terça-feira, 17 de julho de 2012

243. HALF NELSON: ENCURRALDOS, de Ryan Fleck


Um drama/comédia sobre a vida como ela realmente é.
Nota: 8,5


Título Original : Half Nelson
Direção : Ryan Fleck
Elenco: Ryan Gosling, Shareeka Epps, Jeff Lima, Nathan Corbett, Tyra Kwao-Vovo, Rosemary Ledee, Tristan Wild
Produção: Anna Boden, Lynette Howell, Rosanne Korenberg, Alex Orlovsky, Jamie Patricof
Roteiro: Ryan Fleck e Anna Boden
Ano: 2006
Duração: 106 min.
Gênero: Drama / Comédia

Durante o dia Daniel Dunne é professor em uma escola pública de ensino médio, durante a noite ele é uma mistura de tentativa de escritor de livros infantis e de um drogado convicto. Apesar de já ter feito alguns tratamentos, as frustrações de seu dia-a-dia falam mais alto. Certa noite ele é pego por uma aluna fumando no banheiro da escola, a partir daí, apesar das diferenças de idade e cultura, os dois iniciarão uma amizade que vai além das diferenças.


Ryan Fleck havia dirigido curtas e documentários antes desse filme, após ele, foi o responsável pelo início de duas séries muito conceituadas e premiadas: “In Treatment” (2009) e “The Big C” (2011), além dos filmes medianos “Sugar” (2008) e “Se Enlouquecer, Não se Apaixone” (2010). Aqui, seu trabalho é impressionante: além de utilizar câmera de mão quase que o tempo todo sem deixar o filme ficar mal feito, ele consegue deixar uma história de subúrbio e dificuldade da vida das classes média e baixa algo revigorante e atraente. Fleck trata o filme como uma produção destinada a adultos, apesar de termos a escola como plano de fundo durante boa parte do filme e crianças estudando e brincando, ele foca mais em como jovens pobres precisam amadurecer de forma rápida e não tem pudor ao mostrar as consequências do uso de drogas na vida do protagonista.


Ryan Gosling lidera um elenco que não tem muito a dizer. O ator apresenta a imagem perfeita de um homem frustrado que se nega a aceitar ajuda alheia, mas que ainda acredita que o mundo só pode ser mudado se cada um fizer sua parte, e a dele está sendo feita com êxito com suas aulas de história. Apesar da indicação ao Oscar do ator, apenas uma coisa merece destaque grande em sua atuação, vemos, aqui, a construção de personagem bem mais nitidamente que em outros filmes do ator, bem como no recente “Drive” (2011), a personagem tem algumas manias e trejeitos durante todo o filme, o que a torna mais real a palpável. Além de Gosling, merece destaque a jovem Shareeka Epps, que interpreta Drey, a aluna de Dunne que o encontra se drogando e acaba se tornando amiga do professor, a atriz é simples, mas sincera, talvez suas origens tenham ajudado, afinal, ela nasceu no Brooklyn em Nov York.


A proposta do filme é bem clara: refletir acerca de assuntos que envolvem a sociedade como um todo. De um lado temos o professor tentando fazer o melhor por seus alunos e pelo mundo que vive, do outro temos o homem frustrado que afoga suas mágoas nas drogas. Além disso, durante as aulas de Dunne na trama, os alunos falam sobre direitos civis, igualdade e mudanças. “Half Nelson – Encurralados” nos propõe uma análise da vida como ela realmente é, um drama/comédia de dúvidas, problemas, decisões, confusões e, principalmente, erros.


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244. ENTRE SEGREDOS E MENTIRAS, de Andrew Jarecki


Intrigante e misterioso como somente um fato real pode ser.
Nota: 8,2


Título Original: All Good Things
Direção: Andrew Jarecki
Elenco: Ryan Gosling, Kirsten Dust, Frank Langella, Lily Rabe, Philip Baker Hall, Michael Esper, Diane Venora, Nick Offerman, Kristen Wiig, Stephen Kunken, John Cullum, Maggie Kiley
Produção:
Roteiro: Marcus Hinchey e Marc Smerling
Ano: 2010
Duração: 101 min.
Gênero: Drama / Biografia

Em 1982 a bela Katherine McCarthy, então casada com o herdeiro milionário David Marks, desapareceu misteriosamente. Durante anos a polícia tentou desvendar seu caso, mas ele foi arquivado por falta de provas. Em 2000 o caso de desaparecimento mais famoso de Nova York, foi reaberto pela promotora da época e todos os membros da família Marks, que continuava trabalhando no mercado imobiliário, foram procurados e ouvidos, incluindo David, que também estava desaparecido, tornando-se o maior suspeito do crime.


