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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

DEPOIS DA CHUVA, de Cláudio Marques e Marília Hughes

Um filme tocante sobre o olhar da juventude em relação aos absurdos que resistiram na era pós Ditadura Militar no Brasil



Título Original: Depois da Chuva
Direção, Roteiro e Produção: Cláudio Marques e Marília Hughes
Elenco: Pedro Maia, Sophia Corral, Zeca Abreu, Ricardo Burgos, Paula Carneiro, Talis Castro, Victor Corujeira, Aícha Marques
Ano: 2014
Duração: 95 min.
Gênero: Drama / Histórico

O ano é 1984. Jovens de todo o país comemoram o que, teoricamente, seria o fim da Ditadura Militar. Em Salvador, Bahia, alguns estudantes se reúnem e exigem de uma escola da classe média que seja autorizada a criação de um grêmio estudantil para que os interesses dos alunos sejam explorados. Resistente, o corpo docente da escola aceita que a eleição para o grêmio, como a eleição para presidente no país, seja feita de forma indireta. Após vinte anos de repressão, alguns alunos acreditam que essa forma vá contra a democracia estabelecida para aniquilar com o regime ditatorial. Outros acreditam que conseguir o apoio da escola para a criação do grêmio já é uma vitória, e que a forma como isso será feito pela primeira vez não é muito relevante. Caio, um dos jovens, acredita que, assim como a política brasileira, a criação desse grêmio não mudará nada. Logo, ele decide continuar vivendo sua vida e esquecer as tais eleições para presidência do grêmio.
Dessa forma, o longa acompanha Caio, o protagonista, por todas as suas descobertas como adolescente e cidadão, seus anseios, problemas, incertezas, questionamentos. A sexualidade começa a aflorar de forma nítida quando o jovem se apaixona pela colega de classe, Fernanda, enquanto a política adentra em seu cotidiano na medida que o garoto começa a perceber o quanto as coisas ainda estavam erradas no país. Em uma das cenas mais expressivas do longa, por exemplo, os alunos se apresentam em uma espécie de show de talentos. Após um deles entoar ao som de um violão e de forma simples e “sensata” “Pra não dizer que eu não falei das flores”, canção símbolo da época de autoria de Geraldo Vandré, Caio e seus amigos aparecem no palco travestidos e cantando um rock do qual quase não compreendemos a letra. Mas também, não é preciso que entendamos qualquer coisa do que é dito. Segundos antes da cena começar, a Semana de Arte Moderna de 1922 é citada com ênfase. Sobre o olhar reprovador da professora e de alguns alunos, bem como aconteceu com os artistas do início do século passado, Caio e seus colegas que estão no palco quebram com os padrões vigentes de forma que até Anita Malfati e Mario de Andrade se orgulhariam de poder se levantar para aplaudir. No final das contas, a professora e uma minoria do corpo discente permanece estático e mudo. A maioria maciça aplaude aos gritos, aprovando a performance.


Essa é, sem dúvida, a primeira forma de o protagonista externar sua indignação sobre o que está acontecendo, sobre a sociedade e a política brasileira. Depois ainda virá um problema com uma redação muito realista, a qual a professora considera um ultraje. Nela, Caio expressa sua opinião de como nada mudou. O que podemos concluir da leitura feita posteriormente é que o garoto pensa que não basta que um militar não esteja na presidência no Brasil, para que as coisas mudem, é preciso que o pensamento da população mude e que ela lute por um país melhor, não apenas na teoria, mas na prática. E se for preciso querer e fazer o impossível para chegar a essas melhorias, que seja. Mas a professora não é a única a reprimir as atitudes do menino. O diretor da escola também faz isso. E aí nota-se uma comparação clara: o ambiente escolar, os muros que cercam a escola nada mais são que não as barreiras impostas por uma ditadura. A escola nada mais é que a representação do regime ditatorial que governou o país durante vinte anos, alegando que tudo sempre estava muito bem e que o país evoluía cada dia mais. Os pais de Caio também não ajudam muito para que o jovem seja compreendido. A mãe é relapsa, do tipo que está muito mais preocupada com sua imagem, chegando a justificar a falta de atenção para com o filho afirmando que ela não dá problemas para ele, e que ele não pode fazer o mesmo. O pai, que mora em outra casa, mal liga para o garoto.
Em meio a toda essa ficção, Cláudio Marques e Marília Hughes trazem cenas reais da época. Misturando cenas ficcionais, baseadas na juventude do diretor, com cenas documentais coletadas por todo o país que mostram Brasília e o Rio de Janeiro, por exemplo. Assim, em, inacreditavelmente, seu primeiro longa-metragem, Cláudio e Marília unem a ficção e a realidade da forma mais inteligentes possível. Cenas que trazem cidadãos sendo reprimidos pela polícia militar, comícios de políticos que prometem melhorar o país, cenas que mostram reações positivas da população em manifestações (a maioria sufocada pela polícia), momentos cruciais para a política nacional, como a eleição de Tancredo Neves como presidente e a eclosão da AIDS no mundo. Propagandas e outras referências, como músicas, revelam a forma como a sociedade vivia e via o mundo. De forma séria e discreta, os autores brincam com esses elementos, com frases e nomes de pessoas importantes, fazendo alusões espertas e concisas a coisas e pessoas que marcaram a história contemporânea do Brasil. Tais cenas, ficcionais (geralmente alternando com muita ou pouca luz) ou documentais (aparentemente amadoras para os dias de hoje), são mostradas com poucos cortes, fazendo com que o ritmo do longa flua naturalmente e com closes intimistas que se aproximam de determinadas partes dos corpos dos personagens.


Outro trabalho impressionante dos diretores é em relação aos atores. Pedro Maia, escolhido a dedo para viver Caio, por exemplo, passou por um processo de preparação de oito meses. Tempo suficiente para que os autores conhecessem o jovem a ponto de modificar o roteiro original para que Caio e Pedro não fossem tão diferentes. A caracterização é tão forte que as poucas expressões de Pedro Maia, em sua estreia no cinema, denotam o que se passa no interior de Caio. Aliás, o que se passa no interior de todos os jovens (do Brasil e do mundo) conscientes, não importa a época, quando percebem que alguma coisa está errada no país em que vivem. Mais que isso: Caio é a personificação do próprio país que está tentando gritar o medo, o desespero, a agonia que sente, mas não pode por estar sendo reprimido por todos à sua volta. E talvez é aí que esteja a beleza da relação do protagonista com Fernanda. Com ela, representada de forma simples e muito tocante por Sophia Corral, Caio pode ser ele mesmo. A personagem também foi adaptada para que Sophia e Fernanda fossem mais semelhantes. Sofia, aliás, foi escolhida justamente por ela e Pedro Maia já terem uma relação de amizade próxima. Segundo os diretores, os coadjuvantes da escola também eram os colegas de classe de Pedro, o que facilitava o ator se sentir mais a vontade durante as filmagens. As demais relações de Caio podem ser resumidas em relações que o oprimem (com a mãe, com o pai, com os professores, com os colegas de escola) e em relações que o apoiam (de forma geral, com os amigos de verdade, pessoas mais velhas que conheceu fora do colégio).

