi roubado, as
irmãs recuperam-se das doenças. Quando a guerra chega a seu fim, Scarlett
começa a se tornar uma verdadeira mulher madura, que trabalha em Tara plantando
algodão para poder sobreviver. Assim como Tara, o sul do país está mudado: a
população daquela região volta faminta e destruída, enquanto os nortistas
começam a adentrar o sul lentamente.
Ao longo do desenvolver da trama, vemos
a cultura do sul dos Estados Unidos expressa pelos escravos e pelos patrões: de
um lado, os negros, que possuíam crenças baseadas naquilo que seus antepassados
(africanos) trouxeram de sua terra natal, crenças que geraram costumes e modos
de viver. Vale lembrar, inclusive, que não vemos soldados rebeldes ou coisas do
tipo, apesar de o norte lutar por sua liberdade, eles não expressam sua
opinião. Do outro lado, a crença dos brancos, dos americanos que vieram da
Europa, de onde trouxeram o cristianismo e, sobretudo, o catolicismo, o ideal
religioso que reinava perante qualquer outro ideal. Através dessa religião, foi
que os moldes da época foram moldados: a submissão feminina, as tradições nas
grandes fazendas sulistas, as grandes festas que duravam um dia inteiro, a
escravidão dos negros.
Entretanto, assim como a Primeira e a
Segunda Guerras Mundiais fizeram em uma escala global, a Guerra da Sucessão fez
naquele país: dividiu boa parte de sua história. Assim sendo, os costumes e
crenças começaram a mudar. Os escravos, nesse contexto, seriam libertos das
grandes fazendas e começariam a se enquadrar na sociedade americana. Alguns se
dirigiriam para o norte e outros permaneceriam no sul. A relação entre negros e
brancos, no entanto, permaneceria como sendo uma relação difícil, pois os
brancos guardariam resentimentos por terem sofrido tanto com uma guerra que
parecia apenas querer a liberdade dos negros. Os negros, então teriam sua liberdade
conquistada em todos os estados norte-americanos, os brancos sulistas, por
outro lado, passariam por um momento muito complicado: os grandes senhores de
terras não tinha máquinas, não tinhas estrutura (casas, celeiros, depósitos e
plantações haviam sido destruídas com a guerra), não tinham escravos e não
tinham renda suficiente para pagar os impostos.
Outro ponto forte da trama, são as
controversas geradas por Scarlett e Rhett. Enquanto a protagonista se diz apaixonada,
durante todo o longa, por Ashley, Rhett acaba se rendendo a beleza de Scarlett
e confessa seu amor por ela. Após os dois primeiros casamentos, Scarlett,
finalmente, se renderá a Rhett e eles se casarão. O problema é que se as
pesquisas já provaram que opostos (humanos) não se atraem, Rhett e Scarlett
provam que iguais também podem se repelir dependendo dos perfis observados. Em
comum, Scarlett e Rhett são orgulhosos, donos da verdade, ambiciosos e cabeças
duras. A diferença é que Rhett está disposto a mudar para encarar o casamento
com a mulher que ama. Nesse contexto, podemos até entrar no papel do homem e da
mulher naquela época: Rhett é um homem mais flexível e grande piadista,
justamente por ser um homem ele pode ver o lado espirituoso de tudo com mais
facilidade e sem preconceitos. Já Scarlett se esconde sobre uma máscara de
mulher fútil e forte que não se importa com nada, apenas com ela mesma. Scarlett
é, apenas, o que muitas mulheres passariam a ser no futuro: donas de seu
próprio nariz que só pensam em elas mesmas (não por que querem, mas por que o
sistema as força a serem assim). Claro que existem momentos de belos e de
declarações de amor e Scarlett até irá assumir sua paixão por Rhett, mas, no
fundo, Scalatte e Rhett são parecidos demais para estarem juntos em uma mesma
casa, e nem uma mansão é capaz de aguentar tanto orgulho, tanta prepotência,
tanta vaidade, tanta ambição, tanta falsidade. O exterior visto na telona,
definitivamente, não define o interior dos personagens, isso, só pode ser
apresentado pelas magníficas interpretações dos atores escolhidos a dedo.
Vivian Leigh, como apontei, foi escolhida
entre centenas e mais centenas de mulheres loucas para viverem Sarlatte O’Hara.