No filme, durante seu julgamento, David conta tudo o que aconteceu desde que ele conheceu sua esposa até ele se travestir para se esconder da polícia e dos repórteres. David expõe ao júri como era seu relacionamento com Katie: primeiramente o casal vivia em harmonia em uma casinha no meio do mato, isolando-se de tudo e todos, principalmente do pai de David, depois, quando eles vão para Nova York, o rapaz se torna agressivo e demonstra ter vários problemas pelo seu conturbado relacionamento com o pai. Quando Katie desaparece, entretanto, ele faz o mesmo, o cara simplesmente some, e todos enlouquecem atrás dele durante anos por acharem que ele assassinou a esposa.


Indicado ao Oscar pelo documentário “Na Captura dos Friedmans” (2003), que aborda a o final da década de 1980 nas vidas de Arnold Friedman e seu filho, acusados de abuso sexual de menores, o diretor Andre Jarecki, conduz “Entre Segredos e Mentiras” muito bem durante a primeira hora de filme, entretanto, quando a personagem principal se esconde, vestindo-se como mulher e agindo como muda, o diretor se perde e resume de forma ineficiente os acontecimentos na família Marks. No início temos David apaixonado e romântico, depois ele se torna agressivo e estranho para Katie, aí ela descobre que se pedir o divórcio fica sem um centavo, do nada ela some do mapa, até aí o filme é eletrizante e muito bem feito, de repente tudo desmorona e nada fica bem esclarecido. Apesar de serem apresentados dezenas de motivos para David ser tão estranho, o diretor e os roteiristas não deixam totalmente claro qual o principal motivo para suas perturbações , digo, fica claro que não foi apenas o fato de ele ver a mãe se atirar do telhado e espatifar seu cérebro na calçada que o deixou meio pirado, no filme temos várias especulações, mas adaptar um filme sobre um caso que, até hoje, trinta anos depois, não foi resolvido, é algo no mínimo arriscado.


Ryan Goslin dá vida a David Marks, durante o filme vemos dezenas de faces da personagem, e o ator consegue diferenciar cada um de seus humores: ora um bom homem, calmo e cheio de vida, ora um homem apreensivo e tímido pela presença do pai, ora um homem violento e controlador e, por fim, aquele perfil quieto e sombrio do homem sendo julgado por assassinato. Kirsten Dunst é Kathterine, uma jovem sonhadora que vê em David o homem da sua vida, mas que, ao decepcionar-se profundamente, faz o possível para garantir o seu futuro, Dunst parece compreender cada medo e anseio da personagem. Por fim, para completar o elenco principal temos Frank Langella vivendo o pai de David, o poderoso Sanford MArks, controlador e manipulador só pensa no bem dos seus negócios, ainda vale destacar Michael Esper, na trama ele é Daniel Marks, irmão mais novo de David, ambicioso acima de tudo.


Se Katie simplesmente cansou da vida que levava ao lado do marido e resolveu fugir para nunca mais ser encontrada, ou se ela foi assassinada por alguém, parece-me que nem mesmo os grandes detetives da história da humanidade ou do cinema poderiam resolver, o fato é que a mulher continua sumida até hoje e não há sinal de vida. Não há propósito nesse filme que não seja o de contar um fato intrigante que deixou o mundo todo curioso, portanto não é bem o enredo ou a forma como ele é conduzido que interessa, o que deve ser mais observado é a forma como cada ator consegue dar vida à sua personagem como se soubesse o que se passa na cabeça de cada uma delas, sendo as interpretações de Gosling e Langella tão perfeitas que duvidamos o tempo todo do que aconteceu na realidade.