A princípio, Caio está distante das eleições para o grêmio estudantil, mais tarde, convencido por Fernanda, o jovem decide se tornar o presidente do grêmio e é eleito. Pouco antes disso, Tancredo Neves, a esperança de o Brasil se tornar um país democrático e justo, é eleito presidente da nação. Em uma cena memorável, o hino nacional é tocado (provando, mais uma vez, o quanto a trilha sonora desse filme é impressionante) enquanto jovens andam pelas ruínas de uma imensa fábrica de cimento na capital baiana. Quase que paralelamente à morte do presidente, um jovem se suicida. Preocupados com o passado histórico do Brasil e resgatando arquivos impressionantes, Cláudio e Marília criaram uma história simples, que pode ser adaptável para qualquer tempo e qualquer ser humano, ao passo que é muito fácil se identificar com os personagens. Um desses resgates, e uma dessas identificações, fica pelo destaque dado à morte de Tancredo: o país se torna órfão num momento em que todos precisam da figura paterna representada pelo líder, pelo pai que podia resolver os problemas e que traria certa salvação da ditadura. Ao menos essa era a esperança do povo. O que “Depois da Chuva” faz com quem o assiste, principalmente com os jovens, tenha esse indivíduo vivenciado a ditadura ou não, tenha sido ele ou sua família perseguido pelo regime ou não, saiba ele ou não tudo o que o período de vinte anos significou para a nação, é tocar o mais profundo possível de sua alma como ser humano e cidadão brasileiro.

Elenco e equipe 46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2013, onde venceu os prêmios de melhor ator (Pedro Maia), melhor roteiro (Cláudio Marques e Marília Hughes) e melhor trilha sonora)

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quarta-feira, 25 de junho de 2014

005. ... E O VENTO LEVOU, de Victor Fleming

David O. Selznick, Victor Fleming, Sidney Howard, Max Steiner, William Cameron Menzies, Ernest Haller, Hal C. Kern, Vivien Leigh, Clark Gable e um elenco assombroso trazem um dos maiores e mais inesquecíveis clássicos do cinema. Somente vendo para compreender sua grandiosidade.
Nota: 9,8


Título Original: Gone With the Wind
Direção: Victor Fleming. Não creditados: George Cukor e Sam Wood
Elenco: Vivian Leigh, Clark Gable, Leslie Howard, Ollivia de Havilland, Hattie McDaniel, Butterfly McQueen, Evelyn Keyes, Ann Rutherford, Barbara O’Neill, Oscar Polk, Everett Brown, Rand Brooks, Harry Davenport, Leona Roberts, Jane Darwell, Ona Munson, Isabel Jewell, Jackie Maron, Mickey Kuhn, Cammie King Conlon
Produção: David O. Selznick
Roteiro: Sidney Howard e Margaret Mitchell (romance). Não creditados: Oliver H. P. Garrett, Bem Hecht, Jo Swerling e John Van Druten
Ano: 1939
Duração: 238 min.
Gênero: Drama
CONFIRA O TRAILER DO FILME:

Scarlett O’Hara vive em Tara, uma fazenda localizada no estado da Georgia, ao sul dos Estados Unidos. É uma moça bela, rica, esperta, orgulhosa, prepotente e desafiadora. Quando descobre que o homem que “ama” e com quem pretendia se casar, Ashley, está noivo de outra jovem, Malanie, Scarlett se casa com o irmão de Melanie. Entretanto, a Guerra da Secessão leva seu marido embora e Scarlett acaba por se tornar uma viúva que passa a viver em Atlanta, ao lado de Melanie, que espera ansiosa a volta de Ashley da Guerra. Em meio a isso tudo, Scarlett se reencontra com Rhett Butler, um homem mais velho e de péssima reputação que, certa vez, presenciou uma cena humilhante em que a bela se declarou para Ashley, que a ignorou e confirmou sua paixão por Melanie. Devido a Guerra, Scarlett resolve deixar Atlanta, como todos os habitantes da cidade, e voltar à Tara. Todavia, verá que sua terra não é mais a mesma, que sua família não é mais a mesma, que ela não é mais a mesma e que, provavelmente, o único homem com o qual poderá contar é Rhett Butler.


No primeiro semestre de 1936, David O. Selznick começou a idealizar a criação de “... E O Vento Levou”. No final de julho daquele mesmo ano, o produtor, após travar uma luta com outros dois estúdios, convenceu Margaret Mitchell, autora do livro homônimo, a vender os direitos de sua obra. Outras grandes produtoras, como a Universal e a Warner Bros. já haviam se recusado a investir no livro. O filme, entretanto, custaria uma fortuna (a quantia era o que o conselho da Selznick International Pictures pretendia gastar com todos os filmes de um ano). Para dirigir o longa, Selznick estava convencido de que o único capacitado era George Cukor, e, para roteirizar o longa, foi escolhido Sidney Howard, que enviou o primeiro roteiro em agosto de 1937 (repleto de falhas, foi revisado, refeito e, finamente, usado). Além deles, para trazer toda a realidade estética que o livro denotava, foi escolhido William Cameron Menzies como diretor técnico de produção. Para o protagonista, Rhett, Selznick teve Clark Gable em mente desde o início. Após alguns nãos e tentativas frustradas de encontrar outro ator, Gable finalmente foi convencido e cedido pela MGM para viver o personagem (o sogro de Selznick era um dos sócios do estúdio). Definiu-se, portanto, que as filmagens começariam em janeiro de 1939. Havia um porém apenas: quem seria Scalatte? Durante o ano de 1938, centenas de atrizes foram entrevistas e 400 chegaram a fazer testes de câmera com Cukor. Dentre tantas estrelas famosas, Paulette Goddard, namorada de Charles Chaplin, e Joan Bennett se tornaram as favoritas. Enquanto o estúdio se decidia entre a protagonista, ainda foi escalado Leslie Howard, que aceitou viver Ashley apenas para produzir “Intermezzo, uma História de Amor” (1939). Após recusar Goddard (ela e Chaplin não haviam oficializado a relação, o que poderia gerar um escândalo), a desconhecida Vivien Leigh foi escolhida.