Sua personagem é, hoje, um dos maiores símbolos dos anos de ouro de Hollywood,
e, por que não dizer um dos maiores ícones da história do cinema. E nem mesmo
as origens da atriz (ela era inglesa) fizeram o povo criticar sua Scarlett.
Leigh se eternizou por um feito pouco realizado nos dias de hoje: foi amada e
odiada em um mesmo papel, mas, a cima de tudo, a Scarlett O’Hara da atriz
vencedora do Oscar pelo papel foi compreendida, afinal, nenhuma mulher passa
pelo que ela passou sem perder um pouco a dignidade. Nenhum país passa pelo que
os EUA passaram sem perder um pouco a dignidade. Essa Scarlett é absurdamente
deprimente, mas é digna de respeito por sua coragem em enfrentar os padrões da
época. É uma mulher empreendedora perigosa e, ao mesmo tempo, é sexy e cheia de
estilo. Scarlett, por fim, é uma verdadeira diva de cinema. Pena que nasceu um
pouco adiantada. Outros atores até foram muito cotados para viver Rhett, por
Clark Gable estava inclinado a declinar o convite se Selznick, mas não há como
imaginarmos um ator melhor para viver a lenda que Rhett Butler se tornou. Nem
mesmo se procurarmos em cada lista dos melhores atores da história do cinema.
Gable traz um personagem cínico e extrovertido, um homem sedutor, um perfeito
cafajeste e o melhor exemplo dentre os verdadeiros gentlemans. Suas feições
tornam o personagem ora um bom homem, ora um homem agressivo, ora um bom
marido, ora um marido raivoso. A forma como o ator transforma seu personagem durante
os vários momentos do longa (quando se declara a Scarlett, quando está passando
a lua de mel com a esposa, quando a filha do casal protagonista nasce, quando
cansa de ser ignorado pela mulher que ama, quando decide se juntar aos soldados
americanos) é de uma beleza indescritível. Somente essa verdadeira lenda do
cinema para dar conta do recado
Leslie Howard e Olivia de Havilland (que
está prestes a completar 100 anos em 2016), o casal Ashley e Melanie Wilkes,
são simples e sabem que as verdadeiras estrelas do longa devem ser Leigh e
Gable, mas não é por isso que deixam de apresentar grandes interpretações.
Enquanto Howard é o perfeito homem que perdeu tudo e sofreu justamente por
conta da guerra, de Havilland é a mulher de um homem que luta na guerra. Ambos
são boas pessoas. Ambos são pessoas completamente diferentes de Scarlett e
Rhett. Dentre os coadjuvante, não podemos, jamais de deixar de nos lembrarmos
de duas personalidades negras da época: Butterfly McQueen, como a servente
Prissy, e Hattie McDaniel, como a servente Mammy. Enquanto McQueen ganha
destaque por interpretar uma escrava atrapalhada e que, evidentemente, possui
muitos traumas que devem vir de sua infância, McDaniel sempre será lembrada
como a eterna personificação da empregada doméstica. A “tia Anastácia”
americana é representada como uma escrava preocupada com as filhas de seu
patrão, pondo-se, até mesmo, no lugar da mãe das meninas, o que lhe concedeu o
apelido: mammy. McDaniel foi a primeira atriz negra a vencer um Oscar (esse, de
melhor atriz coadjuvante). Aquela grande atriz que não compareceu à grande
estreia do próprio filme na Georgia (ainda existiam proibições aos negros), mas
pode subir ao palco e agarrar aquele homenzinho dourado ser julgada ou
apontada. Mas uma inovação inquestionável dessa produção incrível.
Este ano, mais precisamente em dezembro,
“... E O Vento Levou” completará seus 75 anos desde sua estreia em Atlanta. 75
anos em que esteve na memória de cada homem e mulher que o assistiu, não apenas
por ser um filme longo demais ou por ter uma protagonista que faz de uma
cortina seu novo vestido, mas por que é um filme que marca por dezenas de
coisas. Não há como deixar a história de lado depois de assistir ao filme,
assim como não podemos deixar de fazer algumas conclusões: Scarlett, por
exemplo, jamais passará fome (em qualquer sentido imaginável), Rhett, lá no
fundo, nunca deu a mínima para nada, Mammy será sempre o estereótipo da escrava
serviçal que obedece a patroa em qualquer situação, Melanie (e de Havilland)
sempre será o perfeito retrato de uma mulher boa e digna. E Tara... Tara sempre
será a preciosa terra onde Scarlett nasceu. Tara será, eternamente, o berço de
muitas gerações de estadunidenses. Homens e mulheres que nasceram para amar seu
país. Em uma representação inigualável, “... E O Vento Levou” é o retrato de
qualquer homem ou mulher, o retrato de qualquer país no mundo, onde pessoas
sorriem, choram, casam-se e divorciam-se, onde se acorda dia após dia para se
enfrentar a vida como ela é, cheia de altos e baixos.
