Welles não realizou apenas um dos filmes
mais enigmáticos do cinema, como também dirigiu, produziu, roteirizou e atou em
um dos filmes mais importantes da Sétima Arte.
Nota: 9,8
Título Original: Citizen Kane
Direção: Orson Welles
Elenco: Orson Welles, Joseph Cotten,
Dorothy Comingore, Agnes Moorehead, Ruth Warrick, Ray Collind, Everett Slone,
Erskine Sanford, William Alland, Paul Stewart, George Coulouris, Fortunio
Bonanova, Gus Schilling, Philip Van Zandt, Georgia Backus, Harry Shannon, Sonny
Bupp e Buddy Swan
Produção: Orson Welles e George Schaefer
Roteiro: Orson Welles, Herman J.
Mankiewicz, John Houseman, Roger Q. Denny e Millie Kent
Ano: 1941
Duração: 119 min.
Gênero: Drama
CONFIRA O TRAILER DO FILME:
Mary Kane era apenas a proprietária de
uma simples pensão. Todavia, sua realidade mudou quando recebeu uma propriedade
de um devedor: descobriu-se petróleo na região. Sendo assim, Mary se tornou uma
mulher rica. Seu pequeno filho, Charles Foster Kane, foi levado para Nova York,
longe dela e do pai, para que tivesse a educação propícia para um novo rico.
Assim, Charlie cresceu longe da família e, aos 25 anos, decidiu assumir, dentre
todos os bens que compunham sua fortuna, apenas o jornal Inquirer. Com o passar
dos anos, Kane se tornou o maior executivo da imprensa norte americana, um dos
homens mais ricos do mundo e o homem mais poderoso dos Estados Unidos.
O longa tem como primeira cena a morte
de Charles Kane. Ele balbucia sua última palavra, “Rosebud”, e deixa um globo
de neve cair de sua mão. A enfermeira corre até a cama do homem e constata:
Charles Foster Kane está morto. Em seguida, um documentário feito pelos próprios
funcionários do Inquirer é apresentado mostrando a história da vida de Kane,
sua luxuosa casa, suas coleções de obras de arte, seus casamentos, suas
tentativas de se tornar um político. Mas há uma coisa que falta nessa história:
o que significaria “Rosebud” (broto de rosa, na tradução literal do inglês)?
Seria o apelido dado a algum amor do passado? Seria a lembrança de algum lugar onde
o magnata esteve? Seria o desejo de algum objeto que aquele que chegou a ser um
dos homens mais ricos do mundo não conseguiu comprar? Seria algum projeto
inacabado idealizado por aquela cabeça genial? Para descobrir isso, o jornalista
Jerry Thompson inicia sua busca conversando com os principais amigos de Kane.
A primeira pessoa a quem Thompson
recorre é a ex-esposa do protagonista, Susan Alexander. Susie, ainda muito
abalada pela morte de Kane, se recusa a falar com sobre qualquer assunto
referente ao ex-marido. Assim, Thompson vai até uma biblioteca onde está o
diário de Walter Parks Thatcher, o homem que buscou Charlie na pensão da mãe.
Devido ao pouco tempo que possui para sua leitura, pouca coisa é descoberta, e,
em um flash back, vê-se o pequeno Charles sendo levado de sua família para Nova
York. Ali já temos vários pontos interessantes referentes a sua vontade de
ficar ao lado da mãe e, principalmente, a justificativa de Mary Kane para
deixar o filho ser levado: existe, ali, um desejo de proteção contra o pai que,
supostamente, agredi o menino. Logo depois, o jornalista vai até o Sr.
