terça-feira, 4 de novembro de 2014

YIN YANG

Especial X Panorama Internacional Coisa de Cinema. Filmes: "Parque Soviético" e "A Doce Flauta da Liberdade"



O final da tarde sábado no X Panorama Internacional Coisa de Cinema iniciou, em Cachoeira, com a apresentação de um curta-metragem e um longa, respectivamente, o primeiro, parte da Competitiva Nacional, o segundo, da Competitiva Baiana. O curta, dirigido por Karen Black, foi “Parque Soviético”, uma história que mistura o relacionamento conturbado de um casal em crise com as lembranças de um tempo onde o mundo vivia entre dezenas de dualidades que mudariam a história da humanidade. O longa, de George Neri, “A Doce Flauta da Liberdade” é um filme metalinguístico que mistura as referências cinematográficas com a importância de se falar sobre a liberdade de expressão, independente da região, da cultura ou da área de que se fala.
“Parque Soviético” foi filmado no parque em memória dos soldados do Exército Vermelho que tombaram na Segunda Guerra Mundial. É nesse parque que um homem e uma mulher se encontram e começam a discutir seu relacionamento. E o que isso tem a ver com uma relação de um casal? Tudo! Segundo a própria Karen, “amor é guerra fria”. Amor é a luta entre dois lados. Amor é a disputa ideológica de dois seres humanos. Nesse caso, amor é o jogo entre um homem e uma mulher. Amor passa tanto pelas dualidades da vida quanto uma guerra. Enquanto ele defende o capitalismo, ela opta pelo socialismo. Enquanto ele é um homem, ela é uma mulher, assim como, durante a Guerra Fria, enquanto de um lado estavam os EUA e seus aliados e de outro estavam a URSS e seus aliados. Além da história, o filme em preto e branco possui uma fotografia incrível que se preocupa sempre em mostrar um pouco dos monumentos e um pouco do casal e uma sonoplastia aparentemente natural que, ainda segundo a diretora, foi feita de forma absolutamente artificial.

Filme: "Parque Soviético", de Karen Black
“A Doce Flauta da Liberdade” é uma alegoria metalinguística que tem por objetivo criticar a censura. A história se passa na cidade fictícia de Liberdade, no interior da Bahia, onde um homem tem como função recortar partes obscenas, indecentes, com diálogos que possuam palavrões e qualquer referência perigosa que possa afastar o povo da religiosidade dos mais diversos filmes. Em um dado momento, a repressão chega ao limite e jovens se revoltam. Um deles chega a usar de artifícios místicos para prejudicar o homem em questão. Inicialmente, o filme é uma confusão de imagens, do real e do imaginário, uma mistura de diversas cenas e histórias, um recorte muito diferenciado e, por vezes, estranho. É preciso, assim, tentar entender a loucura contida na proposta do longa e tentar fazer parte dele para só então, tentar compreendê-lo. E, ainda assim, não há garantia de que o filme funcione.
George recebeu um roteiro com uma história que ele considerou meio quadrada sobre um homem que picotava negativos de filmes e, devido a uma revolta, acaba sofrendo consequências um tanto drásticas. George não gostava da forma como o roteiro era proposto, então, inseriu a improvisação, a aparição de parte da produção (o que tornou o filme ainda mais metalinguístico do que apenas inserir diálogos e cenas de filmes muito conhecidos no cinema) e artifícios estilísticos como um pano sobre a lente da câmera para causar um efeito diferenciado. A equipe do filme é o próprio elenco, assim, algumas cenas parecem ensaios, outras parecem making off. Uma proposta arriscada que, aliada a metáforas exageradas e algumas críticas exploradas de forma excessiva, corroem o filme em alguns aspectos. Algumas ideias, como a necessidade do fim da repressão e a o cinema como expressão necessária, acabam se perdendo e o sentido do filme se torna um tanto ambíguo. Pontas ficam soltas e a sensação é a de que muito mais podia ser falado.

Filme: "A Flauta Doce da Liberdade", de George Neri
 “Parque Soviético” e “A Doce Flauta da Liberdade” possuem em comum a apresentação das dualidades e de como elas afetam a vida dos seres humanos. Enquanto no primeiro a dualidade se dá entre as ideologias e os gêneros, no segundo, ela se apresenta pela liberdade ou pela falta dela, pela repressão ou pela tolerância. “Amor é guerra fria”, independente de com quem se relacione, o amor será uma disputa eterna entre duas pessoas e seus egos, e suas ideias, e seus desejos, e seus sonhos. Assim como a imposição de ideologias será uma guerra eterna entre os que defendem a permanência de um estilo de vida e os que buscam por uma vida nova. E, talvez, essas dualidades, que dizem respeito ao amor e ao convívio social, sejam as que mais afetam o ser humano, em qualquer lugar do mundo, em qualquer espaço de tempo.

Conversas com os diretores Karen Black, de "Parque Soviético", e George Neri, de "A Doce Flauta da Liberdade", após a apresentação dos filmes. Foto: Wesley Proença.
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OS HOMENS SÃO DE MARTE?

