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domingo, 2 de março de 2014

013. (ESPECIAL OSCAR 2014) ÁLBUM DE FAMÍLIA, de John Wells

Um exército imbatível de atores armados até os dentes com a pior das armas, a palavra, expõe a realidade e traz um dos filmes mais violentos do ano.
Nota: 9,0


Título Original: August: Osage County
Direção: John Wells
Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Chris Cooper, Ewan McGregor, Margo Martindale, Sam Shepard, Julianne Nicholson, Juliette Lewis, Abigail Breslin, Benedict Cumberbatch, Dermot Mulroney, Misty Upham
Produção: George Clooney, Jean Doumanian, Grant Heslov, Steve Traxler, Bob Weinstein, Harvey Weinstein
Roteiro: Tracy Letts (roteiro e peça)
Ano: 2013
Duração: 120 min.
Gênero: Drama

Beverly e Violet Weston estão casados há mais de 40 anos e têm três filhas crescidas, Barbara, Karen e Ivy. Quando Beverly desaparece, a família se reúne na casa dos Weston no Contado de Osage, no infernal deserto do Oklahoma. Mas é quando descobrem que Beverly cometeu suicídio que a coisa esquenta de forma inacreditável. Barbara, sua filha e seu marido, de quem ela está se separando; Karen e seu noivo; Ivy; Mattie Fae, irmã de Violet, seu filho e seu marido, todos se reúnem em volta da mesa de jantar na casa dos Weston para prestar condolências à Violet.


Não se engane com a primeira cena do longa. A troca de palavras sutis entre Violet e Beverly não é apenas uma pequena discussão entre dois velhinhos que se amam. Não se engane pela primeira música tocada no filme. A animada “Lay Down Sally”, de Eric Clapton, está longe de ser a representação do humor da família Weston. A emocionante “Last Mile Home”, é bem mais apropriada. A história pode parecer de uma família que acaba de passar por um momento difícil e está se desestruturando, entretanto, os Weston jamais foram uma família estruturada. O calor do Oklahoma se parece em muito com o clima quente, áspero e seco que ronda cada membro dessa família, e pior, que acaba contagiando cada indivíduo que se torna um membro do clã Weston. O suicídio de Beverly também não é uma coincidência: após tantos anos passando vergonha por seu hábito desagradável de beber, ele resolveu afogar a si próprio após ter sido afogado a vida toda pelo álcool e pelas palavras de sua esposa. E, como se não bastasse, Violet está com câncer na boca, sua arma infalível contra a maior parte dos integrantes de sua família.


A matriarca, no entanto, jamais usou seus artifícios sem propriedade, o que não significa que ela cobre alguma coisa de qualquer pessoa, Violet simplesmente diz a verdade na cara de todos. Diz não. Violet arremessa verdades ofensivas, sendo fria, inapropriada e invasiva de todas as formas imagináveis por um homem. E o mais louco em tudo isso é que Violet não se contenta em “conversar” com pessoas que, como Ivy, escutam tudo de boca fechada. Karen, que ri de tudo e finge que a vida é perfeita, também não é uma opção para a fúria da megera. Violet gosta dos que respondem, dos que mostram estarem incomodados, dos que tentam ser mais terríveis que ela. Violet gosta dos sets em que luta, hostilmente, com Barbara, Mattie Fae e, especialmente, Beverly. São esses que a enfrentam que deixam a boca cancerosa de Violet sedenta por palavras ofensivas. E não se engane, também, se está pensando que Mattie Fae é diferente da irmã. Charlie, o marido, e Pequeno Charlie, o filho, são seus alvos: Pequeno Charlie fica acuado, tem medo da mãe e faz o possível para não deixá-la brava, com Charlie a coisa é diferente, ele a enfrenta e a coloca em seu lugar, e é por amá-lo e por ficar calada uma vez ou outra que os dois estão há 38 anos casados.