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245. PSICOPATA AMERICANO, de Mary Harron


Poucas vezes a loucura cai tão bem para um ator como para Christian Bale.
Nota: 8,7


Título Original: American Psycho
Direção: Mary Harron
Elenco: Christian Bale, Justin Theroux, Josh Lucas, Bill Sage, Chloë Sevigny, Reese Witherspoon, Samantha Mathis, Matt Ross
Produção: Christine Halsey Solomon, Chris Hanley, Edward R. Pressman
Roteiro: Mary Harron, Guinevere Turner e Bret Easton Ellis (romance)
Ano: 2000
Duração: 102 min.
Gênero: Drama / Suspense / Thriller

Patrick Bateman é um homem rico, bem sucedido, bonito e inteligente. Vive sempre rodeado de amigos que tem as mesmas características que ele e tem relacionamentos sexuais com mulheres muito bonitas. Aparentemente ele é perfeito, o problema é que ele é um psicopata. Quando se sente acuado por achar que um homem é melhor que ele, Pat começa a matar enlouquecidamente, por puro prazer e vontade de que todos sintam a mesma dor a qual ele está propenso a sentir.


Apesar de o livro que deu origem ao filme ter sido escrito por um homem, acreditem ou não ele é conduzido de forma inteligentíssima por mulheres: Mary Harron é diretora e roteirista e Guinevere Turner assina o roteiro também. Entendam, não tenho preconceito algum com as mulheres fazendo trabalhos que, tradicionalmente, os homens estejam acostumados a comandar, pelo contrário, fico feliz e satisfeito em saber que elas estejam tomando seu espaço da forma que merecem, mas convenhamos que mulheres a frente de um filme sobre um psicopata é algo no mínimo diferente, só para não dizer anormal. Enfim, é irrelevante a normalidade nesse filme, o fato é que ambas realizam seus respectivos trabalhos de forma maravilhosa. Harron consegue extrair o melhor de cada diálogo e cena, parece que ela e Christian Bale brincam nem sequências como o assassinato de Paul Allen. O roteiro delas explora cada momento e pensamento da vida da personagem, não fica claro se existe algum motivo para ele ser desse jeito, mas facilmente podemos perceber que o cara é simplesmente um doente. Quero apenas ressalvar ainda que, apesar de pouca experiência, a trilha sonora do compositor John Cale encaixa-se perfeitamente na trama.


Christian Bale, que se destacou após 1987 quando participou de “Mio min Mio” e “Império do Sol”, interpreta Patrick, aquele típico assassinou louco que ri e se diverte com o sangue enquanto mata as pessoas, além disso ele nos apresenta o tipo de pessoa totalmente artificial que interpreta uma personagem criada por ele mesmo para atrair pessoas bonitas, inteligentes e bem sucedidas para perto de si, bem como ele diz em certo ponto do filme, aquilo que todos vêem não existe, o verdadeiro Patrick não tem sentimentos e importa-se apenas consigo mesmo. Reese Witherspoom, a eterna Elle Woods de “Legalmente Loira” (2001), é a pseudo-noiva de Patrick, a típica loira que sente prazer em se destacar e em ser idolatrada e invejada pelos demais à sua volta. Chloë Sevigny faz a vez da secretária tola apaixonada pelo patrão, o problema é que o patrão da vez é louco; Jared Leto é o narcisista Paul Allen, a única diferença entre sua personagem e a de Bale é que ele não é um assassino, ao menos o enredo não o expõe dessa forma; Cara Seymour é a prostituta chamada de Christie pelo protagonista, uma pobre mulher que vive no lugar errado, na hora errada e sai com o cara errado; por fim o excelente Willem Dafoe faz uma pequena participação como o detetive que cuida do desaparecimento de Allen, Donald Kimball.


Geralmente filmes sobre psicopatas ricos, bonitos e inteligentes possuem apenas um propósito: criticar a sociedade consumista que vive de bens matérias e aparências. Aqui temos Witherspoon como a patricinha mimada que não se importa em ser vista como vadia, com tanto que esteja com homens aparentemente perfeitos; os amigos do protagonista são os típicos homens bem sucedidos que se sentem os seres mais importantes da face da terra, além de acreditarem que são invencíveis; Leto é o homem idiota que acaba se dando mal por seguir o estereótipo do riquinho que quer provar mais que tudo sua suposta superioridade; Seymour é a mulher que topa tudo por dinheiro, que não ama nem a si própria e não se importa em vender seu corpo, mesmo que isso deixe sequelas graves; por fim, Bale é o psicopata charmoso, bonito, rico, sexy e que se sente o ser mais belo do mundo, em uma cena épica ele, nu, se olha no espelho e agrade-se com os músculos e a beleza que vê, isso seria normal, senão pelo fato de ele ter uma mulher super sexy também nua em sua frente fazendo sexo com ele. Claro que, durante o filme, somos invadidos pelas dúvidas acerca da realidade dos fatos, se Bateman realiza todos os assassinatos que vemos na tela, no final das contas, acaba sendo uma dúvida eterna, mas um pouco de imaginação nunca fez mal a ninguém, além disso, somos capazes de imaginar como nenhum outro ser, afinal, não somos todos um pouco loucos?