Especial X Panorama Internacional Coisa de Cinema. Filmes: "Tejo Mar" e "Permanência"



O terceiro dia do X Panorama Internacional Coisa de Cinema foi finalizado em Cachoeira, onde é apresentando em parceria do Cineclube Mário Gusmão, com uma sessão da Mostra Panorama Brasil. O primeiro filme apresentado foi o curta-metragem “Tejo Mar”, filme carioca dirigido por Bernard Lessa, sobre um rapaz africano negro que vem morar no Brasil durante alguns anos e sobre seus relacionamentos, focando no momento em que conhece uma bela jovem brasileira. Depois, foi a vez do longa-metragem “Permanência”, filme pernambucano do diretor Leonardo Lacca, que narra a história de um fotógrafo pernambucano que vai a São Paulo para sua primeira exposição individual e se hospeda na casa da ex-namorada, hoje casada.
“Tejo Mar” possui uma singularidade que me agrada em muitos filmes e que toma o espectador logo de início: a fotografia em preto e branco. Em alguns momentos muito específicos, talvez modernos demais, ela se torna um pouco inapropriada, mas quando ouvimos cada música escolhida para compor a essência do curta, tudo fica maravilhoso. A história é muito comum, não ruim, mas comum: um homem que vive há 10 anos no Rio de Janeiro e está pronto para ir embora. Bem, talvez não tão pronto assim. João está confuso e não sabe direito o que quer para seu futuro (profissional, pessoal, amoroso). Assim sendo, o espectador acompanha o personagem em suas aventuras e indecisões em um filme muito natural e cotidiano. O maior problema do curta são os planos muito longos que não acrescentam em muito na história, o que pode acabar distanciando o espectador da tela.

Filme: "Tejo Mar", de Bernad Lessa
Leonardo Lacca também escolheu realizar um filme muito cotidiano e natural. A cada diálogo ouvido, os personagens se tornam mais parecidos com nossos amigos, nossos vizinhos, nossos familiares, nós mesmos. O sofrimento e os questionamentos de Ivo e de Rita (ele, o fotógrafo, ela, a ex-namorada) se apresentam como muito comuns para todos os seres humanos em algum momento da vida. A construção do personagem de Ivo é incrível. O protagonista é vivido por Irandhir Santos em uma interpretação verdadeira e muito emocionante, que atinge o espectador em cheio, fazendo-o se identificar em diversos momentos. Rita Carelli, intérprete da personagem Rita, não fica para trás. Além de ser sensual (aliás, a química dos atores torna o filme todo muito sensual), possui um olhar sincero, apesar de estar em dúvida sobre suas escolhas. Ambos os personagem mostram o quanto a vida pode ser complicada quando se toma rumos diferentes daqueles outrora preteridos. Além disso tudo, ainda existem as relações de Ivo e seu pai (o homem foi fruto de uma paixão rápida quando o pai de Ivo já era casado com outra mulher) e de Rita com o marido (que, obviamente, já está se desgastando).

Filme: "Permanência", de Leonardo Lacca
Um dos trunfos de “Permanência” é a naturalidade com a qual o cotidiano é tratado: os personagens fazem piadinhas muitas vezes sem graça e se tratam como verdadeiros seres humanos. Não há a falsidade nem a mecanização de alguns filmes de ficção onde os atores não têm muitas liberdades para errarem em cena e aquilo ser visto como algo benéfico para a estrutura do filme. Lacca também opta por planos longos, mas que, com muitos diálogos, gestos, movimentos ou trocas de olhares compõe uma estrutura interessante tanto para a fotografia quanto para a dramaturgia do longa. “Permanência”, entretanto, é um pouco lento e clichê demais. A história sobre casais como Rita e Ivo já está saturada e a única forma de esta parecer diferente se dá pelas interpretações dos atores. Por vezes, o filme parece se arrastar em mostrar o quanto a vida pode ser irônica e desastrosa dependendo de nossas escolhas. É uma água com açúcar boa de beber, mas nem por isso deixa de ser uma água um pouco doce demais.

Mais uma vez, temos, aqui, uma sessão de filmes dedicados às relações humanas e como elas afetam a vida de qualquer um: os protagonistas são homens que estão confusos em relação, principalmente, às suas vidas pessoais. João e Ivo são personagens que vivem hoje as escolhas que fizeram no passado e que acabam compreendendo, de uma forma ou outra, que são as escolhas de hoje que irão determinar o futuro. Além disso, a importância dada às mulheres nos dois filmes fica clara: João e Ivo se divertem com uma mulher aqui e outra ali, afinal, suas “necessidades masculinas” falam mais alto que os amores que podem nutrir por qualquer mulher. Entretanto, fica claro que, em algum momento, alguma mulher tomará conta da vida de João, tanto quanto Rita tomou conta da vida de Ivo. Talvez essa seja a melhor coisa dos dois filmes: eles saem um pouco do clichê de que apenas mulheres sofrem pelas confusões amorosas, pelas dúvidas e pelos desejos de encontrarem alguém. Aqui, são os homens que sofrem e tentam compreender o quanto os sentimentos podem ser poderosos.