Não é tão arrebatador quanto o esperado,
mas é uma das melhores direções do ano e um dos melhores filme de 2012.
Surpeendente!
Nota: 9,5
Título Original: Argo
Direção: Ben Affleck
Elenco: Ben Affleck, Bryan Craston, Alan
Arkin, John Goodman, Victor Garber, Tate Donovan, Cleau DuVall, Scoot McNairy,
Rory Cochrane, Christopher Denham, Kerry Bishé, Kyle Chandler, Chris Messina, Zeljko
Ivanek, Titus Welliver, Keith Szarabajka, Bob Gunton, Richard Kind
Produção: Ben Affleck, George Clooney, Grant Heslov
Roteiro: Chris Terrio, Joshuah Bearman (artigo “Escape from Tehran”) e
Tony Mendez (livro “The Master of Disguise”)
Ano: 2012
Duração: 120 min.
Gênero: Drama / Histórico / Thriller
Alguns minutos após chegar a uma
entrevista de emprego – respondendo a um anúncio de jornal -, o americano Tony
Mendez descobriu que se tratava de uma tentativa da Agência de Inteligência dos
Estados Unidos da América (CIA) procurando por um bom desenhista. Desde então,
Mendes se tornou o melhor falsificador da Agência. Em 1979, porém, fatos
fizeram com que o agente enfrentasse a maior missão de sua carreira, e o
imortalizasse na mente de grande parte dos americanos. Com a ascensão dos
aiatolás liderados por Ruhollah Khomeini, parte do povo iraniano exigiu que os
EUA extraditasse Mohammad Pahlavi – ex-governante do Irã e asilado político dos
americanos-, em uma das diversas manifestações, o povo invadiu a embaixada
norte-americana em Teerã. Apenas seis pessoas conseguiram fugir e foram abrigas
pelos representantes do Canadá no Irã, e virou tarefa de Mendez trazê-los de
volta.
No filme, a revolução é mostrada, bem
como a invasão na embaixada – rica em detalhes que mostram os funcionários
destruindo documentos oficiais que não podiam ser vistos por mais ninguém -,
além disso, vemos a fuga dessas seis pessoas, que estavam em um prédio bem
propício: ele tinha uma saída lateral que dava direto em uma rua mais calma. A
partir do momento que o governo dos EUA descobre desses seis indivíduos, passa
a estudar os meios de tirá-los de lá com a maior segurança possível, e é aí que
Mendez entra, de fato, na história: é dele a idéia de se realizar um filme
falso (o qual seria filmado em terras iranianas), fazer dos seis diplomatas
seis profissionais do cinema (produtor, diretor, designer de produção,
roteirista, câmera e gerente de locação) e tirá-los do Irã pelo aeroporto, como
se os sete fossem canadenses.
Ben Affleck havia dirigido “Medo da
Verdade” (2007) e “Atração Perigosa” (2010) – dos quais foi, também, roteirista
– e, apenas, roteirizado “Gênio Indomável” (1997) – com o qual venceu o Oscar
de melhor roteiro ao lado do amigo Matt Damon – e a fracassada série “Push,
Nevada”. Não há como fazer uma previsão de um homem que dirigiu apenas dois
longas, apesar disso, devemos admitir que ambos os filmes são bem melhores que
o esperado. Dessa forma, “Argo” tornou-se uma incerteza para os espectadores
que aguardaram o lançamento da produção. Para mim, apesar de todos os prêmios
que venceu, o longa é uma surpresa até agora, isso, porque, o trabalho de
Affleck na direção não poderia ser melhor (e ainda nem comecei a falar sobre
sua atuação), é claro que há problemas graves no roteiro, mas são problemas do
roteirista, não do restante da produção. Sendo assim, o que torna o filme algo
tão único por parte de Affleck não é a forma como os acontecimentos são
relatados, e sim sua preocupação em mostrar de forma simples e real alguns dos
eventos que aconteceram de fato, tais como: as manifestações sociais dos jovens
no Irã, as montagens feitas pelos garotos das fotografias dos diplomatas que
trabalhavam na embaixada – os funcionários haviam colocado alguns dos
documentos em um triturador de papel, e os revolucionários incumbiram crianças
de encontrar cada tira e formar as fotos para ver quem estava faltando -, o
enforcamento de um homem em público – o enforcamento não é mostrado, pior que
isso, mostra-se o homem enforcado exposto na rua -, a queima da bandeira
norte-americana pelos iranianos, o auxílio de um maquiador e de um produtor de
Hollywood – também deixa-se claro que pessoas da área sempre ajudavam a CIA -,
a efetiva participação das mulheres nas manifestações, a repercussão de grandes
produções da época como “Guerra nas Estrelas”, as homenagens aos recém chegados
na América e o não reconhecimento público da ajuda de Tony Mendez – ele chegou
a receber a maior condecoração possível, mas teve que manter tudo na surdina,
pois o crédito ao resgate ficou todo para o Canadá, apesar disso, há a
preocupação de, nos créditos finais, deixar claro que o presidente Ronald
Reagan, assim que eleito, resolveu revelar toda a história e deixar Mandez
levar sua merecida glória.