Diretor de nove episódios da aclamada série “Plantão Médico” (1998 – 2009), de quatro episódios da premiada série “Shameless” (2011 - 2014) e do mediano filme “A Grande Virada” (2013), John Wells é vencedor de seis prêmios Emmy e conhecido mais por seus trabalhos como produtor (o que inclui a produção de uma das melhores minisséries dos últimos anos “Mildred Pierce” [2011]). A notícia de que ele seria o realizador de um filme como esse deixou muitas dúvidas quanto às possibilidades de seu trabalho. O longa, inquestionavelmente, lembra muito uma peça de teatro. Possui marcações teatrais, direção de arte teatral, diálogos teatrais que parecem intermináveis e, até mesmo, atuações um tanto teatrais. Mas isso não significa que o trabalho tenha ficado ruim. Muito pelo contrário. Apesar das marcações incomodarem um pouco, a arte do filme é linda, o figurino é característico e melancólico como esperamos que seja, o roteiro é espetacular, com alguns dos melhores diálogos do ano e, ainda mais interessantes, com falas que mais parecem monólogos que se estendem por minutos e minutos e as atuações são o que há de mais belo. As brigas que o contexto proporciona para a família também são interessantes e nos estimulam a cada momento. Os momentos de conflito entre Violet e Barbara são intensos, a conversa entre Mattie Fae e Charlie é definitiva, as revelações do passado são tocantes, os escândalos de Violet são deprimentes e suas ofensas são inacreditáveis. A trilha sonora também é algo primordial, trazendo canções fortes e adequadas, que misturam o calor do verão em Osage County, a intensidade da vida dos Weston e a afeição inevitável que uns nutrem pelos outros.


Meryl Streep e Julia Roberts são a dupla indicada ao Oscar desse longa. E que dupla, diga-se de passagem. Poucas vezes atrizes se deram tão bem na telona como essas duas. No Oscar, Meryl é indicada como melhor atriz principal e Julia como melhor atriz coadjuvante. Como ocorreu com Judi Dench e Cate Blanchett em “Notas Sobre um Escândalo” (2006) – indicadas, respectivamente, nas mesmas categorias que Streep e Roberts -, o difícil é dizer qual das duas é a protagonista e qual é a coadjuvante. Meryl, mais uma vez, está magnífica. Ela é uma Violet velha, indefesa fisicamente, frágil, viciada em calmantes, com poucos cabelos devido à quimioterapia. Mais uma vez somos enganados, pois quando a atriz coloca a peruca escura e os óculos, esquecemos por completo a boa mãe que a atriz viveu em “Um Amor Verdadeiro” (1998), onde sua personagem também lutava contra o câncer, e somos obrigados a dar espaço a uma mulher má, perversa, desagradável, que se delicia com o prazer de ofender os outros, e se esses outros são sua família, melhor ainda. Indicada pela décima oitava vez ao Oscar (recorde que deixa qualquer outro ator ou atriz muito para trás), essa dama da sétima arte não parece pretender humanizar sua personagem, em um dos momentos mais belos do longa, Violet conta uma passagem de sua infância que nos faz sentir pena, até ela mesma mencionar que é uma mulher diabólica e, ao concordarmos com ela, deixamos de sentir qualquer remorso. E uma das culpadas por ficarmos tão enojados com Violet é Barbara, personagem de Julia Roberts. Talvez por vermos que toda a monstruosidade da matriarca está refletindo em apenas uma coisa: a reprodução de outro monstrinho que tenta se igualar à mãe. Roberts tem a mesma fúria nos olhos, o mesmo desejo insaciável de aniquilar os outros apenas com palavras. A mesma intensidade vista em Streep, vemos em Roberts. Em uma das cenas mais deliciosas, e engraçadas do longa, Barbara, Violet e Ivy estão almoçando e Barbara se enfurece com a irmã e age como Violet: após Ivy atirar um prato no chão, Barbara debocha fazendo o mesmo e gritando que todos devem jogar o prato no chão, Violet, sorrindo diabolicamente, atira seu prato como se fosse algo normal a ser feito. Nessa cena, e na cena em que Barbara se joga sobre a mãe para tomar os calmantes de sua mão, vemos a perfeição na interpretação de Julia, que consegue, até mesmo, se parecer fisicamente com Streep por suas feições. E mais impressionante: compreendemos que, como Violet, Barbara se diverte com tudo aquilo.