Mas a escolha dos atores não seria o único problema que a produção enfrentaria dali para frente. Cukor não se acertou com Gable e Leigh detestava o mau hálito do companheiro de cena. E mais: após filmagens e mais filmagens, parecia que nada saia do lugar. Na metade de fevereiro de 1939, George Cukor deixou a produção. Selznick, assim, chamou Victor Flemming, que ainda estava enroscado com “O Mágico de Oz” (1939). Quando o diretor leu o roteiro se escandalizou, chamando-o de “uma porcaria”. Bem Hecht, então, foi chamado para a revisão. Alicerçado pelo roteiro de Howard, Hecht refez o que podia durante dias e noites a fio e apresentou sua obra prima. Em março, finalmente, “...E O Vento Levou” voltou a ser rodado. Mas os problemas não acabaram por aí, eles apenas aumentavam e aumentavam. Selzinck trabalhava dia e noite e ainda tinha mais dois projetos (“Intermezzo” e “Rebecca, a Mulher Inesquecível”, primeiro filme de Alfred Hitchcock em Hollywood), Vivien Leigh e Clark Gable tinham constantes ataques de fúria, Sidney Howard teve de ser chamado novamente para ajudar com o roteiro e Victor Fleming abandonou o projeto durante duas semanas. Quando voltou, haviam cinco equipes ajudando nas filmagens para que o longa fosse entregue no prazo. A última cena foi rodada no final de junho daquele ano. Mas a obra ainda não estava pronta: a trilha sonora de Max Steiner (uma das melhores, mais expressivas, cativantes e grudentas trilhas de todos os tempos – o Tema de Tara arrepia cada vez que é escutado) estava atrasada, o material deveria ser editado, havia mais tempo de filme do que o planejado e a tensão entre todos os envolvidos continuava crescendo. Finalmente, em 15 de dezembro de 1939, em Atlanta, Georgia, “...E O Vento Levou” teve sua história estreia, com três dias de festa e com direito a um baile para 3 mil convidados. Estava consagrada a lenda.


Sem dúvida alguma, “...E O Vento Levou”, além de ser a maior bilheteria da história do cinema (se atualizarmos os valores), é um dos filmes de maior impacto já feitos pela Sétima Arte. Mas não é apenas esse fato que o torna um dos maiores clássicos da história do cinema, se não o maior. Desde o início do longa, com as grandes letras do título, até a dramatização acerca do desfecho, o filme possui inúmeros momentos memoráveis. O primeiro a ser filmado, por exemplo, foi o incêndio (exagerado) da munição dos sulistas para que os nortistas não tirassem proveito de suas armas. Toda aquela grandiosidade foi acompanhada por bombeiros e assistentes prontos para qualquer imprevisto, cenários de grandes filmes do cinema foram queimados para conferir realidade à cena e até o cavalo teve que ser maquiado por estar gordo demais. Isso tudo, sem falar na fotografia histórica da cena e que acompanhou o resto da produção: de forma maravilhosa, sobrepunha-se o fogo alaranjado ao fundo, com as figuras escuras que deveriam ser os personagens.


E esse recurso seria utilizado outras inúmeras vezes antes e depois daquela cena. O uso das sombras para expressar o interior dos personagens e a assombração gerada por uma guerra são usadas para substituir os corpos de Scarlett e Melanie enquanto ambas estão cuidando dos feridos em Atlanta. Por um momento, a sombra de Melanie nos faz lembrar Virgem Maria, o que denota toda a pureza, simplicidade, honestidade e bom caráter de Melanie, palavras que, facilmente, poderiam definir com exatidão o perfil da personagem. Mais tarde, faz-se um contraste entre as sombras e o sol avermelhado, tanto na clássica cena em Tara onde Scarlett jura amor por sua terra, quanto em Atlanta enquanto Scarlett e a escrava fazem o parto de Melanie, ou na imagem do cavalo puxando a carroça que leva Scarlett, Melanie, o bebe e a escrava para Tara. Quando Rhett abandona Scarlett, Malanie, o bebe e a escrava no meio de uma estrada, o fundo alaranjado se contrapondo com a imagem dos personagens (não apenas sua silhueta ou sombra) ele se alia às expressões, à sujeira, às roupas rasgadas e até mesmo ao suor evidente, trazendo mais drama a uma cena que poderia ser repleta de defeitos, mas que se torna perfeita. Outra cena inovadora e inesquecível é quando Scarlette obrigada a ficar em Atlanta para cuidar de Melanie, que está grávida, precisa chamar o médico e, para tanto, precisa ir até à estação onde centenas de feridos estão entre a vida e a morte. Nunca uma cena panorâmica havia sido filmada como aquela.


A grandiosidade das residências dos personagens (Tara, Twelve Oaks, a mansão de Scarlett e Rhett) foram componentes que influenciaram outros autores a criarem ambientes semelhantes. O mais conhecido, provavelmente, seja o que Orson Welles realizou em seu clássico supremo, “Cidadão Kane” (1941). Xanadu, a residência do protagonista, possui tanta beleza estética quando qualquer uma das casas da Gerogia. As escadarias, lareiras ornamentais, o pé direito excessivamente alto e as grandes e pesadas portas de madeira são vistas novamente no longa de Welles. Aliás, podemos fazer referências ao que se diz respeito, inclusive, a como os personagens e os espaços em que vivem são influenciados uns pelos outros nos dois filmes. Quando Scarlett volta à Tara, por exemplo, passa por Twelve Oaks e vê as escadarias onde, outrora, almejou casar-se com Ashley. Agora, tudo em volta está destruído, apenas restam as escadas. E, assim, acontece com a protagonista: tudo a sua volta está destruído, ela está cansada, suja, com as roupas esfarrapadas.  Kane, do filme de Welles, também está passando por um momento terrível quando o vemos pela primeira vez no longa (está em seu leito de morte). Entretanto, uma coisa ainda vive para esses dois personagens: seu orgulho, sua vaidade, sua arrogância e sua prepotência.


Quando Margaret Mitchell escreveu “... E O Vento Levou”, criou uma história para ser amada pelo povo americano. Assim, a protagonista representa todos e nenhum dos americanos. Scarlett, como os EUA, país que viria a se tornar a maior potência do mundo anos depois do lançamento do filme, possui momentos de glória e paz interior, amadurece durante uma etapa, sofre com guerras e disputas, vê sua vida desabar ao seu redor, tem que trabalhar de forma dura para ganhar dinheiro e sustentar sua família, faz coisas nada dignas para que não tenha de voltar à estaca zero (como casar com o noivo da irmã para pagar as dívidas de Tara), cai e volta a se reerguer, dá a volta por cima como poucas pessoas conseguiriam fazer e, em um desfecho magnífico, prova que, depois de perder tudo o que perdeu (isso depois de conquistar tudo o que uma mulher poderia sonhar), não desistirá de seguir em frente, voltará às suas origens e buscará pela felicidade. Mitchell, assim sendo, materializou a força e determinação americana em uma personagem histórica. Adaptar a vida de Scarlett, portanto, não era um trabalho fácil (como foi provado pelo número de vezes que o roteiro teve de ser revisado), mas, no final das contas, o grupo de pessoas que se envolveu para finalizar o roteiro, acertou de forma inacreditável.