Apesar de todos essas semelhanças,
segundo o próprio Mendez, não é mostrado, no longa, que havia outras soluções
mais arriscadas – obviamente nunca divulgadas -, os reféns não estavam em
somente um prédio no Teerã – no filme eles estão apenas na casa do embaixador do
Canadá -, e sim em dois; e Ben Affleck, apesar de atuar muito bem, não se
parecia em nada com o homem real: é mais alto e mais bonito, “Eu teria
escolhido Tommy Lee Jones, mas Ben se encaixa melhor no perfil de idade que eu
tinha na época”, revelou o ex-agente, aposentado após 25 anos de serviço, e
morando com a esposa, também aposentada da CIA, no estado de Maryland. O
roteiro, escrito por Chris Terrio, possui ainda mais problemas em fatos reais,
segundo Robert Fisk, escritor do famoso The Independent, os computadores, bem
como os cartões de embarque eletrônicos no aeroporto do Irã são uma grande
furada, acrescente a isso, não há nada de veracidade na perseguição dos revolucionários
no final do filme, muito menos o fato de os iranianos terem sido tão amenos no
aeroporto, além disso, a embaixada britânica não negou socorro aos seis
diplomatas quando eles fugiram da embaixada americana e os canadenses foram
muito mais participativos na fuga, para Fisk, “como é comum, os ianques pegam a
maior parta dos louros”. No entanto, todos temos de admitir: a forma
eletrizante como se dá a última hora do longa e as sacadas cômicas
proporcionadas pelos representantes de Hollywood na primeira hora do filme,
deixam a produção toda com leveza e destreza ao mesmo tempo.
Claro que um longa que faz um
agradecimento ao cinema por ter auxiliado, mesmo que, na maior parte do tempo,
sem intenção alguma, na fuga de seis americanos jurados de morte no Irã, teria
indicações ao Oscar. Eis os indicados: melhor
filme, após vencer os sindicatos dos produtores, atores, roteiristas e
diretores, é o favorito na categoria, podendo perder apenas para “Lincoln” –
afinal, é uma homenagem a um dos maiores americanos da história – ou, em minha
opinião, para “O Lado Bom da Vida” – pois, parece que a Academia está achando
as inovações do longa protagonizado por Bradley Cooper algo maravilhoso -;
melhor ator coadjuvante para Alan Arkin,
que interpreta o produtor Lester, acredito que o prêmio já seja de Christoph
Waltz, por “Django Livre”; melhor
roteiro adaptado para Chris Terrio, é um dos grandes favoritos, concorrendo
apenas com “Lincoln”; melhor mixagem de
som para John T. Reitz, Gregg Rudloff e José Antonio García, o trio já
participou de outros grandes filmes que exigem uma excelente mixagem de som
para se fazer entender, mas acredito que “Os Miseráveis” tenha mais chances por
ter músicas gravadas apenas no set, e serem totalmente compreensíveis no longa;
melhor edição de som para Erik Aadahl e
Athan Van der Ryan, acredito que seja uma categoria técnica em que o filme
esteja mais apto a vencer, mas também acho que o prêmio lhe escorregue pelos dedos
e vá para “Django Livre”; melhor
montagem para William Goldenberg, a montagem é fantástica, mas pode perder
para “As Aventuras de Pi” e toda essa beleza do longa de Ang Lee; por fim, melhor trilha sonora para Alexandre Desplat,
o cara é simplesmente fera e vem compondo ótimas trilhas, apesar de não ter
gostado muito dela no começo por ser um pouco rara, a última hora de filme trás
um tema excelente e um trabalho digno de prêmios. Não há como deixar de falar
sobre a falta de Ben Affleck nas indicações esse ano: não passou nem perto de
ser indicado por sua atuação e, contra todos os credos do momento da indústria
cinematográfica, não está entre os melhores diretores do ano. Talvez você se
pergunte como ele pode ser, então, o favorito para vencer o Oscar de melhor filme,
exatamente, ninguém sabe o que fez a Academia esnobar Affleck e colocar em seu
lugar Benh Zeitlin pelo fraco “Indomável Sonhadora”. Tudo bem que o Oscar goste
de apelar um pouco e coloque esse filme por ser uma produção extremamente
tocante, mas daí deixar de fora Affleck que acaba de vencer o prêmio do
Sindicato dos Diretores?