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domingo, 2 de novembro de 2014

ETERN@S HUMAN@S

Especial X Panorama Internacional Coisa de Cinema. Filmes: "O Clube" e "A História da Eternidade"




O terceiro dia do X Panorama Internacional Coisa de Cinema iniciou com tudo na manhã desta sexta-feira (31) na cidade de Cachoeira, onde o festival é produzido em parceria com o Cineclube Mário Gusmão, uma iniciativa da professora Cyntia Nogueira, docente da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia no curso de Cinema e Vídeo. O primeiro filme a ser apresentado foi o curta-metragem “O Clube”, de Allan Ribeiro e, logo em seguida, o longa-metragem “A História da Eternidade”, de Camilo Cavalcanti. “O Clube” conta a história do maior clube gay da América Latina, o Turma OK, composto por um grupo de transformistas do Rio de Janeiro que completou 53 anos recentemente. “A História da Eternidade” relata os acontecimentos num pequeno vilarejo no sertão nordestino onde as histórias de três mulheres muito fortes se cruzam e mudam em meio a acontecimentos provocados pelos homens que estão à sua volta.
“O Clube” foi um filme que nasceu de um parto complicado. Inicialmente, a produção desejava realizá-lo para comemorar os 50 anos do clube, mas não conseguiam passar pelos editais que se candidatavam, além disso, dois dos homens escolhidos para viverem os protagonistas da história acabaram falecendo antes que o curta fosse rodado. Finalmente, a proposta passou por um edital generoso e Allan Ribeiro pôde filmá-lo em película. A história gira em torno de uma drag queen e suas desavenças durante a apresentação em comemoração dos 53 anos do local. Para fazer o filme, a produção conviveu com as drag Queens e tentou saber um pouco sobre cada uma, para, então, escrever uma história baseada em fatos reais e interpretada por quem as viveu. O resultado disso tudo vai do perturbador ao cômico. Em alguns momentos o espectador rirá das discussões das artistas, em outros, questionará muito sobre a vida e sobre a forma como deveríamos ser livres, sem preconceitos ou medos.

Filme: "O Clube", de Allan Ribeiro
O sertão nordestino já foi visto dezenas de vezes em inúmeros trabalhos no cinema, mas poucas vezes tão bem representado quanto em “A História da Eternidade”. O serão é um personagem indispensável para se contar a história de Alfonsina, Querência e Dona das Dores, não é falado se elas possuem algum parentesco, mas, representam três gerações que poderiam ser filha, mãe e avó, respectivamente. Alfonsina é filha de Nataniel, um home agressivo e autoritário, tem mais quatro irmãos, que mal são vistos durante o longa, e um tio, Joãozinho, um artista epilético que é considerado um louco pelo irmão, mas por quem Alfonsina é secretamente apaixonada. Querência acabou de enterrar um filho e está tentando passar por isso quando o sanfoneiro cego, Aderaldo, se declara apaixonado e pronto para enfrentar tudo com ela. Dona das Dores criou os filhos e ficou sozinha na aldeia enquanto eles ganharam o mundo, ela espera, assim, ansiosa pela visita do neto Geraldo.
“A História da Eternidade” é apresentada em três partes (capítulos/atos): Pé de galinha, que representa o resguardo que as galinha fazem de si mesmas na copa das árvores, Pé de Bode, que representa a exposição à qual esses animais estão sujeitos sendo criados no sertão para servirem de alimento, e Pé de Urubu, referência clara à morte que acompanha esses animais. Mas essas não são as únicas metáforas usadas no longa. Cavalcanti optou por usar esse tipo de artifício em vários momentos. A epilepsia de Joãozinho, por exemplo, é uma forma de mostrar como o homem está preso nas amarras das dívidas com o irmão e pelo lugar onde vive. Aliás, a cena em que Joãozinho (vivido de por Irandhir Santos de forma monstruosa) tem um ataque epilético é uma das cenas mais arrepiantes e impressionantes do cinema brasileiro dos últimos anos. A apresentação na única televisão da aldeia de um programa sobre presas e predadores é uma metáfora sempre muito bem vinda sobre a própria vida. A intensidade da luz, na maioria dos momentos, revela alguma coisa sobre o que se passa no interior de cada personagem (ou de todos eles). A chuva que chega perto do desfecho do longa é uma metáfora sobre a limpeza, sobre a renovação, sobre coisas novas (boas e ruins). E por aí vai.

Filme: "A História da Eternidade", de Camilo Cavalcanti
Inquestionavelmente, o filme é construído sobre metáforas magníficas e possui interpretações memoráveis de artistas como: Marcelina Cartaxo, Leonardo França, Débora Ingrid, Claudio Jaborandy, Zezita Matos, Maxwell Nascimento e, claro, Irandhir Santos, atores e atrizes que se entregam totalmente a personagens que refletem o local árido em que vivem e que ainda guardam muito do que já ficou no passado. Entretanto, também é feito de uma fotografia inspiradora realizada, basicamente, com luz natural (daí as cenas mais escuras nos interiores das casas e o sol escaldante no exterior) e baseada nas pinturas do italiano Michelangelo Caravaggio. Aliado a isso, a direção de arte do filme é minimalista e é claro que todos os objetos possuem muita história, como o sertão, são personagens do filme, só que dessa vez, meros coadjuvantes que, juntos, formam um time implacável. Tudo o que se vê aqui é lindo, mas o que se ouve não fica nem um pouco para trás. A trilha sonora é delicada, propícia e arrepiante na maior parte do filme, dialogando diretamente com os personagens, seu interior e suas reações, contando, inclusive, com músicas de ninguém mais, ninguém menos que Dominguinhos. A edição e a mixagem de som são ótimas e tornam o filme ainda mais perturbador.
Poucas sessões poderiam ser tão satisfatórias quanto essa. Foram apenas dois filmes. Um feito no Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa, outro realizado no mais profundo sertão nordestino (e Cavalcanti ainda faz questão de colocar imagens do mar, a paixão de Alfonsina, durante o filme para lembrar o quanto o serão é árido e quente). Um deles mostra artistas perfomistas e seus problemas durante a realização de um show. Outro é um filme sobre mulheres e suas trajetórias. De certa forma, os filmes dialogam a partir do momento em que são baseados nas visões femininas, por um lado, homens sensíveis que se vestem e se portam como mulheres artistas que são reprimidas por sua sensibilidade e feminilidade, sendo questionadas inclusive dentro de uma sociedade dita moderna, por outro, mulheres que sofrem nas mãos dos homens devido ao machismo evidenciado. Mesmo assim, mesmo com o preconceito que assola essas almas muito femininas e belas, são elas que mandam nos filmes, são elas que ditam o que acontecerá e quando acontecerá. Claro que, como tudo na vida, em alguns momentos elas cometem erros e ficam sujeitas ao preconceito de que tanto falo. Entretanto, isso não é o suficiente para julgarmos essas pessoas como fracas ou qualquer coisa assim. Só serve para lembrar que elas são tão humanas quanto qualquer um.