O restante do elenco não é menos sublime que a dupla citada à cima. Não podemos dizer que esse ou aquele intérprete segura essa ou aquela cena. A esses gladiadores, foi dado o mesmo treinamento, as mesmas armas, as mesmas chances de treinar antes de entrarem na arena, são os personagens que sairão vivos, ou mortos, não os atores. Margo Martindale é Mattie Fae, outra mulher perversa e rancorosa. É ela quem nos faz sentir que existem apenas duas possibilidades para um filho de uma dessas duas irmãs: ou ele se torna como elas, ou se torna um ser que se sente impotente e insignificante até uma etapa da vida, aliás, os quatro filhos delas se sentem assim, alguns mais, outros menos. Martindale é forte e não tem nada que faça parecer que sua interpretação é uma tentativa de se igualar a Streep ou alguma referência à sua personagem estar tentando imitar a irmã. Martindale deixa claro que ambas são assim, cada uma possui uma personalidade, mas ambas são o retrato da mãe que tiveram. Chris Cooper e Benedict Cumberbatch são Charlie e Pequeno Charlie, respectivamente. Cooper está majestoso, trazendo um Charlie que já sabe como lidar com a esposa e segura as pontas de tanta loucura; Cumberbatch é o retrato da opressão e vemos, claramente, como o Pequeno Charlie criado por ele está tentando sustentar, sobre sua cabeça, o enorme peso de ser filho de Mattie Fae. Mas o Clã Weston nada seria sem Juliette Lewis e Julianne Nicholson, Karen e Ivy. Enquanto Lewis traz uma personagem irritantemente sorridente e que finge que a vida é um paraíso e que ela vive em um conto de fadas desde que conheceu o noivo, Nicholson nos traz uma personagem simples, cativante que também poderá irritar a quem não se contenta com pessoas fracas. Abigail Breslin mostra que cresceu, vivendo Jean, a filha de Barbara, a pobre coitada que, provavelmente, está herdando o dom da língua maldita das mulheres de sua família. Ewan McGregor e Dermot Mulroney são os genros de Violet, Bill, marido de Barbara, e Steve, noivo de Ivy. Os atores provam, mais uma vez, que são muito mais que rostinhos bonitos e trazem personagens distintos. Enquanto Bill é um homem íntegro que, por não aguentar mais a genética da esposa, arrumou uma amante, mas que está tentando concertar as coisas – ao menos com filha -, Steve é um canalha que não tem ideia do que o espera entrando para essa família ao casar com uma das filhas de Violet Weston.