Affleck está simplesmente excelente como
Tony Mendez, pode até ser que o ator não esteja nada parecido com o real Mendez
– até porque, na realidade, o ex-agente da CIA é descendente de mexicanos, o
que fica evidente pelo sobrenome, mas gera dúvida pela aparência física do ator
-, mas não há como negar que é demonstrado com perfeição como um homem na
posição de Mendez se sente: nervoso, a ponto de explodir a qualquer momento, mas,
ainda sim, sóbrio, afinal, deixar transparecer seu nervosismo significa por
tudo a perder; além disso, é dele a tarefa de demonstrar maior interesse pela
causa. Alan Arkin tem uma interpretação típica para uma indicação ao Oscar: de
um produtor de Hollywood que ajudou Mendez, aqui parece que o ator está se
divertindo o tempo todo interpretando o tipo de pessoa com quem ele teve de lidar
a vida toda, e é essa experiência óbvia com produtores que faz a interpretação
de Arkin ser tão boa. John Goodman é John Chambers, famoso maquiador de
“Jornada nas Estrelas” (1966) e “O Planeta dos Macacos” (1968), nunca vi nenhum
vídeo de Chamber, mas parece que Goodman está ótimo, pois mostra a parte louca
e a parte patriota de um homem que, literalmente, faz sonhos tornarem-se
realidade. Os interpretes dos agentes da CIA estão ótimos, assim como todo o
pessoal que é visto no Irã, tanto os ligados a embaixada estadunidense quanto
os ligados a embaixada canadense, todavia, não acredito que o prêmio do
Sindicato dos Atores como melhor elenco do ano tenha sido tão merecido,
produções como “Os Miseráveis” e “Lincoln” possuem um elenco mais participativo
e não focam apenas em uma história como ocorre aqui, o prêmio foi merecido, mas
há muito tempo que o Sindicato premia não o melhor elenco, e sim o melhor filme
do ano.
No final das contas, “Argo” é mais uma
grande produção que deseja, mais que qualquer outra coisa, fazer uma grande
homenagem ao cinema, mostrar que graças a fama de grandes produções como
“Guerra nas Estrelas” e “Planeta dos Macacos”, os EUA puderam trazer quase
prisioneiros de volta e mostrar como o país ainda tinha aliados à sua volta,
literalmente. Além disso, mostra como a indústria cinematográfica pode ganhar
força a ponto de influenciar um país, apenas por vaidade, a ceder espaço a
ponto de ser enganado pelo falso produtor de uma falsa produtora que está
realizando um falso filme. Na há como não falar, também, sobre a beleza da
abertura do longa, que nos dá um parâmetro de tudo que estava acontecendo na
época no Irã, sem deixar qualquer espectador perdido ou desorientado, pois traz
uma voz em off narrando uma história em quadrinhos onde os desenhos se “transformam”
em seres humanos, fazendo um ponte entre a literatura, o cinema e a realidade.