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246. MEGAMENTE, de Tom McGrath


Não há nenhum bom herói que supere um péssimo vilão.
Nota: 9,0


Título Original: Megamind
Direção: Tom McGrath
Elenco: Will Ferrell, Brad Pitt, Tina Fey, Jonah Hill, David Cross, Ben Stiller, Justin Theroux, Jessica Schulte
Produção: Lara Breay, denise Nolan Cascino
Roteiro: Alan J. Schoolcraft e Bret Simons
Ano: 2010
Duração: 95 min.
Gênero: Animação / Comédia / Fantasia

Oito dias após nascer, Megamente, um bebê azul, cabeçudo e estranho viu seu planeta ser engolido por uma espécie de buraco negro enquanto viajava pelo espaço em direção à Terra, um serzinho belo, forte e perfeito do planeta vizinho, realizava o mesmo trajeto. Metro Man acabou parando em uma casa de pessoas ricas, enquanto Megamente foi criado na cadeia. Os anos se passaram, e com o tempo veio uma inimizade inexplicável entre os dois: Metro Man era o super-herói, já Megamente, o super-vilão.


Tom McGrath é o diretor da trilogia “Madagascar” (2005 / 2008 / 2012) e de duas séries de televisão. Seu trabalho aqui é o de fazer com que o roteiro excelente e super criativo de Alan J. Scholcraft e Brent Simons torne-se algo digno de tal história. Em certo ponto do filme Megamente finalmente consegue derrotar seu desafeto, sim, você, caro leito, compreendeu muito bem, contra todos os credos da indústria cinematográfica voltada para a animação, o vilão derrota o herói. Entretanto, Megamente vê todo o sentido de sua vida ir embora junto de Metro Man, para isso ele cria um super-herói, e é aí que o vilão acaba de vez com a cidade onde vive. Demonstrar os anseios das personagens e tentar fazer com que o público se emocione com os sentimentos das mesmas, é um trabalho para atores e atrizes, entretanto, nas animações, ele é destinado aos diretores e roteiristas, os desse filme excedem as expectativas.


Lorne Balfe e Hans Zimmer já trabalharam juntos outras vezes, mas o comum é Zimmer compor e Balfe editar as músicas. Balfe já trabalhou no cinema em alguns filmes como compositor, mas sua carreira compondo é sólida mesmo na televisão. Já Zimmer tornou-se uma lenda viva entre os compositores mais competentes do mercado, ao lado de John Williams e Howard Shore, nenhum pode superar o talento desse trio incrível. No filme temos a típica trilha para filmes de super-heróis, mas com um bocado de sarcasmo e ironia, e disso Zimmer entende.


Apesar de ter um início bem idiota e um pouco fraco, com direito a piadinhas extremamente desnecessárias, o filme acaba se tornando algo fantástico. A medida que o tempo passa Megamente se torna um ser humano como outro qualquer, só que bem mais inteligente, com sentimentos e dúvidas em relações aos seus desejos. As crianças verão sua frustração em conseguir derrotar seu inimigo como algo semelhante a conseguir um brinquedo que queriam muito e depois de tê-lo elas se entediam facilmente; já os adultos poderão interpretar isso como algum parceiro sexual que se deseja muito, depois de ter o que queria, brincar um pouco com ele bem como as crianças fizeram com os brinquedos, a coisa vai ficando chata e a monotonia toma conta do que outrora fora a alegria. Mas no final das contas que o filme realmente mostra é que, na vida, a existência de heróis e vilões, de ganhos e perdas, de conquistas e derrotas são essenciais para que um ser humano digno, ou não, se forme.