As transformações na vida de Scarllatt acontecem com as transformações da sociedade em que ela vive. Tudo é lindo, verde e belo enquanto é uma menina mimada morando em Tara, o local mais pacifico e próspero que podemos imaginar. Depois, casa-se e perde o marido, que estava na Guerra. Assim como a guerra tornou os EUA um local agressivo com batalhas em todos os lugares do leste do país, a vida de Scarlett passa a ser uma batalha travada por sua consciência e seu coração, enquanto isso, ela fica dividida entre ser uma mulher responsável e digna, que ajuda a os moribundos que vem da guerra, ou em voltar a ter uma vida tranquila. Chegando em Tara, Scarlett encontra com a destruição que assolou toda a região. Destruído está, também, o interior de cada membro da família da protagonista: sua mãe morreu, os empregados se foram, o pai está louco, a comida e o dinheiro foi roubado, as irmãs recuperam-se das doenças. Quando a guerra chega a seu fim, Scarlett começa a se tornar uma verdadeira mulher madura, que trabalha em Tara plantando algodão para poder sobreviver. Assim como Tara, o sul do país está mudado: a população daquela região volta faminta e destruída, enquanto os nortistas começam a adentrar o sul lentamente.


Ao longo do desenvolver da trama, vemos a cultura do sul dos Estados Unidos expressa pelos escravos e pelos patrões: de um lado, os negros, que possuíam crenças baseadas naquilo que seus antepassados (africanos) trouxeram de sua terra natal, crenças que geraram costumes e modos de viver. Vale lembrar, inclusive, que não vemos soldados rebeldes ou coisas do tipo, apesar de o norte lutar por sua liberdade, eles não expressam sua opinião. Do outro lado, a crença dos brancos, dos americanos que vieram da Europa, de onde trouxeram o cristianismo e, sobretudo, o catolicismo, o ideal religioso que reinava perante qualquer outro ideal. Através dessa religião, foi que os moldes da época foram moldados: a submissão feminina, as tradições nas grandes fazendas sulistas, as grandes festas que duravam um dia inteiro, a escravidão dos negros.


Entretanto, assim como a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais fizeram em uma escala global, a Guerra da Sucessão fez naquele país: dividiu boa parte de sua história. Assim sendo, os costumes e crenças começaram a mudar. Os escravos, nesse contexto, seriam libertos das grandes fazendas e começariam a se enquadrar na sociedade americana. Alguns se dirigiriam para o norte e outros permaneceriam no sul. A relação entre negros e brancos, no entanto, permaneceria como sendo uma relação difícil, pois os brancos guardariam resentimentos por terem sofrido tanto com uma guerra que parecia apenas querer a liberdade dos negros. Os negros, então teriam sua liberdade conquistada em todos os estados norte-americanos, os brancos sulistas, por outro lado, passariam por um momento muito complicado: os grandes senhores de terras não tinha máquinas, não tinhas estrutura (casas, celeiros, depósitos e plantações haviam sido destruídas com a guerra), não tinham escravos e não tinham renda suficiente para pagar os impostos.


Outro ponto forte da trama, são as controversas geradas por Scarlett e Rhett. Enquanto a protagonista se diz apaixonada, durante todo o longa, por Ashley, Rhett acaba se rendendo a beleza de Scarlett e confessa seu amor por ela. Após os dois primeiros casamentos, Scarlett, finalmente, se renderá a Rhett e eles se casarão. O problema é que se as pesquisas já provaram que opostos (humanos) não se atraem, Rhett e Scarlett provam que iguais também podem se repelir dependendo dos perfis observados. Em comum, Scarlett e Rhett são orgulhosos, donos da verdade, ambiciosos e cabeças duras. A diferença é que Rhett está disposto a mudar para encarar o casamento com a mulher que ama. Nesse contexto, podemos até entrar no papel do homem e da mulher naquela época: Rhett é um homem mais flexível e grande piadista, justamente por ser um homem ele pode ver o lado espirituoso de tudo com mais facilidade e sem preconceitos. Já Scarlett se esconde sobre uma máscara de mulher fútil e forte que não se importa com nada, apenas com ela mesma. Scarlett é, apenas, o que muitas mulheres passariam a ser no futuro: donas de seu próprio nariz que só pensam em elas mesmas (não por que querem, mas por que o sistema as força a serem assim). Claro que existem momentos de belos e de declarações de amor e Scarlett até irá assumir sua paixão por Rhett, mas, no fundo, Scalatte e Rhett são parecidos demais para estarem juntos em uma mesma casa, e nem uma mansão é capaz de aguentar tanto orgulho, tanta prepotência, tanta vaidade, tanta ambição, tanta falsidade. O exterior visto na telona, definitivamente, não define o interior dos personagens, isso, só pode ser apresentado pelas magníficas interpretações dos atores escolhidos a dedo.



Vivian Leigh, como apontei, foi escolhida entre centenas e mais centenas de mulheres loucas para viverem Sarlatte O’Hara. Sua personagem é, hoje, um dos maiores símbolos dos anos de ouro de Hollywood, e, por que não dizer um dos maiores ícones da história do cinema. E nem mesmo as origens da atriz (ela era inglesa) fizeram o povo criticar sua Scarlett. Leigh se eternizou por um feito pouco realizado nos dias de hoje: foi amada e odiada em um mesmo papel, mas, a cima de tudo, a Scarlett O’Hara da atriz vencedora do Oscar pelo papel foi compreendida, afinal, nenhuma mulher passa pelo que ela passou sem perder um pouco a dignidade. Nenhum país passa pelo que os EUA passaram sem perder um pouco a dignidade. Essa Scarlett é absurdamente deprimente, mas é digna de respeito por sua coragem em enfrentar os padrões da época. É uma mulher empreendedora perigosa e, ao mesmo tempo, é sexy e cheia de estilo. Scarlett, por fim, é uma verdadeira diva de cinema. Pena que nasceu um pouco adiantada. Outros atores até foram muito cotados para viver Rhett, por Clark Gable estava inclinado a declinar o convite se Selznick, mas não há como imaginarmos um ator melhor para viver a lenda que Rhett Butler se tornou. Nem mesmo se procurarmos em cada lista dos melhores atores da história do cinema. Gable traz um personagem cínico e extrovertido, um homem sedutor, um perfeito cafajeste e o melhor exemplo dentre os verdadeiros gentlemans. Suas feições tornam o personagem ora um bom homem, ora um homem agressivo, ora um bom marido, ora um marido raivoso. A forma como o ator transforma seu personagem durante os vários momentos do longa (quando se declara a Scarlett, quando está passando a lua de mel com a esposa, quando a filha do casal protagonista nasce, quando cansa de ser ignorado pela mulher que ama, quando decide se juntar aos soldados americanos) é de uma beleza indescritível. Somente essa verdadeira lenda do cinema para dar conta do recado