É triste ver como as interpretações magníficas e todo o resto que compõe esse filme foram esnobados pelas grandes premiações. Provavelmente, os votantes ainda não estão preparados para ouvir tantos palavrões saindo de bocas tão decentes quanto as de Meryl Streep e Margo Martindale, ou não conseguiram assistir ao filme sem encontrar um pouco de sua família ali dentro (e você também encontrará) e ficaram revoltados com isso. Ou, ainda, ninguém está pronto para uma trama com tantas verdades, tantas surpresas, tantas ofensas, tantas loucuras entre pessoas que deviam se amar e se respeitar e se tratam como se a família fosse um fardo. As metáforas escondidas, ou escrachadas, da trama, são o que dão o tom melancólico e até agradável. As verdades atiradas pela boca de Violet, como se sua língua fosse o componente principal de uma catapulta que atira pedras para demolir castelos, são, sem dúvida, terríveis e são destinadas a qualquer efeito que não seja lisonjeador.  Mas também não direi que muito do que é dito aqui, se escutado com atenção, deixa de ter graça. Violet, como outra personagem de Streep já foi apontada, é uma sádica notória. Sua risada é violenta, seu temperamento é violento, suas palavras são violentas e até a forma como anda, abraça e diz palavras bonitas (que são raras, mas existem) parece mais um tapa na cara a um carinho de uma mãe amável. Esse filme não é do tipo que traz alguma lição de vida. Ele não quer mostrar a ninguém como o amor é importante ou como a amizade salvará todos das desgraças a que estamos fadados. O longa se refere às decadências vivenciadas pelo ser humano ao longo da vida, que é “longa demais”, como apontaria T. S. Eliot. E também é uma forma de mostrar a intimidade de uma família que representa qualquer outra, afinal, todas as famílias do mundo podem fingir que tem vidas perfeitas e podem esconder o passado, mas todos os clãs a que pertencemos possuem um teto de vidro, e ele não é laminado. Quando estoura, seus cacos se espalham para todos os lados, e será muito difícil juntá-los, e renuí-los será impossível.Também não vemos a referência a uma mãe que há muito começou a perder o controle sobre a vida das filhas, já que Violet não quer controlar, quer importunar. Esse filme é uma exposição afiada e irônica, assim como a boca cancerosa de Violet Weston sempre será. 

VENCEDORES DOS SINDICATOS:
Sindicato dos Roteiristas:
Melhor Roteiro Original: Spike Jonze, por Ela
Melhor Roteiro Adaptado: Billy Ray, por Capitão Phillips, baseado no livro “A Capitain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALS, and Dangerous Days at Sea”, de Richard Phillips com Stephan Talty
Melhor Roteiro para Documentário: Sarah Polley, por Stories We Tell
USC Roteiristas (Roteiros Adaptados):
John Ridley, por 12 Anos de Escravidão
Sindicato dos Diretores:
Melhor Direção em Filme: Alfonso Cuarón, por Gravidade
Melhor Direção em Documentário: Jehane Noujaim, por The Square
Sindicato dos Produtores:
Melhor Filme (empate): 12 Anos de Escravidão e Gravidade
Melhor Animação: Frozen: Uma Aventura Congelante
Melhor Documentário: We Steal Secrets: The Story of WikiLeaks
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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

131. (ESPECIAL OSCAR 2013) O IMPOSSÍVEL, de Juan Antonio Bayona


O que é realmente impossível é não se emocionar com tal história baseada em fatos reais.
Nota: 9,2


Título Original: Lo Imposible
Direção: Juan Antonio Bayona
Elenco: Naomi Watts, Ewan McGregor, tom Holland, Samuel Joslin, Oaklee Pendersgat, Marta Etura, Ceraldine Chaplin
Produção: Belén Atienza, Álvaro Augustín, Ghislain Barrois, Enrique López Lavigne
Roteiro: Sergio G. Sánchez e María Belón (história – filme baseado em acontecimentos reais de sua vida)
Ano: 2012
Duração: 114 min.
Gênero: Drama

Como atestam as informações inicias desse filme: “Em 26 de dezembro de 2004, o tsunami mais devastador da história atingiu a costa sudeste da Ásia. As vidas de inúmeras famílias de todo o mundo mudaram para sempre.” Os tsunamis foram ocasionados pelo terremoto Sumatra-Andaman, que foi um dos maiores terremotos já registrados – com magnitude entre 9,1 e 9,3 -, além disso, devido a sua duração – entre 8 e 10 minutos – outros terremotos se formaram em partes muito distantes do planeta. Como se não bastasse, estima-se que mais de 250 mil pessoas foram mortas e mais de 1,5 milhões foram desabrigadas pelo desastre natural, que afetou, ao todo, sete países diretamente.