Bernstein, um homem que começou como secretário de Kane e se tornou um homem
rico e importante dentro das empresas do mesmo. As descobertas feitas através
de Bernstein estão mais relacionadas ao início da vida de negócios de Kane: fala
sobre o melhor amigo, Jedediah Leland, sobre a chegada de Kane ao Inquirer,
sobre as ambições do empresário em tonar aquele o jornal mais lido dos Estados
Unidos ( o que acaba conseguindo) e sobre o noivado com a primeira esposa,
Emily Monroe Norton. Depois, Thompson passa a conversar diretamente com Leland,
hoje, um velho homem vivendo em uma casa de repouso, que faz mais alguns
relatos cronológicos: a realidade do primeiro casamento, a forma como conheceu
a segunda esposa (que antes de ser esposa foi amante), as tentativas de se
eleger como governador, a descoberta do caso com Susie (que acabou com sua
carreira política, com seu casamento, e com a amizade de Leland) e, por fim, a
obsessão em tornar Susie uma cantora, construindo um teatro para ela e
promovendo sessões de ópera. Depois, finalmente, Thompson consegue conversar
com Susie, que relatará todos os problemas que teve com Kane por ela ser uma
péssima cantora. Enquanto ela queria parar de cantar frente às críticas
negativas, ele a obrigava a continuar nos palcos. Após uma tentativa de
suicídio, ela larga a vida de cantora e começa seu inferno em Xanadú, a tal
mansão. Mais alguns anos depois, Susie resolve ir embora, o que deixa Kane irado
e sozinho naquela mansão enorme apenas com os empregados ao seu lado. Para
finalizar o longa, o jornalista conversa com o mordomo de Kane, a pessoa que
esteve ao seu lado até o último suspiro.
Toda essa história é mostra de forma
incrível e inovadora por Orson Welles, a mente genial por trás e pela frente
das câmeras que realizaram este filme. Em “Cinema: entre a realidade e o
artifício”, o jornalista gaúcho Luiz Carlos Marten, apresenta uma história do
cinema que parte das origens aos tempos contemporâneos, passando por nomes como
Griffith, Eisenstein, Chaplin, John Ford, Hitchcok, Wilder e, claro, Welles. No
capítulo referente a este último, o autor traça os passos que influenciaram o
diretor até chegar ao resultado histórico de “Cidadão Kane”. “No Tempo das
Diligências” (1939), filme de John Ford, as dimensões do cenário variam de
acordo com a intensidade das cenas. Em “O Morro dos Ventos Uivantes” (1939), de
Billy Wyler, a fotografia cria um plano total, uma profundidade de campo. Em “O
Nascimento de uma Nação” (1915), um dos filmes mais importantes do cinema,
Griffith introduziu a ideia de flashbacks. Friz Lang, em “M. o Vampiro de
Dusseldorf” (1931), assim como em vários filmes alemães, faz do espaço um auxílio
para intensificar, diminuir, enfim, dar o tom certo à dramatização. Victor
Fleming, por fim, com “... E o Vento Levou” (1939) contribuiu para que Xanadú
fosse criada como um lugar grandioso, inexpugnável, imponente, assim como Tara,
Twelve Oaks e a mansão de Rhett e Scarlett após o casamento. Mas não foi apenas
essa agregação de ideias de outros autores ou a afirmação dessas técnicas que
tornaram “Cidadão Kane” inovador. Welles desenvolveu suas próprias ideias. A
morte de Kane é anunciada nos principais jornais do mundo, em uma sequência que
seria imitada e renovada na década de 80. O casamento do protagonista com sua
primeira esposa é resumido em sucessivos cafés da manhã, começando por um desjejum
romântico onde o casal senta um ao lado do outro, fazendo carícias sempre que
possível, e termina com os dois afastados, um em cada lado da mesa, reinando a
indiferença. A câmera, em diversos momentos, acompanha os personagens,
explorando espaços e expressões. Na cena em que Kane e Leland tem sua derradeira
briga, Welles filma os personagens de baixo para cima, como se um pequeno
animal estivesse assistindo a cena.