Acrescente a isso, para completar, os créditos são excelentes, mostrando as
personagens reais e comparando-as com os atores caracterizados (chega a ser
difícil adivinhar, no início, se a intenção é a de mostrar mesmo as semelhanças
e diferenças, pois alguns deles ficaram simplesmente idênticos) e trazendo,
ainda, fotos de acontecimentos reais da época. Entretanto, mesmo com tudo isso,
não acredito que esse seja o melhor filme do ano, tudo bem, sem dúvida fica
entre os cinco favoritos, mas daí ganhar tudo o que vem ganhando, não é para
tanto. Tendo em vista todos os concorrentes do longa nas categorias técnicas do
Oscar, é difícil que “Argo” vença alguns dos prêmios, entretanto, vendo a não
indicação de Affleck e o arrependimento que os membros da Academia devem estar
sentindo agora, é compreensível que o filme vença uns dois ou três, afinal,
como ele pode ser o melhor filme do ano, e apenas isso? Talvez Arkin também se
dê bem no final da história, pois é mais uma forma de mostrar que a Academia se
importa e está se redimindo, todavia, nada mais pode ser feito para dar a
Affleck o merecido Oscar de melhor direção, apenas podemos esperar que ele
vença o de melhor filme – que ainda pode ser dado a qualquer outro concorrente
apenas pela velha e boa birra (especialidade de crianças e velhos) - e mandar
um recado singelo para a Academia e seus membros idiotas que o chutaram: “Argo
fuck yourself!”
MAIORES INJUSTIÇAS DO OSCAR 2013
01. Não indicação de Jean-Louis Trintignant como melhor ator pelo francês "Amor";
02. Não indicação de Ben Affleck como melhor diretor por "Argo";
03. Não indicação de Katherine Bigelow como melhor diretora por "A Hora Mais Escura";
04. Não indicação de John Hawkes como melhor ator por "As Sessões";
05. Não indicação de Marion Cotillard como melhor atriz por "Ferrugem e Osso";
06. Não indicação de "Os Intocáveis" como melhor filme estrangeiro;
07. Não indicação de "007 - Operação Skyfall" como melhor filme do ano;
08. Não indicação de Javier Bardem como melhor ator coadjuvante por "007 - Operação Skyfall";
09. A indicação de "Indomável Sonhadora" como melhor filme do ano;
10. A indicação de Behn Zeitlin como melhor diretor por "Indomável Sonhadora";
O melhor de Bigelow até agora, por trazer uma história que divide tantas opiniões de forma muito clara. Polêmico
sim, desnecessário? Jamais!
Nota: 9,6
Título Original: Zero Dark Thirty
Direção: Kathryn Bigelow
Elenco: Jessica Chastain, Joel Edgerton, Chris Pratt, Jason Clarke, Reda
Kateb, Kyle Chandler, Jennifer Ehle, Harold Perrineau, Jermy Strong, J. J.
Kadel, Alexander Karim
Produção: Kathryn Bigelow, Mark Boal, Megan Ellison
Roteiro: Mark Boal
Ano: 2011
Duração: 157 min.
Gênero: Drama / Thriller / Histórico
A crítica sobre “A Hora Mais Escura” se
baseia em fatos publicados pelas mídias de todo o mundo, apesar de não
acreditar em algumas versões que são consideradas reais, não estou analisando
os acontecimentos – se foram provocados ou não pela Al-Qaeda ou por Osama Bin
Ladem, muito menos se as tais torturas mostradas no longa são ou não reais -,
estou analisando as qualidades técnicas do filme, nada além disso.
Em 11 de setembro de 2001, umas das
maiores tragédias da história da humanidade assolou todo o mundo quando a
Al-Qaeda destruiu o World Trande Center (popularmente conhecido como “As Torres
Gêmeas”). Liderados por Osama Bin Ladem, os ataques, que incluíram, além das
Torres, quatro vôos e o Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados
Unidos da América, quase 3 mil pessoas foram mortas, incluindo vítimas e
seqüestradores. É claro que esses ataques tornaram a situação no Oriente Médio
com os Estados Unidos algo insustentável, o que provocou a ira dos EUA, que,
por sua vez, partiu em busca de Bin Laden como o homem mais procurado do mundo.
Resumidamente, em 2 de maio de 2011 agentes da CIA (Agência de Inteligência
Americana) noticiaram em todo o mundo que através da Operação Neptune Spear,
Osama Bin Laden havia sido encontrado e
assassinado em Abbottabad, no Paquistão.