Leslie Howard e Olivia de Havilland (que está prestes a completar 100 anos em 2016), o casal Ashley e Melanie Wilkes, são simples e sabem que as verdadeiras estrelas do longa devem ser Leigh e Gable, mas não é por isso que deixam de apresentar grandes interpretações. Enquanto Howard é o perfeito homem que perdeu tudo e sofreu justamente por conta da guerra, de Havilland é a mulher de um homem que luta na guerra. Ambos são boas pessoas. Ambos são pessoas completamente diferentes de Scarlett e Rhett. Dentre os coadjuvante, não podemos, jamais de deixar de nos lembrarmos de duas personalidades negras da época: Butterfly McQueen, como a servente Prissy, e Hattie McDaniel, como a servente Mammy. Enquanto McQueen ganha destaque por interpretar uma escrava atrapalhada e que, evidentemente, possui muitos traumas que devem vir de sua infância, McDaniel sempre será lembrada como a eterna personificação da empregada doméstica. A “tia Anastácia” americana é representada como uma escrava preocupada com as filhas de seu patrão, pondo-se, até mesmo, no lugar da mãe das meninas, o que lhe concedeu o apelido: mammy. McDaniel foi a primeira atriz negra a vencer um Oscar (esse, de melhor atriz coadjuvante). Aquela grande atriz que não compareceu à grande estreia do próprio filme na Georgia (ainda existiam proibições aos negros), mas pode subir ao palco e agarrar aquele homenzinho dourado ser julgada ou apontada. Mas uma inovação inquestionável dessa produção incrível.



Este ano, mais precisamente em dezembro, “... E O Vento Levou” completará seus 75 anos desde sua estreia em Atlanta. 75 anos em que esteve na memória de cada homem e mulher que o assistiu, não apenas por ser um filme longo demais ou por ter uma protagonista que faz de uma cortina seu novo vestido, mas por que é um filme que marca por dezenas de coisas. Não há como deixar a história de lado depois de assistir ao filme, assim como não podemos deixar de fazer algumas conclusões: Scarlett, por exemplo, jamais passará fome (em qualquer sentido imaginável), Rhett, lá no fundo, nunca deu a mínima para nada, Mammy será sempre o estereótipo da escrava serviçal que obedece a patroa em qualquer situação, Melanie (e de Havilland) sempre será o perfeito retrato de uma mulher boa e digna. E Tara... Tara sempre será a preciosa terra onde Scarlett nasceu. Tara será, eternamente, o berço de muitas gerações de estadunidenses. Homens e mulheres que nasceram para amar seu país. Em uma representação inigualável, “... E O Vento Levou” é o retrato de qualquer homem ou mulher, o retrato de qualquer país no mundo, onde pessoas sorriem, choram, casam-se e divorciam-se, onde se acorda dia após dia para se enfrentar a vida como ela é, cheia de altos e baixos.


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domingo, 24 de fevereiro de 2013

088. (ESPECIAL OSCAR 2013) ARGO, de Ben Affleck


Não é tão arrebatador quanto o esperado, mas é uma das melhores direções do ano e um dos melhores filme de 2012. Surpeendente!
Nota: 9,5


Título Original: Argo
Direção: Ben Affleck
Elenco: Ben Affleck, Bryan Craston, Alan Arkin, John Goodman, Victor Garber, Tate Donovan, Cleau DuVall, Scoot McNairy, Rory Cochrane, Christopher Denham, Kerry Bishé, Kyle Chandler, Chris Messina, Zeljko Ivanek, Titus Welliver, Keith Szarabajka, Bob Gunton, Richard Kind
Produção: Ben Affleck, George Clooney, Grant Heslov
Roteiro: Chris Terrio, Joshuah Bearman (artigo “Escape from Tehran”) e Tony Mendez (livro “The Master of Disguise”)
Ano: 2012
Duração: 120 min.
Gênero: Drama / Histórico / Thriller

Alguns minutos após chegar a uma entrevista de emprego – respondendo a um anúncio de jornal -, o americano Tony Mendez descobriu que se tratava de uma tentativa da Agência de Inteligência dos Estados Unidos da América (CIA) procurando por um bom desenhista. Desde então, Mendes se tornou o melhor falsificador da Agência. Em 1979, porém, fatos fizeram com que o agente enfrentasse a maior missão de sua carreira, e o imortalizasse na mente de grande parte dos americanos. Com a ascensão dos aiatolás liderados por Ruhollah Khomeini, parte do povo iraniano exigiu que os EUA extraditasse Mohammad Pahlavi – ex-governante do Irã e asilado político dos americanos-, em uma das diversas manifestações, o povo invadiu a embaixada norte-americana em Teerã. Apenas seis pessoas conseguiram fugir e foram abrigas pelos representantes do Canadá no Irã, e virou tarefa de Mendez trazê-los de volta.


No filme, a revolução é mostrada, bem como a invasão na embaixada – rica em detalhes que mostram os funcionários destruindo documentos oficiais que não podiam ser vistos por mais ninguém -, além disso, vemos a fuga dessas seis pessoas, que estavam em um prédio bem propício: ele tinha uma saída lateral que dava direto em uma rua mais calma. A partir do momento que o governo dos EUA descobre desses seis indivíduos, passa a estudar os meios de tirá-los de lá com a maior segurança possível, e é aí que Mendez entra, de fato, na história: é dele a idéia de se realizar um filme falso (o qual seria filmado em terras iranianas), fazer dos seis diplomatas seis profissionais do cinema (produtor, diretor, designer de produção, roteirista, câmera e gerente de locação) e tirá-los do Irã pelo aeroporto, como se os sete fossem canadenses.


Ben Affleck havia dirigido “Medo da Verdade” (2007) e “Atração Perigosa” (2010) – dos quais foi, também, roteirista – e, apenas, roteirizado “Gênio Indomável” (1997) – com o qual venceu o Oscar de melhor roteiro ao lado do amigo Matt Damon – e a fracassada série “Push, Nevada”. Não há como fazer uma previsão de um homem que dirigiu apenas dois longas, apesar disso, devemos admitir que ambos os filmes são bem melhores que o esperado. Dessa forma, “Argo” tornou-se uma incerteza para os espectadores que aguardaram o lançamento da produção. Para mim, apesar de todos os prêmios que venceu, o longa é uma surpresa até agora, isso, porque, o trabalho de Affleck na direção não poderia ser melhor (e ainda nem comecei a falar sobre sua atuação), é claro que há problemas graves no roteiro, mas são problemas do roteirista, não do restante da produção. Sendo assim, o que torna o filme algo tão único por parte de Affleck não é a forma como os acontecimentos são relatados, e sim sua preocupação em mostrar de forma simples e real alguns dos eventos que aconteceram de fato, tais como: as manifestações sociais dos jovens no Irã, as montagens feitas pelos garotos das fotografias dos diplomatas que trabalhavam na embaixada – os funcionários haviam colocado alguns dos documentos em um triturador de papel, e os revolucionários incumbiram crianças de encontrar cada tira e formar as fotos para ver quem estava faltando -, o enforcamento de um homem em público – o enforcamento não é mostrado, pior que isso, mostra-se o homem enforcado exposto na rua -, a queima da bandeira norte-americana pelos iranianos, o auxílio de um maquiador e de um produtor de Hollywood – também deixa-se claro que pessoas da área sempre ajudavam a CIA -, a efetiva participação das mulheres nas manifestações, a repercussão de grandes produções da época como “Guerra nas Estrelas”, as homenagens aos recém chegados na América e o não reconhecimento público da ajuda de Tony Mendez – ele chegou a receber a maior condecoração possível, mas teve que manter tudo na surdina, pois o crédito ao resgate ficou todo para o Canadá, apesar disso, há a preocupação de, nos créditos finais, deixar claro que o presidente Ronald Reagan, assim que eleito, resolveu revelar toda a história e deixar Mandez levar sua merecida glória.