E “Rosebud”, onde fica nisso tudo? Em
alguns momentos do filme, até conseguimos nos esquecer da palavra que gera
tanto mistério. Mas Welles e Mankievicz são astutos e inteligentes demais:
quando o desfecho se aproxima, o roteiro começa a lembrar da última palavra do
magnata e começa a deixar o espectador ainda mais curioso sobre o que significa
aquilo. Mas não é apenas esse mistério que faz de o roteiro de “Cidadão Kane”
um dos mais impressionantes da história do cinema. Os roteiristas aliam a
história mundial real com o subjetivo de Kane. As guerras e a Grande Depressão
de 1929 não são contadas em detalhes e passam rápido demais, mas estão ali para
nos situar na história e, principalmente para lembrar que Kane é um subproduto
do capitalismo, um homem que vive sua vida pautada nesse sistema aterrador. E
se Kane é um homem cheio de manias, com poucas expressões, com uma cabeça mais
dura que uma pedra, um homem presunçoso, arrogante, orgulhoso é por que tudo
isso vem de seu passado, tudo isso é um reflexo do capitalismo. Sim, pois foi o
capitalismo que o tirou de perto da mãe quando ainda era uma criança para ser
levado para Nova York. Foi o capitalismo que fez, pela primeira vez na vida,
Kane não ter direito de escolha. E daí para frente, durante a adolescência e os
primeiros anos da fase adulta, Kane tem que estudar e obedecer as ordens de seu
guardião. E é essa perda na infância que faz com que Kane sinta a necessidade
de manipular as pessoas em sua vida adulta, é isso que faz ele se interessar
tanto por um meio de comunicação (o jornal Inquirer), afinal, em sua infância e
adolescência, ele foi o manipulado. A revolta de Charles é tanta que, assim que
tem a chance de assumir seus negócios, resolve assumir o jornal completamente.
E resolve assumir apenas o jornal, o
que ia em desacordo com as ideias do guardião, que desejava que ele assumisse
toda a fortuna.
E a personalidade de Kane começa a ser
formada a partir do momento em que compreendemos que o magnata, desde sempre,
odiou a possibilidade de não ter direito de escolha, odiou qualquer
possibilidade de perder o controle de sua vida e das pessoas que estão à sua
volta. E em momentos de frustração, Kane decide tirar os holofotes de sua
derrota e realiza alguma loucura. Quando perde as eleições para governador
justamente por ter um caso com Susie, constrói o teatro para ela cantar. Quando
Susie fracassa na ópera, constrói Xanadú, a mansão que levou anos para ser
construída no topo de um morro, a mansão que abriga uma coleção suficiente para
dez museus no mundo, o maior zoológico privado da terra (desde Noé), o
monumento mais caro que um homem construiu para si desde as pirâmides egípcias,
a materialização de toda a soberba e grandiosidade que Kane acreditava existir
em seu próprio interior. Quando a esposa o deixa, por não aguentar mais as
loucuras de Kane, ele quebra todo o quarto em que ela dormia e se isola em
profunda decadência, ficando rodeado apenas por pessoas interesseiras.
Mas de nada adiantaria tanta competência
dos roteiristas se o intérprete de Kane fosse um ator incompetente. Orson
Welles não foi indicado ao Oscar de melhor ator à toa. Seu Charles Foster Kane
é um homem de muitas faces: nos primeiros anos à frente do Inquirer, é um home
extrovertido, que gosta de festas e está sempre rodeado de pessoas as quais ele
deseja o bem. Depois de seu primeiro casamento, o homem ganancioso é revelado
sem máscaras. A obsessão por tudo o que tem ou não consegue ter começa a ser
revelada quando conhece Susie. Dali por diante, talvez pela frustração na
tentativa de se eleger governador, Kane (ou Welles) perde toda e qualquer
expressão. Ele é um homem só o tempo todo. O verdadeiro Charles Foster Kane é
revelado ao espectador. Essa transição do bom samaritano que deseja ajudar os
outros para o homem rancoroso que parece não sentir mais nada é o que torna a interpretação
de Welles tão magnífica. E o fracasso nas eleições é o culpado por isso: nunca
na vida, Kane desejou tanto algo, nunca na vida, quis provar que era capaz de
conseguir o que queria como se tornar governador. Talvez, o único momento em
que desejou algo com tanto afinco, foi permanecer em casa, ao lado da mãe e não
ser levado pelo Sr. Thatcher.