No filme, a agente da CIA, Maya é uma
jovem mulher obcecada por encontrar e matar Osama Bin Laden, tendo em vista, a
agência a envia para o Oriente Médio para procurar pelo assassino. De forma
rápida, somos apresentados ao contexto da época, lembramos de alguns feitos da
Al-Qaeda, vemos as tentativas dos agentes da CIA torturando pessoas para chegar
a Bin Laden. Sobretudo, entretanto, somos apresentados a tal Operação Neptune
Spear, que adentrou a mansão onde OBL estava escondido, matou as pessoas que
viviam na casa, incluindo o próprio Osama e recolheu os arquivos mais importantes
antes que as forças paquistanesas, que apoiaram a invasão, chegassem no local.
A MANSÃO ONDE OSAMA BIN LADEN ESTAVA ESCONDIDO
Kathryn Bigelow é a tão famosa ex-esposa
do diretor James Cameron, que o derrotou no Oscar há três anos com seu fraquíssimo
“Guerra ao Terror” (2008), vencedor nas categorias de melhor filme, direção,
roteiro, edição, mixagem de som e edição de som. Apesar de não gostar nem um
pouco de “Guerra ao Terror”, não apenas por sua temática, mas por ser um filme
chato, me surpreendi com “A Hora Mais Escura”, confesso, inclusive que tinha o
filme há semanas e me negava a assisti-lo por acreditar que seria tão monótono
quanto o outro longa. Eis que parece que Bigelow está se aperfeiçoando e,
apesar de não indicação ao Oscar por sua direção, o longa ganha uma dimensão
muito superior em sua qualidade da vista em 2008. Não posso deixar de falar da
polemica que cercou o longa por suas cenas de tortura – leves diga-se de
passagem -, nelas, um homem, aliado aos “vilões” da história, é submetido a
total humilhação para dar alguma pista de onde OBL pode estar escondido. Além
disso, devo destacar o feminismo na história. Em alguns momentos, confesso, que
o filme parece mais uma homenagem as mulheres que participam das guerras, que
um filme sobre a captura e a morte de um dos maiores terroristas da história.
Nesse contexto, o protagonista desse filme sobre guerras é uma mulher,
determinada e louca para pegar Bin Laden e matá-lo. Acrescente a Jessica
Chastain como protagonista e Bigelow dirigindo o longa, a financiadora do filme
é a milionária Megan Ellison e a distribuidora é a Sony Pictures, chefiada por
Amy Pascal. Para compor o roteiro, Mark Boal entrevistou militars, políticos,
autoridades da Casa Branca e funcionários da CIA. Como se não bastasse, a
mansão onde Osama estava escondido foi reproduzida em uma réplica em tamanho
real para as filmagens. E não há, portanto, como não falar a respeito da cena
maravilhosa em que OBL é morto: Bigelow mistura, sabiamente, cenas feitas com
uma câmera normal, que mostram imagens médias – está tudo escuro -, mas bem
nítidas, e uma câmera que nos traz uma ideia semelhante a da imagem vista pelos
soldado com aquelas clássicas lentes que deixam tudo verde, essa mistura se
torna algo que, além de original, são uma ótima pedida para intercalar um pouco
as formas de se filmar algo e não deixar a sequência, que tinha tudo para ser
chata, um momento cansativo. Existem duas coisas curiosas a respeito do filme:
James Cameron se interessou pela história, mas desistiu de fazer um filme sobre
os acontecimentos por estar envolvido com a sequência do filme “Avatar” (2009);
a segunda refere-se a temática da trama, pois, inicialmente o roteiro era
destinado a uma das tantas tentativas frustradas de assassinar Bin Laden, até
chegar a notícia, em março de 2012, que ele havia sido assassinado, sendo
assim, Bigelow e Boal foram forçados a começar tudo do zero e criar uma nova
história, obviamente, aproveitando várias informações a respeito do que já
havia sido feito pela CIA antes de chegarem definitivamente no terrorista.
E vamos às suas merecidícimas indicações
ao Oscar 2013: melhor filme, devido
a grande repercussão das cenas de tortura, o filme fica fora da disputa, para
mim ficaria entre os cinco melhores do ano, além disso, parece que os
americanos esqueceram toda a glorificação feita pelo longa aos capturadores do
terrorista; melhor roteiro original para
Mark Boal, apesar de ser meu favorito, acredito que Quentin Tarantino leve
por “Django Livre”, o motivo? As torturas; melhor
edição para William Goldenberg e Dylan Tichenor, apesar de ser boa, para
mim não chega nem a ser uma das cinco melhores do ano, “Lincoln”, “As aventuras
de Pi” e “Argo” são muito superiores; melhor
edição de som para Paul N. J. Ottosson, apesar de ser ótima, votaria em
“007 – Operação Skyfall”; por fim, e a mais importante, melhor atriz principal para Jessica Chastain, apesar de sua
interpretação estar convincente e ter uma cena forte onde pode se doar ao
máximo, no entanto, Naomi Watts, Emmanuelle Riva e Jennifer Lawrence estão bem
melhores e merecem o prêmio muito mais que Chastain.