No filme, nos é contada a história da família Bennett, uma família de americanos que viviam no Japão e estavam passando as festas de fim de ano na Tailândia. Os Bennetts eram compostos por Maria e Henry, os pais de Lucas, Thomas e Simon. Na manha da Natal, não apenas eles, mas todo o país é surpreendido pelo Tsunami da Indonésia. Durante o desastre todos se perdem uns dos outros e vemos as tentativas de a família se reunir novamente, acrescente a isso, é óbvio que ainda presenciamos a forma inacreditável com a qual cada afetado tenta sobreviver em meio a uma catástrofe que parece determinada a exterminar a todos.


Juan Antonio Bayone não dirigia algo há cinco anos – seu último trabalho foi o conhecido “O Orfanato” (2007). Confesso nunca ter assistido nenhum filme seu, logo, não há como fazer parâmetros com o restante de seus trabalhos, dessa forma, o que posso garantir é que, independente do estilo do diretor ou da qualidade de suas outras produções, esse filme é exatamente o que esperamos ver. Ao mesmo tempo em que ele não deixa de filmar bem de perto a tentativa de salvação de Maria e Lucas em meio às águas do mar que avançaram para a terra, ele não esquece de nos mostrar o quanto mãe e filho estão perdidos no meio do nada em tomadas abertas brilhantes. Além disso, em vários momentos ele utiliza a câmera de mão de forma muito inteligente, fazendo algumas cenas parecerem reais documentários sobre o que está acontecendo com a família. Quanto ao roteiro, apesar de a tentativa de sobrevivência e toda a recuperação e encontro da família serem ótimos, o que mais me chamou a atenção foi a forma como Sánchez nos apresentou o início da história, pois, ao invés de enrolar em momentos inúteis da família, o roteiro vai direto ao assunto, mas antes um trunfo: vemos dezenas de famílias felizes no hotel em que os Bennetts se hospedaram, dando ênfase na felicidade dos protagonistas. Não se pode deixar de notar o quanto isso faz com que nos apaixonemos por cada um deles e desejemos que todos voltem em paz e juntos para sua casa.


Quando assisti a Naomi Watts em “J. Edgar” (2011) fiquei aliviado por ver o quanto ela estava evoluindo artisticamente, e é exatamente isso que a atriz está disposta a provar com sua atuação fantástica nesse filme. Como a matriarca Maria, ela é tocante ao nos apresentar o drama real de uma mãe que não sabe se conseguirá ver sua família reunida novamente e que teme pela morte de cada um deles. Apesar de toda a beleza do filme, Naomi Watts recebeu a única indicação ao Oscar do longa, ela é uma das favoritas para o prêmio de melhor atriz, além disso, ela demonstra a força e a terminação de uma mulher que não deixará que as ondas levem sua vida tão facilmente. Pensei em escolher um filme para citar uma atuação de Ewan McGregor que tenha me deixado decepcionado, mas são muitos. Entretanto, sempre vi alguma coisa a mais no ator, o que sempre me fez assistir a seus filmes esperando por algo, realmente, bom. Em “Toda a Forma de Amor” (2010) ele começou a demonstrar o quanto era capaz, em “Amor Impossível” (2011) ele nos presenteia com uma atuação excelente de um homem confuso e cheio de manias, aqui, por fim, McGregor ganha mais que minha admiração, ganha meu respeito por ser um ator que passou do péssimo ao inacreditável como o patriarca Henry. Apesar de a busca por sua família exigir que o ator de o melhor de si, apenas os momentos em que ele vê a onda e abraça seus filhos e o reencontro com as crianças já são o suficiente para me convencer: McGregor superou todas as minhas expectativas e está no caminho para se tornar um dos melhores atores ingleses de sua geração. Mesmo que as interpretações de Watts e McGregor sejam surpreendentes e magníficas, Tom Holland, o pequeno Lucas, rouba a cena nos apresentando um jovem determinado a ajudar as pessoas e que, apesar de estar entrando na adolescência, leva o tsunami como uma lição de vida que jamais poderá ser esquecida. Samuel Joslin e Oaklee Pendergast são, respectivamente, Thomas e Simon. Ainda contamos com a participação linda de Geraldine Chaplin, como uma senhora que se comove ao ver s irmãos mais novos juntos.