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domingo, 15 de julho de 2012

247. O MUNDO DE LELAND, de Matthew Ryan Hoge


Uma reflexão sobre como na vida as vezes se tenta fazer o melhor e acaba-se piorando tudo.
Nota: 7,8


Título Original: The United States of Leland
Direção e Roteiro: Matthew Ryan Hoge
Elenco: Ryan Gosling, Don Cheadle, Chris Klein, Jena Malone, Lena Olin, Kevin Spacey, Michelle Williams, Martin Donavan, Ann Magnuson, Kerry Washington, Sherilyn Fenn, Matt Malloy
Produção: Kevin Spacey, Jonah Smith, Bernie Morris, Palmer West
Ano: 2003
Duração: 108 min.
Gênero: Drama

Leland é um garoto normal que acaba assassinando o jovem Ryan , um retardado mental. Leland não vive com a presença constante do pai, mas tem uma boa mãe; Leland não é um daqueles rapazes pobres do subúrbio, pelo contrário, dinheiro não falta pra suas futilidades; Leland não é um rapaz com pouco estudo, na verdade tem uma educação ótima. O porquê do assassinato, portanto, ninguém sabe, mas caberá ao professor de Leland no presídio, um escritor fracassado, tentar descobrir os problemas do menino e tentar ajudá-lo da melhor forma possível.


Matthew Ryan Hoge possui apenas dois trabalhos em sua carreira: “Self Storage” (1999) e “O Mundo de Leland”, em ambos faz a vez como diretor e roteirista das tramas. Nesse seu segundo trabalho, seu melhor está em escrever o filme, não em dirigi-lo. O roteiro é algo perto de excelente, se não fosse por um ou outro momento de deslize, mas generalizando ele é composto por ótimos diálogos e o fato de Leland narrar em parte a história e lembrar-se de alguns fatos relevantes para o desfecho do drama é um artifício que deixa o filme mais completo, interessante e palpável. O também nada experiente Jeremy Enigk conduz a trilha sonora do filme, esse foi seu único trabalho como compositor, mas trabalhou também nos filmes “Dream With the Fishes” (1997) e no recente “A Fera” (2011).


O que mais interessa aqui é o fato de o filme ser o início da carreira de jovens atores que se destacaram nos últimos dez anos. Nascidos entre 1976 e 1987, são eles, respectivamente: Michael Penã, o preso Guilhermo, que viria a trabalhar em “Crash – No Limite” (2004), “Menina de Ouro” (2004) e “Leões e Cordeiros” (2007); Chris Klein que interpreta Allan Harris é o cunhado do garoto assassinado, o rapaz é bem perturbado por ter perdido a mãe e pela rejeição do pai, o ator é famoso pela série “American Pie”, onde ele interpreta Chris “Oz” Ostreicher e por outras comédias; Michelle Williams, a irmã do indefeso Ryan, foi indicada três vezes ao Oscar pelos filmes “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005), “Namorados para Sempre” (2010), no qual atua ao lado de Gosling novamente e “Sete Dias com Marilyn”, pelos mesmos filmes foi indicada ao Globo de Ouro, ainda possui duas indicações ao BAFTA e quatro ao SAG (Sindicato dos Atores), a atriz dá vida a uma menina feliz que se sente muito perdida e triste com a morte do irmão; Ryan Gosling interpreta o protagonista Leland, o ator nos apresenta um rapaz cheio de dúvidas e receios que não entende muito bem os propósitos da vida, e por isso, sem saber o porquê, acaba matando o rapaz que tem retardamento mental, o ator foi indicado ao Oscar por “Half Nelson – Encurralados” (2006), mas foi de 2007 para cá que ele demonstrou seu talento, foi indicado quatro vezes ao Globo de Ouro e popularizou-se entre público e crítica por “Entre Segredos e Mentiras” (2010), “Drive” (2011) e “Tudo Pelo Poder” (2011), esse dois últimos foram dois dos melhores filmes do ano; Jena Malone é a outra irmã da vítima, uma menina viciada em drogas que vê seu mundo desabar quando o “ex-quase-namorado” mata seu irmão, a atriz participou de títulos como “Cold Mountain” (2003), “O Estranho Mundo de Jack e Rose” (2005), “Orgulho & Preconceito” (2005), “Na Natureza Selvagem” (2007) e “O Solista” (2009); por último temos o jovem assassinado, Ryan é interpretado por Michael Welch, que, recentemente, pode ser visto na “’Saga’ Crepúsculo” (2008 – 2011). Vale citar as ótimas interpretações de Don Cheadle, o professor nada correto frustrado por não conseguir escrever seus livros, mas que vê em Leland um jovem diferente e uma história sobre a qual vale a pena escrever, e Kevin Spacey, o pai de Leland, um homem que não se importa com nada e ninguém além dele próprio.