Apesar de todos essas semelhanças, segundo o próprio Mendez, não é mostrado, no longa, que havia outras soluções mais arriscadas – obviamente nunca divulgadas -, os reféns não estavam em somente um prédio no Teerã – no filme eles estão apenas na casa do embaixador do Canadá -, e sim em dois; e Ben Affleck, apesar de atuar muito bem, não se parecia em nada com o homem real: é mais alto e mais bonito, “Eu teria escolhido Tommy Lee Jones, mas Ben se encaixa melhor no perfil de idade que eu tinha na época”, revelou o ex-agente, aposentado após 25 anos de serviço, e morando com a esposa, também aposentada da CIA, no estado de Maryland. O roteiro, escrito por Chris Terrio, possui ainda mais problemas em fatos reais, segundo Robert Fisk, escritor do famoso The Independent, os computadores, bem como os cartões de embarque eletrônicos no aeroporto do Irã são uma grande furada, acrescente a isso, não há nada de veracidade na perseguição dos revolucionários no final do filme, muito menos o fato de os iranianos terem sido tão amenos no aeroporto, além disso, a embaixada britânica não negou socorro aos seis diplomatas quando eles fugiram da embaixada americana e os canadenses foram muito mais participativos na fuga, para Fisk, “como é comum, os ianques pegam a maior parta dos louros”. No entanto, todos temos de admitir: a forma eletrizante como se dá a última hora do longa e as sacadas cômicas proporcionadas pelos representantes de Hollywood na primeira hora do filme, deixam a produção toda com leveza e destreza ao mesmo tempo.


Claro que um longa que faz um agradecimento ao cinema por ter auxiliado, mesmo que, na maior parte do tempo, sem intenção alguma, na fuga de seis americanos jurados de morte no Irã, teria indicações ao Oscar. Eis os indicados: melhor filme, após vencer os sindicatos dos produtores, atores, roteiristas e diretores, é o favorito na categoria, podendo perder apenas para “Lincoln” – afinal, é uma homenagem a um dos maiores americanos da história – ou, em minha opinião, para “O Lado Bom da Vida” – pois, parece que a Academia está achando as inovações do longa protagonizado por Bradley Cooper algo maravilhoso -; melhor ator coadjuvante para Alan Arkin, que interpreta o produtor Lester, acredito que o prêmio já seja de Christoph Waltz, por “Django Livre”; melhor roteiro adaptado para Chris Terrio, é um dos grandes favoritos, concorrendo apenas com “Lincoln”; melhor mixagem de som para John T. Reitz, Gregg Rudloff e José Antonio García, o trio já participou de outros grandes filmes que exigem uma excelente mixagem de som para se fazer entender, mas acredito que “Os Miseráveis” tenha mais chances por ter músicas gravadas apenas no set, e serem totalmente compreensíveis no longa; melhor edição de som para Erik Aadahl e Athan Van der Ryan, acredito que seja uma categoria técnica em que o filme esteja mais apto a vencer, mas também acho que o prêmio lhe escorregue pelos dedos e vá para “Django Livre”; melhor montagem para William Goldenberg, a montagem é fantástica, mas pode perder para “As Aventuras de Pi” e toda essa beleza do longa de Ang Lee; por fim, melhor trilha sonora para Alexandre Desplat, o cara é simplesmente fera e vem compondo ótimas trilhas, apesar de não ter gostado muito dela no começo por ser um pouco rara, a última hora de filme trás um tema excelente e um trabalho digno de prêmios. Não há como deixar de falar sobre a falta de Ben Affleck nas indicações esse ano: não passou nem perto de ser indicado por sua atuação e, contra todos os credos do momento da indústria cinematográfica, não está entre os melhores diretores do ano. Talvez você se pergunte como ele pode ser, então, o favorito para vencer o Oscar de melhor filme, exatamente, ninguém sabe o que fez a Academia esnobar Affleck e colocar em seu lugar Benh Zeitlin pelo fraco “Indomável Sonhadora”. Tudo bem que o Oscar goste de apelar um pouco e coloque esse filme por ser uma produção extremamente tocante, mas daí deixar de fora Affleck que acaba de vencer o prêmio do Sindicato dos Diretores?


Affleck está simplesmente excelente como Tony Mendez, pode até ser que o ator não esteja nada parecido com o real Mendez – até porque, na realidade, o ex-agente da CIA é descendente de mexicanos, o que fica evidente pelo sobrenome, mas gera dúvida pela aparência física do ator -, mas não há como negar que é demonstrado com perfeição como um homem na posição de Mendez se sente: nervoso, a ponto de explodir a qualquer momento, mas, ainda sim, sóbrio, afinal, deixar transparecer seu nervosismo significa por tudo a perder; além disso, é dele a tarefa de demonstrar maior interesse pela causa. Alan Arkin tem uma interpretação típica para uma indicação ao Oscar: de um produtor de Hollywood que ajudou Mendez, aqui parece que o ator está se divertindo o tempo todo interpretando o tipo de pessoa com quem ele teve de lidar a vida toda, e é essa experiência óbvia com produtores que faz a interpretação de Arkin ser tão boa. John Goodman é John Chambers, famoso maquiador de “Jornada nas Estrelas” (1966) e “O Planeta dos Macacos” (1968), nunca vi nenhum vídeo de Chamber, mas parece que Goodman está ótimo, pois mostra a parte louca e a parte patriota de um homem que, literalmente, faz sonhos tornarem-se realidade. Os interpretes dos agentes da CIA estão ótimos, assim como todo o pessoal que é visto no Irã, tanto os ligados a embaixada estadunidense quanto os ligados a embaixada canadense, todavia, não acredito que o prêmio do Sindicato dos Atores como melhor elenco do ano tenha sido tão merecido, produções como “Os Miseráveis” e “Lincoln” possuem um elenco mais participativo e não focam apenas em uma história como ocorre aqui, o prêmio foi merecido, mas há muito tempo que o Sindicato premia não o melhor elenco, e sim o melhor filme do ano.