Conversa com Dougas Soares, de "O Clube", e Camilo Cavalcanti, de "A História da Eternidade"

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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

... LEVANTA, SACODE A POEIRA...

Especial X Panorama Internacional Coisa de Cinema. Filmes: "My name is Now, Elza Soares" e "Castanha"



A segunda metade do dia de quinta-feira (30) foi dedicada, respectivamente, a filmes da Mostra Panorama Brasil (fora das competitivas) e da Mostra da Competitiva Nacional, “My name is now, Elza Soares”, de Elizabete Maria Campos, que conta com participação da própria Elza para contar sua história de vida e falar sobre seus pensamentos, e “Castanha”, de Davi Pretto, que conta a história de João Carlos Castanha, um ator homossexual que ganha a vida nos palcos (como transformista ou não). Durante a apresentação do primeiro longa, o festival recebeu a visita dos alunos oitavo ano/sétima série (entre 12 e 14 anos) da Escola Estadual Edvaldo Brandão Correa, acompanhados pelo professor Sandro Augusto*. Segundo ele o cinema é uma nova linguagem, “o filme, hoje, não ocupa mais uma condição de marginalidade” tornando-se “uma ferramenta auxiliar para a gente dar aula”. Entretanto, Sandro acha que os jovens cachoeiranos ainda não conseguem mensurar a importância da produção cinematográfica para a cidade de Cachoeira. Sandro considera que, mesmo sendo bom, para a formação cognitiva dos jovens, o cinema ainda está muito distante deles, faltando alguma ferramenta de aproximação para eventos como o Panorama e o próprio CachoeiraDoc (o festival de Documentários de Cachoeira que é atrelado à Universidade). Uma das alternativas seria ir nas comunidades divulgado o evento e atraindo o público para assistir aos filmes e participar das oficinas oferecidas.
 “My Name is Now, Elza Soares” inicia da forma mais clichê possível: com a personagem título entoando um de seus sucessos. Os clichês param por aí. Elizabete Martins Campos traz um filme tão convencional quanto a própria cantora. Diferente de outros documentários, explora a alma da personagem principal, apresentando seus depoimentos sobre a vida, sobre o que passou e sobre o que Elza espera do futuro. Não existem aqueles relados comuns onde a cantora poderia falar e falar sobre sua infância pobre e sua juventude conturbada. Essa mulher negra e pobre, como ela mesma se define, uma pessoa que pode ser tudo ou nada, prefere falar sobre seus pensamentos, seus desejos, suas visões sobre a vida, seus sentimentos em relação à vida. As histórias reais, sobre como chegou ao estrelato, como conheceu, se apaixonou e casou com Garrincha, a perda do filho, os sofrimentos por ser uma minoria completamente reprimida são deixados para segundo plano. Temos aqui a Elza Soares de agora, mais viva que nunca. Temos lembranças de uma Elza que ainda está aqui e ali. Lembranças de uma Elza que insiste em viver o agora, que insiste em viver agora. Uma Elza que vive. Uma Elza que viverá para sempre.