“O Mundo de Leland” é mais que apenas uma boa história sobre um assassinato cometido por um jovem adolescente, é uma reflexão sobre uma sociedade desinteressada na vida social dos jovens, mas também  reflete sobre o fato de que nem tudo na vida tem uma explicação, e denuncia que o ser humano se atem apenas aos erros das pessoas e esquece tudo de bom que elas já fizeram. O filme não defende a personagem central, não a coloca em um pedestal como se ela realmente tivesse feito algo de bom pelo mundo no momento em que ela matou outro ser humano, afinal, ele acabou com a vida de várias pessoas, mas ele deixa claro como os destinos e histórias de todas as pessoas do mundo estão entrelaçados e como eles irão se encontrar algum dia pelo bem, ou mal, de um, de outro ou de todos.


sábado, 14 de julho de 2012

248. VIPS, de Toniko Melo


A idealização de um típico anti-herói brasileira, que rouba dos ricos e engana o governo.
Nota: 8,0


Título Original: VIPs
Direção: Toniko Melo
Elenco: Wagner Moura, Juliano Cazarré, Emiliano Ruschel, Arieta, Correia, Jorge D’Elia, Norival Rizzo, Roger Gobeth, Gisele Fróes, Amaury Jr. e João Francisco Tottene
Produção: Bel Berlinck, Fernando Meirelles, Paulo Morelli
Roteiro: Thiago Dottori, Bráulio Mantovani e Mariana Caltabiano (biografia)
Ano: 2010
Duração: 95 min.
Gênero: Biografia / Comédia

Marcelo Nascimento da Rocha passou-se por policial de elite, campeão de jiu-jítsu, produtor de televisão, repórter da MTV, guitarrista do grupo Engenheiros do Hawaii, olheiro da seleção e líder do PCC. Em sua vida real foi piloto do narcotráfico, vendeu motos do exército, vagas em uma faculdade de direito e impressoras apreendidas pela polícia. Seu golpe mais famoso foi passar-se pelo filho do dono da Gol Linhas Aéreas, foi assim que foi pego pela polícia e, hoje, está preso pagando por seus crimes. Segundo o próprio Marcelo, o alicerce de seus golpes sempre foi a ganância dos outros, ele ainda afirma que seus crimes nunca foram tão hediondos quanto se fala, afinal, nunca tirou de quem não tinha, apenas de quem tinha muito e merecia uma lição.

Marcelo e Amaury Jr. na famosa entrevista concedida ao apresentador
 em dezembro de 2001, na foto de baixo, a reprodução da cena no filme, com Wagner Moura e o próprio Amaury Jr.
No filme vemos uma breve narrativa do que foi a vida de Marcelo. Rapidamente passamos por sua adolescência meio conturbada pela falta do pai e a ausência da mãe que precisava trabalhar para sustentá-los. Depois sua fuga de casa, o que acabou levando o rapaz, ainda muito jovem, para o Paraguai, onde vira contrabandista. Ele acaba voltando para casa cheio de dinheiro e, rapidamente resolve dar seu maior golpe.


Toniko Melo foi diretor da minissérie “Som e Fúria”, a história de um grupo de teatro que está preparando a peça “Hamlet” de William Shakespeare, o elenco contava com Felipe Camargo, Andrea Beltrão, Pedro Paulo Rangel, Dan Stulbach, Cecília Homem de Mello, Chris Couto, Paulo Betti, Maria Flor, Daniel de Oliveira e Antônio Fragoso. Logo após o sucesso na televisão, a minissérie virou filme, dirigido pelo próprio Melo. Seu trabalho em “VIPs” nos trás uma breve história do protagonista, e talvez seja aí que esteja o problema do filme, a trama é muito breve e nos revela pouco do homem que ficou conhecido como o maior salafrário da história do Brasil, para se ter uma ideia ele teve mais de 15 nomes e nós não vemos nem meia dúzia durante toda a trama. O roteiro fica a cargo de Thiago Dottori, em seu primeiro trabalho para o cinema, e do indicado ao Oscar Bráulio Manovani, responsável por filmes como “Cidade de Deus” (2002), “Ônibus 147” (2002), “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” (2006), “Tropa de Elite” (2007), “Última Parada 147” e “Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro” (2010).