No final das contas, “Argo” é mais uma grande produção que deseja, mais que qualquer outra coisa, fazer uma grande homenagem ao cinema, mostrar que graças a fama de grandes produções como “Guerra nas Estrelas” e “Planeta dos Macacos”, os EUA puderam trazer quase prisioneiros de volta e mostrar como o país ainda tinha aliados à sua volta, literalmente. Além disso, mostra como a indústria cinematográfica pode ganhar força a ponto de influenciar um país, apenas por vaidade, a ceder espaço a ponto de ser enganado pelo falso produtor de uma falsa produtora que está realizando um falso filme. Na há como não falar, também, sobre a beleza da abertura do longa, que nos dá um parâmetro de tudo que estava acontecendo na época no Irã, sem deixar qualquer espectador perdido ou desorientado, pois traz uma voz em off narrando uma história em quadrinhos onde os desenhos se “transformam” em seres humanos, fazendo um ponte entre a literatura, o cinema e a realidade. Acrescente a isso, para completar, os créditos são excelentes, mostrando as personagens reais e comparando-as com os atores caracterizados (chega a ser difícil adivinhar, no início, se a intenção é a de mostrar mesmo as semelhanças e diferenças, pois alguns deles ficaram simplesmente idênticos) e trazendo, ainda, fotos de acontecimentos reais da época. Entretanto, mesmo com tudo isso, não acredito que esse seja o melhor filme do ano, tudo bem, sem dúvida fica entre os cinco favoritos, mas daí ganhar tudo o que vem ganhando, não é para tanto. Tendo em vista todos os concorrentes do longa nas categorias técnicas do Oscar, é difícil que “Argo” vença alguns dos prêmios, entretanto, vendo a não indicação de Affleck e o arrependimento que os membros da Academia devem estar sentindo agora, é compreensível que o filme vença uns dois ou três, afinal, como ele pode ser o melhor filme do ano, e apenas isso? Talvez Arkin também se dê bem no final da história, pois é mais uma forma de mostrar que a Academia se importa e está se redimindo, todavia, nada mais pode ser feito para dar a Affleck o merecido Oscar de melhor direção, apenas podemos esperar que ele vença o de melhor filme – que ainda pode ser dado a qualquer outro concorrente apenas pela velha e boa birra (especialidade de crianças e velhos) - e mandar um recado singelo para a Academia e seus membros idiotas que o chutaram: “Argo fuck yourself!”


MAIORES INJUSTIÇAS DO OSCAR 2013
01. Não indicação de Jean-Louis Trintignant como melhor ator pelo francês "Amor";
02. Não indicação de Ben Affleck como melhor diretor por "Argo";
03. Não indicação de Katherine Bigelow como melhor diretora por "A Hora Mais Escura";
04. Não indicação de John Hawkes como melhor ator por "As Sessões";
05. Não indicação de Marion Cotillard como melhor atriz por "Ferrugem e Osso";
06. Não indicação de "Os Intocáveis" como melhor filme estrangeiro;
07. Não indicação de "007 - Operação Skyfall" como melhor filme do ano;
08. Não indicação de Javier Bardem como melhor ator coadjuvante por "007 - Operação Skyfall";
09.  A indicação de "Indomável Sonhadora" como melhor filme do ano;
10. A indicação de Behn Zeitlin como melhor diretor por "Indomável Sonhadora";

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sábado, 23 de fevereiro de 2013

091. (ESPECIAL OSCAR 2013) A HORA MAIS ESCURA, de Kathryn Bigelow


O melhor de Bigelow até agora, por trazer uma história que divide tantas opiniões de forma muito clara. Polêmico sim, desnecessário? Jamais!
Nota: 9,6


Título Original: Zero Dark Thirty
Direção: Kathryn Bigelow
Elenco: Jessica Chastain, Joel Edgerton, Chris Pratt, Jason Clarke, Reda Kateb, Kyle Chandler, Jennifer Ehle, Harold Perrineau, Jermy Strong, J. J. Kadel, Alexander Karim
Produção: Kathryn Bigelow, Mark Boal, Megan Ellison
Roteiro: Mark Boal
Ano: 2011
Duração: 157 min.
Gênero: Drama / Thriller / Histórico

A crítica sobre “A Hora Mais Escura” se baseia em fatos publicados pelas mídias de todo o mundo, apesar de não acreditar em algumas versões que são consideradas reais, não estou analisando os acontecimentos – se foram provocados ou não pela Al-Qaeda ou por Osama Bin Ladem, muito menos se as tais torturas mostradas no longa são ou não reais -, estou analisando as qualidades técnicas do filme, nada além disso.


Em 11 de setembro de 2001, umas das maiores tragédias da história da humanidade assolou todo o mundo quando a Al-Qaeda destruiu o World Trande Center (popularmente conhecido como “As Torres Gêmeas”). Liderados por Osama Bin Ladem, os ataques, que incluíram, além das Torres, quatro vôos e o Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América, quase 3 mil pessoas foram mortas, incluindo vítimas e seqüestradores. É claro que esses ataques tornaram a situação no Oriente Médio com os Estados Unidos algo insustentável, o que provocou a ira dos EUA, que, por sua vez, partiu em busca de Bin Laden como o homem mais procurado do mundo. Resumidamente, em 2 de maio de 2011 agentes da CIA (Agência de Inteligência Americana) noticiaram em todo o mundo que através da Operação Neptune Spear, Osama Bin Laden havia sido encontrado  e assassinado em Abbottabad, no Paquistão.


No filme, a agente da CIA, Maya é uma jovem mulher obcecada por encontrar e matar Osama Bin Laden, tendo em vista, a agência a envia para o Oriente Médio para procurar pelo assassino. De forma rápida, somos apresentados ao contexto da época, lembramos de alguns feitos da Al-Qaeda, vemos as tentativas dos agentes da CIA torturando pessoas para chegar a Bin Laden. Sobretudo, entretanto, somos apresentados a tal Operação Neptune Spear, que adentrou a mansão onde OBL estava escondido, matou as pessoas que viviam na casa, incluindo o próprio Osama e recolheu os arquivos mais importantes antes que as forças paquistanesas, que apoiaram a invasão, chegassem no local.