Filme: "My name is Now, Elza Soares", de Elizabete Martins Campos
Entretanto, a diferença deste documentário para os convencionais não é apenas na narrativa. Elizabete Martins Campos escolheu diversificar totalmente na forma de realizar seu filme. As fotografias e registros clássicos de qualquer filme do gênero ainda estão presentes. Elza canta enquanto esses registros são apresentados. Todavia, em sobreposição a esses registros, aparecem luzes, focos e outros artifícios para diferenciar a imagem sem deixar com que ela se perca. A diretora faz paralelos, por exemplo, entre o rosto de Elza e uma lua cheia que ora aparece por completo, ora some devido a uma nuvem muito escura. Elza aparece nua. Elza faz fotos sensuais. Elza se veste como madrinha de bateria de uma escola de samba. Elza é massageada por um homem sexy. E Elza canta. Elza canta seus maiores sucessos e, ao invés de contar seu passado, relembra músicas que diziam muito sobre a época, ou músicas que dizem muito sobre o hoje, sobre o Agora. Tudo isso, claramente, é feito para aproximar a produção da protagonista. Este filme é sobre Elza. É um filme para Elza. É um filme de Elza. “My name is Now, Elza Soares” é um filme que respira, transpira, inspira Elza Soares como poucas produções conseguem fazer com seus protagonistas.
“Castanha”, também possui um pé no documentário, mas usa do artifício da ficção para se completar. Após se formar na PUCRS em Cinema, Davi Pretto acabou conhecendo João Carlos Castanha, um ator conhecido na capital gaúcha. Durante alguns anos, Davi fez uma espécie de laboratório conversando e conhecendo mais sobre a vida do artista e de sua mãe, Dona Celina. Quando tudo estava pronto, Davi acompanhou a vida dos dois durante vinte dias, filmando tudo o que desejava e lhe era permitido. Algumas coisas eram espontâneas, outras respeitavam um roteiro que, geralmente, recriava acontecimentos, ou apenas improvisações dos personagens. A história, além de contar com mãe e filho, contava, também, com um sobrinho de João Carlos, um jovem viciado em drogas que é interpretado por um ator. O longa, realizado com um orçamento baixíssimo, tem como primeira cena um homem nu coberto de sangue, dos pés à cabeça. Pela imagem e pela música (uma união de todas as músicas criadas para o filme) já se pode ter noção do que virá: um filme melancólico, denso, forte, escuro, com vários contrastes e muitas surpresas. Aquele homem, no final das contas, é o exterior do que, na maior parte do longa, se passa na cabeça e na vida do protagonista. A cena, segundo Davi, é um resumo de tudo o que está por vir.

Filme: "Castanha", de Davi Pretto
Mas não é apenas o cuidado técnico (que traz uma fotografia incrível, uma edição sonora impressionante, uma direção de arte minimalista) e com o roteiro que surpreendem no filme. Os personagens reais são o maior trunfo do diretor. Dona Celina é uma mulher espontânea, engraçada, simples e que representa perfeitamente as mães e mulheres que conhecemos. João é uma figura rara em meio aos milhões de habitantes de Porto Alegre, um verdadeiro artista em busca da compreensão de sua alma e de todos os demais seres humanos. As situações vistas no filme são as mais diversas, sempre permeando pela naturalidade e veracidade, tornando o filme engraçado em cenas como quando Dona Celina discute com a síndica do prédio em que vivem, e emocionante em momentos como quando ela desabafa sobre a vida. João possui seus melhores momentos durante suas apresentações, revelando que o palco (independente da forma como ele esteja representando) é a fuga para os problemas e frustrações de sua vida. É no palco que Castanha se sente vivo, revigorado. É o palco que o estimula para continuar vivendo.
Assistir a essas duas espécies de cinebiografias em um mesmo dia foi, sem dúvida, uma experiência interessante. Elza Soares e João Carlos Castanha possuem mais em comum do que possam imaginar. São duas figuras enigmáticas, cheias de histórias para contar, duas personalidades vividas que já passaram por muito sofrimento, muita dor e muito preconceito, ela, por ser uma mulher negra e pobre, ele, por ser um ator homossexual e transformista. Os filmes, nesse contexto, acompanham as personalidades de cada um: “My name is now, Elza Soares” é um filme com muito jogo de luz tornando-o tão artístico quanto a própria figura de Elza, e que concilia a voz espetacular da cantora com uma sonorização de arrepiar, “Castanha” é um filme tão sombrio quanto o interior do protagonista ou pelo momento em que ele vive e usa o contraste de luz para relevar as nuances vividas por João Carlos. Ambos os longas são impressionantes. Ambos os protagonistas são impressionantes. E melhor de tudo é ver como os dois abraçaram suas respectivas artes e se jogam no mundo através delas, por elas e tendo nelas seus maiores escudos contra os preconceitos da humanidade. São duas figuras que, como qualquer bom brasileiro, sofrem, mas, independe do que aconteça, se erguem do mais profundo do poço e dão a volta por cima.
*Sandro Augusto é estudante do oitavo semestre do curso de história da UFRB e professor estagiário na Escola Estadual Rômulo Galvão e bolsista de iniciação à docência (Pibid) na Escola Estadual Edvaldo Brandão Correa, levou os alunos do oitavo ano/sétima série (entre 12 e 14 anos) desta instituição para assistirem ao filme “My name is now, Elza Soares”. 

Após a apresentação do filme "Castanha", o diretor Davi Pretto, conversou com o público no Auditório do Centro de Artes, Humanidades e Letras da UFRB, na cidade de Cachoeira.

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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

DOS DILEMAS JUVENIS À PSIQUÉ HUMANA

Especial X Panorama Internacional Coisa de Cinema. Filmes: "Menino da Gamboa", "O Filme de Carlinhos", "O Velho Rei", "Materno", "Antiok" e "10-5-2012".