Apesar da superficialidade do roteiro em abordar pouco sobre a vida da personagem, temos Wagner Moura como protaganista, e isso conta alguma coisa a favor para o filme. O baiano iniciou sua carreira em 1999, participou de “Carandiru” (2003), “O Homem do Ano” (2003) e da minissérie “JK” (2006), mas foi o ano de 2007 que consagrou o ator: seu trabalho em “Tropa de Elite” lhe rendeu excelentes críticas, “Ó Paí, Ó” fez uma bela homenagem à sua terra natal, e a novela “Paraíso Tropical”, onde deu vida ao inesquecível vilão Olavo, lhe rendeu fãs no país todo. O Marcelo criado pelo ator é totalmente original, afinal ele não se encontrou com o verdadeiro por questões pessoais, portanto, tudo o que vemos aqui é muito original, Moura não nos proporciona uma atuação baseada na personagem real, ele cria sua personagem do zero e a desenvolve durante a trama, e o faz como somente o Capitão Nascimento poderia. Ainda no elenco temos a ótima Arieta Correia, como a rica pirada Sandra, o bom Juliano Cazarré como o homem que inicia Marcelo no narcotráfico e Roger Gobeth como o ator Renato Jacques, um idiota que acredita em todas as mentiras de Marcelo quando ele se passa pelo herdeiro da Gol. A mãe de Marcelo é interpretada pela ótima Gisele Fróes.


Apesar de discordar das desculpas do verdadeiro Marcelo, que diz ter feito tudo o que fez com as pessoas que fez porque elas mereciam, o filme é uma forte crítica a sociedade consumista que deseja ao menos parecer estar no poder. A personagem principal criada por Moura, e digo a criada pelo ator porque basta lermos entrevistas do verdadeiro Marcelo para mudarmos de opinião, é o típico anti-herói brasileiro que todos querem ver se dar bem, ele é carismático e só planeja seus golpes contra pessoas muito ricas ou contra um governo fajuto. Desde o início do filme, em uma cena ótima em que Moura imita um colega de classe, podemos ter idéia do perfil da personagem. Apesar de não abordar nem a metade de todos os crimes cometidos pelo protagonista, o filme é engraçado e bem sucedido em seu propósito de mostrar que se dá mal quem faz coisas erradas, mas que essas pessoas nunca aprenderão a lição.

O vigarista em foto tirada no
presídio em março de 2011

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sexta-feira, 13 de julho de 2012

249. DRIVE, de Nicolas Winding Refn


A reinvenção do anti-herói no gênero thriller em um dos melhores filmes do ano.
Nota: 9,0


Título Original: Drive
Direção: Nicolas Winding Refn
Elenco: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks, Oscar Isaac, Christina Hendricks, Ron Perlman, Kaden Leos, Jeff Wolfe, James Biberi, Russ Tamblyn
Produção: John Palermo, Marc Platt, Gigi Pritzker, Adam Siegel, Michel Litvak
Roteiro: Hossein Amini e James Sallis (romance)
Ano: 2011
Duração: 100 min.
Gênero: Triller / Drama

Durante o dia um homem divide seu tempo entre ser dublê em filmes com cenas perigosas envolvendo carros e trabalhando como mecânico para um homem bem suspeito, durante a noite, o mesmo homem, é contratado para ser motorista de assaltantes. Sua política é bem simples: durante cinco minutos ele servirá para os assaltantes, um minuto antes, um minuto depois o problema é dos assaltantes, não usa arma e não participa do serviço. Entretanto tudo em sua vida mudará ao envolver-se com a bela Irene, que tem um filho com um presidiário recém solto e atolado até o pescoço com problemas com a máfia.