“O Impossível” trata exatamente sobre o que o título sugere, o mais impossível de ser feito em meio a um desastre terrível como o tsunami: sobreviver. E é nessa palavra que consiste toda a trama, não são apenas os membros da família Bennett ou qualquer outro ser humano que está tentando manter sua vida mesmo com uma tragédia como essa, vemos a necessidade de se manter viva a racionalidade, a serenidade, a força de vontade, a integridade, e a decência em ajudar aos outros se não há mais nada o que possa fazer por si próprio ou pelas pessoas que se ama. Mais que uma lição de vida, “O Impossível” é um arauto de esperança em um mundo onde tudo parece catastrófico, onde desastres naturais ocorrem com uma frequência inaceitável, onde pessoas nascem e morrem sem nenhuma justificativa e onde, sobretudo, nós, os seres humanos, somos os culpados pela futura extinção da raça humana. Enquanto vemos tanta desgraça, portanto, é maravilhoso ver uma história onde pessoas sobrevivem.




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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

140. AMOR IMPOSSÍVEL, de Lasse Hallström

Uma agradável comédia sobre superação, com um gostinho de ironia.
Nota:  8,5


Título Original: Salmon Fishing in the Yemen
Direção: Lasse Hallström
Elenco: Ewan McGregor, Emily Blunt, Kristin Scott Thomas, Rachel Stirling, Amr Waked, Tom Mison, Conleth Hill
Produção: Paul Webster
Roteiro: Simon Beaufoy e Paul Torday (romance)
Ano: 2011
Duração: 107 min.
Gênero: Comédia / Romance

Alfred Jones é, literalmente, um Doutor em pesca que vive sua vida tranquila em um emprego público na Inglaterra. Certo dia é convidado por Harriet para liderar uma odisséia: levar dez mil salmões para o Iêmem para o esporte de pesca do Sheikh Muhammed. Logo que lê a idéia, Jones acha um absurdo, mas a seu país precisa mostrar alguma compreensão com os problemas do Oriente Médio, então decidem que Jones terá de fazer o tal serviço. Todavia, o que parecia apenas uma loucura, se mostra uma loucura incrível quando Afred e Harriet se aproximam do Sheikh e iniciam o projeto.


Dentre os vários filmes do sueco Lasse Hallström, talvez o único realmente genial seja o drama-comédia “Chocolate” (2000), com Juliette Binoche, Johnny Depp, Judi Dench e Alfred Molina, entretanto, a lista é bem grande se formos um pouco mais complacentes com o diretor, a lista aumenta e presenciamos uma carreira de filmes agradáveis e que nos trazem boas lições sobre a vida. Apesar de parecer apenas uma comédia romântica sobre um homem frustrado especialista em pesca e uma bela mulher à procura de alguém em sua vida, “Amor Impossível” é bem mais que isso. Para começar, vamos a construção de Jones: um homem realmente frustrado que já está cansando de seu casamento monótono e que gostaria de ter filhos e ser mais bem compreendido pela esposa, tendo em vista sua vida, quando se vê obrigado a aceitar o projeto dos salmões no Iêmen o abraça de forma formidável e torna aquilo sua razão de viver; Harriet é uma mulher solitária que tem uma vida profissional muito promissora, mas ainda procura por um homem com visão e que respeite suas escolhas, apesar de achar que o encontrou, ela acaba frustrada com a escolha; Muhammed é um Sheikh visionário que gostaria de romper com algumas fronteiras desnecessárias entre as tradições conservadoras de seu país e que ainda pode nos passar lições sobre fé e esperança em Deus e na humanidade; por fim, e a melhor parte, Patricia Maxwell, a assessora de imprensa do Primeiro Ministro inglês, uma mulher deplorável que só pensa em sua carreira, é aqui que temos a grande sacada do filme: a personagem é puro deboche sobre homens e mulheres que só pensam em seus trabalhos e na forma como as pessoas nesse cargo precisam se virar para manter os interesses de seus superiores.