Na manhã desta quinta-feira (30), o X Festival Panorama Coisa de Cinema que acontece em Salvador e na cidade de Cachoeira, em parceria com o Cineclube Mario Gusmão, apresentou cinco filmes da Mostra Competitiva Baiana. “Menino da Gamboa”, de Pedro Perazzo e Rodrigo Luna, conta histórias de meninos da praia baiana e da influência dos garotos mais velhos sobre os mesmos; “O Filme de Carlinhos”, de Henrique Filho, é uma metalinguagem sobre um menino apaixonado por cinema que deseja realizar sua primeira produção; “O Velho Rei”, de Ceci Alves, traz um pai que vive no Rio de Janeiro e faz um vídeo para sua filha que mora em Salvador e que deseja se sentir mais perto dele; “Materno”, de Arlequine Sampaio e Ruy Dutra, é uma produção perturbadora sobre uma mulher grávida que cuida do filho em estado vegetativo; “Antiok”, de Dario Vetere, é uma ficção sobre uma sociedade utópica em que novos avanços tentam equilibrar de forma justa a humanidade; e “10-5-2012”, de Álvaro Andrade, é um surpreendente relato sobre um homem e seus desabafos sobre a vida.

Filme: “Menino da Gamboa”, de Pedro Perazzo e Rodrigo Luna
Os exemplos, segundo especialistas, são o que fazem o ser humano agir desde os primeiros passos até o último suspiro. O protagonista de “Menino da Gamboa” vê em seu irmão seu maior exemplo. Vendo o irmão mais velho trabalhando carregando bagagens de turistas em um carrinho de mão, o garoto sente a necessidade de fazer alguma coisa que se aproxime de um trabalho sério. Assim, deixa as brincadeiras infantis de lado, cria seu próprio carrinho e oferece seu trabalho de carregador a quem precisa. Mas será que as brincadeiras infantis devem ser deixadas de lado por uma criança para que ela se dedique ao trabalho? Em uma das cenas mais marcantes que vi nos últimos anos, o menino deve escolher entre brincar ou trabalhar. É com se ele fosse o Manuel de Glauber Rocha, ficando entre a cruz e a espada, entre Deus e o Diabo. Mas quem seria Deus e quem seria o Diabo para uma criança? No lugar dela, o que você escolheria?

Filme: “O Filme de Carlinhos”, de Henrique Filho
Um dos filmes mais tocantes para quem ama ou faz cinema, “O Filme de Carlinhos” é um curta-metragem tocante e emocionante. Carlinhos vive na companhia de um senhor que cuida de uma locadora e divide com o mesmo sua paixão pela Sétima Arte. Certo dia, ao invés de fazer os deveres de casa, o garoto resolve escrever um roteiro. Dali pra frente, mesmo sem o apoio do pai (que quer que o filho se torne um “doutor”) arruma os atores (colegas da escola), o operador de câmera, patrocínio e tudo o que ele acredita ser necessário para sua produção. Apesar de ter atores jovens pouco convincentes (mesmo que simpáticos), os atores mais velhos seguram a cena, o protagonista, Carlinhos, não titubeia no momento mais tocante do filme  e a qualidade da fotografia e do som são um primor. “O Filme de Carlinhos” é o tipo de metalinguagem que nos faz perguntar como seria se um filme fosse feito daquela forma. Como seria se crianças realizassem um filme como aquele? Quais seriam as intenções? Em que gênero se enquadraria? Quais seriam as inspirações? Qual seria o resultado final?

Filme: “O Velho Rei”, de Ceci Alves

Seguindo de “O Filme de Carlinhos”, um filme com o qual me identifiquei em vários momentos (desde o processo criativo até a reação dos familiares), veio “O Velho Rei”, que também me conquistou pelas identificações. Como a jovem que envia uma câmera ao pai, eu também vivi longe do meu pai durante anos. Enquanto vemos o esforço do homem em tentar fazer os vídeos para enviar à filha, questionamo-nos até que ponto nós seríamos capazes de fazer o mesmo. O homem em questão, interpretado magistralmente pelo veterano Antonio Pitanga, é um verdadeiro rei (com todos os atributos necessários para um homem ser justo e humano), e um velho também, uma alma velha e vivida que reconhece a necessidade de estar próximo à filha e de a filha estar próxima a ele, mesmo que distantes fisicamente. A veracidade e a emoção com a qual o pai grava e com a qual a filha assiste ao vídeo mostram o porquê a vida vale a pena.

Filme: “Materno”, de Arlequine Sampaio e Ruy Dutra
“Materno” possui uma atmosfera densa e perturbadora. É a história de uma mãe que, enquanto espera um filho nascer, também espera um filho morrer ou, em uma esperança distante (talvez utópica) renascer. A proposta do filme ao mostrar esses lados intensos da vida de Marta é incrível. Aquele filho deitado na cama, ora parece representar o filho que está dentro de Marta, esperando para vir ao mundo (seja morto ou vivo), ora parece a personificação do estado espiritual da protagonista, que, por sua vez, ora parece querer estar viva pelo filho que vem, ora parece preferir morrer junto do filho que está morrendo. A direção de arte e de som do curta são espetaculares, minimalistas e cheias de riquezas nos detalhes. Todavia, o conjunto da produção não é tão interessante quanto o esperado. O filme é longo demais e um pouco apelativo. A qualidade técnica é inegável, mas “Materno” não convence.
Filme:  “Antiok”, de Dario Vetere
Mais não convincente que “Materno”, entretanto, é “Antiok”, outra produção com uma proposta interessante, mas que não vai muito adiante disso. A história gira em torno de um rapaz cheio de diferenças que, na década de 1980, consegue prever o futuro da humanidade. Usando-o, alguns cientistas o estudam e tentam pensar em soluções para que o mundo não se perca nos próximos anos. Apesar de possuir fotografia exemplar e uma trilha sonora com músicas muito propícias para cada momento do filme, o ator que interpreta Antiok tenta ser mecânico para remeter à ficção, mas se torna superficial e pouco interessante. “Antiok” é um filme que funciona como primeiro capítulo de uma série. E talvez esse seja seu problema: é o tipo de produção que funciona como uma série, repleta de episódios sequencias, não como um filme único.