O dinamarquês Nicolas Winding Refn ficou conhecido pela trilogia “Pusher” (1996 / 2004 / 2005), as tramas giram em torno do traficante Milo e todos que estão envolvidos em seus esquemas milionários, os filmes foram sucessos de público, mas especialmente a crítica os elogiou. Em “Drive” ele vai fundo novamente nas máfias e nos criminosos das grandes cidades, quando o motorista se envolve com Irene e com o marido criminoso da mesma, vemos nitidamente a influência da máfia nas prisões e no cotidiano da população. O diretor adapta o livro incrivelmente, tornando a história apreensiva, mas sem ser chata ou parada, as sequências das fugas organizadas pelo protagonista são emocionantes e aceleram o filme o tempo todo. O fato de a história ir e vir na mente da personagem também diferencia e melhora ainda mais o filme. O roteiro é escrito por Hossein Amini, o mesmo de “Paixão Proibida” (1996), “Asas do Amor” (1997), que lhe rendeu uma indicação os Oscar, “Honra & Coragem – As Quatro Plumas” (2002), “Conspiração Xangai” (2010) e, recentemente, “Branca de Neve e o Caçador” (2012). Cliff Martin é o compositor de uma trilha sonora que não aparece muito no filme, mas é bem-vinda o tempo todo, ele também compôs para bons filmes como “Sexo, Mentiras e Videotape” (1989), “Kafka” (1991), “Traffic: Ninguém Sai Limpo” (2000), “O Poder e a Lei” (2011) e “Contágio” (2011).


O ator televisivo Bryan Cranston vive Shannon, uma espécie de agente do Motorista, que o ajuda em todos os seus trabalhos e é seu chefe na oficina. Albert Brooks, de “Taxi Driver” (1976), é o claramente criminoso Bernie Rose que investe no Motorista como piloto de corridas, mas que se revelará um homem egoísta e egocêntrico. Oscar Isaac, de “Robin Hood” (2010), é o marido de Irene, palavra nenhuma define melhor a personagem que não “ferrado”. Ron Perlman, o protagonista de “Hellboy” (2004), vive Nino, outro criminoso inescrupuloso que só se importa com seus negócios e sua vida. Christina Hendricks, famosa por viver Jaon Harris na série “Mad Men” (2007-2012), faz uma pequena participação como a idiota Blanche. A bela Carey Mulligan, indicada ao Oscar por “Educação” (2009), vive Irene, apesar de aparecer pouco, todas as cenas da atriz mostram uma mulher simples e que tenta lutar para sobreviver ao lado do filho da melhor forma possível. Ryan Gosling iniciou sua carreira na televisão em 1995, quase dez anos depois foi que se popularizou no romance “Diário de uma Paixão” (2004), em 2007 foi indicado ao Oscar por “Half Nelson – Encurralados” (2006), mas foram os anos de 2010 e 2001 que trouxeram à carreira do ator fama e admiração de público e crítica com “Namorados para Sempre” (2010), “Entre Segredos e Mentiras” (2010), “Amor a Toda Prova” (2011) e o fantástico “Tudo Pelo Poder”. Em “Drive” o filme pertence totalmente a Gosling, que leva a trama toda nas costa com maestria ao interpretar um homem fechado, de poucos, ou nenhum, amigos, calado e que impressiona a cada cena em que precisa fazer coisas inimagináveis para sobreviver. O fato de a personagem não possuir um nome e ser chamado por alguns de Motorista, Garoto ou Amigo demonstra o quanto ele é sozinho e não depende de ninguém para seguir sua vida.


As semelhanças entre o filme de Nicolas Winding Refn e o clássico “Taxi Driver” (1976) do mestre Martin Scorsese e protagonizado por Robert De Niro, são várias: o protagonista vive sozinho, mantêm sua vida social extremamente privada, pratica certos atos ilícitos, quando encontra uma mulher faz de tudo para protegê-la, ambos matam sem dó nem piedade quando consideram necessário e os perfis dos dois, de modo geral, são muito parecidos. “Drive” não tem função de refletir ou de nos passar alguma bela mensagem sobre a vida, bem como grandes filmes, como o próprio “Taxi Driver” e tantos outros, o filme é mais uma forma de mostrar um tipo que sempre acaba por ser querido pelo público: o anti-herói que faz tudo da forma mais errada possível, mas que consegue persuadir o público a não julgá-lo, pelo contrário, admirá-lo. Sendo assim, o filme apenas serve para divertir àqueles que gostam do gênero e para mostrar que nessa fraca geração de atores lançada precipitadamente por Hollywood, Ryan Gosling é uma exceção.


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