A MANSÃO ONDE OSAMA BIN LADEN ESTAVA ESCONDIDO

Kathryn Bigelow é a tão famosa ex-esposa do diretor James Cameron, que o derrotou no Oscar há três anos com seu fraquíssimo “Guerra ao Terror” (2008), vencedor nas categorias de melhor filme, direção, roteiro, edição, mixagem de som e edição de som. Apesar de não gostar nem um pouco de “Guerra ao Terror”, não apenas por sua temática, mas por ser um filme chato, me surpreendi com “A Hora Mais Escura”, confesso, inclusive que tinha o filme há semanas e me negava a assisti-lo por acreditar que seria tão monótono quanto o outro longa. Eis que parece que Bigelow está se aperfeiçoando e, apesar de não indicação ao Oscar por sua direção, o longa ganha uma dimensão muito superior em sua qualidade da vista em 2008. Não posso deixar de falar da polemica que cercou o longa por suas cenas de tortura – leves diga-se de passagem -, nelas, um homem, aliado aos “vilões” da história, é submetido a total humilhação para dar alguma pista de onde OBL pode estar escondido. Além disso, devo destacar o feminismo na história. Em alguns momentos, confesso, que o filme parece mais uma homenagem as mulheres que participam das guerras, que um filme sobre a captura e a morte de um dos maiores terroristas da história. Nesse contexto, o protagonista desse filme sobre guerras é uma mulher, determinada e louca para pegar Bin Laden e matá-lo. Acrescente a Jessica Chastain como protagonista e Bigelow dirigindo o longa, a financiadora do filme é a milionária Megan Ellison e a distribuidora é a Sony Pictures, chefiada por Amy Pascal. Para compor o roteiro, Mark Boal entrevistou militars, políticos, autoridades da Casa Branca e funcionários da CIA. Como se não bastasse, a mansão onde Osama estava escondido foi reproduzida em uma réplica em tamanho real para as filmagens. E não há, portanto, como não falar a respeito da cena maravilhosa em que OBL é morto: Bigelow mistura, sabiamente, cenas feitas com uma câmera normal, que mostram imagens médias – está tudo escuro -, mas bem nítidas, e uma câmera que nos traz uma ideia semelhante a da imagem vista pelos soldado com aquelas clássicas lentes que deixam tudo verde, essa mistura se torna algo que, além de original, são uma ótima pedida para intercalar um pouco as formas de se filmar algo e não deixar a sequência, que tinha tudo para ser chata, um momento cansativo. Existem duas coisas curiosas a respeito do filme: James Cameron se interessou pela história, mas desistiu de fazer um filme sobre os acontecimentos por estar envolvido com a sequência do filme “Avatar” (2009); a segunda refere-se a temática da trama, pois, inicialmente o roteiro era destinado a uma das tantas tentativas frustradas de assassinar Bin Laden, até chegar a notícia, em março de 2012, que ele havia sido assassinado, sendo assim, Bigelow e Boal foram forçados a começar tudo do zero e criar uma nova história, obviamente, aproveitando várias informações a respeito do que já havia sido feito pela CIA antes de chegarem definitivamente no terrorista.


E vamos às suas merecidícimas indicações ao Oscar 2013: melhor filme, devido a grande repercussão das cenas de tortura, o filme fica fora da disputa, para mim ficaria entre os cinco melhores do ano, além disso, parece que os americanos esqueceram toda a glorificação feita pelo longa aos capturadores do terrorista; melhor roteiro original para Mark Boal, apesar de ser meu favorito, acredito que Quentin Tarantino leve por “Django Livre”, o motivo? As torturas; melhor edição para William Goldenberg e Dylan Tichenor, apesar de ser boa, para mim não chega nem a ser uma das cinco melhores do ano, “Lincoln”, “As aventuras de Pi” e “Argo” são muito superiores; melhor edição de som para Paul N. J. Ottosson, apesar de ser ótima, votaria em “007 – Operação Skyfall”; por fim, e a mais importante, melhor atriz principal para Jessica Chastain, apesar de sua interpretação estar convincente e ter uma cena forte onde pode se doar ao máximo, no entanto, Naomi Watts, Emmanuelle Riva e Jennifer Lawrence estão bem melhores e merecem o prêmio muito mais que Chastain.


Jessica Chastain, portanto, apesar de ter uma personagem forte e decidida, acaba ficando um pouco apagada durante o desenrolar da trama e não compreendi o porquê de todos os prêmios que a atriz já ganhou, apesar de estar bem, saber o que deve fazer em um ou outro momento e ter cenas fortes que lhe deram um grande destaque, não há muito que faça Chastain merecer o Oscar. Para lembrar, Chastain atua desde 2004, entretanto, seu destaque no cinema se deu apenas em 2011quando atuou em “A Árvore da Vida” e “Histórias Cruzadas”, além disso, fez mais 4 filmes no mesmo ano, quatro filmes em 2012 e tem, em sua agente, três estréias para 2013, o que significa muitos trabalhos em pouco tempo, o que pode indicar bons trabalhos, mas sacrificando alguns que podem ser ruins. Apesar de o filme centrar sua personagem, o resto dele é composto por basicamente homens, com exceção de Jennifer Ehle, que completa a parte feminina do longa como a colega de trabalho de Maya, Jessica, uma mulher tão determinada quanto a personagem de Chastain, que desconfia de Maya no começo, mas, depois, torna-se uma verdadeira amiga. Dentre os homens, destaco Jason Clarke – oriundo de algumas séries e minisséries para televisão -, o protagonista da tão falada cena de tortura, o ator chegou a ser “torturado”, bem como o personagem que ele tortura, para sentir mais ou menos como era aquilo, Clarke é um excelente ator coadjuvante que mostra a que veio e não deixa suas expressões vacilarem um segundo em uma das cenas mais importantes do filme. Além dele, temos Mark Strong – de, no mínimo, dez bons filmes feitos na última década -, o chefe de Maya, George, um homem astuto que tem uma das falas mais aterradoras do filme todo, mas também é ele quem divide com Chastain as melhores cenas que acontecem das dependências da CIA no Paquistão.
O título, traduzido livremente, seria “Zero Escuro Trinta”, na realidade, uma expressão utilizada pelos militares norte-americanos para designar “meia-noite” e meia, a hora mais escura para se matar Bin Laden, sendo uma referência ao momento exato em que o terrorista foi assassinado. Fazendo das palavras da colunista do iG, Luísa Pécora, “Bigelow transforma ucomplexa discussão morel em um exclente filme de ação, polêmico e necessário”, o que me faz voltar ao pequeno problema que, provavelmente tirou Bigelow da corrida pelo Oscar de melhor direção do ano, o que chamou a atenção da maior parte das pessoas foi a forma como a protagonista não fala ou faz nada a respeito, nem ao menos uma fala para dizer como ela reprova tudo aquilo – eu me satisfiz bem com as feições quando vê o homem sendo torturado. Em contra ponto a isso, para mim, o pior fica mesmo em uma das maiores cenas do longa onde um dos chefes do Paquistão chama a tenção de todos por não estar tendo nenhum resultado, interpretado por Mark Strong, ele diz: “I want targets! Do your fuking jobs, bring me people to kill”, ao pé da letra traduzido como, “Eu quero alvos! Façam a porra de seus trabalhos, tragam-me pessoas para matar”. Não que pessoas como Osama Bin Laden não mereçam morrer, mas não se pode esperar pelo Oscar de melhor filme quando se pede pessoas para matar. Pois é, são os direitos humanos e a hipocrisia dizendo o quanto está errado mostrar a verdade. Uma pena.

A TÍTULO DE CURIOSIDADE: A PROPAGANDA PARA SE CANDIDATAR AO OSCAR.
EM CIMA DO TÍTULO ORIGINAL (ZERO DARK THIRTY) O APELO: FOR YOUR CONSIDERANTION
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