Ewan McGregor sempre foi uma decepção para mim, entretanto, tento em vista seus últimos trabalhos, sinto o prazer de dizer que minha opinião sobre o ator vem mudando cada vez mais. Como o coitado e perdido Jones ele está incrível e nos proporciona a interpretação perfeita de um homem que faz o que ama, mas que tem uma vida frustrada, ou seja, McGregor passa exatamente o perfil do tipo de homem que está em um emprego em sua área de estudos, mas que tem sua própria paixão desprezada por muitos, e é quando se encontra profissionalmente que acaba encontrando o amor de sua vida. Emily Blunt é uma das atrizes inglesas mais promissoras de sua geração, desde sua atuação em “A Jovem Rainha Vitória” (2009) confesso que minha admiração pela atriz só vem crescendo, como Harriet ela é o retrato da jovem bem sucedida profissionalmente que teve de deixar sua vida pessoal de lado, mas ao embarcar em um projeto realmente incrível em seu trabalho, bem como acontece com Jones, ela encontra a si mesma e descobre coisas que ela não acreditava serem possíveis. Kristen Scott Thomas é a perfeita interpretação da ganância e de pessoas que só pensam no seu bem e desejam subir profissionalmente, custe o que custar, sua interpretação como Patricia Maxwell, todavia, se torna brilhante exatamente por ser um claro deboche a esse tipo de indivíduo.


Com essa sacada da crítica aos profissionais relativos ao entretenimento que fazem de tudo para que tudo de certo politicamente, “Amor Impossível” é elevado de comédia romântica a um filme inteligente e com muito a ser mostrado, além disso, os relatos das vidas de Jones e Harriet nos trazem personalidades reais que estamos acostumados a cruzar em nossa vida dia após dias. Dessa forma, apesar de um roteiro aparentemente fraco, uma direção conhecida por poucos e atores que poderiam resvalar a qualquer momento por terem personagens relativamente complexas a serem interpretadas, no final das contas, felizmente o que parecia tão impossível quanto pescar no Iêmen, se torna algo muito possível e agradável, não teoricamente, mas na prática.


VENCEDORES GLOBO DE OURO 2013
CINEMA:
Melhor Filme Drama: Argo
Melhor Filme Comédia ou Musical: Os Miseráveis
Melhor Diretor: Bem Affleck (Argo)
Melhor Ator Drama: Daniel Day-Lewis (Lincoln)
Melhor Atriz Drama: Jessica Chastain (A Hora Mais Escura)
Melhor Ator Comédia ou Musical: Hugh Jackman (Os Miseráveis)
Melhor Atriz Comédia ou Musical: Jennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida)
Melhor Ator Coadjuvante: Christoph Waltz (Django Livre)
Melhor Atriz Coadjuvante: Anne Hathaway (Os Miseráveis)
Melhor Roteiro: Quentin Tarantino (Django Livre)
Melhor Filme Estrangeiro: Amor (Áustria)
Melhor Animação: Valente
Melhor Trilha Sonora: Michael Danna (As Aventuras de Pi)
Melhor Canção: “Skyfall” – Adele (007 – Operação Skyfall)

TELEVISÃO:
Melhor Série Drama: Homeland
Melhor Série Comédia ou Musical: Girls
Melhor Ator Série Drama: Daniel Lewis (Homeland)
Melhor Atriz Série Drama: Claire Danes (Homeland)
Melhor Ator Série Comédia ou Musical: Don Cheadle (House of Lies)
Melhor Atriz Série Comédia ou Musical: Lena Dunham (Girls)
Melhor Minissérie ou Telefilme: Game Change
Melhor Ator em Minissérie ou Telefilme: Kevin Costner (Hatfields & McCoys)
Melhor atriz em Minissérie ou Telefilme: Julianne Moore (Game Change)
Melhor Ator Codjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Ed Harris (Game Change)
Melhor Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Maggie Smith