Após o final do filme, quando deveriam
começar os créditos, temos uma revelação interessante sobre o elenco do longa:
são todos atores desconhecidos. Mas isso não quer dizer que os atores sejam
decepcionantes, pelo contrário, a única interpretação ruim é a de Dorothy
Comingore, justamente a atriz que
mais havia trabalho dentre todos no elenco. Apesar de ter feito algumas
participações durante os três anos que antecederam “Cidadão Kane”, a Susie de
Comingore é exagerada, dramática demais, caricata demais, expressiva demais,
clichê demais, e satisfatória de menos. Em contraponto, Ruth Warrick, indicada
ao Emmy 26 anos depois, traz, na primeira interpretação de sua vida, uma Emily
apaixonada, sensata, inteligente, corajosa e, por vezes, frívola. Na cena em que
Emily, Kane, Susan e um desafeto de Kane (quem fez Susie revelar o caso à
Emily) se confrontam é como se existissem apenas Warrick e Welles em frente à
câmera, tamanha a qualidade de seus trabalhos. Joseph Cotten, intérprete de
Jedediah Leland, talvez o único personagem que tenha algum teor expressivo, vai
do amigo animado e feliz de Kane ao homem decadente, mostrando que àqueles que
se relacionavam com o magnata estava reservado um futuro escuro e deprimente.
Cotten obteve grande sucesso na televisão entre os anos 60 e 70. Ironicamente,
Agner Moorehead, que faz uma pontinha como Mary Kane, a atriz que menos aparece
no longa (que também foi seu primeiro trabalho como atriz), foi a atriz que
mais fez sucesso após o filme, chegando a ser indicada a 4 Oscars como melhor
atriz coadjuvante, vencendo dois Globos de Ouro na mesma categoria e ganhando o
público entre as décadas de 60 e 70 como a mãe de Samantha na série de TV “A
Feiticeira (1964 – 1972). A personagem, também sempre muito frívola, vai de mãe
desnaturada que não se importa em mandar o filho para longe, a mãe protetora
que quer salvar o filho da violência do pai.
Em “Cidadão Kane”, ninguém está muito
interessado nos sentimentos dos personagens. Não vemos grandes expressões à lá
Bette Davis ou Vivien Leigh nas faces das atrizes. Muito menos, vemos homens
com olhares sedutores como Henry Fonda ou Clark Gable. Todos os personagens
(com exceção de Susie, que está sempre deslocada do contexto) são sempre muito
secos, severos, e, por que não, inexpressivos. Mas não se engane ao pensar que
isso seja um defeito por parte dos atores. A inexpressividade possui
significados em “Cidadão Kane”, está ali por algum motivo. Aliás, como tudo no
filme, ela é um símbolo de tudo o que os personagens passam. Xanadú também é um
símbolo, de extravagância, de riqueza, de soberba. O Inquirer também é um
símbolo, de influência, de persistência, de poder. A candidatura a governador
também é um símbolo, de arrogância, de autopromoção, de “alimento para o ego”.
E “Rosebud”? Esse sim, é o maior dos símbolos. O único que pode explicar tudo.
O único que pode fazer o espectador ter esperanças de compreender este filme. É
o símbolo máximo para as mágoas e as depressões do protagonista. Um símbolo de
pureza e simplicidade. Um símbolo que explica a obsessão de Kane por tudo. Um
símbolo do abandono e da frustração. Um símbolo de esperança. Mas a revelação
do significado dessa palavra não é revelada aos personagens. Isso é um presente
que é dado apenas ao espectador. Uma forma singela de Welles conversar com o
público e manter essa conversa apenas entre ele e quem assiste ao filme. E se
você pensa que o fato de Welles fazer essa revelação ser o suficiente para que
“Rosebud” seja uma palavra deletada de sua mente com a chegada dos créditos
finais do longa, você está muito enganado.
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