Jessica Chastain, portanto, apesar de
ter uma personagem forte e decidida, acaba ficando um pouco apagada durante o
desenrolar da trama e não compreendi o porquê de todos os prêmios que a atriz
já ganhou, apesar de estar bem, saber o que deve fazer em um ou outro momento e
ter cenas fortes que lhe deram um grande destaque, não há muito que faça Chastain
merecer o Oscar. Para lembrar, Chastain atua desde 2004, entretanto, seu
destaque no cinema se deu apenas em 2011quando atuou em “A Árvore da Vida” e
“Histórias Cruzadas”, além disso, fez mais 4 filmes no mesmo ano, quatro filmes
em 2012 e tem, em sua agente, três estréias para 2013, o que significa muitos
trabalhos em pouco tempo, o que pode indicar bons trabalhos, mas sacrificando
alguns que podem ser ruins. Apesar de o filme centrar sua personagem, o resto
dele é composto por basicamente homens, com exceção de Jennifer Ehle, que
completa a parte feminina do longa como a colega de trabalho de Maya, Jessica,
uma mulher tão determinada quanto a personagem de Chastain, que desconfia de
Maya no começo, mas, depois, torna-se uma verdadeira amiga. Dentre os homens,
destaco Jason Clarke – oriundo de algumas séries e minisséries para televisão
-, o protagonista da tão falada cena de tortura, o ator chegou a ser
“torturado”, bem como o personagem que ele tortura, para sentir mais ou menos
como era aquilo, Clarke é um excelente ator coadjuvante que mostra a que veio e
não deixa suas expressões vacilarem um segundo em uma das cenas mais
importantes do filme. Além dele, temos Mark Strong – de, no mínimo, dez bons
filmes feitos na última década -, o chefe de Maya, George, um homem astuto que
tem uma das falas mais aterradoras do filme todo, mas também é ele quem divide
com Chastain as melhores cenas que acontecem das dependências da CIA no
Paquistão.
O título, traduzido livremente, seria
“Zero Escuro Trinta”, na realidade, uma expressão utilizada pelos militares
norte-americanos para designar “meia-noite” e meia, a hora mais escura para se
matar Bin Laden, sendo uma referência ao momento exato em que o terrorista foi
assassinado. Fazendo das palavras da colunista do iG, Luísa Pécora, “Bigelow
transforma ucomplexa discussão morel em um exclente filme de ação, polêmico e necessário”,
o que me faz voltar ao pequeno problema que, provavelmente tirou Bigelow da
corrida pelo Oscar de melhor direção do ano, o que chamou a atenção da maior
parte das pessoas foi a forma como a protagonista não fala ou faz nada a
respeito, nem ao menos uma fala para dizer como ela reprova tudo aquilo – eu me
satisfiz bem com as feições quando vê o homem sendo torturado. Em contra ponto
a isso, para mim, o pior fica mesmo em uma das maiores cenas do longa onde um
dos chefes do Paquistão chama a tenção de todos por não estar tendo nenhum
resultado, interpretado por Mark Strong, ele diz: “I want targets! Do your
fuking jobs, bring me people to kill”, ao pé da letra traduzido como, “Eu quero
alvos! Façam a porra de seus trabalhos, tragam-me pessoas para matar”. Não que
pessoas como Osama Bin Laden não mereçam morrer, mas não se pode esperar pelo
Oscar de melhor filme quando se pede pessoas para matar. Pois é, são os
direitos humanos e a hipocrisia dizendo o quanto está errado mostrar a verdade.
Uma pena.
A TÍTULO DE CURIOSIDADE: A PROPAGANDA PARA SE CANDIDATAR AO OSCAR. EM CIMA DO TÍTULO ORIGINAL (ZERO DARK THIRTY) O APELO: FOR YOUR CONSIDERANTION IN ALL CATGORIES (PARA SUA CONSIDERAÇÃO EM TODAS AS CATEGORIAS)