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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

382. TODA FORMA DE AMOR, de Mike Mills

As relações no mundo são complexas, mas necessárias, e é nesse contexto que Christopher Plummer é o favortito entre os coadjuvantes nesse ano.
Nota: 8,3






          Título Original: Beginners
          Diretor: Mike Mills
          Elenco: Ewan McGregor, Christopher Plummer, Mélanie Laurent, Goran Visnjic, Kai Lennox, Mary Page Keller, Keegan Boos, China Shavers, Melissa Tang, Amanda Payton
           Produção: Miranda de Pencier, Lars Knudsen, Leslie Urdang, Jay Van Hoy, Dean Vanech
           Roteiro: Mike Mills
           Duração: 105 min.
           Ano: 2010
           Gênero: Comédia Dramática

CONFIRA O TRAILER DO FILME:


          Na vida é precisos que o ser humano leve alguns choques de realidade para viver de verdade e dar valor a nossa existência na Terra, para alguns isso acontece aos vinte, para outros aos trinta, cinquenta, setenta, noventa, ou morre-se sem saber como é possuir sentimentos reais. É disso que esse filme trata, a personagem principal, Oliver Field (Ewan McGregor) precisa conviver com os fatos de a mãe ter morrido e o pai, com 75 anos de idade revelar que foi homossexual a vida toda, para viver sua propria vida e tentar ser feliz da melhor foma possivel.
           Mike Mills não faz nada de muito interessante em sua direção para este filme, é correto do começo ao fim e não há cenas em que nos faça pensar "que m... é essa?". A ediçaõ do filme também é correta, mas o que impressiona é a trilha sonora do trio Roger Neill, Dave Palmer, Brian Reitzell, bem como em "Rango" (mas tão tão bem quanto Hans Zimmer), todas as múscas demonstram a depressão ou a alegria de todas as personagens do filme, o estilo retrô delas nos remete sempre a pensar que todo as dúvias e problemas de Oliver vieram de sua infância nos anos 60 e 70.


            Ewan McGregor tem potencial, vezes para ser péssimo, vezes para ser bom, aqui ele interpreta uma personagem melancólica que volta a dar valor a vida após conhecer um verdadeiro amor, e se questiona se vale a pena largar tudo aquilo em que acreditou ser o casamento durante seus 38 anos de idade para embarcar em algo totalmente incerto, e o faz muito bem. Mas aqui não é McGregor, ou a direção, ou a edição, a trilha ou qualquer outra coisa que chama a atenção, é a maestria com a qual Christopher Plummer vive o pai de Oliver, Plummer sabe que esse filme é sobre a vida da personagem do filho, e não se sobresai a ele em cena alguma, é simples e divertido, e provavelmente está aí o maior trunfo de Plummer, ele sabe o que fazer sempre, e o faz com a grandeza dignida de um rei.
          Toda Forma de Amor trata disso, apesar de o nome original ser "Bigenners", as várias formas de amor, entre pai e filho, mãe e filho, marido e esposa, homem e mulher, homem e homem, homem e animal, enfim, sobre como as relações entre um ser humano e o restante do universo são complexas, mas são essas as relações que mantém a vida como ela é e nos levam a felicidade ou ao desespero da tristeza.
          E é toda essa perfeição de Plummer que indicou o filme a diversos prêmios de Melhor Atuação Coadjuvante, incluindo o Oscar. Ele já levou o Globo de Ouro, o SAG, o BAFTA e outros, o maior prêmio de cinema do mundo já é dele, basta ele comparecer à cerimônia e pegá-lo.


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