Filme: “10-5-2012”, de Álvaro Andrade

De todos os filmes apresentados durante essa sessão, confesso que “10-5-2012” era o filme que menos me animava. O início do curta se mostra uma real decepção e o problema dele é o mesmo dos dois anteriores: longo demais. Entretanto, a diferença está na forma como a proposta foi conduzida. “10-5-2012” traz um câmera que narra o filme todo em off enquanto observa outro homem, um rapaz com TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) que vive perto de sua casa. O tal câmera, passa, então (e aí está o trunfo), a acompanhar o rapaz e refletir sobre sua vida e do “amigo”. Apesar de a câmera usada pelo homem não trazer uma boa imagem, o que prejudica a fotografia de forma triste. O câmera passa, segundo ele mesmo, a filmar à toa, como se fosse um hobbie, ou seja, sem muitas preocupações. Mas o que esse homem registra? O indivíduo com TOC e suas ações curiosas? Ou sua própria voz falando de sua vida? A câmera funciona como forma de registrar o movimentos do homem que está sendo observado? Ou é o mecanismo de o câmera externar suas opiniões, anseios, dúvidas?
Essa sessão pode ser facilmente dividida em dois grupos: ”Menino da Gamboa”, “O Filme de Carlinhos” e “O Velho Rei” são um deles, “Materno”, “Antiok” e “10-5-2012” são o outro. O primeiro é um grupo de filmes que mostram relações familiares e de exemplos. Como referências familiares, temos o irmão mais velho, os pais de Carlinhos e o pai que vive longe. Como exemplos, novamente o irmão mais velho, o dono de uma locadora e, novamente, o pai que está longe. No segundo grupo, temos uma visão um pouco mais perturbadora da vida, um lado diferente das reflexões humanas. “Materno” põe à prova o lado materno de cada mulher explorando o mais íntimo do corpo e da mente feminina, “Antiok” questiona quais os rumos a sociedade está tomando devido às suas atitudes e “10-5-2012” realça como o ser humano precisa tomar por base os problemas e vidas de outros seres humanos para encontrar a si próprios. Todos filmes que provocam as mais diferentes reações no público, o que os torna, no mínimo, curiosos.

Conversa com Pedro Perazzo e Rodrigo Lima, de "Menino da Gamboa", e com Camila Camila, de Materno após a sessão
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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

EU, TU, ELE, ELA, NÓS, VÓS, ELAS, ELES

Especial X Panorama Internacional Coisa de Cinema: "Camila", A Era de Ouro" e "Ela Volta na Quinta"



Em 2002, aconteceu a primeira edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema. Segundo seus realizadores, os cineastas Cláudio Marques e Marília Hughes, “o sucesso daquele primeiro ano mostrou que o público baiano estava ansioso para ver um cinema diverso”. Até o final daquela década, os festivais de cinema ganharam força no Brasil todo. Este ano, o Panorama será realizado entre os dias 29 de outubro e 2 de novembro e, além de contar com as tradicionais competitivas de filmes baianos e de filmes nacionais, o Festival conta com retrospectivas do cineasta americano Stanley Kubrick, do cineasta russo Sergei Eisenstein e da cineasta francesa Mia Hansen-Love e com mostras de filmes alemães e italianos. Para finalizar, esta edição traz  o Laboratório de Roteiros, a já tradicional oficina de Escrita Crítica e a nova oficina de Assistência de Direção, ministradas, respectivamente, por Aleksei Wrobel, Fabio Meira e Felipe Bragança, Rafael Carvalho e Marcelo Caetano.
Devido ao vínculo criado e alimentado durante os últimos anos entre a capital baiana e a cidade de Cachoeira, a poucos quilômetros de Salvador, desde 2012, na cidade, que abriga o curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, o CineClube Mario Gusmão, projeto criado em 2010 pela Universidade, se tornou parceiro da produtora Coisa de Cinema, apresentando alguns filmes e sediando oficinas na cidade de Cachoeira durante a semana que o Panorama acontece em Salvador. Esse ano, a oficina escolhida para a cidade foi a de Assistência de Direção, além de mais de trinta filmes, dentre eles, os filmes de retrospectiva: “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968), de Kubrick, “Tudo Perdoado” (2007) e “O Pai dos Meus Filhos” (2009), ambos de Hansen-Love; e filmes que vem fazendo sucesso em festivais no país todo, como “My Name is Now, Elza Soares”, de Elizabete Martins Campos, “A História da Eternidade”, de Camilo Cavalcanti e “Brasil S/A”, de Marcelo Pedroso.

Filme "Camila", de Clarissa Rebouças e Virginie Dubois
Nesta segunda-feira (29), na cidade de Cachoeira, foram apresentados os longas de retrospectivas “2001 – Uma Odisseia no Espaço” e “Tudo Perdoado”, durante a noite, a Competitiva Nacional trouxe os curtas “Camila”, de Clarissa Rebouças e Viginie Dubois e “A Era de Ouro”, de Leonardo Mouramateus e Miguel Antunes Ramos, e o longa “Ela Volta na Quinta”, de André Novais. “Camila” conta a história de uma jovem que vai à procura do marido de quem não tem notícias há semanas no Canadá; “A Era de Ouro” apresenta uma sociedade paulista protagonizada por um homem e uma mulher que vivem no mundo da valorização extrema do dinheiro; e “Ela Volta na Quinta” revela uma sociedade mineira muito simples e cotidiana, onde vive um casal de senhores e seus filhos.
“Camila” é um filme de apenas seis minutos que, como a própria diretora revelou, “tem que ser um tiro certeiro”, como qualquer outro curta-metragem. Com uma câmera de mão ágil, o curta, protagonizado por Clarissa, coloca o espectador no lugar da protagonista, transforma quem assiste o filme em personagem, expondo-o a qualquer situação vivida pela ficção. Pelo tempo de filme não há muito o que falar sobre esse verdadeiro “tiro certeiro” sem revelar alguns elementos essenciais sobre seu enredo, assim, apenas digo que quando a protagonista chega no Canadá, encontra o marido e descobre algo surpreendente. O que fica são as surpresas e os questionamentos: o que você faria no lugar dela? Correria? Faria um escândalo? Chamaria a polícia? Tentaria se matar? Não faria nada? Ou não faria nada disso? Camila reagiu conforme sua espontaneidade mandava, mas e você?

Filme "A Era de Ouro", de Leonardo Mouramateus e Miguel Antunes Ramos
Se “Camila” já é um filme reflexivo que põe em teste as relações humanas, o mesmo podemos dizer do filme que foi apresentado na sequência. “A Era de Ouro” mostra um casal de amigos que foram mais próximos na juventude, até que ela resolveu mudar para a capital. O curta se passa em uma visita que David faz para Simone. Durante tal visita, os ânimos se alteram enquanto o casal lembra do passado e David questiona por quê a vida cheia de riquezas é tão importante para Simone. As questões aqui, entretanto, diferem do filme anterior. Indagamo-nos qual o papel do dinheiro na sociedade, por que o dinheiro e os bens materiais são tão importantes? Por que as pessoas ricas dão tanta importância ao dinheiro? Em uma cena pra lá de metafórica (aliás, o curta é pura metáfora), ricos empresários falam sobre a valorização de uma padaria e contam que, para ganharem a conta pretendida, Simone teve que seduzir o filho do dono da padaria. Vê-se a valorização clara do produto, e a desvalorização de Simone (apresentada como outro produto). Que valor tem essa era em que todos pensam e desejam dinheiro e poder?
“Ela Volta na Quinta” é um filme realizado por André Novais e que conta com sua própria família no elenco. Não é um documentário. É uma ficção. É a realidade na ficção. Ou a ficção na realidade? O fato é que André escreveu um roteiro romântico sobre um casal de senhores (seus pais) que vivem suas vidas juntos e, em um dado momento, resolvem se separar. Paralelamente, existem as vidas de André e seu irmão. A ficção está no divórcio, nas traições e nos elementos que nos lembra um romance típico, a realidade está no perfil dos personagens, nas situações vividas (em uma cena brilhante, André e o pai assistem a vídeos virais na internet), na simplicidade de se viver a vida. Diferente dos outros filmes da noite, é um drama mais simples, mais cotidiano. Semelhante aos curtas, é um filme que explora as relações humanos de forma intensa, destacando a dualidade masculino-feminino. As reflexões sobre a vida são muito intensas e chegam pelos momentos mais íntimos, como quando a mãe relembra uma história do pai enquanto passa mal na cama e é cuidada pelo filho. A vida é curta demais para nos preocuparmos tanto? Vivemos mais do que deveríamos? Aproveitamos o suficiente o tempo que temos na terra?

Filme "Ela Volta na Quinta", de André Novais

“Camila”, “A Era de Ouro” e “Ela Volta na Quinta” possuem mais que apenas reflexões sobre a vida e a exploração do tema da dualidade em comum. São filmes de qualidades técnicas impressionantes. Cada um chama a atenção por um aspecto. Para mim, foi a câmera de mão, as metáforas e a exploração do cotidiano, respectivamente, que mais me atraíram para dentro das produções. Se ao final de “Camila” é possível responder aos questionamentos acerca da atitude da jovem é algo impossível de se dizer. Vai de espectador para espectador. E talvez esse seja o melhor trunfo do curta. Quão dourado é o mundo consumista e capitalista que vivemos e que é apresentado em “A Era de Ouro” não sabemos. É um mundo do ouro encontrado pelos Europeus quando chegaram ao Brasil, ou é o ouro de tolo deixado nas igrejas mineiras depois que o outro real era roubado? A cada momento, parece que se pensa em quanto vale cada ser humano, pior, por quanto cada ser humano pode ser vendido para dar lucros a outras pessoas. E essa vida cotidiana? Essa simplicidade que encanta a todos de forma tão singela e bela? Seria melhor viver cercado pelo luxo sem ter amigos ou amores de verdade? Ou é melhor levar uma vida simples cheia de altos e baixos e ter sempre pessoas amadas por perto? Quem sabe?

Conversa após a apresentação dos três filmes com Clarissa Rebouças e André Novais, onde os cineastas falaram sobre o processo de criação e de realização dos filmes e sobre suas intenções ao fazê-los.
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